“… Mas se a questão for analisada a partir do ponto de vista de Sirius, as conclusões poderão ser já muito diferentes”. Retorno aos bancos do Colégio, escutando com enlevo o meu Professor de Filosofia do 7º ano (o equivalente, em termos grosseiros, ao 12º ano de agora). Tinha ele, ao que aparentava, os seus cinquenta e poucos anos: estatura mediana, olhos vivos brilhando por detrás dos óculos, malares bastante salientes e um jeito de dar aulas como se estivesse a falar só para si. E, navegando entre Heraclito e Fichte, entre Kant e Anaxágoras, entre a Cila do pragmatismo e a Caribdes do racionalismo trascendental, o estimado Mestre expunha, como as contas de um rosário lógico, todo um sistema de pensar: articulava-o premissa a premissa, como se estivesse a encaixar as peças de um Lego conceptual, retirava depois dele as consequências que lhe eram adequadas, comprovava os sofismas de ilações desajustadas e mal feitas e, finalmente, resumia em fórmulas lapidares a essência mais íntima da teorização. Depois, quando todos já nos sentíamos discípulos de Plotino, vogando, maravilhados, na torrente das demostrações ou quando cada um já considerava dominado o ponto de vista do imperativo categórico, ou o da suspensão do juízo, ou o da dúvida cartesiana, o ladino pensador baralhava todos os dados: “Vamos agora raciocinar, mas a partir do ponto de vista de Sirius”. E muita coisa mudava. Sirius era pior do que o gato pequeno da avó, brincando com os novelos de lã; Sirius desfazia convicções, esfumava aquisições consideradas definitivas, conduzia o barco do pensamento para enseadas insuspeitas e surpreendentes. Brilhavam então mais vivamente os olhos vivos do Mestre, divertido a observar a nossa momentânea desorientação. Saudades? Sim, tenho-as. Mas saudades gratas, pois aconteceu ter ficado, para sempre, discípulo desse Homem singular. E, já agora, também de Sirius. Bebi em ambos o licor saboroso e humaníssimo do relativismo. 11 de abril de 2007
O PONTO DE VISTA DE SIRIUS
“… Mas se a questão for analisada a partir do ponto de vista de Sirius, as conclusões poderão ser já muito diferentes”. Retorno aos bancos do Colégio, escutando com enlevo o meu Professor de Filosofia do 7º ano (o equivalente, em termos grosseiros, ao 12º ano de agora). Tinha ele, ao que aparentava, os seus cinquenta e poucos anos: estatura mediana, olhos vivos brilhando por detrás dos óculos, malares bastante salientes e um jeito de dar aulas como se estivesse a falar só para si. E, navegando entre Heraclito e Fichte, entre Kant e Anaxágoras, entre a Cila do pragmatismo e a Caribdes do racionalismo trascendental, o estimado Mestre expunha, como as contas de um rosário lógico, todo um sistema de pensar: articulava-o premissa a premissa, como se estivesse a encaixar as peças de um Lego conceptual, retirava depois dele as consequências que lhe eram adequadas, comprovava os sofismas de ilações desajustadas e mal feitas e, finalmente, resumia em fórmulas lapidares a essência mais íntima da teorização. Depois, quando todos já nos sentíamos discípulos de Plotino, vogando, maravilhados, na torrente das demostrações ou quando cada um já considerava dominado o ponto de vista do imperativo categórico, ou o da suspensão do juízo, ou o da dúvida cartesiana, o ladino pensador baralhava todos os dados: “Vamos agora raciocinar, mas a partir do ponto de vista de Sirius”. E muita coisa mudava. Sirius era pior do que o gato pequeno da avó, brincando com os novelos de lã; Sirius desfazia convicções, esfumava aquisições consideradas definitivas, conduzia o barco do pensamento para enseadas insuspeitas e surpreendentes. Brilhavam então mais vivamente os olhos vivos do Mestre, divertido a observar a nossa momentânea desorientação. Saudades? Sim, tenho-as. Mas saudades gratas, pois aconteceu ter ficado, para sempre, discípulo desse Homem singular. E, já agora, também de Sirius. Bebi em ambos o licor saboroso e humaníssimo do relativismo. 8 de abril de 2007
MISERERE NOBIS !

De toda a vez
Que a vida nos dá tréguas
Para pensar com lucidez
Ficamos prisioneiros
Do que não queremos dizer.
A vida fez-nos assim
Vulgares e previsíveis
Como um relógio de ponto.
Enumeramos cá dentro
O rol inconfessável
Das banalidades retraídas.
Vivem desse embaraço
Os divãs dos psicanalistas
E os passeios dominicais
De uns poucos casais
Conformados
À repetição de itinerários
Consabidos.
Quantas vezes fazemos nosso
O academismo de Millet
Sem perguntar:
Porquê?
Quando pedimos tréguas p'ra pensar
A vida que vivemos
Zumbe-nos aos ouvidos
O negro e gordo besouro
Do tédio.
É um pobre tédio
Silencioso e nédio...
O exame de condução
É sempre mais importante
Que o exame de nós próprios.
E as impreteríveis luzes da cidade
Iluminam das vinte e uma
Às sete:
Que consolação!
Hipermercados existem
Que nos abastecem
As prateleiras do ventre
Em pagamentos diferidos.
É só passar o cheque
Deixar a direcção
Com telefone
E pendurar a alma
No átrio das pipocas.
Não há desvão
Que o segurança não inquira
Enquanto confere diligente
As embalagens dos secos
E molhados.
É então que lucidamente
Pedimos tréguas
Ao acto de pensar.
Miserere nobis!
O exame de condução
É sempre mais importante
Que o exame de nós próprios.
E as impreteríveis luzes da cidade
Iluminam das vinte e uma
Às sete:
Que consolação!
Hipermercados existem
Que nos abastecem
As prateleiras do ventre
Em pagamentos diferidos.
É só passar o cheque
Deixar a direcção
Com telefone
E pendurar a alma
No átrio das pipocas.
Não há desvão
Que o segurança não inquira
Enquanto confere diligente
As embalagens dos secos
E molhados.
É então que lucidamente
Pedimos tréguas
Ao acto de pensar.
Miserere nobis!
30 de março de 2007
DO HUMOR


Addison quis um dia caracterizar o Humor, contando uma história. Referiu ele que a Verdade fundou uma família de que nasceu o Bom Senso. Este gerou o Espírito, que, por seu turno, se casou com uma donzela chamada Alegria. O primogénito deste enlace foi o Humor.
Filho do Espírito e da Alegria, o Humor nasceu com o código genético e com os cruzados temperamentos dos progenitores. O Espírito observa, analisa, compara e pondera. A Alegria desliza sobre as coisas e mantém para consigo e para com todos os demais um descomprometimento um pouco estouvado. O pai Espírito não deseja precipitar-se. Por isso, como bom chefe de família, preocupa-se com os gastos da casa e com a segurança do grupo familiar. Dirá ele, como todos os bons chefes de família, que os tempos não vão para brincadeiras; por isso, terá de haver contenção de gastos e tento na administração da vida. A mãe Alegria é um pouco como a cigarra da fábula. Por isso lhe replica: - Ora essa! A vida são dois dias e um deles já está a mais de meio; além do mais, os antigos afirmavam (e bem) que de hora a hora Deus melhora.
O casal deu-se bem, ainda que nem sempre tivesse reinado a concordância. Quanto ao Humor, herdara do pai um fundo de nostalgia melancólica, disfarçado por uma garridice de comportamento que denunciava a costela materna.
Entendemos agora que todos os grandes humoristas tenham de equilibrar-se na corda tensa da análise racional e da bonomia risonha. Eles não nos fazem rir a bandeiras despregadas. Fazem-nos apenas (apenas?) sorrir. Lembram-se de Buster Keaton? De Charlot? Mesmo até do Bucha e do Estica? Não verificamos, se estivermos atentos, que sobre eles paira uma nuvem de incongruência quase trágica? Keaton faz rir sem que ele próprio esboce um rasgado sorriso. Charlie Chaplin, na melhor fase dos primórdios, secava as lágrimas à jovem paralítica que queria ser dançarina, ou então iludia a sua fome e a de um garoto adorável. Laurel e Hardy foram os desprevenidos e inocentes trapalhões dum mundo que dificilmente os suportou e acolheu. Sim, é isso: o humorista é um comentador de uma plateia que sorrirá com os seus jocundos comentários, mal se apercebendo do discreto fio da sua filosofia sem ilusões. É que, na cumplicidade destes sorrisos, ficarão suspensas, ao menos por instantes, as duras fatalidades da condição humana.
Filho do Espírito e da Alegria, o Humor nasceu com o código genético e com os cruzados temperamentos dos progenitores. O Espírito observa, analisa, compara e pondera. A Alegria desliza sobre as coisas e mantém para consigo e para com todos os demais um descomprometimento um pouco estouvado. O pai Espírito não deseja precipitar-se. Por isso, como bom chefe de família, preocupa-se com os gastos da casa e com a segurança do grupo familiar. Dirá ele, como todos os bons chefes de família, que os tempos não vão para brincadeiras; por isso, terá de haver contenção de gastos e tento na administração da vida. A mãe Alegria é um pouco como a cigarra da fábula. Por isso lhe replica: - Ora essa! A vida são dois dias e um deles já está a mais de meio; além do mais, os antigos afirmavam (e bem) que de hora a hora Deus melhora.
O casal deu-se bem, ainda que nem sempre tivesse reinado a concordância. Quanto ao Humor, herdara do pai um fundo de nostalgia melancólica, disfarçado por uma garridice de comportamento que denunciava a costela materna.
Entendemos agora que todos os grandes humoristas tenham de equilibrar-se na corda tensa da análise racional e da bonomia risonha. Eles não nos fazem rir a bandeiras despregadas. Fazem-nos apenas (apenas?) sorrir. Lembram-se de Buster Keaton? De Charlot? Mesmo até do Bucha e do Estica? Não verificamos, se estivermos atentos, que sobre eles paira uma nuvem de incongruência quase trágica? Keaton faz rir sem que ele próprio esboce um rasgado sorriso. Charlie Chaplin, na melhor fase dos primórdios, secava as lágrimas à jovem paralítica que queria ser dançarina, ou então iludia a sua fome e a de um garoto adorável. Laurel e Hardy foram os desprevenidos e inocentes trapalhões dum mundo que dificilmente os suportou e acolheu. Sim, é isso: o humorista é um comentador de uma plateia que sorrirá com os seus jocundos comentários, mal se apercebendo do discreto fio da sua filosofia sem ilusões. É que, na cumplicidade destes sorrisos, ficarão suspensas, ao menos por instantes, as duras fatalidades da condição humana.
26 de março de 2007
SALAZAR A FEIJÕES
O protagonista da ditadura mansa que antecedeu o actual regime, António de Oliveira Salazar, acaba de ser votado num concurso televisivo como o maior dos portugueses de todos os tempos. É um assunto que irá ocupar a opinião pública no decurso das semanas mais próximas e que depois, esgotado o tempo útil da venda de papel impresso e do blá-blá dos "mentideros", passará à situação supranumerária dos factos irrelevantes.Contudo, a vitória de Salazar é sintoma de várias coisas. Ela foi desde logo preparada por uma completa mobilização dos estratos sociais minoritários, saudosos desse antigo regime. Não constitui um mero acaso, em nosso entender, que tenha pouco antes aparecido na Internet um “sítio”, tecnicamente bem feito, economicamente dispendioso e esteticamente pretensioso (com a música de Wagner em fundo), o qual apresentava o ditador de Santa Comba como “o obreiro da Pátria” (caso o leitor pretenda inteirar-se, poderá procurar em http://oliveirasalazar.org). Por outro lado, temos também como pouco inocente a polémica, surgida precisamente no lapso do tempo útil em que decorreu o concurso, sobre um pretenso museu de Salazar, designação que depois foi apressadamente mudada para museu do Estado Novo, a erigir na casa de família do governante do Vimieiro. Mas também não constitui para nós uma simples coincidência o facto do aludido “sítio” na Internet apresentar, logo na sua página de rosto, uma alusão a um tal Museu On-Line Dr. Oliveira Salazar. Há quem pretenda fazer de Salazar uma peça museológica, coisa que o mesmo merece amplamente …
Sendo este grupo de apologetas um núcleo activo, até mesmo combativo (como se observou nos confrontos e manifestações de Santa Comba), supomo-lo, não obstante, pouco numeroso e, pelo menos por enquanto, relativamente inócuo no plano político. É nossa convicção que muitos dos que fizeram de Salazar o maior português de todos os tempos são – e irão continuar a ser – não salazaristas. Preferimos a expressão à de anti-salazaristas, pois esta pressupõe uma vivência concreta e um conhecimento adequado do que foi o período salazarista, apontando, portanto, para uma militância e para uma convicção profunda que só é detida por quem viu, por quem viveu e por quem sentiu as realidades sociológicas, políticas e culturais do Estado Novo. E cremos que esta não foi a realidade cognitiva de uma boa parte dos votantes. A ser verdade isto, tem cabimento a pergunta seguidamente formulada : então, por que razão votaram deste modo?
A revolução de 25 de Abril de 1974 criou expectativas muito ambiciosas em quase todos os grupos sociais. A maioria dos portugueses acreditou piamente que o novo regime democrático iria ser capaz de criar o tal Portugal mais livre, mais justo e mais fraterno que era unanimemente prometido por todos os partidos políticos, da direita à esquerda. À medida que o tempo foi passando, os descrentes rejubilaram, os crentes desiludiram-se e os indiferentes irritaram-se. A emergência de uma nova classe política muito mais devorista do que a do salazarismo, muito menos escrupulosa do que ela e muito mais boçal do que a que tinha sustentado o Estado Novo, levou o cidadão comum a interrogar-se sobre se valeria a pena defender o regime. A resposta está dada, mas implica que se introduza uma pequena correcção. Os portugueses votantes no concurso televisivo sobre o maior dos portugueses declararam que o actual regime não vale a pena, servindo-se de Salazar e do salazarismo como uma espécie de cavalo-marinho com que entenderam zurzir presidentes, ministros, deputados, autarcas, administradores de empresas públicas, dirigentes futebolísticos, deputados e demais tropa fandanga que por aí prolifera. Foi uma forma de dizerem a todos eles: vocês, definitivamente, não prestam; vocês são piores do que Salazar e a sua gente.
Mas haverá que introduzir a tal correcção: quem votou foi o sector social que teve tempo disponível para acompanhar o programa, pachorra para ouvir os depoentes, instrução para lhes descodificar as mensagens e vivacidade para resistir a emissões que se estiravam até depois da meia-noite. Ou seja: quem votou foi a alta, a média e uma parte da pequena burguesia. Não foi o Povo que se levanta às seis da manhã, que moureja durante dez horas de trabalho, que se transporta aos domicílios, em vagões ou autocarros incómodos, a cabecear de sono, que tem de se levantar com o nascer da aurora no dia seguinte para voltar a lutar pela vida e que pouco sabe dessa coisa do tal Salazar e dos seus “rapazes”.
Significa isto que a advertência seja negligenciável? Certamente que não. É que quem votou é a parte que mais activamente contribui para a estruturação da opinião pública. Por isso, menosprezar ou minimizar o veredicto poderá constituir um erro de palmatória. Apesar disto, estamos convencidos que os actuais “beneficiários do sistema político”, que não se identificam com o comum das pessoas, sendo antes a casta dos que refocilam na gamela do privilégio, da conezia do segundo e do terceiro vencimento oficial, da benesse do conselho de administração, da desigualdade da reforma que chega muito mais cedo do que a dos demais concidadãos, do cartão de crédito generosíssimo, do telemóvel sem plataforma de gastos, da viatura de serviço para transportar a “madame” e os “meninos”, da negociata que produz dinheiros sujos, recebidos por debaixo da mesa, e de todos os demais tripúdios da vergonha e da dignidade cívicas, estamos convencidos que toda essa gente permanecerá indiferente ao ocorrido. É que a Europa, esta Europa, tal como se nos apresenta, não está conosco: está com eles. E enquanto for assim, o jogo de Salazar é uma simples distracção televisiva, para consumo interno. Mas é bom que tal gente vá ficando mais atenta. Um dia, o jogo do Salazar pode não ser a feijões …
22 de março de 2007
GUARDADORES DA MEMÓRIA

Nós, os que cultivamos a História, somos todos arqueólogos pelo ditame das nossas servidões profissionais: é que todos ambicionamos alcançar a plenitude daqueles raros momentos mágicos em que o “logos” de uma “arquê” insistentemente perseguida se nos desvela na sua magnífica nudez de corpo e alma. Supomos então que a ciosa intimidade das coisas perecidas, que o escondido desígnio da vida ausente acaba por ceder à nossa pertinácia e à nossa paixão. Para tal, fotografamos velhas ruínas, compulsamos amarelecidos incunábulos, visitamos templos românicos e catedrais góticas, rimos na companhia do Zé Povinho de Bordalo Pinheiro, sondamos a alma atormentada de Antero de Quental, tentamos decifrar as inscrições de lápides musgosas, julgamos acompanhar o desembarque de Garrett e Herculano e dos 7500 soldados do Mindelo, imaginamos escutar as profecias enigmáticas da Pítia do Templo de Delfos e, através de tudo isto, pretendemos vencer as imposições do Esquecimento, esse inseparável companheiro do Tempo. Mas, ao contrário dos pacientes ou consulentes que se encontram fisicamente presentes nos consultórios dos psicólogos e dos psicanalistas, prontos a responder ou a resistir ao inquérito a que se sujeitam, o objecto da nossa curiosidade científica, da nossa febre historial, é virtual, distante, ausente. O desafio da História consiste em descobrir o significado da coisa ausente através da ampliação e correlação dos significados parcelares atribuíveis a coisas presentes. O documento, quer se trate de uma pedra, de um vitral, de um texto, de um instrumento de uso corrente, de uma fotografia, de um monumento arquitectónico, de uma pintura ou de um ícone religioso é o objecto instrumental que nos poderá conduzir à proximidade do objecto real da História, ou seja, à vida já cumprida. Enquanto historiadores, somos os arautos de ressurgimentos ou de revivescências impossíveis. Mas é precisamente o desafio desta radical impossibilidade que constitui o acicate mais poderoso da nossa missão de guardadores da contingente memória.18 de março de 2007
ONDE ESTAIS ?

"Ó oráculos dos deuses, onde estais?"
SÓFOCLES, Rei Édipo
No sobressalto de um sonho
perturbado
habitado de imagens sonolentas
virtuais
e diáfanas como a luz
da primeira manhã
a Natureza tece
(como Penélope)
uma teia sem fim.
Impassível nos recebe
no seu materno colo
mas não esconjura os medos
alojados nas pregas
da Existência tormentosa.
Somos para ela como se não fossemos
como se o nosso aparecimento traduzisse
um simples equívoco sem qualquer importância
sem sulco de verdade sem sombra de porvir.
Falar portanto em Destinos e Existências
é envolver em deliberadas aparências
o rosto augusto dessa Natura-Madre
que nos condena a morrer
com a mesma indiferença
com que nos fez viver.
Amanhã formigaremos por estradas sem fim
tão sem fim como a incompleta teia de Penélope.
Amanhã julgaremos estimável a ciência
que nos fizer perecer um instante mais tarde.
Amanhã surgirá novo sistema de filosofia
para que os homens permaneçam tão confusos como sempre.
Amanhã se abrirão conclaves de artistas e pintores
perenizando na Arte a hipóstase fugitiva da Beleza.
Mas amanhã vai também ser manhã
para logo depois chegar a tarde
e a noite vir por fim fechar o ciclo.
E seremos todos mais sábios mais contentes
e mais velhos um dia
um mês na cavalgada de dezenas de dias
um ano no desfiar dos meses impacientes
Não não é o Destino trágico
dos homens poetas ou prosaicos
que se nos dá na rotação obsidiante
da Madre Natureza
É ela só ela que aparece para escrever
o seu poema de enigmas sua cifra de ironias
na esfera redonda das maçãs do seu rosto
ou no útero ignoto em que recolhe
o sémen o desígnio e o decreto
dum Deus por descobrir.
14 de março de 2007
AMPUTAÇÃO
Continuemos, então, a ouvir o pulsar das ondas. Outra história, bem diferente da que nos contou Hemingway , no seu “O velho e o mar”, foi a que nos trouxe Herman Melville com “Moby Dick”. Aí, o protagonista, mais do que o Capitão Ahab ou o índio Queequeg, é a Vingança. Uma Vingança inscrita na própria amputação de uma perna, provocada por Moby Dick, a grande baleia branca. Ahab é portanto um amputado. Todos os desejos de exemplares vinganças procedem de uma consciência de amputação. Quando os seres humanos se sentem amputados, seja por um bicho, por um parceiro infiel ou por um regime político, a consequência surge como proverbial: é do conhecimento íntimo das ilegítimas privações, das amputações, portanto, que se alimentam as exigências de vingança. E estas crescem na obscuridade, prezam as longas solitudes, cultivam a insociabilidade. Os marinheiros do “Pequod” acordavam muitas vezes, a meio da noite, ouvindo o bater da perna de pau de Ahab no convés do navio. – Mas que sinistro homem era aquele, perguntavam-se, ele que procurava os envoltórios do nevoeiro e as solidões da alta madrugada para remoer torvas fantasias ou inconfessadas antecipações? E que antecipava Ahab, no seu toc-toc-toc, lento e lento, nesse sincopado passear, que semelhava disparos de projécteis, desferidos para os longes das arcarias nocturnas? Queequeg, o índio tatuado, também acordava, mas esse não perfilhava o amargo compromisso da raiva asilada na concha da cerração. Esse, sacrificava a outras divindades, em orações estranhas, declamadas numa linguagem privativa, desconhecida do resto da tripulação. Ahab antecipava o delírio da sua vingança sobre o Grande Mal, sobre a gigantesca baleia branca, que lhe comera um dia uma das pernas. E até Queequeg, o colosso, pressentia como hostil e funéreo o supurar daquela baba raivosa, concentrada, imperativa, tão imensurável como a cúpula das noites marítimas. Ahab era a própria Vingança. E o grande ajuste de contas teria de fazer-se. Para que a própria morte pudesse, finalmente, descansar. Só então cessaria esse obsidiante toc-toc-toc, soando no vácuo das almas amputadas.
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