11 de junho de 2007

POETA ? ISSO NÃO !

Não, não sou poeta.
Serei talvez danação
Ou privação
Poeta, não!
Não, não sou poeta
Antes átomo
Perdido
Assomo transviado
Em convulsão
Poeta, não!
Não, não me queiram poeta.
Um poeta burila
O desespero
Oscila
Entre o real
E o suposto.
Eu quero ser
Só isto:
Um rosto
Visto
Um corpo
Gasto
Uma resignação
Poeta? Isso não!


6 de junho de 2007

COIMBRA (2)

Há cento e cinquenta anos os estudantes que frequentavam a Universidade de Coimbra consideravam-se bafejados pela sorte, pois julgavam habitar um dos mais perfeitos lugares da terra. É certo que esta lenda dourada foi laboriosamente preparada para glória de uma geração: a famosa e sempre recordada “Geração de 70”. Chegaram à cidade do Mondego, em chusma, Antero de Quental, Teófilo Braga, Manuel de Arriaga, João Penha, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Alberto Sampaio, Vieira de Castro e muitos outros breves talentos, que a memória dos homens guardou menos bem.
De Antero, celebraram-se então os olhos muito azuis, sob uma testa curta e logo interrompida por uma cabeleira revolta, crespa e insolitamente acobreada ; e bem assim o porte donairoso, de efebo cismático; e também a índole provocatória, a baforar filosofemas, quando, escarranchado na janela do quarto, interpelava, qual Oráculo novo, algum académico transeunte, pasmado e incréu, falando-lhe em Manu, e no caudal da eterna Substância, e nos poemas dos Vedas, e em mais mil coisas de um saber iniciático, perfumadamente envolto nas leituras de Hegel, Vico, Schlegel e Michelet. De Teófilo ficou famosa a labuta incansável de formiga erudita; e também o pendor para um aforro judaico, só desculpável devido à magreza das choradas libras que o pai lhe enviava de Ponta Delgada ; e a orgulhosa luta por um lugar ao sol na praça dos literatos, conquistado através do rombo de insultos tonitruantes de que foi alvo o velho António Feliciano de Castilho, patriarca de versos em desuso e alcoviteiro de reputações duvidosas. De Manuel de Arriaga foram referidos os arroubos místico-naturalistas, como se nele pudesse ecoar e fazer-se Verbo a visão purificada de um acabado e incorrupto Homem Novo, sem mácula, de uma excelência cristalina e perene. E João Penha? As velhas tascas da Alta e da Baixa de Coimbra guardaram-lhe os versos e a “verve”, no entrançado de uma indiscernível amálgama.
Conhecem a troça de Coimbra, tal como foi praticada por gerações sucessivas de estudantes e futricas? Eu conto. Imaginemos um fio de conversa que flui entre dois tagarelas com a naturalidade das alusões e dos desabafos ocasionais; conversa aparentemente sisuda, bem comportada, quase reverencial; de súbito, uma das partes, sem aviso prévio, inflecte para uma observação brejeira, para um dito de inesperada comicidade, para uma lateralização verbal de desfrute, mantendo, contudo, a mesma compostura de maneiras e o mesmo tom sério de voz. A troça coimbrã é (era?) isto. E não estamos a perder de vista o boémio João Penha, a espadanar versos por cada botequim, a reverberar espírito em cada magote de comparsas, a comprovar talento nas linhas dos sonetos. Muitos dos sonetos de Penha eram a deslocação da troça para o âmago da Arte, ou seja, era a troça coimbrã posta em versos. A composição explanava-se com a ática sonoridade do paradigma clássico, num crescendo de perfeição e de maravilhamento. Subitamente, no remate do último terceto, eis que se misturam as perfeições da amada com os olores boémios … dos paios de Chaves, dos carrascões beócios ou das alheiras de Mirandela!
Com Penha coabitou um rapaz desengonçado e muito lido em autores franceses, ave nocturna escanzelada e discreta, que a vizinhança da Couraça de Lisboa murmurava ter talento dramático, a avaliar pelo desempenho de “pai nobre”, na representação que o Teatro Académico encenara, sobre a peça alusiva ao poeta Garção, escrevinhada por Teófilo Braga. Era um moço que admirava o ascendente de Penha no bordado da palavra poética, na inesgotável demanda de vinhos de estalo e até no adorno aristocrático de um monóculo inquiridor. Esse rapaz, que mais tarde também se haveria de converter à distinção do monóculo, chamava-se José Maria Eça de Queirós. Havia quem o tivesse visto à roda de um prato de arroz doce no Paço do Conde, ou medindo-se com uma terrina de sável e sardinha frita, na Tasca das Camelas. Era apenas mais um, entre cerca de dois milhares de estudantes, e pouca gente daria pelo seu futuro vinte réis de aposta. Bom gastrónomo teria sido também um tal Abílio Guerra Junqueiro. Descera lá do Minho, para subir, em Coimbra, a “colina sagrada” , solenemente coroada pelo Paço das Escolas . Olhos muito vivos, opiniões políticas radicais, já então denunciadoras de alguma férula anticlerical, apreciador de moçoilas escarquejadas, fossem tricanas ou filhas de doutores de capelo, Junqueiro cobiçou o primado artístico de Penha e emulou-se com a sua hegemonia na sociedade académica do tempo. Um dia, acabaram por se encontrar num botequim. Mediram-se e desafiaram-se, não a soco e empurrão, mas a estrofe, a terceto, a quadra. Coimbra era capoeira demasiado pequena para estes dois galos da palavra primorosa. Findo o recontro, escorrendo ambos, por todos os poros, a baba dos motejos implacáveis, deram-se às boas, concluíram pelo empate e apertaram-se as mãos. Coimbra era assim.
Ao grupo de Antero de Quental pertenceram também José Sampaio e Alberto Sampaio. Os Sampaio convenceram Antero da necessidade de se formar uma sociedade secreta, no seio da estudantada, para derrubar a alegada tirania reitoral de Basílio Pinto, que lhes rateava a intenção de modernizar o traje académico e os proibia de esfumaçar no Pátio e nos Gerais. E foi assim que se organizou a “Sociedade do Raio”. Esta, num memorável 8 de Dezembro de 1862, conseguiu evacuar a Sala dos Capelos de quase todos os convidados de uma festividade académica, deixando o miserando reitor Pinto a falar somente para a galeria dos reis lusitanos, pendentes e pindéricos das paredes, em forma de retratos pintados. Já neste tempo a Coimbra académica se dividia em sensibilidades e parcialidades políticas. Se Antero de Quental, e os Sampaio, e Germano Meireles, e tantos mais, eram vanguardistas, sacrificando exortações e prédicas a um amanhã diferente, sofrendo pela escravização da Polónia pela Rússia e contestando a desenfreada exploração da Irlanda pela Inglaterra, alguns outros tomavam voz pela conservação social. O chefe de fila dos estudantes conservadores era Vieira de Castro, um sibarita de impecável presença, de palavra fácil e de ambição ilimitada. Era presença habitual nos lupanares conimbricenses e um dia fez chorar uma infeliz meretriz, dado o excesso e o abuso dos seus gestos e palavras. Antero de Quental não lhe haveria de perdoar a crueldade, publicando na imprensa a peça poética “Ermelinda”, onde Vieira de Castro sofreu tratos de polé. Talvez por isso, o grupo conservador que lhe era afeiçoado passou a tratar os amigos de Antero sob o epíteto de “os do Raio”, obrigando estes a designarem-nos por “os da Sopa” ou “os Sopas”, por se calcular que todos eles iriam acabar por comer as sopas do orçamento governamental, quando, um dia, fossem chamados aos rendosos lugares de deputados ou de ministros.
Às vezes, movo-me por esta amada Coimbra como um fantasma. Vou então ao encontro de outros fantasmas que por aqui andaram, para por eles reter, através das memórias pretéritas, para deles colher, nem que seja por um brevíssimo instante, o fulgor imperecível da Beleza e da Paz.

2 de junho de 2007

ATÉ SEMPRE, JOHN WAYNE !

Era um homem bastante alto, de olhar frontal e passo cadenciado. Era cowboy e ostentava nos filmes nomes vários . Mas todos sabíamos que não havia outro igual a John Wayne. O meu Pai, cinéfilo desde os tempos da juventude, levava-me ao cinema, pela minha meninice, deixando-me ver quase todos os tipos de películas. Mas, entre todas, as preferidas eram aquelas em que aparecia John Wayne. Com ele fui aprendendo que havia causas, lutas sem quartel que tinham de ser travadas e levadas às últimas consequências, sem pestanejar, mesmo que tivéssemos de arriscar a pele em momentos decisivos. Com ele fiz muito meu um infantil e simplista maniqueísmo: o mundo estava dividido entre os bons e os maus, sendo os primeiros, mais do que bons, sem mácula, e os segundos, mais do que maus, sem sombra de pudor ou de clemência. Era impensável que John Wayne pudesse ser derrotado, ou falhasse aquele tiro certeiro, decisivo, com que haveria de tirar para sempre a vida ao pérfido Liberty Valance. Neste mundo, pintado a preto e branco, mesmo quando o filme nos avisava do seu technicolor, havia um elemento complicativo e, durante muito tempo, para mim, difícil de arrumar. Este elemento era o que se referia aos índios. Eu gostava dos índios: das penas que eles entrançavam nos cabelos, da figura imponente de Sitting Bull, do modo exímio como cavalgavam potros selvagens, das nómadas deslocações com que abraçavam as vastas pradarias, das preces a Manitu, força mágica que haveria de trazer a chuva e a felicidade, engravidando de esperança os jovens guerreiros da tribu. A complicação estava em que John Wayne se apresentava vezes demais como perseguidor ou adversário dos índios. Talvez por isso, foi também através dos filmes de John Wayne que eu comecei a suspeitar que talvez o mundo real, tal como de facto existe, não devesse ser pintado apenas com duas cores, o branco da pureza e da gloriosa valentia e o preto da malevolência e da vergonhosa covardia. Há dias, li num jornal que os próprios americanos se estão a esquecer da memória de John Wayne. Fiquei triste. E creio até que os europeus e os americanos da minha idade não deixarão de lastimar esta subalternização daquele que foi um ícone inesquecível da minha geração. É certo que seria impossível visionar um John Wayne actualizado, sentado à mesa de um saloon, digitando um computador ou manejando um telemóvel. A questão está em saber a quem irão recorrer os jovens de hoje para discriminarem entre os heróis e os poltrões; e quais serão os índios por quem as novas gentes , herdeiras deste tempo incerto, se irão apaixonar, para através deles aprenderem que se pode amar o diferente e distribuir pelas margens da sensibilidade as torrentes de um bem-querer periférico. Até sempre, até sempre John Wayne !

23 de maio de 2007

ELOGIO DE MEFISTÓFELES

Será que o “bom selvagem” de Rousseau só era bom por ser selvagem? Será que a Civilização, com as suas promessas de melhor e mais fácil vida para todos, com o incitamento a que ganhemos mais e mais dinheiro, a que sejamos “notáveis”, a que tenhamos importância social, a que deslumbremos os nossos competidores directos, será que esta Civilização nos foi roubando toda a inocência, toda a indulgência, todo o sentido de alteridade, e nos colocou na alma seca o riso sardónico de Mefistófeles? Este Mefistófeles percorreu toda a alta literatura, do século XVI em diante. Ocuparam-se dele espíritos tão cintilantes como os de Marlowe, Shakespeare, Goethe, Thomas Mann e Paul Valéry. Mefistófeles não se limita a ser uma grotesca e primária personificação do Mal. Há nele outra subtileza, outra argúcia, outra vivacidade no modo como nos sonda os sótãos da respeitabilidade. É uma espécie de diabrete bem vestido e culto, que eu gosto de imaginar de monóculo e fraque. Pisa as alcatifas dos teatros da moda, possui as amantes mais capitosas que a grande vida mundana pode oferecer, frequenta os meios mais requintados, bebe champanhe em lupanares de luxo e parece estar fora do tempo porque ostenta um ar de permanente juventude. O meu Mefistófeles, aquele que eu construí com a minha imaginação e aprendi a temer em todos os momentos dos ajustes de contas comigo mesmo, é esta mistura exótica de aparato e de finura. Mas é também um pulha. Talvez o maior dos que pude conceber. Porquê? Porque nos arranca a composta máscara da decência. Todos nós – uns mais do que outros, certamente – possuímos mecanismos de auto-justificação que nos santificam, que nos salvam aos olhos de nós próprios. Conheço gente que é capaz de perpetrar as maiores infâmias sob uma girândola de pretextos, todos eles amarrados à absolvição do moralismo fácil. Assim, todos nos tornamos íntegros, estimáveis, exemplares, sob a caução desta espantosa fraude, que pode escapar a todas as criaturas … menos a Mefistófeles. É indubitável que se o meu Mefistófeles se debruçasse sobre o arcaico e ingénuo comportamento do “bom selvagem” de Rousseau, é seguro e certo que ele lhe haveria de descobrir, nos arcanos mais fundos da alma em bruto, o sedimento, o vestígio da perversidade mais discreta. Mefistófeles fascina-me porque conhece o mundo como ninguém. Não aquele mundo tal como teria sido gerado na primeira manhã da Humanidade. Antes este mundo, o que temos, o que habitamos, o que ajudamos a persistir, tal como foi sendo construído por trogloditas ferozes, primeiro; e depois por fradalhões gulosos, e ainda por Bórgias escondendo venenos em anéis assassinos , e depois por mercadores cúpidos, e agora por politiquelhos manhosos. O que confesso admirar em Mefistófeles é a lucidez gelada, a imperturbabilidade com que descompõe o retrato de Dorian Grey, tal como o esboçou Óscar Wilde. É pouco provável que este texto seja apreciado pelos que adoptam uma leitura optimista da natureza humana. Mas é bom que esses Amigos de Rousseau fiquem bem calados. É que, a não ser assim, teria de pedir ao meu bom Amigo Mefistófeles para lhes fazer uma visitinha de cortesia …

21 de maio de 2007

ÉTICA E SOCIEDADE

Damos o nome de Ética aos códigos formais e informais de comportamento, ou seja, a toda a sorte de directrizes e de normas, assentes no “dever-ser”, a que nos submetemos de maneira voluntária ou coactiva. Através dessas tábuas normativas, dessas imposições colectivas, vamos adequando as nossas acções ao conjunto das finalidades sociais. Mas a Ética distingue-se do Direito porque a sua obrigatoriedade resulta mais de uma anuência íntima, de uma gestão de deveres para com os outros, e menos de uma invocação de vantagens pessoais. Ao passo que o Direito legisla para o mundo dos interesses e dos egoísmos, a Ética estatui para a área da sociabilidade e da alteridade. A Ética é, assim, o domínio do altruísmo e da dádiva gratuita. Talvez não seja aventuroso dizer que o Direito e a Ética dimanam simetricamente dos dois núcleos a que está subordinada a nossa condição de seres humanos. Se procurássemos uma definição antropológica para a nossa verdade mais íntima, talvez que a mais evidente e imediata fosse a das exigências biológicas, às quais se submete forçosamente toda e qualquer possibilidade de sobrevivência. Queiramo-lo ou não, somos uma parcela de Natureza viva e harmonizamo-nos, desse ponto de vista, com os ritmos biológicos que nos dão suporte à continuidade da vida. Nas imposições biológicas há uma ferocidade ilimitada. Pelas Histórias Trágico-Marítimas da nossa epopeia quinhentista foram-nos descritas as selváticas opções que se colocaram aos náufragos, perdidos em hostis paragens, privados de líquidos e de víveres que lhes garantissem a continuidade da vida. Essas crónicas não disfarçam o esvaimento dos mais elementares princípios e o tripúdio dos tabus humanos mais enraizados. Então se praticaram assassínios selectivos para que, com base nos mesmos, se pudessem realizar digestões canibais. Matar para não morrer é a lógica que comanda, no limite, a acção de seres humanos em privação insuperável. Este dado de sobrevivência egoísta é o que deriva do mecanicismo implacável dos nossos suportes biológicos. É a partir da satisfação, por mínima que seja, das suas imposições que o colectivos dos seres humanos pode realizar o salto do Direito positivo para a Ética ideal. Nem Gandhi nem a Madre Teresa de Calcutá puderam dispensar-se da sua parcimoniosa taça de arroz para construírem, depois disso, a gloriosa sinfonia da sua dádiva aos outros. Tudo se joga, então, entre as balizas de um egoísmo que a nossa materialidade física nos impõe e as fronteiras de um altruísmo a que nos incita o acto de vivermos com os outros e ao lado dos outros. É então que, com a fome física saciada, nos podemos consagrar ao sacerdócio social (terminologia cara ao positivismo comtiano) do “viver para os outros”. Uma Ética assim imaginada, assim inferida do equilíbrio precário entre o egoísmo biológico e o altruísmo social, num diálogo lúcido, que não escamoteia o primado do primeiro sobre o segundo, uma Ética assim reconhecida, é seguramente mais profícua do que as prescrições dos códigos sagrados, sejam eles os do Corão, os dos Evangelhos ou os de quaisquer outras doutrinas vocacionadas à salvação da espécie. Por muito que isto nos doa e nos destrua a imagem idealizada de uma “Humanidade regenerada”, de que falam os santos e os revolucionários, por muito que tal nos pareça menos nobilitante ou menos generoso, é sobre a gestão dos egoísmos e sobre a disciplina dos mesmos, decretada a partir da sociabilidade altruísta, que se podem construir tábuas de direitos e deveres compatíveis com a verdade do que somos.

15 de maio de 2007

TOADA GARRETTIANA


No cesto da gávea
O homem do mar
Espia a fronteira
Do seu labutar.

Um cesto suspenso
Num barco vazio
Possui como senso
O seu desafio.

Bate a onda o casco
Igual por igual
Indiferente ao drama
Do Bem ou do Mal.

Olhos de gageiro
Não podem cerrar
Sem verem primeiro
O fim do seu mar.

E fitam, procuram
A norte e a sul,
Guardando do céu
Esse imenso azul.

É o Mal vermelho?
É o Bem azul?
O Bem vai p'ró norte?
Vai o Mal p'ró sul?

Gageiro suspenso
Num cesto de mar
Espia a fronteira
Do seu labutar.

Num cesto suspenso
No meio do mar
Sem orla de praia...
Há que mourejar!


9 de maio de 2007

ALEGORIA DO TEMPO

Em figuração alegórica, gosto de comparar a vida humana a uma escalada a partir do sopé de uma pedregosa mas bela colina. A primeira fase é aquela em que as coisas estão demasiadamente próximas de nós e em que o esforço da subida mal se sente. A vizinhança das coisas que nos rodeiam trivializa-as a um tal ponto que mal reparamos nelas. Estão ali – e é tudo. Esta percepção imediata impede-nos de as relacionar, de lhes procurar conexões e alianças, de as sopesar e até de as valorizar convenientemente. A Mãe está ali ao pé, pronta a proteger-nos e a amparar-nos nas quedas. O Pai repete todos os dias o gesto de abrir a porta, quando parte para o trabalho, e o som de entrar em casa com a pergunta “há gente?”, quando regressa. Os Amigos convocam-se e aparecem invariavelmente, para festejar um aniversário, para ouvir aquela música de sensação, para discutir aquele projecto que surgiu em comum. Estão todos lá, com a naturalidade das paisagens fixas, das realidades alinhadas numa base sólida, tida por inamovível. E no entanto, de longe em longe, a estabilidade desse pequeno mundo recebe o golpe de um pequeno terramoto. A Mãe adoeceu; o Pai partiu por longo tempo; o Amigo – disseram-nos – vai ser operado a uma maleita qualquer. Mas persuadimo-nos de que a doença será breve e curável, a partida durará apenas o tempo de saudades transitórias e a operação correrá muito bem, pois o cirurgião é de renome. De súbito, damo-nos conta que o tempo foi passando e que já nos encontramos a meio da subida. E quando voltamos a olhar, com maior atenção e mais sagaz inteligência, verificamos que no rosto da Mãe se cavaram rugas que outrora lá não estavam; que os movimentos do Pai são mais pausados, mais tacteados, mais cautos, menos ágeis; e que o Amigo já não aparece necessariamente naquela hora de urgência ou de doméstica festividade. Aliás, nós próprios iremos avocar, no galgar íngreme da colina, a posição e o estatuto dessas figuras emblemáticas. “Filho és, pai serás… ” – e com esta cegarrega da sabedoria popular, a progressão da subida, feita com alvoroço nos primeiros arrancos, converte-se num exercício brevemente reflexivo. Debatemo-nos com a falta de tempo enquanto o tempo por nós vai passando, implacavelmente: as urgências que nos conclamam a meio do percurso são demasiadamente impositivas – urgências com a escola das crianças, com o seguro do automóvel, com as compras do mês, com o cumprimento dos deveres profissionais, com o fazer da barba, com a ida ao cabeleireiro, em suma, com as mil coisas que nos assolam o quotidiano. Será apenas no momento em que os Pais já partiram, numa partida sem retorno, em que os Filhos já nos deixaram a casa, para só nos visitarem como Amigos mais próximos, em que os Amigos nos falham à chamada, será nesse momento que concluímos ser já considerável, deveras considerável, a caminhada cumprida, a partir do sopé da vida. Olhamos então à nossa volta e vemos que as coisas de outrora, tão próximas, tão singulares, tão visíveis, se talham, em contorno indeciso, no horizonte da distância. Estonteados, reparamos então em nós mesmos, para descobrirmos no nosso rosto a face rugosa da Mãe que já não está, na vacilação dos nossos passos, o eco (só o eco) alquebrado dos gestos paternos, agora ausentes, no silêncio dos que nos quiseram bem, o sulco discreto de uma saudade só nossa e sem fim. Estamos, finalmente, no topo. Olhamos em todas as direcções e descobrimos, enfim, que a nossa maior sabedoria se acumula naquele cume da vida em que se divisa o tempo de dizer adeus.