2 de janeiro de 2007

PROCURA

Fui procurar-te ao café
Onde disseste que estavas
Num fim de tarde chuvosa.

Muita gente pressurosa
Atrasava-me o percurso ...
Eu afinava o discurso
A fazer com tino e fé.

Chovia muito e crescia
Na minh'alma aventurosa
Essa imagem buliçosa
Que jamais desaparecia.

Oh! fim de tarde tão cheia
Da virtude do teu rosto
Onde Deus houvera posto
A fome da minha ceia.

Fui procurar-te ao café
No meio d'um vendaval
E julguei-te minha igual
Na parceria e na fé
(Só sentida por quem é
Apaixonado e fatal)

Era meu deslumbramento
Um sinal de fresca idade
Regada num fim de tarde
Pelas rajadas do vento.

Quando cheguei ao destino
Não vi de ti nem sinal...
Enjoei, senti-me mal
Desmaiei, perdi o tino.

Oh minha dor destilada
Num fim de tarde molhada
Pela forma do teu rosto !
Vinho novo do meu mosto
Capa de cor dum caderno
Desejado como eterno
Em vigílias e procuras
Por febris noites escuras.

Oh saudades peregrinas
Em demanda de meninas
Cujas galas me fugiram
Em cafés provincianos
Que meus olhos nunca viram.

Praza a Deus que nunca pares
Num lugar habitual
E que eu, pobre, te procure
Num dia de vendaval
Por territórios e mares.

Praza a Deus que não te encontre
Num café com chuva a rodos
Num fim de tarde com todos
Os sinais de tempestade.

Preciso de ti assim
Nesse silêncio sem fim
Duma imagem encontrada
Onde não se encontra nada
Num tempo outoniço, mudo,
Quando afinal, meu amor,
Na poesia é que está tudo!

28 de dezembro de 2006

BAKHTINE E A CULTURA POPULAR

Numa das mais espantosas abordagens feitas sobre a Cultura popular das Idades Média e Moderna, que tivemos a sorte de ler em francês, o russo Mikhaïl Bakhtine, autor de A obra de François Rabelais e a cultura popular na Idade Média e sob a Renascença, extrai da expressão grotesca da vida uma penetrante visão do simbolismo social. É bom que se saiba que a designação de um certo tipo de arte como arte grotesca remonta aos fins do século XV. Foi então que as escavações feitas em Roma, nos subterrâneos das Termas de Tito, trouxeram à luz um certo tipo de grafismo inusitado e de representação surpreendente. Os especialistas estabeleceram que acabara de ser descoberto um estilo novo e que este, por ter sido revelado numa gruta ("grotta", em italiano), merecia a menção de estilo grotesco. As imagens subterrâneas das Termas de Tito chamaram a atenção pela sua criatividade e pela sua fantasia. Elas aboliam as fronteiras convencionais entre os reinos mineral, vegetal e animal. De uma pedra podia nascer um tronco humano, cujos membros se convertiam em ramarias de árvores, cobertas de folhas e de frutos. Seres mitológicos irrompiam ao lado de representações radicalmente naturalistas. E da profusão dos mais diversificados motes temáticos, do cruzamento sugestivo de contributos visuais heteróclitos, nascia uma arte dotada de individualidade própria. Se bem interpretamos a clássica obra de Bakhtine, foi através desta que se verificou o mais fundamentado e inteligente juízo acerca da chamada “cultura popular” medieval e renascentista, através da reivindicação da sua dignidade própria, deduzida a partir do seu significado peculiar. A “cultura popular” distingue-se da “cultura elitista”, segundo Bakhtine, justamente pela circunstância de possuir a audácia de derrubar as fronteiras sociais convencionadas pelos detentores dos Poderes hegemónicos. Neste sentido, ela reproduzia, à escala do social, aquilo que o estilo grotesco estabelecia na representação estética: uma revolução instauradora da unidade da Natureza (de uma Natureza “natural” e “social”). Pelo contrário, a “cultura académica”, a “cultura das elites”, era levada a compartimentar-se, a julgar-se outra, a imaginar-se “ilustrada”, a perfilar-se nos antípodas da vida comunitária. Acima de tudo, o que Bakhtine radicalmente desmistifica é a acusação de “vulgaridade” ou de “grosseria” que a estética social das elites imputa à estética social das camadas menos “ilustres”. Os jogos carnavalescos, os excessos alimentares, as paródias levadas a cabo nos períodos mais solenes do Natal e da Páscoa, dentro dos próprios templos, as festas como a do burro ou a dos tolos, a acentuação da dimensão do ventre, a furibunda interpelação ou o jogo de invectivas entre vizinhos, a denúncia da má justiça e da má religião, tudo isto surge, luminoso e refigurado, nas palavras espantosamente lúcidas de Bakhtine. Não sei se a obra já foi traduzida para o português. Caso não o tenha sido, é isto mais um triste sinal da menoridade dos editores portugueses.

25 de dezembro de 2006

SOBRE OS SISTEMAS POLÍTICOS

A fundamentação dos sistemas políticos, ou seja, a apresentação das razões que concorrem em abono de uma qualquer organização de sociedade e, paralelamente, em desabono de todas as demais, tem sido arquitectada a partir do mais matizado leque de considerações. Cruzam-se, em tais apologias, muitos e divergentes discursos justificativos, uns apelando à Ética, outros ao Pragmatismo, outros ainda aos critérios de eficácia produtiva, outros até (embora com menor frequência) a uma pretensa “selecção natural” das colectividades. Em nosso entender, tem-se apelado pouco para a consideração filosófica sobre a verdade ou sobre o modo de ser, essencial e íntimo, da chamada Natureza Humana. Somos nós, seres viventes, bípedes, mamíferos e racionais, portadores de uma ínsita configuração, somática e anímica, que nos permeabiliza à prática do altruísmo? É este o nosso estatuto essencial? Se assim for, tornar-se-ão viáveis os sistemas que apelam para a filantropia, para a solidariedade, para a confraternidade universal, para o sacrifício da imediata vantagem própria a favor da mediata edificação do Bem Comum. Somos nós, pelo contrário, na multiplicidade das nossas respostas e das nossas atitudes, a emanação inexorável de um egoísmo auto-defensivo? Sendo este o caso, justificar-se-ão todos os sistemas que considerem as sociedades organizadas como as arenas de luta da diversidade das reivindicações individualistas. No primeiro caso, o Estado terá de se preocupar com a erradicação da ditadura sociocrática, abrindo respiradouros para o florescimento das criatividades individuais. No segundo caso, o Estado deverá opor-se à abusiva hegemonia dos valores de personalidade sobre os valores do todo social, corrigindo o pendor das “tiranias narcísicas” pela imposição complementar de uma tábua de direitos gerais. Se a teorização política substituísse a lógica da manipulação das paixões pela reflexão sobre a verdade mais funda do fenómeno humano, estamos persuadidos que estaria aberto o caminho para uma mais serena demanda do Futuro.



22 de dezembro de 2006

JUNTO AO PRESÉPIO


O acto de nascer que Deus fizera
Para dar vida à morte dos humanos
Quis esse outro Deus (que o mesmo era)
Recriar como Verdade de mil anos.

No princípio sem fim da Eternidade
Um vagido soou subtil e puro,
Vencendo para sempre a soledade
E os terrores e medos do futuro.

Em Ti, Criança, na Tua mão direita,
No anseio de alcançar a Paz perfeita
Fez Antero repousar seu coração.

Estrela de Belém e dos pastores
Lava da alma humana as suas dores
Renascendo mil vezes desse chão.

21 de dezembro de 2006

BERGSON E O RISO

Foi Aristóteles que afirmou que o riso era especificamente humano. Não é completamente pacífico que assim seja. A realidade do “psiquismo animal” é um domínio tão pouco explorado que tudo o que neste domínio se possa dizer é aleatório. A bibliografia incidente sobre os mecanismos do acto de rir é inesgotável e reivindicada por alguns dos mais famosos pensadores da Humanidade. Bergson, Darwin, Freud, Victor Hugo, Baudelaire e Kierkegaard reflectiram e escreveram sobre o riso. Falemos hoje sobre o filósofo do intuicionismo. Foi Bergson quem interpretou o riso como a reacção decorrente da perturbação das exigência plástica de adaptação à vida. O acto de viver impõe a todos os seres vivos uma pertinência adaptativa de mecanismos de resposta que definem a normalidade dos comportamentos. Assim, cada um de nós ri-se quando percepciona a substituição, nas diversas situações concretas, das respostas adequadas e previsíveis por respostas mecânicas e rígidas. Charlot faz-nos rir, no célebre episódio dos Tempos Modernos, quando abandona a máquina industrial que o obrigou a repetir o gesto eterno de apertar parafusos, mantendo a gesticulação profissional, uniforme e ridícula, depois de a deixar. O ridículo, para Bergson, decorreria precisamente da mecanização das respostas do Eu perante as imposições de plasticidade adaptativa que o Mundo supõe e impõe. A doutrina de Bergson exprime esse incomparável “esprit de finesse” que a sua filosofia tão admiravelmente revela. E comprova-nos, à saciedade, a suspeita que nos assaltou quando começàmos a fazer leituras mais nutridas sobre este admirável tema : a suspeita de ser o riso uma coisa muito séria.

18 de dezembro de 2006

A REPÚBLICA

A tensão entre o público e o privado é transversal a todas as épocas e oferece matéria de cogitação a todas as culturas. É aqui que se situa o núcleo polémico desses conglomerados teóricos de vocação conclusa e conclusiva a que chamamos ideologias. É possível afirmar que, desde sempre, o imperativo republicano, centrado na ideia de Bem Comum, se confronta com a reivindicação individualista do Privilégio. A fundamentação justificativa dos estatutos de excepcionalidade ou de privilégio acompanha historicamente o primado hegemónico dos detentores do mando. Nas sociedades clássicas e patriarcais foram invocadas anterioridades genealógicas para a demonstração da pretensa superioridade dos aristói ; por sua vez, foi no interior do Antigo Regime que a dominância do sagrado fundou a superioridade quer no serviço de Deus, quer no providencial destino dos ungidos e escolhidos pelo Poder Transcendente ; a teoria do contrato social, subjecente à constitucionalização da cidadania contemporânea, transfere para os planos de imanência a questão da hegemonia, fazendo-a assentar num elenco de méritos pessoais. Cumpre notar, porém, que a noção referencial de Bem Colectivo ou de Bem Comum se encontra invariavelmente contida , como instância limitadora e correctiva, em todos estes quadros de legitimação. A genealogia aristocrática, o providencialismo teocrático ou teológico e a meritocracia contemporânea reconhecem por igual a região exterior do que é de todos, daquilo que a todos serve, daquilo por que todos devem viver ou até, em casos extremos, por que todos devem morrer. Existe, portanto, uma ideia de res publica que claramente ultrapassa a realidade histórica e concreta das Repúblicas institucionalizadas. Neste sentido, o republicanismo, mais do que um modo específico de organização social e institucional, é uma exortação perene, uma conclamação permanente, um desafio que se desfralda para lá das balizas de um tempo limitado e particular.

17 de dezembro de 2006

SABES ...






Sabes, eu desejava ter-te
Na contraluz do Tempo insaciável,
Na promessa translúcida
Do que poderia ter sido
Sem me adivinhar.

Sabes, pesa-me agora a letal mortalha
De todas as coisas presentes e fanadas,
O sudário do que perdeu novidade,
Este escapulário das penitências convenientes.

Sabes, o Homem é o burel das oportunidades perdidas
Jazentes nas estilhas de espelhos sem cristal.

Rumamos à velhice cabisbaixos
Deixando por fazer loucas façanhas
Deixando por cumprir Pátrias sonhadas
Deixando por compor roucas baladas
Que um dia em nós vibraram surdamente.

Sabes, todos quisemos partir um dia à descoberta
Do Santo Graal, do Velo de Oiro, do Preste João
E todos acabámos por ficar
Na berma do nosso condoído desencanto.

Sabes, por uma destas tardes sonolentas
Irei fazer-te (de surpresa) uma visita.
Quem me diz que não te possa encontrar
A cuidar das flores do teu canteiro?
Sabes, talvez que o Santo Graal,
O Velo de Ouro e o Preste João
Estejam por aí à nossa espera
No outro lado desse espelho antigo
Mistério e mito desse templo amigo
A demandar uma oração sincera.