12 de maio de 2008

A SENHORA DO LEITE DE AVEIRO

Existe no antigo mosteiro dominicano feminino de Jesus, hoje convertido em Museu de Aveiro, uma pintura muito singular. Trata-se da “Senhora do Leite assente sobre a lua”, obra flamenga do século XVI. A Senhora, cercada por um debrum flamejante, dá de mamar a um menino Jesus já crescidinho, de perna traçada e expressão vagamente erótica, sublinhada pelas pálpebras semi-cerradas. A Senhora apresenta as suas formas todas tapadas, exceptuando um seio túrgido, muito redondo, emergindo do escuro das vestes. A singularidade do quadro consiste, em minha opinião, no desmentido do artista à dogmática de uma religião puritana, ensimesmada, frustradora de tudo o que se lhe antolhasse como plétora pagã. Há neste quadro uma força de vida e uma tamanha afirmação material e corpórea, que quase o converte em objecto de heresia. É por isso, sobretudo por isso, que gosto dele.

8 de maio de 2008

COMENTÁRIOS A UMA ENTREVISTA


A titular do Ministério da Educação, Drª Maria de Lurdes Rodrigues, deu há alguns dias uma entrevista a um dos canais da nossa televisão. Nessa entrevista, a governante afirmou, para quem a quis ouvir, que iria consagrar o melhor do seu esforço para que fossem evitadas as retenções, ou seja, as reprovações, no sistema de ensino sob a sua tutela. A entrevistadora perguntou-lhe, logo de seguida, se isso iria significar o fim do processo das avaliações. A conspícua Senhora fez uma pausa, em esforço, e acabou por responder qualquer coisa de parecido como “depois se vê”, ou como “ainda não sei, mas…”. Para que não sobrassem dúvidas a ninguém, informou que a sua filosofia de escola é “inclusiva”, procurando distingui-la da escola “do passado” (???), que referiu como “selectiva”.
Salvo o devido respeito, com a Educação de um Povo não se brinca. Nem esse mesmo Povo pode ser submetido a certa casta de “experimentalismos”, no sistema de ensino, denunciador de mentalidades especiosas, ainda que as mesmas se autoproclamem como assaz “vanguardistas”, “modernas” e “deveras inteligentes”. O que foi dito pela esclarecida e esclarecedora ministra é suficientemente grave e polémico para que o cidadão comum não fique passivo e indiferente. Está em causa o futuro de Portugal e o destino das gerações mais novas. Não estão em causa apenas as opiniões domésticas ou politiqueiras da Drª Maria de Lurdes.
O carácter “inclusivo” a que se reporta a detentora da pasta da Educação seria eventualmente defensável ( e, mesmo assim, com grandes reservas! ) para aquilo que se decretasse ser uma escolaridade obrigatória, precedendo esta, em alguns anos, a frequência de uma formação de acesso a títulos profissionais ou a cursos superiores. Dito assim, com esta ligeireza e nonchalance, com este sentido de generalidade, com esta latitude de “inclusão”, soa-nos a um truísmo, digno de Sancho Pança ou do Anão dos Assobios. E mesmo que tal se pensasse, aconselharia a prudência mais elementar que esse pensamento, vindo de quem vem, não fosse levado à Praça Pública com tamanho desplante. O estudo constitui um esforço. A aprendizagem significou desde sempre (e irá continuar a significar) – por muito que isto custe à pedagogia do facilitismo e da festarola – uma disciplina, uma exigência de concentração, uma mobilização de energia mental e psíquica. Daí que o estudante comum, entregue a si mesmo e ao simples império do seu hedonismo, sinta a tentação de evitar ou iludir a tarefa de aquisição de saber que sobre ele impende. Vir uma governante declarar, com tamanho impudor, perante toda uma colectividade nacional, que a sua filosofia “inclusivista” aborrece os processos de avaliação e sonha com a sua supressão é o mesmo que empurrar esse estudante para a inércia, para o desprezo pela Escola e para a desqualificação do conhecimento. Foi como se a Drª Maria de Lurdes tivesse incitado muitos dos discentes do ensino sob a sua tutela a remeterem-se à pior das cabulices, que é aquela que se assume sem vergonha.
Mas existe uma outra importantíssima implicação. É que, prescindir tão “generosamente”, tão militantemente, de processos verdadeiramente selectivos de avaliação dos conhecimentos é conduzir ao patamar dos Institutos Politécnicos, das Universidades, das Escolas de Formação Profissional, de todas as Instituições terminais dos processos de ensino e de aprendizagem, é conduzir aí, com um arzinho de troça ou de cinismo, uma coorte de castrados mentais, de inaptos intelectuais, de madraços habituais e de irresponsáveis contumazes. Se a Senhora Ministra conhecesse verdadeiramente o país onde governa (???), saberia que a massa de estudantes que desagua em tais Escolas já é, neste preciso momento, suficientemente romba e ignorante para dispensar mais este empurrão da sua lavra. Há candidatos que chegam aos cursos técnicos, científicos ou literários num calamitoso, deplorável e gravíssimo estado de impreparação. Há toda uma Colectividade a saber que assim é – talvez exceptuando a prestimosa Ministra …
Se vencerem os seus desejos, teremos amanhã electricistas que não serão capazes de unir dois fios sem fazerem um feérico curto-circuito, canalizadores que deixarão todas as torneiras prontas para o espectáculo da inundação, engenheiros que planearão casas prontas a cair, médicos que darão garantias de certidões de óbito aos doentes, literatos que não saberão interpretar, sequer, as instruções das cabines dos elevadores, etc., etc.
Bem sei que isto seria muito do agrado desta singularíssima Ministra. Ela veria no descalabro, na incompetência, na incapacidade, na impotência, a realização ideal da sua delirante “sociedade inclusiva”. Quando, verdadeiramente, o que os portugueses necessitam – isto tem de ser dito com a força da indignação e da crueza – é do funcionamento, implacável, persistente e redentor, de critérios selectivos, hierárquicos e discriminadores no sistema do ensino. E não só nele. Também nos faria bem que fossemos selectivos na escolha de quem nos governa…


1 de maio de 2008

IN classificável IN qualificável IM perdoável

In classificável in qualificável im perdoável



Encostado à esquina da esquerda

Seguia um homem em zig ………..
zag

O zig sempre lhe pareceu

Mais simpático que o …. …. ... .... ........ zag

Que se quis encostar à direita

por temer a crítica dos conservadores

catalépticos.

Ora, os pticos e ptiques dos catalépti

Sempre afirmaram estar ao servi
ço

De um capitalismo de direita.

Mas também há praí uns gajos que querem a todo o custo ser

De esquerda; quero estar
bem longe desta gente

Sem lhes ficar necessariamente ………. à direita.

Por isso é que na vida eu sempre tive de fazer zig …

Zag .

Gosto mais de ficar catalé-pti-(cu que) ficar com ptiques

De criatura bovina a marrar a marrar a marrar

Na capa vermelha

Dos livros do Mao, (do mau? do péssimo a marrar a marrar a marrar

no bermelho – por mim, prefiro antes o Groucho

Apesar de convir ou de com-ir à direita

De certa parvoíce cuja foice se foi e cujo martelo
nem para camartelo já presta.

Olhópassarinho ! ! UFF!!!


24 de abril de 2008

PELA REPÚBLICA

Estou a escrever este texto no dia 24 de Abril. Amanhã vou colocar uma flor vermelha (um cravo? um botão de rosa? que interessa?) na lapela e viver, contente, mais um aniversário do 25 de Abril. E não vou afrontar ninguém, a menos que o simples acto de memorar, celebrar e ficar feliz seja considerado por alguém como gravemente afrontoso.
Vem isto a propósito de aniversários e centenários. Como pessoa comum, deixo que cada um viva as suas verdades ou as suas ilusões como bem lhe apetecer. É isto a Liberdade: não fazer processos de intenção sobre os objectivos dos demais, a fim de que ninguém se permita invadir e sofismar os nossos mais íntimos e caros propósitos. Depois, há que confiar na Lei. Se alguém exorbitar, se alguém insultar, se alguém denegrir intencionalmente pessoas ou Instituições, subsiste sempre, num Estado de Direito, a possibilidade de recurso aos tribunais – órgãos de soberania, como se sabe.
Fazemos festa na justa medida das nossas crenças e daquilo que identificamos como valores nossos. Eu não sei qual o sentido que a Comissão Nacional, promotora do próximo centenário da República, irá atribuir às comemorações. Sei, isso sim (e de que maneira!) o conjunto de evidências que me obrigarão a saudar, com manifestos propósitos construtivos, os cem anos de República. Saudação individual, decerto. Mas bem sentida!
Quer em Portugal, quer na Europa, foram os partidos republicanos que se bateram pelo sufrágio universal –ou seja, pela Democracia formal – numa época histórica em que o sufrágio era restrito, limitado, censitário, apenas concedido a pessoas que pagassem ao Estado determinados montantes de impostos. Ora, eu gosto do sufrágio universal. Quem não gostar dele, NÃO DEVE saudar a República.
No nosso país, foi a propaganda republicana, através de personalidades como José Elias Garcia, Consiglieri Pedroso, Bernardino Pinheiro, Oliveira Marreca, Teófilo Braga, Alves da Veiga e tantos mais, que protestou contra a mancha de analfabetismo, a qual no pátrio torrão, no último quartel do século XIX, se aproximava dos 90% da população total. Ora, eu entendo que uma Colectividade letrada se encontra mais preparada para contribuir para a Felicidade colectiva. Quem não pensar deste modo NÃO DEVE comemorar a República.
Foram também os militantes republicanos que avocaram os brios patrióticos e mantiveram muito alto o brado do protesto perante transigências, abdicações e subserviências pátrias tão gritantes como as do Tratado de Lourenço Marques, de 1878, ou do Ultimato inglês, de 1890. Ora, eu prezo sempre as desafrontas de um Povo, por pequeno e frágil que seja, perante a arrogância das Potências maiores. Mas admito e defendo que quem isto não prezar NÃO DEVE evocar a República.
A propaganda republicana bateu-se contra a apropriação de funções cristalinamente cívicas por parte de gabinetes religiosos, querendo que os registos civis – como os registos e certidões de baptismo, as certidões e registos de casamento, os registos e certidões de óbito, fossem da responsabilidade de repartições públicas e não de uma burocracia religiosa. É bom lembrar que nunca foi pedido que os senhores padres não fizessem os seus registos. O que se reivindicou foi que os momentos mais significativos e marcantes da vida e da morte dos homens tivessem de ser da competência obrigatória da Grei, ou seja, dos seus servidores civis. Hoje, nesta fase de globalização histórica e de interculturalidade, atrevo-me a pensar que a solução do registo civil foi um dos avanços mais decisivos das sociedades evoluídas. Quem isto não julgar, ou seja, quem pensar que a obtenção de um bilhete de identidade ou de uma certidão de baptismo se deveria requerer aos representantes eclesiásticos, quem disto estiver convicto NÃO DEVE homenagear a República.
Já após a proclamação da República, foram os primeiros gabinetes republicanos que levaram a efeito profundas reformas do ensino, tendo em vista a dignificação e divulgação dos saberes técnico-profissionais e criando uma vasta rede de Escolas de ensino tecnológico. Ora, eu defendo que uma Nação não se constrói só com teóricos, filósofos e literatos, só com doutores e doutorzinhos envernizados, mas se constrói também com práticos competentes nos diversos ofícios. Como é óbvio, quem pensar o contrário NÃO DEVE aplaudir a República.
Empenhou-se o republicanismo em construir o Cidadão de uma Cidade decente e honesta. Certamente que nem todos os republicanos o foram, como ninguém se livrará de máculas de honra e comportamento, dentro ou fora da República. Mas foram os mais impolutos e dignos republicanos, como António José de Almeida ou João Chagas, quem se bateu por um Serviço Público e por uma Política sem corrupções ou manipulações. Ora, eu estou na Praça Pública de mãos limpas e secundo nesta postura o exemplo destes bem maiores expoentes. Mas admito que quem veja num País uma gamela e no exercício de funções políticas uma oportunidade de crapuloso enriquecimento, não queira, NEM DEVA reverenciar a República.
Dir-me-ão os mais renitentes que a República também fez isto, e mais aquilo, e mais aquela outra coisa de errado, ou de errático, ou mesmo de ínvio e de indigno. E eu perguntarei se a história de quaisquer crenças, mesmo daquelas que se arvoram de divinas, não têm as suas páginas de sangue, de latrocínio, de inversão de princípios e de tripúdio de valores.
Cada um celebrará os seus modelos. E todos os temos. Espero não ter de vir à estacada, expor com crueza as fragilidades dos outros, se for chamado à liça para compensar as do meu campo. Mas é tarefa que também não temo, e para a qual estou preparado. Confesso, com orgulho, que um dos meus modelos é o da fórmula republicana. Despeço-me, por isso, com a antiga consigna de toda uma geração: “Saúde e Fraternidade”, meus Amigos!


21 de abril de 2008

ABRIL 34



Querer mudar sem mudarmos o que somos
Querer fazer sem fazermos a diferença
Querer dar sem de nós sobrar assomos
De fé, de razão, de mais firmada crença?

Assim foi nosso Abril no velho Portugal.
Assim imaginámos novos ventos,
Assim, na abalada dos lamentos,
Julgámos abater a muralha do mal.

Foi então tudo vão, tudo mortiço?
Não, mil vezes não, gentes do meu país!
Sentir por uma vez o sonho do cortiço
É já provar o mel, pressentir a raiz …


17 de abril de 2008

CENTENÁRIO DA REPÚBLICA


O Reitor da Universidade Católica, Professor Manuel Braga da Cruz, mostrou-se apreensivo com as próximas comemorações do centenário da República Portuguesa. Deu a entender, sem citar concretamente quaisquer evidências, que essa importante efeméride poderia vir a ser aproveitada pelos republicanos portugueses para descabelados ataques à Igreja Católica.
Salvo melhor opinião, o Professor Braga da Cruz não tem a menor razão. A República em Portugal é hoje um dado adquirido. Consideramo-lo até irreversível. Portugal habituou-se a magistraturas cívicas electivas, periódicas e visceralmente democráticas; habituou-se também a reconhecer apenas, pelo menos no plano dos princípios, as aristocracias de mérito e de trabalho, recusando as chamadas aristocracias de sangue ou de genealogia. E, como manifestamente se tem provado, também se habituou a respeitar as pessoas de credo monárquico, a começar pelo Senhor D. Duarte, pela Senhora Dona Isabel Herédia e pelos filhos de ambos. Há na legislação portuguesa uma directriz que a generalidade dos nossos republicanos tem observado: o direito ao bom nome e reputação dos cidadãos nacionais. Ora, em concordância com isto, os republicanos portugueses têm reverenciado o bom nome e reputação dos pretendentes ao trono português, nossos concidadãos, em paridade perfeita com qualquer um dos nossos compatriotas.
Estes mesmos republicanos têm mantido uma postura de grande respeito pelo trabalho espiritual desenvolvido pela Igreja Católica, que se reconhece e encarece. E espera-se que assim venha a ser o relacionamento futuro, se o Estado mantiver a sabedoria de não invadir a esfera das crenças religiosas e se a Igreja não sucumbir à tentação de irromper com precipitação na esfera puramente temporal.
Trata-se agora de saber se os monárquicos, o Digníssimo Reitor da Universidade Católica, a hierarquia católica portuguesa e a generalidade das forças não-republicanas irão manter para com o regime político que nos governa há quase cem anos a mesma postura de respeito, de comedimento e de polimento. As declarações do Reitor da Universidade Católica, por inoportunas e radicalmente improcedentes, por insustentadas em factos demonstráveis, fazem supor o pior dos cenários. E o pior dos cenários seria a abertura de uma guerrilha de provocação, tendente a ensombrar as próximas comemorações do Centenário da República. Daí que o apelo ao Senhor Presidente da República para que este exerça uma vigilância moderadora sobre a orientação das cerimónias e festividades do Centenário, começando por ser insultuosa para os membros da Comissão Nacional (que se espera que não fiquem calados…), acaba por ser um indirecto acinte a todos os republicanos desta nossa terra, que são, como é bem sabido, a esmagadora maioria. Esta Comissão Nacional, tanto quanto se tem sabido pelos jornais, está indigitada, mas ainda quase nada levou à prática. É formada por individualidades probas, civicamente impolutas, profissionalmente notáveis e eticamente insuspeitas. Daí que possamos perguntar ao Senhor Reitor da Universidade Católica: ao que vem? que sentidos explícitos e implícitos têm os seus estranhos e deslocados apelos? que temores acalenta?
O Centenário da República portuguesa deve ser celebrado em paz, com elevação, com o mais elevado espírito patriótico e com o valor de tolerância a que nos habituou o ideário republicano. Temos a antecipada certeza que são estas as disposições com que os republicanos partirão para a notória e notável efeméride. Assim os deixem perseverar nestas boas disposições. Mas se não deixarem, o Povo republicano aí estará para defender o seu património centenário, neste seu Portugal, também republicano.


28 de março de 2008

POR TERRAS DE ESPANHA

Andei por terras de Espanha e fiz-me acompanhar do imortal volume de Cervantes Saavedra, El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha, na sua língua de origem. Levei um último vestígio desse “complexo de Aljubarrota” que o salazarismo inoculou em toda a minha geração: a dominação filipina, a ameaça da anexação, bem como o provinciano e xenófobo suelto segundo o qual “de Espanha, nem bom vento, nem bom casamento”. E fui lendo uns capítulos do Quijote, à medida que fui avançando para o interior do antigo reino de León, rompendo por planuras cismáticas e por alturas nevoentas.
A Espanha é hoje uma grande e próspera nacionalidade, servida por um povo que me pareceu laborioso, feliz e orgulhoso do seu progresso. E nem sequer nos trata com sobranceria: limita-se a desconhecer-nos! Não porque nos queira mal. Simplesmente porque, dobrada sobre os seus valores, as suas tradições, os seus hábitos de vida, é agora tão absolutamente auto-suficiente que os outros, quaisquer outros, deixaram de ser motivo de atenção.
A Semana Santa é, em toda a Espanha, um prodígio de identidade. Não é que se acolha, na alma de cada espanhol, o antigo fervor das fogueiras inquisitoriais ou o feroz integralismo religioso da experiência franquista. Acontece, isso sim, que a Espanha fez da crença católica um símbolo identitário, no qual plasma uma sociabilidade de arejo comunitário. Eu vi o desfile de várias procissões, com os seus pesadíssimos e dourados andores aos ombros de homens robustos, caminhando a par e em uníssono; eu vi toda uma cidade na rua, sem excessos de fanatismo, mas com a contida alegria de quem reconhece que todo aquele arraial religioso tem de cumprir-se, de celebrar-se com a mesma imperturbabilidade com que o Quijote investia contra moinhos e desbaratava rebanhos de ovelhas; e eu vi, invejoso – invejoso, sim, confesso … - as crianças leonesas a bordejarem os préstitos, à frente dos adultos (porque os adultos faziam gala nisso), aguardando, serenas, que os mais pequenos penitentes, de cogula em bico, lhes viessem dar a mão, num cumprimento carinhoso.
A Espanha é hoje, quero crê-lo, esta lição de continuidade, de apego a si mesma, de perfeita e bem sucedida auto-consciência.
Trouxe comigo o hidalgo ingenioso, para o continuar a ler. Mas deixei lá, enterrado para sempre, o último farrapo, velho e deslocado, da má vontade salazarista.