15 de maio de 2007

TOADA GARRETTIANA


No cesto da gávea
O homem do mar
Espia a fronteira
Do seu labutar.

Um cesto suspenso
Num barco vazio
Possui como senso
O seu desafio.

Bate a onda o casco
Igual por igual
Indiferente ao drama
Do Bem ou do Mal.

Olhos de gageiro
Não podem cerrar
Sem verem primeiro
O fim do seu mar.

E fitam, procuram
A norte e a sul,
Guardando do céu
Esse imenso azul.

É o Mal vermelho?
É o Bem azul?
O Bem vai p'ró norte?
Vai o Mal p'ró sul?

Gageiro suspenso
Num cesto de mar
Espia a fronteira
Do seu labutar.

Num cesto suspenso
No meio do mar
Sem orla de praia...
Há que mourejar!


9 de maio de 2007

ALEGORIA DO TEMPO

Em figuração alegórica, gosto de comparar a vida humana a uma escalada a partir do sopé de uma pedregosa mas bela colina. A primeira fase é aquela em que as coisas estão demasiadamente próximas de nós e em que o esforço da subida mal se sente. A vizinhança das coisas que nos rodeiam trivializa-as a um tal ponto que mal reparamos nelas. Estão ali – e é tudo. Esta percepção imediata impede-nos de as relacionar, de lhes procurar conexões e alianças, de as sopesar e até de as valorizar convenientemente. A Mãe está ali ao pé, pronta a proteger-nos e a amparar-nos nas quedas. O Pai repete todos os dias o gesto de abrir a porta, quando parte para o trabalho, e o som de entrar em casa com a pergunta “há gente?”, quando regressa. Os Amigos convocam-se e aparecem invariavelmente, para festejar um aniversário, para ouvir aquela música de sensação, para discutir aquele projecto que surgiu em comum. Estão todos lá, com a naturalidade das paisagens fixas, das realidades alinhadas numa base sólida, tida por inamovível. E no entanto, de longe em longe, a estabilidade desse pequeno mundo recebe o golpe de um pequeno terramoto. A Mãe adoeceu; o Pai partiu por longo tempo; o Amigo – disseram-nos – vai ser operado a uma maleita qualquer. Mas persuadimo-nos de que a doença será breve e curável, a partida durará apenas o tempo de saudades transitórias e a operação correrá muito bem, pois o cirurgião é de renome. De súbito, damo-nos conta que o tempo foi passando e que já nos encontramos a meio da subida. E quando voltamos a olhar, com maior atenção e mais sagaz inteligência, verificamos que no rosto da Mãe se cavaram rugas que outrora lá não estavam; que os movimentos do Pai são mais pausados, mais tacteados, mais cautos, menos ágeis; e que o Amigo já não aparece necessariamente naquela hora de urgência ou de doméstica festividade. Aliás, nós próprios iremos avocar, no galgar íngreme da colina, a posição e o estatuto dessas figuras emblemáticas. “Filho és, pai serás… ” – e com esta cegarrega da sabedoria popular, a progressão da subida, feita com alvoroço nos primeiros arrancos, converte-se num exercício brevemente reflexivo. Debatemo-nos com a falta de tempo enquanto o tempo por nós vai passando, implacavelmente: as urgências que nos conclamam a meio do percurso são demasiadamente impositivas – urgências com a escola das crianças, com o seguro do automóvel, com as compras do mês, com o cumprimento dos deveres profissionais, com o fazer da barba, com a ida ao cabeleireiro, em suma, com as mil coisas que nos assolam o quotidiano. Será apenas no momento em que os Pais já partiram, numa partida sem retorno, em que os Filhos já nos deixaram a casa, para só nos visitarem como Amigos mais próximos, em que os Amigos nos falham à chamada, será nesse momento que concluímos ser já considerável, deveras considerável, a caminhada cumprida, a partir do sopé da vida. Olhamos então à nossa volta e vemos que as coisas de outrora, tão próximas, tão singulares, tão visíveis, se talham, em contorno indeciso, no horizonte da distância. Estonteados, reparamos então em nós mesmos, para descobrirmos no nosso rosto a face rugosa da Mãe que já não está, na vacilação dos nossos passos, o eco (só o eco) alquebrado dos gestos paternos, agora ausentes, no silêncio dos que nos quiseram bem, o sulco discreto de uma saudade só nossa e sem fim. Estamos, finalmente, no topo. Olhamos em todas as direcções e descobrimos, enfim, que a nossa maior sabedoria se acumula naquele cume da vida em que se divisa o tempo de dizer adeus.

4 de maio de 2007

SOBRE A INOCÊNCIA

- As crianças são uma maravilha, não acha?
- Sim, as crianças são uma maravilha quando os adultos o sabem ser também.
- Significa isso que não acredita na inocência?
- Eu não sei se a inocência existe. Acredito, isso sim, na existência da inconsciência. Um bebé enternece-nos porque o vemos abandonado à sua inconsciência. Repare o meu Amigo que alguns estudiosos da natureza humana se negaram a conferir à infância, só porque é infantil, um estatuto angelical. Freud, por exemplo, não deixou de dizer que as crianças são, no seu comportamento sexual, a versão mais acabada da “perversidade polimorfa”. Por outro lado, registam-se frequentemente os mais aberrantes comportamentos infantis para com os animais. Há crianças que gostam de endoidecer cães, atando-lhes chocalhos aos rabos; outras, fazem inflar o corpo de sapos ou de rãs, ao ponto de lhes provocarem o rebentamento; outras ainda, divertem-se com a mutilação de insectos. O que me parece acontecer é que os seres humanos têm uma imensa necessidade de se imaginarem puros, cândidos, impolutos, num qualquer momento das suas vidas. E por não lhes ser possível descortinar, em momentos mais adiantados da respectiva evolução, uma tal e tamanha condição arcangélica, daí que a tenham reportado às fases mais atrasadas do seu desenvolvimento.
- Acha então que as crianças são pérfidas, maldosas, perversas, como queria Freud?
- Não necessariamente. O que acho é que as crianças não têm uma natureza diversa da dos adultos. Nem diversa, nem, necessariamente, melhor. A alegada inocência das crianças resume-se, em meu entender, à latência do seu potencial. E este tanto pode expressar-se numa futura harmonia de valores, num decidido e positivo avanço para a Luz, como numa posterior disfunção de crenças e atitudes, ou seja, num retrocesso sem remédio para as Trevas da crueldade, do egoísmo e da frigidez afectiva. Na maior parte dos casos, a criança irá plasmar no mais íntimo dela própria uma simbiose de Luz e Trevas, dependendo, no concreto, a composição da sua futura personalidade da orientação do respectivo processo educativo. Acho indispensável que, mais do que celebrar no abstracto a mirífica inocência das suas crianças, cada sociedade pergunte, momento a momento, o que está a fazer por elas e como as está a educar. Afinal, tudo (quase tudo?) depende disso.

30 de abril de 2007

A MINHA DÚVIDA (COM RÉGIO EM FUNDO)

Para a Filomena Melo Cardoso

Era Jacob lutando com o Anjo,
Era Benilde ou a Virgem Maternal
E um Cristo partido por entre o silvo
Do vento em Portalegre.
Era um hálito de Deus
Vacilando na cerúlea madrugada
Sem que o tivessemos certo e vivo
No Gólgota da Judeia
No sacrário da capela
Ou na arca dorida do peito.
Mas era também só Ele que ficava
No arfar do vento alentejano
No rasto de Jacob
Na face sofrida , tormentosa
Da Virgem-Mãe
Ou até no madeiro carcomido
Desse Cristo quebrado
Desse Rabi maneta e tão patético
Na noite fria, desalentada
De um inverno em Portalegre.
És voz de raiva,
Régio sem reino,
Voz de insubmissa submissão
De pura, decantada raiva
Por saberes tão claramente
Que vais morrer de vez,
Sem remissão
Sem que ninguém de ti
Possa dizer "Ressuscitou,
Não está aqui".
Sim, tu morrerás
Por entre sombras frouxas
Duma cerúlea, vacilante madrugada.
Mas Ele, esse Rabi chagado,
Alanceado
Esse ficará,
Para sempre ficará
Na mudez, na tartamudez enigmática
Do que pode prometer-te
Contra o preço do teu próprio funeral.
Por isso fazes ranger por tal modo
Esses dentes e esses versos torturados,
Régio, solitário Régio
Raivoso, reverente e sem reino :
"Meu Deus, quando serei tu ?"
"Até que o morto ... choveu"
Primeiro, Prometeu ;
Depois, mórbido panteísmo
Em mutação metereológica...
Enquanto o vento anda e ciranda
Em Portalegre cidade,
Deus e o Diabo continuam,
Infatigáveis,
Tecendo a dúvida
(Tonta, aberrante,
Tão contraditória
Como uma qualquer
Divindade maneta
Como um qualquer
Cornudo Belzebu)
Do que poderemos ser
Quando o não-ser vier
Por uma fria, agreste,
Idiota madrugada
Indiferente aos nossos olhos,
Para sempre cerrados.



25 de abril de 2007

O HERÓI EXEMPLAR

Todas as revoluções têm os seus heróis anónimos. São os que mais contribuem para as fazer vingar, mais forcejam para as ver florir, mais batalham para as impor resolutamente a todos os demais. Estes heróis não se limitam a ser crentes – são convictos. Não se contentam em ser seguidores – são mentores. Não se prestam a ser ecos – são, eles próprios, vozes sonoras e altivas. É sabido que a história de todas as revoluções demonstra que são elas as primeiras a devorar os próprios filhos, e, dentre esses, os mais dilectos. A revolução francesa de 1789 eliminou Robespierre; a revolução russa de 1917 veio a assassinar Trotsky; a revolução portuguesa de 1974 exilou e subalternizou os que por ela mais se haviam sacrificado. O grande herói - e contudo um dos mais anónimos - da revolução de Abril de 1974 foi, para nós, Salgueiro Maia. Em Santarém, no Terreiro do Paço, no Quartel do Carmo, em todos os lances arriscados e decisivos desse solene momento revolucionário, Salgueiro Maia foi a calma decisão que não desiste, a consciência ética que não capitula, a Democracia excelsa que não embota ou empalidece. Salgueiro Maia sofreu na carne a dura profecia da ingratidão revolucionária. Nada quis senão o cumprimento do seu compromisso revolucionário. Nada pediu senão que lhe não viessem desvirtuar a pureza das suas primitivas intenções. Mas logo que os políticos se apossaram do mando, trataram de o anular e vexar. Muitos deles gostariam de ter sido Salgueiros Maias. Mas citadinamente, calculadamente, sem arriscarem o corpinho, sem jogarem todo o seu destino individual, sem correrem o risco das balas e das adagas, sem sacrificarem um átomo das conveniências e conivências das suas confortáveis carreiras. Era óptimo, pensaram eles, virem a ser heróis de sofá, beberricando goles de uísque de malte, longe das agruras de Santarém, do Carmo, do Cais das Colunas e das vielas de Lisboa, por onde então escorriam torrentes de Povo, gritando muito e cheirando ao suor do trabalho honrado. Por isso, trataram de insinuar, a torto e a direito, que o Movimento das Forças Armadas era uma treta e que os Oficiais como Salgueiro Maia eram títeres de papelão, ingénuos equivocados, sem o jogo de cintura da hipocrisia e da duplicidade, uma e outra necessárias ao sucesso fátuo da politiquice rendosa. E aí os temos, no cerimonial de um dia (que já desprezam), envergonhados da flor revolucionária, não querendo usar o cravo na lapela, para mais facilmente poderem plantar na alma, em escondida manobra, o fétido rizoma da perfídia. O que eles não podem é silenciar o juízo implacável da História, que hoje lhes grita: - Vede, bando soturno e comatoso, como estais já mortos em vida! Olhai, cretinos, como está vivo e esplendoroso Fernando José Salgueiro Maia, o Grande Capitão do nosso Abril eterno.

20 de abril de 2007

ABRIL

Em Abril, por uma vez,
Um dia se fez verdade
E jorrou de quem o fez
A palavra Liberdade.

Foi num Abril já distante
Que do cravo nasceu vida
Na espingarda florida
De soldado militante.

Foi um Abril muito breve ...
A brisa da madrugada
De tão solta, de tão leve
Ficou à porta de entrada.

Mas na alma cintilou
O fulgor desta saudade.
Foi um cuco que cantou
Justiça, pão e verdade ?


16 de abril de 2007

QUESTÕES DE ESTILO

Creio ter sido Buffon que um dia escreveu esta sentença definitiva: “O estilo é o Homem”. Todas as fórmulas demasiado taxativas comportam uma margem de indeterminação que as faz vacilar e lhes rouba o sentido concludente, demonstrativo e definitivo. Porém, o dito de Buffon parece corresponder a um axioma. “O estilo é o Homem” remete-nos para uma espécie de impressão digital do espírito, que se nos revela no momento preciso em que avaliamos os textos, procurando através deles sondar as notas caracterizadoras do carácter e das particularidades temperamentais do autor. Lemos as peças de Gil Vicente e ficamos com a certeza de que se tratou de uma personalidade bem disposta, profundamente identificada com os usos, costumes e linguagem da “arraia miúda”, pouco atreita a sofrer as injustiças dos poderosos, dotada de sentido de observação e de capacidade crítica, podendo ter sido até um pouco maliciosa. A poesia de Sá de Miranda dá-nos o retrato de um homem sentencioso, preocupado com a proporção da falar e do dizer, movido fundamentalmente por preocupações éticas, e desiludido, em última análise, com o molde frágil, quebradiço e volúvel da natureza humana. Comparamos o estilo de Alexandre Herculano com o de Almeida Garrett e o que vislumbramos de severidade, de oracular mensagem, de grave ponderação no primeiro, volve-se no segundo em mundanidade elegante, em confessionalidade passional, de amores brincados e efémeros, agora assumidos, logo abandonados, como se o acto de viver comportasse uma margem de aposta e de risco sem a qual se evolaria o próprio sal da vida. A veracidade da afirmação de Buffon mantém-se quando passamos da análise dos estilos literários, mais elaborados, mais calculados, para o estilo das verbalizações ocasionais. Entre o ímpeto de um interlocutor de sanguíneos humores e a vigilância discursiva de um fleumático há todo um abismo a interpor-se. Mas quem fala, expõe-se. E quem cala, não raramente se impõe. A gestão criteriosa da linguagem pode mesmo ser aconselhável ao acto do fascínio amoroso. Um amigo chamava-me há pouco tempo a atenção para o enorme poder atractivo de um rival, com grande sucesso junto do sexo feminino, que tratava tanto da aparência física quanto da omissão do discurso. E desabafava, irado: “Mas se ele não fala, como pode ser alvo de paixão?”. Esse meu amigo desconhecia de todo o poder da imaginação no fenómeno da cristalização amorosa, de que fala Stendhal no seu livro “Do Amor”. Ainda aqui, “o estilo é o homem”, mesmo quando esse estilo, no acto comezinho do viver, se exprime através dos mais sábios silêncios.