22 de outubro de 2007
19 de outubro de 2007
A ARTE DA HISTÓRIA
Falemos um pouco da Historiografia e do modo de a “construir”. O insuperável embaraço de leituras militantes, ideologicamente comprometidas, à direita ou à esquerda, reside numa grelha de interpretação que opera com categorias a priori, das quais irrompem coloridas apoteoses ou sombrias fulminações, consoante as conveniências do momento. Mas a ponderação shakespeariana de existirem muito mais coisas no céu e na terra do que as que se encontram a operar nos limites de uma epistemologia preconceituosa é aquela que nos permite discernir, no campo da gesta histórica, entre os historiadores submetidos ao princípio da realidade e os novelistas usufrutuários do princípio do prazer. Esta terminologia, colhida de empréstimo à psicanálise, não visa empurrar para o divã qualquer historiador em concreto. A sociologia do conhecimento já provou, desde há muito, que nenhum autor é “neutral” a escrever. Quem escreve, parte para o acto da escrita com um conjunto de servidões inevitáveis, de base ideológica, as quais incorporam a magnitude de uma formação prévia e até o acervo de um léxico intransmissível. Assim, é saudável que o escritor aceite com humildade a sua condição de indagador precário e não se aliene ao mito das pretensas verdades absolutas. Para mal da História e dos historiadores, sobejam hoje os “teólogos de Clio”, atulhados de certezas balofas e de intocáveis conclusões. Volitam nos céus da arrogância e orgulham-se de serem os arautos de uma “Ciência” acabada, entendível apenas em círculos iniciáticos. A pretensão de “neutralidade” anda invariavelmente associada a esta liturgia axiomática. É recomendável que se fuja o mais que se puder desta casta de “historiadores-cientistas”. Em nossa opinião, é sempre preferível o “historiador-artista”, metodicamente duvidoso, praticante de um rigor que não desdenha a intuição e de um esforço de objectividade que não enjeita a quase inevitável superação futura das avaliações presentes. A Arte, para nós, é isto mesmo : uma organização peculiar de formas, sons, cores, palavras, sensações e vivências, através das quais se persegue a demanda prometeica que nos conduz mais perto do Fogo e nos agrilhoa, logo de seguida, à rocha agreste da punição. Tal castigo não é mais do que a comprovação do nosso indómito desejo de conhecer, ao qual se associa o reconhecimento da debilidade com que abraçamos o desafio da cognoscibilidade.
10 de outubro de 2007
HOMENAGEM A J. S. DA SILVA DIAS
O que hoje sou, como académico e universitário, devo-o ao meu falecido Mestre. Foi ele o Professor Doutor José Sebastião da Silva Dias. Para além de ter criado, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, o Instituto de História e Teoria das Ideias, o Professor Silva Dias reuniu em torno de si um grupo de jovens investigadores que cresceram sob a sua alçada e que – sem omitir por falsa modéstia o facto de me saber aí incluído – revolucionou, após a mutação do 25 de Abril de 1974, a metodologia e a substância do conhecimento histórico português. Esse núcleo de estudiosos congregava nomes tão relevantes quanto os de Luís Reis Torgal, Fernando Catroga, Zília Osório de Castro e José Esteves Pereira, entre outros. Por isso, a minha chegada e posterior integração numa plêiade tão notável produziu no meu ânimo uma impressão comparável à do néscio entre doutores.Embora habitualmente afável e de trato correcto, o Professor Silva Dias cultivava um pouco a postura do pedagogo paternalista, credor do temor reverencial devido por neófitos às sumidades instaladas. Eu acabara de sair de uma carreira técnica: fora Conselheiro de Orientação Profissional do Serviço Nacional de Emprego, estrutura que apoiava o recrutamento de candidatos aos diversos cursos profissionalizantes então ministrados em específicos centros de formação. Era nula a minha experiência nos domínios da investigação histórica. Como então estivessem a ser publicados os primeiros números da “Revista de História das Ideias”, o Professor Silva Dias logo incumbiu os seus colaboradores do labor de produzirem para ela substanciosos artigos científicos. Quanto a mim, fiquei aterrado quando verifiquei … que não sabia o que era isso da investigação histórica. Dei-me ao ensaio, com reduzido êxito, de diversificadas técnicas de catalogação e de alinhamento bibliográfico. Mas daquela mole imensa de resumos, notas, comentários, adendas, remissões e auxiliares de memória, daquela estupenda e estupidificante Babel de erudição, não havia meio de sair um artigo digno de tal nome. Decidi encarar de frente a minha ignávia, a minha entranhada e insuperável inépcia, indo pedir ao meu Mestre e mentor o avisado conselho que me libertasse das angústias da impotência. O professor Silva Dias acolheu-me afavelmente no seu gabinete, disparando, depois de me saber bem sentado :- Então Carvalho Homem, o que é que o traz por cá? Engasguei então duas ou três frases desconexas, antes de ganhar coragem para confessar, despejadamente: - Acontece, senhor Doutor, que eu não sei investigar; vim aqui pedir ajuda. Numa palavra, como é que se investiga, senhor Doutor? O rosto do meu Mestre animou-se com os sinais de uma divertida surpresa. Ajeitou uma melhor posição na cadeira, antes de replicar: - Ora essa, Carvalho Homem; saber investigar é como aprender a nadar. A pessoa lança-se à água e esbraceja, esbraceja, até lhe apanhar o jeito. Quando tal acontece, essa pessoa fica a saber nadar. E calou-se, logo de seguida, fitando-me prazenteiramente por detrás dos seus óculos de tartaruga. Meio aturdido, mas disposto a não depor as minhas armas sem uma total clarificação, engatilhei então a pergunta óbvia: - E se a pessoa esbracejar, esbracejar, voltar a esbracejar, e mesmo assim não aprender a nadar? A réplica veio logo de seguida, com a inexorável frieza das coisas taxativas: - Se não aprender a nadar, não há novidade. Afoga-se. Tem a sorte que merece, não acha?
Confesso que nessa altura tal juízo me pareceu tão rude quão cruel. Foi necessário que eu tivesse aprendido a nadar para me aperceber da subtil sabedoria implícita, contida nas palavras do professor Silva Dias. Por isso lhe guardo o respeito a que a sua memória faz jus. Hoje, um desses pseudo-pedagogos de plástico talvez tivesse respondido ao meu aflito inquérito com as seguintes considerações: - Investigar? Mas para que diabo quer você investigar? Vá à Internet, meu amigo. Vá lá e compre uma investigação já feita. Um mestrado é barato! Um diploma de doutoramento custa um pouco mais. Mas vale a pena gastar dinheiro em obra asseada, não lhe parece? Investigar! Isto é que ele é parvo …
Como me orgulho de ter sido discípulo do saudosíssimo Doutor José Sebastião da Silva Dias! Que a terra lhe seja leve!
Como me orgulho de ter sido discípulo do saudosíssimo Doutor José Sebastião da Silva Dias! Que a terra lhe seja leve!
8 de outubro de 2007
OLHARES
Existe no olhar qualquer coisa de perturbante. Recordo olhares que profundamente ecoaram em mim, como se houvesse (e havia …) toda uma mensagem a encher o espaço que ia dos meus olhos àqueles outros que me fitavam.Era eu pouco mais do que um miúdo, quase às portas da adolescência. Os meus pais decidiram acolher lá em casa uma trintona gorda, amiga de uma irmã que tive um dia. A dita mulher padecia dos nervos ou encontrava-se, se bem me recordo, à beira de um profundo distúrbio psicológico. Arrastava as palavras, apresentava o esboço de um sorriso triste e olhava as coisas de longe, fazendo crescer o espaço que mediava entre os seus olhos e os alvos em que o seu olhar se espreguiçava. Ouvia Stravinsky de manhã à noite, num gira-discos portátil, de marca “Dual”, que conseguira obter dos meus pais. O Stravinsky que eu ouvia era muito similar, segundo me parecia, ao olhar da trintona anafada. O “Pássaro de fogo”, que soava na grafonola, apresentava-se-me como um mergulho no vago, uma vez que os meus ouvidos não sabiam entender aquela estranha música, feita de estridências e de murmúrios para iniciados. Acabei por amar aquela música e por venerar aquela mulher. Ou teria sido o contrário? Ou afinal dei comigo a venerar Stravinsky e a amar aquela fêmea de ventre búdico? Não sei. O que recordo é a ondulação de um olhar-brisa, lambendo as coisas sem as esmiuçar. Desde aquele tempo, o olhar das pessoas é uma obsessão privativa com que componho as mais bizarras hipóteses. Aprendi, por exemplo, que a melhor forma de aquilatar da verdade caracterial de alguém é olhar esse alguém bem no fundo das pupilas. Poucos aguentam tamanho esforço de trespasse e ultrapassagem da barreira da visão, sobretudo quando os observados se sentem prisioneiros de algum remorso ou de alguma servidão de consciência. Mas os que logram resistir a esse exercício de resistência são os que gosto de contar no meu caderno de indefectíveis. Tive a penosa mas também decisiva experiência de assistir aos últimos momentos da minha mãe. Fui encontrá-la em estado de choque – nunca pude saber que choque era aquele e que causas lhe estiveram associadas. O olhar dela, que conhecera tão solto, tão meigo, tão cheio de mil aromas, aquele doce olhar encontrei-o eu vazio como um templo saqueado. Foi então que senti que o meu “Pássaro de Fogo” tinha cantado pela última vez. Voara para algures, sem ter tido tempo de me dizer um derradeiro adeus. E ainda hoje, quando escuto Stravinsky, sou tomado do remorso de não ter colhido e guardado no meu cofre mais bonito o último olhar vivo e quente daquela que foi, desde sempre e para sempre, a mais importante Mulher da minha vida.
28 de setembro de 2007
O NASCIMENTO DA IMAGEM

O mundo era ainda muito novo quando a rapariga se apaixonou. Era filha de um velho oleiro e a mãe falecera na sua meninice. O pai ensinara-lhe tudo e até a havia instruído nos segredos da sua arte. Naquele tempo, o barro servia apenas para modelar objectos de uso corrente: bilhas de vários formatos e capacidades, escudelas bem redondas ou vasos de utilidades múltiplas. Os usos e costumes puniam com rigor a cópia ou tentativa de reprodução da figura humana. Acima de tudo, proscrevia-se a reprodução dos rostos. A fisionomia de cada um albergava uma sorte de “pneuma” ou de imaterial conteúdo constitutivo que se considerava degradável pela simples tentativa de cópia. Por isso, o velho oleiro dissera à filha que ela poderia fazer, na sua oficina, todas as coisas que lhe aprouvessem, desde que se submetesse ao compromisso de jamais modelar um rosto com as suas próprias mãos. No dia em que a rapariga soube que o seu apaixonado iria partir para longínquas paragens, o seu coração, angustiado, procurou desesperadamente um meio de mitigar a dor imensa que já nela se acumulava. Os primeiros meses de separação foram particularmente atrozes. A filha do oleiro procurava reter na memória as particularidades do rosto amado, desde a ondulação dos cabelos à amplidão da testa, desde o desenho do olhar à geografia do sorriso. O pânico apoderou-se dela quando, passados alguns anos, lhe foi dado verificar que a fisionomia da seu amado já não se recortava com nitidez nos registos da memória. O ondear do cabelo era como o balançar da maresia ou como a dança da seara? E que distância exacta separava a base do nariz do bordo superior dos lábios? Não estaria o sorriso a converter-se num esgar? Foi então que a tentação perverteu o seu compromisso de sujeição às ordens paternas. Tomou o barro nas suas mãos e com ele reproduziu, tão fielmente quanto se recordava, o rosto ausente do seu apaixonado. Assim nasceu a Imagem, filha de um Amor nostálgico, registo incompleto de uma Paixão insubmissa, transgressão de um tabu primitivo. Foi então que se provou para todo o sempre que essa sorte de “pneuma”, esse espiritual conteúdo, enquanto propriedade de quem parte, reverberava de si para o seu duplo, para tornar menos amargas as privações da ausência.
17 de setembro de 2007
LOUCURA E MORTE DAS AVES: HIPÓCRATES E DEMÓCRITO
I
Hipócrates de Cós dormitava na surdina da tarde quando um servo o abanou levemente, dizendo : - Senhor, senhor, estão aí os representantes dos senadores da cidade de Abdera e dizem ser-lhes absolutamente necessária uma audiência.
-Uma audiência? Mas afinal que se passa ? resmungou Hipócrates, ainda ensonado.
- Eles não dizem, senhor, eles não querem dizer. Mas a expressão de todos é grave e por aí se pode calcular que deva tratar-se de coisa importante.
- Gente de Abdera, dizes tu? Abdera é sítio de ilustração e de pensamento. Conhecem por lá as minhas receitas e infusões e os meus processos curativos. Bem, diz-lhes que venham até aqui.
Hipócrates sacudiu de si o resto do torpor estival e procurou adoptar uma postura que quadrasse ao seu reconhecido prestígio de restaurador de corpos e de almas. Passados uns instantes, entraram na sala três homens, atilados e cortejadores, que o saudaram com muito respeito e também com uma ponta de temor. O mais velho – que era também, por sinal, o mais encorpado – adiantou-se dois passos e aguardou. Hipócrates saudou-os colectivamente com estas palavras:
- Ilustres visitantes, a minha casa é vossa, mas dizei-me ao que vindes.
E logo o mais idoso, reincidindo na reverência, retrucou:
- Sapiente Pai do saber curativo, a cidade de Abdera sauda-te por nosso intermédio e envia-te augúrios de longa e feliz vida. Estamos na tua presença por insistência dos mais grados Senadores da nossa terra. Todos nos sentimos aflitos, bom Pai. O nosso maior pensador enlouqueceu.
- Como?, disse Hipócrates, Demócrito está enfermo?
- Pior, muito pior. Demócrito perdeu-se de si próprio. Mas não estamos autorizados a adiantar mais nada. As nossas ordens são imperativas. Ide, trazei Hipócrates por qualquer preço e levai-o à presença de Demócrito. E que seja Hipócrates, liberto de opiniões profanas, a traçar-lhe o incerto amanhã.
Hipócrates cofiou as barbas, tartamudeou uma rezinga que ninguém entendeu e acabou por dizer: - Não irei pela recompensa. Nem sequer por Demócrito. Irei, isso sim, pela sabedoria que Demócrito recolheu e transformou, a partir do Génio antigo.
II
Quando Hipócrates se acercou do tugúrio de Demócrito, em Abdera, verificou estar o chão juncado de aves evisceradas. Eram aves de diversos portes e de penas e penugens variegadas. Mas em todas fora feito, na zona do papo, um golpe fundo, longitudinal e pouco misericordioso. Algumas das vísceras, completamente destacadas do corpo da ave, jaziam abandonadas, exalando algumas delas um cheiro activo, a concitar a náusea. Mais impressionante do que tudo era, porém, o gargalhar que se ouvia distintamente, a partir do interior da morada.
Hipócrates chamou, a meia voz, com uma infinita doçura, fruto de quem respeita a Dor e a Sabedoria: - Demócrito, sou eu, o velho Hipócrates. Quero ver-te e ouvir-te. Por que ris? E quem é o alvo da tua troça?
Quando Demócrito se mostrou à luz do claro dia, os seus olhos apresentaram-se cansados e cavos, repletos de noites por dormir. Da sua figura, escanzelada e suja, destacavam-se uns braços mais compridos do que se esperaria e tão esquálidos como o resto do corpo. As mãos ossudas de Demócrito agitavam-se descoordenadamente por cima da sua cabeça; numa delas, um pássaro debatia-se inutilmente, procurando a fuga salvadora. Mas o que verdadeiramente vogava por sobre a cabeça de Demócrito, de Hipócrates e do pássaro era um contínuo e manso gargalhar, que levemente lhe agitava o tronco, como se fosse uma brisa a separar vimes ou bambus. Era mais ou menos assim a melopeia de Demócrito: - Aves do Hades ou do Olimpo, Deuses servidores de Zeus, eflúvios da Terra, emanações astrais, supurações do ventre terreno, eh! eh! eh! , tudo isto se junta em simulacros, eh! eh! eh! eh!, tudo é simulacro e tu também, Hipócrates. Eh! eh! eh! isto acaba por ser tudo a mesma coisa, quer seja ave, boi, cavalo ou javali, eh! eh! eh! também tu, ilustríssimo Hipócrates, és (como eles) um corpo cheio de buracos e de canais, inumeráveis canais, todos a verterem fluidos uns para os outros, eh! eh! eh! e a ficares melancólico, triste como a noite, quando a bílis negra se acumula onde não quer. Eh! eh! eh!, como é divertida a ignorância dos que julgam saber …
Hipócrates obtemperou então : - Vem daí o teu riso?
E Demócrito, sempre a rir, respondeu: - Não, o meu riso vem dos Deuses, eh! eh! eh! ; se queres mesmo saber, o meu riso vem da Deusa que me comanda a mão e me obriga a escrever o tratado que já se continha nas vísceras das aves. Eh! eh! eh!, tu bem sabes, tão bem como eu, que os guerreiros só partem para a guerra quando o coração das aves se orienta para o centro do horizonte, eh! eh!, como é cómico saber que um combatente, para ser bom, combate melhor pela orientação do coração do que pela força da espada , eh! eh! eh! …
- Que tratado escreves tu ?
- Má pergunta! Melhor seria que me perguntasses pelo livro ditado pela Deusa, em cada intervalo das minhas eviscerações, eh! eh! Mas aí vai – escrevo um tratado, por Ela segredado, sobre a loucura dos homens. Belo tema, não achas, eh! eh! eh!...
- E que dizes tu (ou a Deusa por ti) nesse tratado, meu pensador?
- Eu só posso dizer o que me é confiado pelo bico agonizante das aves. A Deusa diz o resto. Os pássaros só me falam ao crepúsculo. Vê tu bem, eh! eh! eh!, ao crepúsculo… É quando a bílis negra se concentra toda nos orifícios das asas, obrigando-os a perder o norte e a rasar os campos das batalhas, eh! eh! eh! O destino dos animais joga-se em cada poro. Mas é pobre o meu saber. Também ele acaba eviscerado, entendes isto, eh! eh! eh! ?
- Estou a entender-te, Demócrito. Mas, diz-me, diz-me por Zeus, rei dos Deuses, que segredo te revelou a Deusa?
- Eh! eh! eh! Ela provou-me que os homens não devem ser levados a sério. Ela garantiu-me que os homens se julgavam sensatos quando praticam a maior das suas loucuras, ou seja, quando julgam acertado tudo submeter ao império dos seus desejos privados. Homens tolos, eh! eh! eh! ; homens cegos, eh! eh! eh!... Neles se espalha e concentra, nos tubos e lugares mais inconvenientes, a bílis negra. Eh! eh! eh! eh! Negra como a noite, como o Mal, como o Hades. E quanto mais espessa e letal, quanto mais depositada nas vísceras e poros da Vida, mais os homens se julgam perfeitos, sensatos, ajuizados. Não te faz isto rir, oh meu insigne julgador? Ri-te comigo, anda. Eh!eh! eh! eh!
E Demócrito ficou a rir-se até Hipócrates desaparecer.
III
Discurso de Hipócrates aos senadores de Abdera
Senhores: Demócrito, o vosso maior sábio, não está louco. O seu estado é de fúria ; mas a sua fúria é de uma inexcedível lucidez. Procurou as raízes da loucura dos homens pelas duas vias possíveis: pela Ciência, eviscerando aves, e pelo entusiasmo, conclamando a Divindade. A Ciência tentou servi-lo com o mapa dos lugares corpóreos onde se acumula e concentra a bílis negra. Mas só a Deusa lhe soube explicar a causa mais funda do movimento dos fluidos. Essa causa é muito semelhante a uma ave que mantemos prisioneira numa das mãos e se solta, triunfal, sem que precise de ser eviscerada. Ao soltar-se, a ave procura a orientação do sol e com ele ilumina o mais fundo dos ânimos humanos. A causa da loucura é agora conhecida por Demócrito. Mas peço humildemente a vossa compreensão. Eu não posso nem devo revelá-la. Nem aqui, nem noutro qualquer lugar mundano. Se o fizesse, é muito provável que eu e vós morrêssemos de riso…
13 de setembro de 2007
A UM FILÓSOFO ANTIGO
Viveu na GréciaDo saber ancião
Que se venera
Nos livros da tradição.
E disse coisas mil,
Mil maravilhas
Cujo rumor subtil
Semelhava poalhas
De pedaços desfeitos
Na descomposta
Bola de sabão
Da humana natura.
Pasmou o Criador
Da criatura
Gerada
Em sua sombra
Fatigada.
"Que ousio é esse,
Miserando Heráclito ?
Foi com a potestade
Do meu fito
Que a ilusão
Da permanência
Por mim parida
Se aninhou no ventre
Do que chamam real.
É meu desígnio oculto
Alimentar na vida
O mito da constância
Convertido em verdade.
Pretenderás agora
Roubar-me identidade?
Que ousio é esse,
Miserando Heráclito ?"
Heráclito disse então:
"Tão longe, longe estais
Em tão ignotas messes
Que supondes imóveis
As submissas preces
Dos mortais.
Outra morada temos
E tudo mudaremos
Para Vos transformarmos.
Gira no corpo o sangue
Na erva a seiva
E o sémen no sexo.
E tudo reproduz
O seguro amplexo
Da nossa mutação.
Somos teu reflexo ?
Alguns o asseveram.
Destino ou maldição
Nos demos ou nos deram.
Será por Ti a morte
Decretada.
Porém, é nossa a vida
Palmilhada
No sustentável câmbio
Da nossa servidão.
Se isto não entendes,
Se a isto nos condenas,
Se por isto pretendes
Crivar-nos de mais penas,
Faz-te humana e mortal,
Impura e reticente,
Blasfema, venal,
Cruel e renitente
Oh Potestade!
Deixa teu sólio,
Renega teu Empíreo
E faz-te gente.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
