26 de março de 2007

SALAZAR A FEIJÕES

O protagonista da ditadura mansa que antecedeu o actual regime, António de Oliveira Salazar, acaba de ser votado num concurso televisivo como o maior dos portugueses de todos os tempos. É um assunto que irá ocupar a opinião pública no decurso das semanas mais próximas e que depois, esgotado o tempo útil da venda de papel impresso e do blá-blá dos "mentideros", passará à situação supranumerária dos factos irrelevantes.
Contudo, a vitória de Salazar é sintoma de várias coisas. Ela foi desde logo preparada por uma completa mobilização dos estratos sociais minoritários, saudosos desse antigo regime. Não constitui um mero acaso, em nosso entender, que tenha pouco antes aparecido na Internet um “sítio”, tecnicamente bem feito, economicamente dispendioso e esteticamente pretensioso (com a música de Wagner em fundo), o qual apresentava o ditador de Santa Comba como “o obreiro da Pátria” (caso o leitor pretenda inteirar-se, poderá procurar em http://oliveirasalazar.org). Por outro lado, temos também como pouco inocente a polémica, surgida precisamente no lapso do tempo útil em que decorreu o concurso, sobre um pretenso museu de Salazar, designação que depois foi apressadamente mudada para museu do Estado Novo, a erigir na casa de família do governante do Vimieiro. Mas também não constitui para nós uma simples coincidência o facto do aludido “sítio” na Internet apresentar, logo na sua página de rosto, uma alusão a um tal Museu On-Line Dr. Oliveira Salazar. Há quem pretenda fazer de Salazar uma peça museológica, coisa que o mesmo merece amplamente …
Sendo este grupo de apologetas um núcleo activo, até mesmo combativo (como se observou nos confrontos e manifestações de Santa Comba), supomo-lo, não obstante, pouco numeroso e, pelo menos por enquanto, relativamente inócuo no plano político. É nossa convicção que muitos dos que fizeram de Salazar o maior português de todos os tempos são – e irão continuar a ser – não salazaristas. Preferimos a expressão à de anti-salazaristas, pois esta pressupõe uma vivência concreta e um conhecimento adequado do que foi o período salazarista, apontando, portanto, para uma militância e para uma convicção profunda que só é detida por quem viu, por quem viveu e por quem sentiu as realidades sociológicas, políticas e culturais do Estado Novo. E cremos que esta não foi a realidade cognitiva de uma boa parte dos votantes. A ser verdade isto, tem cabimento a pergunta seguidamente formulada : então, por que razão votaram deste modo?
A revolução de 25 de Abril de 1974 criou expectativas muito ambiciosas em quase todos os grupos sociais. A maioria dos portugueses acreditou piamente que o novo regime democrático iria ser capaz de criar o tal Portugal mais livre, mais justo e mais fraterno que era unanimemente prometido por todos os partidos políticos, da direita à esquerda. À medida que o tempo foi passando, os descrentes rejubilaram, os crentes desiludiram-se e os indiferentes irritaram-se. A emergência de uma nova classe política muito mais devorista do que a do salazarismo, muito menos escrupulosa do que ela e muito mais boçal do que a que tinha sustentado o Estado Novo, levou o cidadão comum a interrogar-se sobre se valeria a pena defender o regime. A resposta está dada, mas implica que se introduza uma pequena correcção. Os portugueses votantes no concurso televisivo sobre o maior dos portugueses declararam que o actual regime não vale a pena, servindo-se de Salazar e do salazarismo como uma espécie de cavalo-marinho com que entenderam zurzir presidentes, ministros, deputados, autarcas, administradores de empresas públicas, dirigentes futebolísticos, deputados e demais tropa fandanga que por aí prolifera. Foi uma forma de dizerem a todos eles: vocês, definitivamente, não prestam; vocês são piores do que Salazar e a sua gente.
Mas haverá que introduzir a tal correcção: quem votou foi o sector social que teve tempo disponível para acompanhar o programa, pachorra para ouvir os depoentes, instrução para lhes descodificar as mensagens e vivacidade para resistir a emissões que se estiravam até depois da meia-noite. Ou seja: quem votou foi a alta, a média e uma parte da pequena burguesia. Não foi o Povo que se levanta às seis da manhã, que moureja durante dez horas de trabalho, que se transporta aos domicílios, em vagões ou autocarros incómodos, a cabecear de sono, que tem de se levantar com o nascer da aurora no dia seguinte para voltar a lutar pela vida e que pouco sabe dessa coisa do tal Salazar e dos seus “rapazes”.
Significa isto que a advertência seja negligenciável? Certamente que não. É que quem votou é a parte que mais activamente contribui para a estruturação da opinião pública. Por isso, menosprezar ou minimizar o veredicto poderá constituir um erro de palmatória. Apesar disto, estamos convencidos que os actuais “beneficiários do sistema político”, que não se identificam com o comum das pessoas, sendo antes a casta dos que refocilam na gamela do privilégio, da conezia do segundo e do terceiro vencimento oficial, da benesse do conselho de administração, da desigualdade da reforma que chega muito mais cedo do que a dos demais concidadãos, do cartão de crédito generosíssimo, do telemóvel sem plataforma de gastos, da viatura de serviço para transportar a “madame” e os “meninos”, da negociata que produz dinheiros sujos, recebidos por debaixo da mesa, e de todos os demais tripúdios da vergonha e da dignidade cívicas, estamos convencidos que toda essa gente permanecerá indiferente ao ocorrido. É que a Europa, esta Europa, tal como se nos apresenta, não está conosco: está com eles. E enquanto for assim, o jogo de Salazar é uma simples distracção televisiva, para consumo interno. Mas é bom que tal gente vá ficando mais atenta. Um dia, o jogo do Salazar pode não ser a feijões …


22 de março de 2007

GUARDADORES DA MEMÓRIA


Nós, os que cultivamos a História, somos todos arqueólogos pelo ditame das nossas servidões profissionais: é que todos ambicionamos alcançar a plenitude daqueles raros momentos mágicos em que o “logos” de uma “arquê” insistentemente perseguida se nos desvela na sua magnífica nudez de corpo e alma. Supomos então que a ciosa intimidade das coisas perecidas, que o escondido desígnio da vida ausente acaba por ceder à nossa pertinácia e à nossa paixão. Para tal, fotografamos velhas ruínas, compulsamos amarelecidos incunábulos, visitamos templos românicos e catedrais góticas, rimos na companhia do Zé Povinho de Bordalo Pinheiro, sondamos a alma atormentada de Antero de Quental, tentamos decifrar as inscrições de lápides musgosas, julgamos acompanhar o desembarque de Garrett e Herculano e dos 7500 soldados do Mindelo, imaginamos escutar as profecias enigmáticas da Pítia do Templo de Delfos e, através de tudo isto, pretendemos vencer as imposições do Esquecimento, esse inseparável companheiro do Tempo. Mas, ao contrário dos pacientes ou consulentes que se encontram fisicamente presentes nos consultórios dos psicólogos e dos psicanalistas, prontos a responder ou a resistir ao inquérito a que se sujeitam, o objecto da nossa curiosidade científica, da nossa febre historial, é virtual, distante, ausente. O desafio da História consiste em descobrir o significado da coisa ausente através da ampliação e correlação dos significados parcelares atribuíveis a coisas presentes. O documento, quer se trate de uma pedra, de um vitral, de um texto, de um instrumento de uso corrente, de uma fotografia, de um monumento arquitectónico, de uma pintura ou de um ícone religioso é o objecto instrumental que nos poderá conduzir à proximidade do objecto real da História, ou seja, à vida já cumprida. Enquanto historiadores, somos os arautos de ressurgimentos ou de revivescências impossíveis. Mas é precisamente o desafio desta radical impossibilidade que constitui o acicate mais poderoso da nossa missão de guardadores da contingente memória.

18 de março de 2007

ONDE ESTAIS ?


"Ó oráculos dos deuses, onde estais?"
SÓFOCLES, Rei Édipo

No sobressalto de um sonho
perturbado
habitado de imagens sonolentas
virtuais
e diáfanas como a luz
da primeira manhã
a Natureza tece
(como Penélope)
uma teia sem fim.
Impassível nos recebe
no seu materno colo
mas não esconjura os medos
alojados nas pregas
da Existência tormentosa.
Somos para ela como se não fossemos
como se o nosso aparecimento traduzisse
um simples equívoco sem qualquer importância
sem sulco de verdade sem sombra de porvir.
Falar portanto em Destinos e Existências
é envolver em deliberadas aparências
o rosto augusto dessa Natura-Madre
que nos condena a morrer
com a mesma indiferença
com que nos fez viver.
Amanhã formigaremos por estradas sem fim
tão sem fim como a incompleta teia de Penélope.
Amanhã julgaremos estimável a ciência
que nos fizer perecer um instante mais tarde.
Amanhã surgirá novo sistema de filosofia
para que os homens permaneçam tão confusos como sempre.
Amanhã se abrirão conclaves de artistas e pintores
perenizando na Arte a hipóstase fugitiva da Beleza.
Mas amanhã vai também ser manhã
para logo depois chegar a tarde
e a noite vir por fim fechar o ciclo.
E seremos todos mais sábios mais contentes
e mais velhos um dia
um mês na cavalgada de dezenas de dias
um ano no desfiar dos meses impacientes
Não não é o Destino trágico
dos homens poetas ou prosaicos
que se nos dá na rotação obsidiante
da Madre Natureza
É ela só ela que aparece para escrever
o seu poema de enigmas sua cifra de ironias
na esfera redonda das maçãs do seu rosto
ou no útero ignoto em que recolhe
o sémen o desígnio e o decreto
dum Deus por descobrir.


14 de março de 2007

AMPUTAÇÃO

Continuemos, então, a ouvir o pulsar das ondas. Outra história, bem diferente da que nos contou Hemingway , no seu “O velho e o mar”, foi a que nos trouxe Herman Melville com “Moby Dick”. Aí, o protagonista, mais do que o Capitão Ahab ou o índio Queequeg, é a Vingança. Uma Vingança inscrita na própria amputação de uma perna, provocada por Moby Dick, a grande baleia branca. Ahab é portanto um amputado. Todos os desejos de exemplares vinganças procedem de uma consciência de amputação. Quando os seres humanos se sentem amputados, seja por um bicho, por um parceiro infiel ou por um regime político, a consequência surge como proverbial: é do conhecimento íntimo das ilegítimas privações, das amputações, portanto, que se alimentam as exigências de vingança. E estas crescem na obscuridade, prezam as longas solitudes, cultivam a insociabilidade. Os marinheiros do “Pequod” acordavam muitas vezes, a meio da noite, ouvindo o bater da perna de pau de Ahab no convés do navio. – Mas que sinistro homem era aquele, perguntavam-se, ele que procurava os envoltórios do nevoeiro e as solidões da alta madrugada para remoer torvas fantasias ou inconfessadas antecipações? E que antecipava Ahab, no seu toc-toc-toc, lento e lento, nesse sincopado passear, que semelhava disparos de projécteis, desferidos para os longes das arcarias nocturnas? Queequeg, o índio tatuado, também acordava, mas esse não perfilhava o amargo compromisso da raiva asilada na concha da cerração. Esse, sacrificava a outras divindades, em orações estranhas, declamadas numa linguagem privativa, desconhecida do resto da tripulação. Ahab antecipava o delírio da sua vingança sobre o Grande Mal, sobre a gigantesca baleia branca, que lhe comera um dia uma das pernas. E até Queequeg, o colosso, pressentia como hostil e funéreo o supurar daquela baba raivosa, concentrada, imperativa, tão imensurável como a cúpula das noites marítimas. Ahab era a própria Vingança. E o grande ajuste de contas teria de fazer-se. Para que a própria morte pudesse, finalmente, descansar. Só então cessaria esse obsidiante toc-toc-toc, soando no vácuo das almas amputadas.

10 de março de 2007

RETRATO DE VELHO (COM PEIXE)

A maior evidência da desesperança humana está, creio, no desejo de imortalidade que assola cada exemplar da espécie. Entre o “ser ou não ser” da perplexidade hamletiana e o cansaço de dever cumprido do pescador descrito por Hemingway, em “O velho e o mar”, – uma obra-prima absoluta – , eu prefiro francamente a simbologia do segundo. O velho pescador tinha o sonho de pescar o maior dos peixes antes de se retirar, discreto, da vida. Não cobiçava a Eternidade, nem a transcendência do Tempo transformado em promessa persistente. Como era pescador, o que ardentemente desejava era ser posto à prova no maior e mais duro dos combates. E este combate não se travaria entre um qualquer Deus e um qualquer Anjo. Inscrevia-se, isso sim, no marulhar das ondas e na profundeza dos abismos líquidos. O desafio era palpável. Começava por se pressentir nas tábuas do barco, na curva dos anzóis, na massa dos engodos. E ia para baixo, para o ventre aquoso das águas salgadas; não para cima, para o azul parado de um céu riscado por farripas de nuvens. Não se tratava de uma alma impulsionada por um qualquer chamamento do Além. O negócio era outro: consistia em filar o maior e mais renitente dos peixes, dar-lhe peleja sem tréguas, vencer-lhe os assomos de fuga, dobrar-lhe os esticões da resistência e, finalmente, atá-lo, como um troféu, entre a popa e a proa da barcaça, trazendo-o para terra. Assim se cumpriria o destino do velho pescador, certificando-se o mais alto grau da sua humanidade. Tudo ficaria então certo e perfeito. Aquele velho não tinha outra Igreja para além do sobrado do seu bote. E entre poder vir a salvar a sua alma ou poder vir a arpoar o seu peixe, a escolha, feita de há muito, propendia para o último destes termos. Sabe-se como a história acabou. O peixe foi pescado no termo de um embate ciclópico, que mobilizou todas as energias do pescador. Extenuado, ele ainda conseguiu fixar a imensidade daquele peixe ao costado do seu barco. Depois vieram outros peixes predadores, tubarões aos cardumes, e comeram-lhe a totalidade da presa. O velho chegou à praia e houve um menino a chorar por ele, supondo-o triste e decepcionado. Foi a esse menino que ele confessou que o que queria agora era dormir. Acho que o menino voltou a chorar, embora Hemingway não o tivesse escrito. E o velho pescador adormeceu profundamente. Tão profundamente que talvez nunca mais tenha acordado - volto eu a dizer... Quero acreditar que tenha fechado os olhos em paz. Afinal, alcançara a imortalidade possível : pescara o seu fantástico peixe, e nem a predação final lhe retirara o agridoce de sentir inviolada e cumprida a missão de toda uma vida.

6 de março de 2007

VARANDA DE SONHOS

Ainda eu usava bibe , a família mudou-se para Trancoso, onde o meu Pai passou a exercer a sua actividade profissional. Passámos a habitar um andar sem direito a especial menção, igual a quase todos, mas que apresentava a particularidade da sua situação. Localizava-se numa rua estreita, em frente da cadeia local e de costas voltadas para o castelo. Uma das celas da cadeia, bem gradeada, era visível da nossa varanda. Por seu turno, o castelo apenas entremostrava duas ou três ameias altas e a sua realidade era mais pressentida do que provada. A cela, embora frequentemente vazia, mostrava de longe em longe um ou outro preso. E estes prisioneiros vinham muitas vezes tomar ar ou fumar junto do gradeamento. Contemplava-os da varanda e ficava sempre muito impressionado com a fisionomia fechada e enigmática desses presos. Por outro lado, o castelo que eu mal via – e que só era aberto para uns raros turistas de fim de semana – representava o lugar dos meus primeiros sonhos românticos. Por lá vagavam hipotéticas meninas lindas e loiras, completamente inventadas, às quais eu atribuía a propriedade de tornarem maravilhosas todas as realidades. Enquanto vivi em Trancoso, esperei sempre que um dia, uma dessas fadas, volitando por sobre as ameias, viesse dar um outro rosto às faces estanhadas dos prisioneiros. Ainda hoje continuo a pensar que até a fisionomia dramática dos punidos pela justiça dos homens poderia ser dulcificada se lhes assistisse a ventura de serem visitados, nas vastas pradarias da sua fantasia, por damas loiras, locatárias de fantásticos castelos sem grades.

27 de fevereiro de 2007

DA VIDA COLADA AO CHÃO

Na porta de entrada do meu santuário
Quando vou rezar
(Quando vou penar)
Ponho um calendário.

Na porta de entrada do meu coração
Pedinte que sou
Pago o que ficou
Sobra-me um tostão.

À porta de entrada procuro por mim
Bato devagar
E uma voz vulgar
Responde-me assim:

"Calendário que foi tempo
Em tempo se quis tornar
Soltou-se a folha perdida
Nada mais pôde contar

Tostão de liga ralé
Não capitaliza juro
Espreitando pelo furo
Verás só o que não é."

Na porta de entrada do meu santuário
Na porta de entrada do meu coração
As folhas do calendário
Os juros do meu tostão
Dão fé da sorte mofina
Dos que cumprem esta sina
Da Vida colada ao chão.