14 de fevereiro de 2007

O ÓDIO DE JUNQUEIRO

Guerra Junqueiro compôs em 8 de Abril de 1890 um poema terrível. Intitulava-se O Caçador Simão e era dedicado a Fialho de Almeida. A indignação produzida pelo Ultimato inglês havia afastado Junqueiro do convívio mundano, gastronómico e monarquista dos “Vencidos da Vida”, convertendo-o numa das vozes mais agressivas e impacientes da propaganda republicana. A composição poética apareceu na Província, no Globo e em diversos jornais de Lisboa, como nos Pontos nos ii, de Rafael Bordalo Pinheiro. O caçador Simão era o rei D. Carlos, há pouco entronizado, que nutria pelas actividades cinegéticas um fanatismo incondicional. Simão designava um dos apelidos do jovem monarca. O poema falava assim:


Jaz el-rei entrevado e moribundo
Na fortaleza lôbrega e silente…
Corta a mudez sinistra o mar profundo …
Chora a rainha desgrenhadamente …

Papagaio real, diz-me quem passa?
-- É o príncipe Simão que vai à caça.

Os sinos dobram pelo rei finado …
Morte tremenda, pavoroso horror!...
Sai das almas atónitas um brado,
Um brado imenso d’amargura e dor …

Papagaio real, diz-me, quem passa?
-- É el-rei D. Simão que vai à caça.

Cospe o estrangeiro afrontas assassinas
Sobre o rosto da pátria a agonizar …
Rugem nos corações fúrias leoninas,
Erguem-se as mãos crispadas para o ar!...

Papagaio real, diz-me quem passa?
--É el-rei D. Simão que vai à caça.

A Pátria é morta! A Liberdade é morta!
Noite negra sem astros, sem faróis!
Ri o estrangeiro odioso à nossa porta,
Guarda a Infâmia os sepulcros dos Heróis!

Papagaio real, diz-me, quem passa?
--É el-rei D. Simão que vai à caça.

Tiros ao longe numa luta acesa!
Rola indomitamente a multidão …
Tocam clarins de guerra a Marselheza …
Desaba um trono em súbita explosão!...

Papagaio real, diz-me, quem passa?
--É alguém, é alguém que foi à caça
Do caçador Simão!...

A implacabilidade de Junqueiro faz-se sentir logo na primeira quadra, quando acusa o príncipe herdeiro, D. Carlos, de se manter indiferente perante a agonia do seu pai D. Luís, sofrida em sudário de lancinantes dores na cidadela de Cascais, e alheado ante os choros da sua mãe, a rainha D. Maria Pia. Os restantes versos referem-se ao profundíssimo abalo patriótico suscitado pela afronta britânica. Apocalipse de raivas e de ressentimentos (num tempo em que o sentimento de pertença a um país ia muito além do pragmatismo calculista dos negócios), o Ultimato ficaria lapidarmente caracterizado por João Chagas, quando este o interpretou como o evento que no começo soltou os brados de morte à Inglaterra, para logo depois desprender os vivas à República. Como pode ler-se, a economia da composição poética de Guerra Junqueiro combina uma narrativa diacrónica e prospectiva, desenvolvida nas quadras, com a obsidiante acusação contida nos tercetos. Perante a morte do pai, a aflição da mãe, os vexames infligidos à Pátria, as indignações de uma opinião pública ao rubro, perante tudo isto o Príncipe Real e o actual Monarca D. Carlos de Bragança dava a sua preferência às lebres, aos javalis, às perdizes e às galinholas. É bom que se diga que o poema nos dá a verdade de um sector insofrido e potencialmente revolucionário da burguesia urbana, afecta à República. Guerra Junqueiro construiu aqui um libelo intransigente, que pode ombrear com a melhor poética da propaganda política do seu tempo. Temos para nós que D. Carlos, recém-chegado ao trono e vítima de um circunstancialismo histórico que não era da sua estrita responsabilidade, estaria longe de merecer as acusações de mau filho, de mau rei e de mau patriota com que Junqueiro o crucificou. Formalmente, porém, o poema é muito belo. Retira o melhor do seu impacto da pergunta que nos tercetos é dirigida ao papagaio real e à uniformidade acusatória da resposta: “Papagaio real, diz-me, quem passa? // --É el-rei D. Simão que vai à caça.”. O modo como Junqueiro remata a sua composição é terrível e profeticamente certeiro:

Papagaio real, diz-me, quem passa?
--É alguém, é alguém que foi à caça
Do caçador Simão!...

A cólera de Guerra Junqueiro foi ao ponto de incitar ao regicídio. Estranho ódio este, vindo de alguém que fora deputado de um dos partidos rotativistas monárquicos, o Partido Progressista, e que frequentara as opíparas refeições de palacianos tão notórios como o Conde de Arnoso, secretário de D. Carlos, como o Conde de Sabugosa, muito próximo da rainha D. Amélia ou como o Conde de Ficalho, mordomo-mor do Paço. Profético ódio este, concretizado no regicídio de 1 de Fevereiro de 1908, quando a caçadeira de Buiça e o revólver de Alfredo Costa decidiram dar “caça ao caçador Simão” …
O Mal existe como categoria ontológica? E será possível conclamá-lo, por antecipação, no contexto de um poema funéreo? A fase final da vida de Junqueiro servir-lhe-á para se retratar e para expurgar dos livros Pátria e Finis Patriae as incendiárias diatribes contra D. Carlos. Mas o arrependimento dos vivos não ressuscita os mortos. A responsabilidade joga-se toda no presente.

11 de fevereiro de 2007

BRUNO CARREIRO, BIÓGRAFO DE ANTERO

Acaba de aparecer, sob a chancela da Imprensa Nacional, o livro Antero de Quental. A construção de uma biografia, erigido sobre as cartas escritas por José Bruno Carreiro às individualidades que lhe forneceram elementos para a redacção do seu modelar trabalho biográfico sobre o infeliz poeta açoriano. A responsabilidade da compilação em causa pertence a Ana Maria Almeida Martins, talvez a maior autoridade nacional e internacional na temática anteriana. Foi ela que prefaciou, anotou e transcreveu as cartas escritas por Bruno Carreiro a diversas individualidades, na recolha dos materiais com que edificou a sua magnífica obra, ainda hoje referencial e não superada por qualquer outra de similar intenção. Houve já quem tivesse dito que uma bela vida é um sonho de juventude realizado na idade madura. Ora, um dos sonhos de José Bruno Carreiro foi o de restituir Antero ao próprio Antero, fixando, se possível em termos definitivos, as particularidades, os meandros e os desvãos da sua biografia. Tratava-se, numa palavra, de desfazer lendas, colmatar lacunas, corrigir erros, superar lapsos e restabelecer cronologias de criação. Tratava-se numa palavra, de limpar do sólio da estátua de Antero de Quental os limos e os musgos enganosos que lhe obscureciam o rosto e lhe descompunham a figura. Não tendo o Poeta datado a maior parte das suas cartas, haveria que as ler como um catecismo, palavra a palavra, linha a linha, que as comparar entre si, lhes sondar as alusões e as explícitas referências, lhes descortinar as circunstâncias e motivações. E tudo isto para que, finalmente, o biógrafo viesse à praça pública anunciar a boa nova de um irrefutável calendário anteriano. E havia igualmente que fazer alinhar com todo o rigor as novas cartas encontradas, irmanando-as com as antigas, descortinando-lhes os nexos e estabelecendo também para elas a lógica da seriação. Outro tanto se deveria fazer quanto aos Sonetos e quanto às composições poéticas dos Raios de Extinta Luz, estas últimas maltratadas pelas mãos profanas e pelo rancor cego de Teófilo Braga. A impossível alucinação de Carreiro teria sido, se tal fora humanamente realizável, seguir a trajectória existencial de Antero em cada momento do somatório de momentos da sua atormentada vida, quer no que tangia à sua materialidade corpórea, quer no que se reportava à fertilidade abstracta da sua ideação. O exigente apelo deste sonho revelara-se em Outubro de 1930, servindo-lhe de intróito os artigos publicados desde 1921 no "Correio dos Açores" . Este foi o jornal, por ele fundado, no qual estampou religiosamente, em cada 18 de Abril e 11 de Setembro, dias evocativos do nascimento e da morte de Antero, os artigos preparatórios da sua magna empresa. Falo intencionalmente de religiosidade. E não o digo apenas por Bruno Carreiro ter visto nos amigos e colaboradores que o ajudaram os catecúmenos da crença que o abrasava, encarecendo-lhes os actos “de culto anteriano”, como na carta de 16 de Julho de 1934 a Luís de Magalhães, ou com eles festejando o “sentimento de irmandade que liga quantos enfileiram in ecclesia anterianae” (Carta a João de Barros de 16 de Maio de 1942). Esta afinidade eclesial, esta confraria cultual encontra-se também presente na designação directamente colhida no título do artigo com que Eça de Queiroz colaborou no In Memoriam a Antero. Para mim, é este o texto fundador dos mitos religiosos que doravante passaram a reger os admiradores de Antero (e eu sou um desses admiradores, embora, por natureza e compleição mental, muito refractário a esta sorte de cheiros de incenso…). Todos sabemos que o artigo se intitulava Um Génio que era um Santo e que tal texto atinge momentos de superlativa perfeição e de insuperável excelência estética, como na evocação de um Antero, pontífice na arte poética, a declamar, nos degraus da Sé Nova iluminada pelo luar de uma noite macia de Abril ou Maio, os versos com que dominava uma turba de académicos irreverentes. A santidade de Antero ficou desde então exarada e decretada para a posteridade. Bruno Carreiro foi um dos sacerdotes deste culto, referindo-se por mais do que uma vez, na sua correspondência, ao “Santo Antero” do seu devocionário. Dizem os crentes que a Fé move montanhas. No caso de José Bruno Carreiro, moveu mesmo. Não se tratou de um milagre de cinestesia física, susceptível de fazer o câmbio do cume da Ilha do Pico pelo cimo da Serra da Estrela. Mas tratou-se, isso sim, de um prodígio de obstinação, de uma magia de indómita vontade, de um fenómeno maravilhoso de dádiva total, absorvente, apaixonada, permanente, à obra que iria fazer-se a uma distância de 700 milhas do lugar onde se encontravam as fontes, os préstimos e os prelos que a poderiam propiciar. O culto anteriano iria fanatizar José Bruno Carreiro. E eu, pela primeira vez na vida, direi sem a menor hesitação : - Bendito fanatismo este! Vemos, em S. Miguel e na Terceira, um homem completamente avassalado ao seu Ideal e ao seu Culto, tão possuído e fascinado pela promessa de uma ideia como Santa Teresa de Ávila o foi pela visão do Sagrado.
Não se tratou, como é óbvio, de um trabalho solitário. Bruno Carreiro teve a sorte e o talento de encontrar e de garantir o concurso de valiosíssimos colaboradores e apoiantes. Neste grupo contam-se os nomes de Luís de Magalhães, João de Barros, Vitorino Nemésio e, acima de quaisquer outros, o de Cândido Nazaré. Este último, funcionário da Imprensa da Universidade de Coimbra, serviço cultural que o autoritarismo salazarista haveria de encerrar, partilhava com Bruno Carreiro o fervor por Antero de Quental e era um bibliófilo criterioso. As cartas agora publicadas dão-nos bem a noção da amplitude e da qualidade dos serviços prestados por Cândido Nazaré ao biógrafo de Antero. A história da colaboração entre ambos instala-nos na consoladora certeza de poder ser a Cultura um sulco de partilha solidária e fraterna entre pessoas politicamente distantes, quando não mesmo antinómicas. É certo que ambos haviam nascido em Coimbra. Mas essa comunidade de berço nativo não apagava a contradição das opções ideológicas. José Bruno Carreiro possuía arreigadas convicções monárquicas, reveladas muito explicitamente, no que respeita ao livro organizado por Ana Maria Martins, numa das cartas dirigidas a Luís de Magalhães. Cândido Nazaré pagou ao salazarismo o duro preço da sua coerência republicana e democrática, tendo sido perseguido, julgado, condenado e finalmente privado pelo Poder hegemónico do seu posto de trabalho na função pública. Foi com sincera solidariedade que Bruno Carreiro se prestou a contactar gente do foro em benefício do seu amigo, acalentando a esperança, que viria a revelar-se ilusória, de que ele poderia vir a ser julgado em Angra do Heroísmo. E damo-nos conta da consternação que lhe provocou a notícia da sentença condenatória com que Cândido Nazaré se viu punido e da correspondente perda do seu emprego.
Nas suas linhas fundamentais, a obra apresentava já o cariz de coisa acabada por volta de 1934. Tenhamos bem presente que é um eufemismo falar em coisa acabada para um espírito tão inconformado e ávido como o de José Bruno Carreiro. É de presumir que se ele ainda pertencesse ao mundo dos vivos e se a luz do discernimento lhe não faltasse, estaria porventura a imprimir ou a tentar publicar uma nova edição do seu Antero de Quental com mais uma mão cheia de novidades. O autor do livro não hesitou quanto à seriedade e ao mérito intrínseco do seu labor. Encarou o “cartapácio” – assim gostava de designar a obra - como “um grande armazém de materiais” (Carta a Vitorino Nemésio, de 5 de Dezembro de 1948), sim, mas de materiais certos, seguros, fiáveis, resistentes a todos os contraditórios da heurística e da hermenêutica. No entanto, uma incerteza o apoquentou. Saiu-lhe ao caminho a eterna dúvida que sempre assola todos os autores conscientes: a dúvida inerente ao olhar dos outros. Como iria ser julgado o seu trabalho? Uma coisa era o solilóquio apaziguante, o murmúrio sereno de si para consigo, que lhe dava a garantia da sua rígida exigência de verdade. Outra, muito diferente, era a ventura ou desventura de uma obra lançada, como filha dilecta , aos combates incertos do vasto mundo literário. Os hipotéticos juízos dos demais, essa alteridade sentida como eventualmente hostil, instilou no seu espírito, habitualmente tão positivo e seguro, o veneno entorpecente da dúvida. Por isso o encontramos, em Outubro de 1936, a desabafar assim para o inevitável Cândido Nazaré : “Saiu aquilo por fim. Uma coisa com interesse? Um pastelão monstruoso? Tudo pode ser”. Bruno Carreiro iria desatar o nó górdio desta dúvida. Fê-lo, contudo, com o pragmatismo realista e com a modéstia que, segundo o nosso ponto de vista, sempre avultaram como traços salientes da personalidade deste incansável trabalhador. Aos seus próprios olhos, o trabalho encetado cumpria as exigências que a si mesmo havia imposto, configurando uma “obra completa, séria e sólida”, em conformidade com o programa definido numa sua carta a Luís de Magalhães, datada de 19 de Dezembro de 1930. Porém, se o seu labor colmatava omissões, corrigia imprecisões e conferia exactidão a muitos dos aspectos biográficos da vida de Antero de Quental, ninguém poderia legitimamente encará-lo como uma reconstrução do evoluir espiritual e da aventura mental do seu biografado. José Bruno Carreiro teve a exacta percepção dos limites da sua obra. Quando Forjaz de Sampaio publicou a sua História da Literatura Ilustrada dos Séculos XIX e XX, que ficou incompleta, pediu a José Bruno que redigisse o capítulo referente a Antero. Este anuiu, mas logo esclareceu que só poderia fornecer a bibliografia e uma biografia, por lhe faltar, segundo as suas palavras, “competência para o estudo do pensamento do homem”. Na conversação entre Forjaz de Sampaio e Bruno Carreiro aventara-se a possibilidade da “parte crítica” poder ser entregue a Joaquim de Carvalho ou a António Sérgio. Mas o que viria a ser estampado seria apenas o contributo de José Bruno. Narrando o episódio a Vitorino Nemésio, numa carta de Novembro de 1940, a sua indignação, temperada por um sentimento muito autêntico de modéstia, expressou-se assim : “Qual não foi, porém, o meu assombro, ao ver que o Forjaz de Sampaio considerou completo, apenas com isso, o capítulo “Antero” e que nem uma palavra nele havia sobre a obra ! Não pode haver vergonha maior, numa História da Literatura, num capítulo sobre Antero, em que o que mais interessa e maior importância tem é precisamente a obra. Quem ler aquele capítulo, há-de imaginar que eu tomei o encargo de escrevê-lo e que o julguei completo com as notas biográficas que lá pus! Seria de burro!”.
Terminado o trabalho, cumprido desde sempre com beneditina aplicação, seguiu-se a procura de editor. Seria uma demanda problemática, atendendo ao considerável financiamento requerido pelas dimensões do minucioso trabalho. Decorreu mais de uma dezena de anos para que a obra Antero de Quental. Subsídios para a sua biografia fosse dado ao prelo. Falharam, umas atrás das outras, as hipóteses de publicação sob a tutela, nomeadamente, da Imprensa da Universidade de Coimbra, da Biblioteca da Universidade de Coimbra, da Editora Portucalense, de Barcelos, da Casa Bertrand ou da Editorial Inquérito. Só em 1948 a Sociedade Astória, Ldª o imprimiu, sob a responsabilidade editorial do Instituto Cultural de Ponta Delgada. Santo Antero demorou bastante, como se vê, a propiciar este pequeno milagre gráfico. Também não foram generosos na sua estridência os clangores da imprensa para saudarem o grande milagre de se ter criado tamanho monumento bibliográfico e biográfico num mimoso arquipélago de formação vulcânica e de tessitura sonhadora, embalado pelos cheiros da maresia atlântica e pelas almas pertinazes dos seus habitantes. José Bruno Carreiro, conforme o assinala Ana Maria Martins numa das suas esclarecedoras notas, ficou contente com as loas de uma notícia anónima, “de pouco mais de dez linhas”, surgida no Diário de Notícias, em Dezembro de 1948. As grandes devoções contentam-se com pouco e os servidores da Cultura já há muito se habituaram à subalternidade que lhes reservam os órgãos da imprensa diária. Fica a obra. Isso lhes basta.


7 de fevereiro de 2007

SÓCRATES OBEDECE À MAGISTRATURA

Entendamo-nos: não sou partidário da praga, do palavrão ou da invectiva grosseira em qualquer acto criativo. Mas não faço desta rejeição um dogma (aliás, o único dogma que perfilho é o da relatividade da vida, das coisas e dos saberes). Numa altura em que o Conselho Superior da Magistratura suspende um juiz, acusando-o de empregar “linguagem obscena” num blogue, urge que a Cidadania livre dê um passo em frente e, pelo menos por solidariedade para com este juiz, __ que eu completamente desconheço __ , coloque à disposição do dito Conselho Superior uma transgressão similar. Aguardo desse douto órgão a correspondente nota de culpa e, para lhe poupar o trabalho de investigação, aqui declaro que moro na Ladeira das Alpenduradas, nº 13 A, em Coimbra. Já agora, também acrescento que sou professor universitário; ou seja, também juiz, portanto, no âmbito das matérias que lecciono. Por tudo isto, dedico o poema que se segue ao irrepreensível, grave e puritano Conselho Superior da Magistratura.


Tranquilo,
Sócrates bebeu
A cicuta
Da cidade.
A cidade ?
Grande puta !
E Sócrates ?
Grande idiota
D'alma bamba
D'alma rota
Que decidiu morrer
Sem saudade
E sem luta
Contra a puta
Da cicuta
Da cidade.

5 de fevereiro de 2007

CALDERÓN E O SONHO

O grande dramaturgo espanhol Calderón de la Barca escreveu no século XVII uma obra-prima perturbante: La vida es sueño. Deu assim expressão a uma das grandes aporias do acto de viver. Com efeito, chamamos vida a este comércio de sentidos que mantemos com o exterior: vemos, palpamos, cheiramos, saboreamos, ouvimos e integramos numa Consciência activa a síntese de tudo isto. Dizemos então que vivemos. E se nos atrevessemos a pensar ao contrário? Quem nos garante que a Vida mais autêntica, mais cobiçável, mais viva, não esteja justamente para lá da fronteira do nosso estado vigil? Quem nos assevera que a nossa verdadeira Vida não se inicia no exacto momento em que tombamos no torpor do sono, inaugurando-se a partir daí uma experiência totalmente diferente, com outros estádios experienciais e sem grandes possibilidades de contacto com o domínio do sensível? Quem nos assegura que todas estas fadigas do quotidiano não se limitem a ser puras sombras esmaecidas de um longo “sonho acordado”? Neste caso, Freud teria de rever toda a sua teoria. O sonho, aquele sonho que nos assola quando repousamos nos braços de Morfeu, deixaria de ser a realização de um desejo insatisfeito, expresso em forma simbólica na maior parte dos casos. Freud declara que na raiz do sonho se encontram as frustrações da vida habitual, provocadas por uma censura atenta e punitiva. O sonho realizaria, por vezes de forma alegórica, meramente indiciária, o desejo insatisfeito que a censura ético-social teria reprimido. Mas se Calderón tiver razão, se a vida for mesmo sonho, então os nossos sonhos seriam janelas transitórias para a vida concreta, para a Vida-outra, que fluiria na ausência dos nossos mecanismos habituais de sensibilidade e de memorização. O adormecimento não representaria a entrada no Reino do Nada, sendo antes o prólogo de uma Vida desconhecida que efectivamente viveríamos sem que disso nos fosse dado conhecimento lógico e actual. Se a vida dita real fosse sonho e se fosse verdadeira Vida a nesga que entreabrimos no acto de sonhar, isso significaria, segundo Freud, que estaríamos a realizar neste Mundo, através destes dispositivos sensoriais, os desejos insatisfeitos, bestiais e obscuros, que a Vida Real, vivida quando dormimos, nos não consentia realizar. Ora, sendo tão imperfeita a vida que julgamos ter (tão repleta de traições e de crimes, tão preenchida por crueldades e abjecções), radicaria nessa outra Vida o penhor de uma Humanidade finalmente resgatada, perfeita, verdadeiramente humana. Essa outra Vida ignorada ou apenas pressentida no acto de sonhar defenderia a sua integridade, a sua regulação e a sua normatividade, expelindo para a vida-sonho, para a vida falsamente concreta o lastro do maléfico, do perigoso, do inaceitável, do perverso. E isto permitiria supor que assistia aos Homens a Dignidade, a Superioridade, a Altura Moral, numa palavra, o Valor que manifestamente lhes escasseia no sonho-concreto desta vida mortal. Sim, Calderón, La vida es sueño __ ou, pelo menos, seria bom que o fosse …

1 de fevereiro de 2007

COIMBRA (1)


Como quase todas as cidades portuguesas da província, Coimbra foi até aos princípios do século XX uma urbe pequena e cheia de vagares. Viveu sempre da fama que lhe granjeou a sua vetusta Universidade, que, empoleirada no cimo de uma colina, cumpriu a função de substituir as grutas dos presépios de faz-de-conta, as quais ocupam em regra os cumes de cenários imaginados, para onde confluem pastores, lavadeiras, soldados rasos, abades nédios, labregos de sachola às costas e outras criaturas de opereta. Os estudantes que por ela passaram, nas diferentes e sucessivas gerações, teceram-lhe o mito e celebraram-lhe a maravilha, talvez sem se darem conta de que tal mito se identificava com a pretérita juventude, vivida e perdida, e de que tamanha maravilha era a da saudade de se sentirem belos, fortes e promissores. Assim, à medida que as promessas foram decaindo e que as nostalgias foram apertando, na proporção directa do embranquecimento dos cabelos, Coimbra ganhou foros de sítio invulgar, com magias e sortilégios muito peculiares, acomodados numa nesga de memória tenaz e transfiguradora. A cidade foi outrora cingida por uma cintura de muralha, que o passar do tempo e a modernização urbanística metodicamente aboliram, até quase só dela restar o nome e a reminiscência toponímica das couraças já sem couro. O costume foi decretando que da Porta de Almedina para cima, as zonas adjacentes ao Quebra-Costas, à Sé Velha, a Sub-Ripas e ao Paço Real ficassem reservadas à locação dos professores, dos funcionários e dos estudantes da Universidade. Pelo contrário, o perímetro exterior do velho burgo estaria destinado ao “filhote da terra” ou “futrica”, alheio __ por vocação ou maldição __ ao trabalho universitário, ou de serviço universitário, sob todas as suas formas. Alguns monarcas portugueses que sucederam a D. Dinis, instituidor e dado às trovas, levaram o seu puritanismo protector ao ponto de decretarem, graves e morigeradores, que as mulheres de mau viver não poderiam habitar o território demarcado para os zeladores e frequentadores da Universidade. Ou seja: louçanias, galanices e galanteios, com ou sem a correspondente compensação sensorial, só além do Arco de Almedina. Assim, as Messalinas do Mondego foram concentrar-se, preferencialmente, no Terreiro da Erva e noutros “loca infecta”, oferecendo pascigo competente e profissional ao indigenato “futrica” e ao esquivo alienígena em estado de necessidade, este último em escapada furtiva à tutela territorial de Minerva. Por outro lado, Coimbra beneficiou até 1911 do facto de deter o monopólio da formação universitária. As elites do país passaram obrigatoriamente por ela, no lustro correspondente à duração de um curso superior. A Universidade, como todas as Universidades do mundo, revelou sempre, no particularismo da sua missão institucional, uma feição conservadora muito marcada. É que todas as Universidades do mundo conservam patrimónios ancestrais de saber e só mudam, só se revolucionam, na medida em que as aquisições de saber novo mitigam e corrigem o imobilismo do saber velho, tido como venerando e duradouro. O confronto estabelecer-se-á sempre entre a imponente massa das noções acumuladas e a pequena réstia dos conhecimentos acabados de alcançar. A Universidade de Coimbra sofreu o labéu da presença de Salazar no seu elenco de docentes. Isto tem permitido aos seus detractores qualificá-la como ninho preferencial da reacção absolutista e do imobilismo clerical. Trata-se de um lugar-comum estafado e de insustentável verosimilhança. É que a Universidade de Coimbra também contou com os nomes de Manuel Emídio Garcia, de José Falcão, de Afonso Costa ou de Bernardino Machado na sua docência catedrática. Cidade dual no eterno confronto que a cindiu entre “doutores” e “futricas”, entre a zona baixa e a parte alta, entre os Te Deum da Sé Nova e as vozearias profanas das suas tascas académicas __ a das Camelas, a do Paço do Conde, a do João Ladrão, a da Democrática, etc, etc __ , Coimbra , que deixou de ser a Lusa-Atenas para passar a ser a Lusa-Apenas, Coimbra mantém incólume o seu fundo sedutor e o seu sortilégio de lirismo. É que por aqui viveram e amaram, na plétora das juventudes perdidas, muitos dos que a ela vêm em emocionados reencontros, para poderem voltar a sentir os fluxos de um sangue rubro e quente, volteando em veias renascidas, ao serviço do bater compassado de corações que querem , acima de tudo, permanecer em estado de paixão.

28 de janeiro de 2007

ANTERO E A ESPERANÇA

Regresso ao muro das Clarissas da Esperança, em Ponta Delgada, com a mágoa do suicídio de Antero, que me guiou os passos e me orientou o olhar. Para lá do muro encontra-se, dramático e sangrento, o Senhor Santo Cristo dos Milagres. Aquém do muro, omnipresente na sua ausência, encontra-se o lugar fatídico do “Santo Antero” de Eça de Queirós. O céu está baixo, cinzento, e sopra do levante um vento-zum-zum que agarra as folhas dos começos do Inverno e as leva, em turbilhão, pelo ar. Nunca percorro Ponta Delgada sem que os meus passos me levem, quase sem dar por isso, àquela praça quadrangular, ladeada de casario uniforme e de templos decorados a pedra vulcânica. Desta vez não fui ver o busto de Teófilo Braga, esse velho orgulhoso, esse obstinado titã das letras, depreciador do buril estilístico, com o qual aprendi a dignidade dos intransigentes e a altaneira postura dos que não sabem capitular. Desta vez, mais uma vez, foi o mistério de Antero que me empurrou, como sempre, para aquele banco elementar, que lhe recebeu os despojos de uma infelicidade cruciante, insuportável, punitiva, lancinante. Parece que o atormentado Filósofo, o Magno Poeta das Dores Morais, teria sido interpelado, nesse seu último retorno à ilha, por uma Senhora, que lhe teria perguntado se estava bem, se estava contente, se estava feliz. E dizem os antigos cronistas que Antero teria respondido, de dentro do seu atoleiro de decepções: __ Estou mal, minha Senhora, estou muito mal. A Felicidade, minha Senhora, a Felicidade não é para mim … Vejo-o, depois, a arrumar num bolso a pistola. Imagino-o a vaguear pelas vielas micaelenses, absorto, fitando sem olhar os que com ele se cruzaram, ignorando o piar das gaivotas, o marulhar da maresia, até talvez o tropel das beatas, em carreiras cerradas à procura da devoção do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Chegou, enfim, à quadrada praça do seu ajuste de contas. Um vazio dentro da alma, uns olhos azuis turvados de emoções doentes, um ranger de cordames íntimos , sem vela para cingir. Naquela praça, sempre houve vários bancos geometricamente distribuídos. Um deles, quase encostado ao muro do Convento da Esperança, num dos ângulos da quadratura, parece apostado em interromper, também ele, a uniformidade da superfície da parede. Quem nesse banco queira repousar (ou relembrar …) virará as costas a uma figuração, em forma de âncora, sob a qual se escreveu a palavra ESPERANÇA. Vejo o vulto de Antero deambular pelo quadrado do seu xadrez fatal, acariciando, em gesto mecânico, espasmódico, a arma do seu desespero. Desespero? Quem o garantirá? Dentro do muro, o Senhor Santo Cristo dos Milagres, dramático e sangrento, vive paredes-meias com o “Santo Antero” de Queirós. Mas este ficou do lado de fora. O seu último gesto, antes do disparo, foi, sem margem de dúvida, o de se sentar naquele banco (e não noutro), apenas existente naquela praça quadrangular (e não noutra), onde algum desígnio desconhecido ou menos conhecido, humano ou divino, havia tracejado uma âncora e escrito em baixo a palavra ESPERANÇA. Ventosa estava Ponta Delgada quando aí cheguei; deixei-a ventosa e fria no momento da partida.

22 de janeiro de 2007

SOBRE A PERCEPÇÃO

_ Qual é a cor desta praia?
_ Ora, meu bom amigo, as praias não têm cor. Ou por outra, são como entendemos que devem ser. Vermelhas, amarelas, azuis, se estamos contentes; castanhas e cinzentas quando nos encontramos tristes.
_ Mas as coisas, materialmente consideradas, isoladas de nós, devem ter em si próprias um princípio de distinção, não acha? Repare, por exemplo, naquela rapariga além, tão coleante, tão proporcionada, tão vibrátil no menor dos gestos, tão lasciva em cada atitude. Desperta-lhe apetites, não negue ! Poderia dizer dela: é o Desejo. Deste modo, teria quebrado a referência ao seu instinto macho daquelas pernas bem torneadas, daquela cintura de vime, daqueles seios, opulentos mas não flácidos, daquela boca, sensual sem ser grosseira. Aquela jovem, uma vez substantivada, ficava erguida aos píncaros da simbologia. Passava a ser universal. Que me diz?
_ Digo que se as praias, em si mesmas, não têm cor, também as mulheres, em si mesmas, não têm sexo. Não há símbolos uni­versais. Imagine com que indiferença um gay não poderá fitar toda aquela exuberância. E vá então dizer-lhe que ela é o Desejo. Você já comparou a interpretação es­cultórica dos corpos femininos em Rafael e Henry Moore? Num, a harmonia de linhas, a simetria dos volumes, a compatibili­dade das formas. No outro o excesso das anatomias, os tra­seiros larguíssimos, as coxas como rolos de pinheiros, as mamas, por vezes, desiguais. Onde é que você vê a simbologia universal?
_ Mas então, se não há cânones, se não há regras, se não há modelos, onde é que você mete a verdade?
_ Meto-a onde ela sempre esteve. No relativo de quem sente, de quem vê, de quem pensa, de quem é ou vai sendo.
... ... ... ... ... ... ... ... ...

_ Qual é a cor que quero dar a esta praia?
_ Muito bem, assim talvez esteja melhor ...