20 de janeiro de 2008

URGÊNCIA

É urgente que venhas
Vem depressa e já
Bichos estranhos
Invadiram por cá
O quintal dos afectos
Roem tudo (os danados)
Dos legumes aos fetos

Vem, vem sem detença
É urgente que tragas
Da despensa
A tal erva cheirosa
Que acrescentas
Airosa
À comida sem sal

Quando vieres (se vieres ...)
Por tardinhas inundadas
De sol
É urgente que inventes
É forçoso que infundas
No cansaço dos anos
No quebranto do corpo
Algo de vivo e novo
Um alento qualquer
Dos que tu sabes dar
Quando em ti não ressoam
Memórias do passado
Que tanto te magoam

E dá-me (se puderes ...)
A mansa
Confiança
Do teu amor adulto
Assim farás cessar
O meu tumulto

Quem poderá viver
Em morno adiamento
Como se fora
(Vê tu !)
Um requerimento
Jazendo e morrendo
Sem deferimento
Numa repartição
À portuguesa ?

Vem pois por mim
Solene, ilesa
É urgente que saibas
Agora e sempre
Que tudo estranhamente
Perde encanto
(E quanto !)
Se não chegas


É urgente que venhas
Fremente
Carente
E donairosa
Tal como a rosa
No fresco rocio
Da manhã
Enfim calma
Enfim silenciosa
Como virgem vestal
De tempos transitados
Coladas as bocas
Os corpos colados
No lamento
No fingimento
Na simulação
Na convicta
Inconvicção
Do que não é eterno
Mas tomado como pórtico
Final
Mas vivido como se fora
Imortal



14 de janeiro de 2008

PROTÁGORAS E CHE



Foi no século V a.c. que Protágoras de Abdera lançou ao mundo a perspectiva do seu relativismo antropológico: “O Homem é a medida de todas as coisas; das que são, enquanto existem, e das que não são, enquanto não existem”. Este enunciado, um pouco nebuloso à primeira vista, pretende apenas salientar que só há validação de realidade com referência aos que a vivem. Imaginemos um Cosmos totalmente desabitado, radicalmente entregue a si próprio, à sua radical e insuperável materialidade. Imaginemos um silêncio de sepulcro, a transmitir-se de galáxia em galáxia, afundando-se, como chumbo, no vórtice absorto da Infinidade. Imaginemos um mundo-coisa, sem consciência, sem alteridade, sem outra justificação que não fosse a da omnipresença face a si mesmo. Faltando-lhe o Homem, faltava-lhe tudo o que lhe poderia conferir significado. Ora, por maior que seja o significante, este fica aprisionado à sua raiz sem uma entidade de referência. O Homem é a referência do mundo significativo, do mesmo modo que este é a possibilidade daquele.
Houve um dia uma ilha, nas lânguidas Caraíbas, onde alguns guerrilheiros, descidos da Sierra Maestra, fizeram uma revolução. Vieram todos para La Habana, de charuto nos queixos e esperanças na alma. Um deles ganhou a palma dos favores das massas: chamaram-lhe o Che. Mas com ele arribaram também a uma capital de opereta Camilo e Castro. Este último foi El Comandante de tal empreitada. Certo dia, numa ocasião em que El Comandante arengava às massas, na presença avalizadora ( ou avaliadora?) de Jean-Paul Sartre e de Simone de Beauvoir, um fotógrafo ladino, Alberto Korda, fotografou o Che sem que o próprio disso se tivesse apercebido. Apanhou-o melancólico, aparentemente concentrado, com uns restos do cabelo ondeante a surdir por debaixo do boné revolucionário, onde marcava lugar a lendária estrela dos continentes a conquistar. Na altura, poucos teriam reparado na beleza datada daquele efebo fardado. Os jornais do dia seguinte nem sequer escolheram aquela imagem para ilustrarem o loquaz comício; preferiram Castro, com uma granada na mão e cenho colérico, sanguinário, a prometer ao populacho a liquidação do vizinho inimigo imperialista. Passados uns anos -- já o Che houvera sido assassinado,na Bolívia, por um tarimbeiro militar de meia-cana, semi-analfabeto e boçalóide -- o mundo reparou que alguém morrera por ideias. Foi o deslumbramento. Deixar-se alguém matar, não por redondezas de economia, ou por venalidades de sexo, ou por regalos de tripa, mas por fidelidade a um credo? Podia lá ser! Podia lá ser!! E esse mesmo mundo, coçando o piolho da má-consciência hedonista, fez do Che um ícone. Mas um ícone de quê? Da Revolução? Do Ideal? Da Justiça? Dos Pobres? Qual quê! Estamparam-lhe a fronha em t-shirts, em cuecas de senhora, em cinzeiros, em copos de uísque, em anúncios de compota, em tacos de basebol, em luvas de boxe, em chapéus de palha e em mil truanescas e delirantes mercadorias de consumo.
Hoje, talvez naquela mesma desoladora e desolada Praça da Revolução, em La Habana, (talvez…) possa fazer-se ouvir, uma e outra vez, a voz profética de Protágoras de Abdera, decretando ser o Homem a medida de todas as coisas. Ficaria assim provado que os desígnios dos homens são, tal como os dos deuses, verdadeiramente imperscrutáveis.

7 de janeiro de 2008

CULTURA KITSCH


A degradação actual de quase todas as formas mais estruturadas de pensamento conduziu-nos ao culto do improviso e da facilidade. E a mercantilização da vida oferece hoje à mediocridade uma aparência de realização que decorre de simples exercícios de contrafacção. Não são apenas as calças ou videocassetes de marca falsificada que se propõem ao consumo, em feiras de ciganos. Na grande tenda do consumo cultural português, toda a mercadoria que constitui, no seu conjunto, o espólio superior do Espírito, se encontra em almoeda. Daqui resultaram modalidades de cultura kitsch, com muito aparato e pouca substância, que forcejam por passar incólumes ao crivo da crítica exigente. No romance, na poesia, no teatro, no cinema, em todas as modalidades de comunicação valorativa (ou pseudo-valorativa), nos vão aparecendo anõezinhos de jardim ou grossas louças das Caldas, apresentados como se fossem peças de Míron ou faianças de Rafael Bordalo Pinheiro. Como é evidente, nada disto poderá enganar o especialista informado e o verdadeiro estudioso. O português escrito por Camilo Castelo Branco, por Miguel Torga ou por Aquilino Ribeiro distinguir-se-á sempre, aos olhos do mais desprevenido, da rudeza linguística e da impropriedade lexical da loquacidade galega. Queiramo-lo ou não, a produção e a fruição cultural mais intensas e acabadas estarão prometidas, como sempre, ao reduzido número dos que sabem, dos que se aplicam, dos que não se poupam ao esforço do conhecimento. Sobrarão depois, para os preguiçosos ou para os apaixonados pelo kitsch, esses delambidos romances róseos, esses vaporosos espectáculos de cinema holywoodesco, esses entremezes de fácil populismo, esse jornalismo de pacotilha, essas revistas de fado choradinho, esses desprimores de bom-gosto e de bom-senso.
E Antero de Quental terá outra vez razão, em Portugal, neste ano da graça de 2008.

28 de dezembro de 2007

PEDRO PESCAVA HOMENS


Pedro pescava homens e limos velhos
Na borda dum infeliz lago galilaico.
Alguém o avisara que por cada alma
Filada, escorchada e ao sol espalmada
Um Deus viria pregar-se numa cruz
Com Mãe e Madalena e soldadesca ébria
A compor o quadro choradinho do Calvário.
Pedro fizera farta pescaria de fadigas sem fim
Mas só lograra arpoar um vagante madeiro
Que boiava na babugem aquosa e penitente,
Na borda do infeliz lago galilaico.
Pedro imaginou então que os restos do pútrido
Madeiro mais não fossem que os restos pecaminosos
De homens refractários ao quadro choradinho
Daquele Calvário sem Mãe, sem Madalena
Sem soldadesca ébria a jogar dados.
Pedro, então perplexo, perguntou aos céus
Ou a si mesmo, ou mesmo a ambos, se mais sagrado
Seria o Calvário composto por Mãe, Madalena
E ébria soldadesca ou a podridão dos restos
Do madeiro, onde teriam pregado não um macerado
Deus mas a chusma orgiástica, pecaminosa
De transviados e terrenos penitentes.
Pedro, o pescador de homens e limos velhos
Passou então a querer filar na borda
Dum infeliz lago galilaico o mais sofrido de todos
Os homens, tendo como certo que assim poderia
Pescar o maior de todos os Deuses, na borda desse lago
Sem Mãe e sem Madalena, mas com a infinda compaixão
Do maior dos Calvários, onde agoniza a humana condição.

22 de dezembro de 2007

NATAL 2007

Ninguém sobrevive sem mitos ou, pelo menos, ninguém prescinde do mito de si-mesmo. Este confunde-se, no limite, com a auto-estima. Se é assim com os sujeitos individuais, também assim é com os sujeitos colectivos, quer se lhes chame corporações, sindicatos, grémios, associações ou nações. Importa sublinhar que cada um destes sujeitos colectivos engendra, a partir de si mesmo, formas típicas de representação. Elas decorrem de todo um acumular de experiências, belas ou feias, arrebatadoras ou vexatórias, imanentes ou transcendentes, imediatas nuns raros casos, mediatas na maior parte dos mesmos. Tanto faz que estes momentos de identidade sejam designados por paradigmas, símbolos ou padrões; é indiferente que uma turbamulta de bem-pensantes os negue ou vitupere; é ocioso que façamos de conta que eles não existem. A sua força ontológica é tamanha que se nos impõe sem contradita, com a mesma naturalidade das montanhas ou das estrelas.
Somos ocidentais, europeus e cristãos – queiramo-lo ou não. E, ao sê-lo, por muito grande que possa ser a nossa indiferença religiosa ou até a nossa militância ateísta, o tema do Crucificado vem até nós e subjuga-nos – ao menos uma vez por ano.
Na história do pensamento ocidental foram feitas as mais esforçadas tentativas para a aniquilação desta espécie de mito identitário, sempre sem resultados. Referindo apenas a Época Contemporânea vislumbramos, como momentos supremos de negação, a tentativa dos revolucionários franceses de 1789 e os cultos de substituição nessa altura encetados, desde a Teofilantropia ao Culto Decadário, passando por todas as modalidades de Panteísmo ou de Religião Natural; veio também Augusto Comte e a sua Religião da Humanidade; apareceram seguidamente Marx e Engels e os diversos ateísmos radicais do século XX. O Supliciado do Gólgota resistiu. Parece até que resiste tanto mais quanto maior é a visível decadência institucional das suas Igrejas. Por que acontece então isto? Porque Cristo é o perfeito emblema simbólico do drama humano. Ele recolhe os vagidos inocentes do nascimento – e faz-se Natal ; depois, acompanha a história da luta pela sobrevivência das nossas mais convictas verdades – e faz-se Pastor; e é ainda Ele o depositário de todas as nossas fragilidades, de todas as nossas dores, de todas as nossas decadências, de todas os nossos pressentimentos de finitude – e faz-se Paixão. Assim, como emblema do que fomos sendo na multissecular estrada do Ocidente, a história de Cristo deixa de ficar contida em si mesma para passar a ser o elo de suporte entre todos e cada um.
Escrevo isto porque sou religioso? Não. Sei-me agnóstico. Escrevo isto porque sou, como quase todos nós, um cristão do Ocidente.

8 de dezembro de 2007

O NÚMERO DA BOLA

Na loja do João Vendeiro compravam-se, naquele tempo, rebuçados coloridos. Vinham em caixas oblongas, já a ameaçar ferrugem, embrulhados em papéis baratos. Sabiam a açúcar mascavado e faziam apodrecer os dentes. Mas era neles que vinham enrolados os cromos dos jogadores de futebol, que deviam ser colados numa caderneta a adquirir, como instrumento excedente da colecção a fazer. Era um jogo aliciante e um desafio que durava muitos meses. Quando faltavam cromos mais difíceis, os interessados interrogavam persistentemente outros coleccionadores e propunham-lhes trocas de mútua vantagem. O objectivo não consistia apenas em preencher todos os lugares destinados às vedetas do futebol. Um dos números era dificílimo, dado que dele só existia um solitário e esquivo exemplar. Dava pelo nome do “número da bola”, uma vez que a caderneta completa significava a automática entrega de uma fascinante bola, em couro autêntico, novinha em folha, a fazer negaças de uma das prateleiras da venda do João. O que se estranhava era que o “número da bola” e o prémio previsto contemplassem sempre os rebentos da família do João Vendeiro.
Só hoje me apercebo que aquele episódio menor da minha existência infantil condensava uma parábola de vida. Dou comigo, desde sempre, a tentar completar o meu “puzzle” ; apercebo-me que há graus diferentes de dificuldade, na porfia pela obtenção dos rectângulos coloridos; reparo que este mundo está repleto de Vendeiros pérfidos na sua duplicidade e na sua molúria; acho que o “número da bola” acabará por ser entregue a um qualquer afortunado traste, que nem sequer teve de se esforçar para concluir a sua colecção; e sei que, apesar de tudo isto, continuarei a acalentar no meu peito o desejo de conquistar aquela bola fatídica, ainda agora a contemplar-me de uma das prateleiras da tasca do João Vendeiro.

23 de novembro de 2007

( ? )

Gosto de pensar que um dia voltarei.
Gosto de pensar que quando morrer
(Daqui a dois ou três séculos vou morrer,
Podem crer ! E voltarei sedento e lento)
Serei um tapete de nuvens no fundo de mim.
Gosto de pensar que sou corpo imortal
Numa alma mortal parida em solilóquio.
Mas o que eu gosto mesmo de pensar
É que o meu tempo se distende como iô-iô
Para cima e para baixo do que sou.
Gosto de me pensar cogumelo em micélio
No meio de uma floresta verde e parva
Onde vagueia uma Branca de Neve
Vagamente prostituta que me enerva.
E hei-de ser também um vagalume
Portador do lume vago do que jamais será.
Mas o que gosto mais de pensar, como o mocho
Sábio da fábula de Esopo ou La Fontaine
É em ser eu próprio, no colo d’uma tipa
Que até pode ser a tal Marlene do Anjo Azul.
Pendem papagaios esparvoados e colados
Nas costas do Peter Pan
Nos braços do Sandokan
Nas coxas do Anjo Azul.
Tudo isto é grandioso. E taful .