17 de junho de 2008
UMA EUROPA DOENTE
15 de junho de 2008
NATURA NATURATA

Às vezes, julgo-me transportado ao ventre da Natureza e imagino-me pertença da sua verdade essencial. Não vou até ela cheio de orgulho em mim, nem sequer dou como certo que nela desempenhe um papel fundamental. Pelo contrário, tenho o pressentimento de ter jorrado a partir dela como coisa muito humilde, como uma espécie de resultado secundário, como resultante, portanto, da íntima e avulsa combinação dos seus elementos básicos. Quando penso nisto que sou, nisto que somos todos, neste Ser-para- a-morte, julgo discernir em tudo o que nos rodeia uma espécie de nexo, de global simpatia, de universal afinidade. Imagino-me a subir, sob a forma de um fumo azulado, à transparência de um céu cheio de sol. E creio que tudo se descompõe e recompõe. As moléculas materiais que me geraram como complexidade, desatam-se de mim e são devolvidas à Natureza na sua mais despojada singularidade. Admito que haja neste meu perceber muito de Darwin. Mas há também muito de S. Francisco de Assis, que em cada madrugada saudava a irmã serpente e exaltava o irmão peixe. Depois, nesse ventre misterioso e fundo da Natureza haverá de recomeçar um processo, (inteligente ou não, casual ou determinista), de parto de novos seres. Gostaria de regressar? Certamente que sim. Não me importaria de vir a ser papoula, em campo onde não pastassem cabras. Talvez possa acabar, num qualquer futuro, na jarra florida de uma camponesa. De acabar? Não. De recomeçar sob a forma de húmus, acolhido e recolhido no ventre materno de onde vim.
12 de junho de 2008
BICHEZAS PEREGRINAS
Era um homem que se tinha dado à tarefa de coleccionar ideias. Mas cedo concluiu que para isso seria necessário abandonar os muros da casa onde vivia. Dentro dela colhera a ideia de um pequeno mundo, por onde passeava um gato siamês, um cão S. Bernardo e uma fiada de formigas, quando se esquecia dos restos do almoço na banca da cozinha. Passou então a percorrer a pé a sua cidade. Dentro dela colheu a ideia de uma pequena comunidade, por onde passeavam ao fim da tarde, junto ao rio, vários pares de namorados, muito enlaçados e a escorrerem ternura, dois varredores de lixo e um polícia. Entendeu então que deveria percorrer o país vizinho de automóvel. Dentro dele foi vendo passar praças de touros, lembranças do Quixote, fiadas de gente atrás de andores, em Semanas Santas roxas de crença, e Plazas Mayores atulhadas de gente e de calor. Colheu ali a ideia da alteridade próxima, ou seja, de algo de muito idêntico à sua cidade, mas tão proximamente idêntico que acabava por ser muito outro. Decidiu então correr o resto do mundo, mas reconheceu que só o poderia fazer de avião, sendo certo que não lhe sobejava o dinheiro para pagar tão distantes viagens. Voltou para casa, desgostoso. Recolheu-se à sua biblioteca e começou a ler. Leu muitas coisas: sobre os atavismos das formigas, os hábitos de higiene dos gatos siameses, as fidelidades pachorrentas dos cães S. Bernardo; leu depois romances românticos, textos sobre ecologia e regulamentos de polícia; nos meses seguintes releu o livro do Ingenioso Hidalgo e o poema de García Lorca “ A las cinco de la tarde/ Ay qué terribles cinco de la tarde!/ Eran las cinco en todos los relojes! / Eran las cinco en sombra de la tarde! ” ; nos anos que se sucederam aprendeu outras línguas ... e continuou a ler. Reconheceu, enfim, que podia coleccionar ideias sem sair de casa. Mas também concluiu, logo depois, que só num qualquer país concreto, à beira de um concreto rio é que os seres humanos se reconhecem como tais, sobretudo por fins de tardes namoradas, cheias de sol, quando é possível fazer correr, como na Bíblia, o leite e o mel da nossa promissão.11 de junho de 2008
HERESIA Nº 2

Em certas portas, o Deus vingador
Mandou gravar um sinal de salvação.
Isto se passava no Egipto de então,
E a Civilização vivia o seu alvor.
Certa noite, o mesmo Deus soltou
Um vento gélido de maldição,
Contra filhos de outra geração
Que sem mínima clemência devastou.
Tal Deus passou a ser, desde então,
Um Deus ridículo e sem verdade,
Por todos despedido sem saudade
Do preceito moral em gestação.
Mandou gravar um sinal de salvação.
Isto se passava no Egipto de então,
E a Civilização vivia o seu alvor.
Certa noite, o mesmo Deus soltou
Um vento gélido de maldição,
Contra filhos de outra geração
Que sem mínima clemência devastou.
Tal Deus passou a ser, desde então,
Um Deus ridículo e sem verdade,
Por todos despedido sem saudade
Do preceito moral em gestação.
4 de junho de 2008
HERESIAS
Foi então que ele me disse, num desabafo entre o tédio e a desilusão: - “Pois agora é que eu estava pronto e capaz para fazer de maneira diferente o que fiz de errado há quinze anos”. Quem não ouviu já isto? Pode variar o tema ou a tarefa, pode oscilar o tempo que medeia entre o agora por fazer e o ontem já feito, mas a verdade é que escutamos vozes que dizem, com alguma amargura: - “Agora é que eu estava maduro, preparado, sazonado (para isto ou para aquilo)”. É bom que evitemos este mau hábito. É como se a vida tivesse sido vivida provisoriamente, como se quiséssemos abafar todas as derrotas, superar todos os erros, emendar o caminho já feito. É como se concluíssemos, subitamente doridos e perplexos, que não foi nossa a escolha, nem a vontade, nem o risco, nem a vertigem do viver. Quanto a mim, trilhando como trilhei a estrada do existir, vivi sempre em risco e fui partindo o cristal finíssimo de várias ilusões nas veredas e penedias de pé posto por onde andei. Hoje, olho para trás e digo sempre que valeu a pena. As alegrias e compensações que tive, guardo-as no sacrário da alma e folheio-as de vez em quando, rejuvenescendo rostos antigos de sucesso, de amor, de carinho, de autenticidade. E às tristezas que colhi, às traições de que fui alvo, às maldições que me rogaram, vou sempre conferindo o sentido pedagógico que faz de cada praga uma lição e de cada impropério uma virtual demonstração sobre a verdade do que é capaz a natureza humana. Nunca tive dúvidas sobre o Jano-Homem, com o seu duplo rosto de anjo e de estupor. Aliás, - para que não haja alguma dúvida – eu próprio sou assim. Suspeito até que todos sejamos tais quais, esta mistura exótica, imprevisível, inquietante, de Luz e de Treva. E daqui derivam duas consequências que norteiam o meu proceder. A primeira está no facto de nunca ter amaldiçoado o Diabo, que imagino não ser tão mau como o pintam. A segunda consiste em jamais ter feito de Deus a Suprema Bondade, tendo-o apenas por “bom rapaz”, talvez demasiado atilado para o meu gosto. E, já agora, se quiserem uma terceira consequência, supranumerária, de tudo o que foi dito, então acreditem que eu me esforço sempre muito por não dizer “Hoje é que eu faria bem o que ontem não deu certo”.27 de maio de 2008
UMA IRONIA DE SHAKESPEARE
O episódio do suicídio frustrado do Duque de Gloucester no King Lear , de Shakespeare, é muito impressionante. E é-o sobretudo porque nos obriga a ir além de uma simples leitura do que “realmente é contado”. Mas comecemos por isso, pela simples historieta de um homem velho e cego, desesperado por não ter atingido nenhum dos objectivos a que se propunha, que pede a Tom, um pobre louco, que o guie para junto de um penhasco bem alto, com um precipício bem fundo, para que, assim, possa atirar-se dessas alturas, com a certeza antecipada de que os seus dias iriam terminar, e, com eles, também as provações. Mas Tom conduz Gloucester a um insignificante montículo, impróprio para a concretização do desejo de finitude que anima este tal homem velho e cego. Quase podemos imaginar o grotesco da cena: um ser humano desesperado imagina que se encontra no cimo de uma vertigem, quando afinal só se encontra no sopé de uma idiotice sem sentido. Contadas as coisas assim, com toda esta trivialidade, a historieta quase nos molesta, por canhestra e irrisória. A questão é que o significado mais íntimo das coisas está sempre além delas mesmas. É no simbolismo da Arte que encontramos a mais certeira interpretação da Vida. O desespero de Gloucester deve ser visto como o desespero do fim da existência, altura em que todos os balanços se tornam não apenas possíveis, mas irrevogavelmente verdadeiros. A morte em vida talvez seja essa alegoria de um Desespero (Gloucester) conduzido pela Loucura (Tom). Caminhamos para o fim como desesperados guiados por insanos, nossos iguais em condição, mas de variável lucidez. E quando julgamos poder concretizar uma vontade, a desesperada vontade de partir, verificamos que nem sequer sobre essa temos total soberania.22 de maio de 2008
A MAQUINETA
Ela não sabia o que devia fazer com o saber que lhe tinham dado. Era como um brinquedo ilógico, cheio de botões e de comandos que não tinham préstimo aparente. Depois, as instruções de manuseio deviam estar todas erradas. Havia um manípulo que dizia “Para Apitar” ; mas quando nele se carregava, aquela maquineta começava a andar. Havia um outro que dizia “Para Amar” ; mas se o premíamos, os dois buracos da máquina, presumivelmente os dois olhos dela, começavam a pingar um líquido salgado, semelhante a lágrimas. Havia também uma manivela com uma etiqueta onde se lia “Não carregues aqui”. Era a primeira peça onde toda a gente carregava. E quando isso acontecia, vinha de dentro das roldanas e das rodas de entalhe uma voz sumida, que fazia ouvir esta frase: “Acabas de amaldiçoar o criador da máquina”. Ela não sabia mesmo como haveria de lidar com aquilo. Porém, a compra demonstrara que se tratava de um brinquedo caro, muito lustroso, cobiçado por todos os outros objectos do bazar. E se carregasse em todos os botões, manivelas, campainhas e teclas? Foi o que fez. Mas nada, rigorosamente nada aconteceu. Olhou novamente as instruções, muito decepcionada, quase em estado de raiva. Dobrou-as cuidadosamente, vincando-lhes os bordos, alisando-lhes as nervuras, sobrepondo-lhes os cantos. Lera algures o depoimento de um tal poeta genial e sofredor que um dia teria dito que até na destruição a ordem se tornava necessária. Por isso se dava com toda a aplicação àquela tarefa de dobrar, redobrar e reduzir a folhinhas sobrepostas as folhas maiores do manual de instruções. Feito isto – ao contrário daquele tal poeta de uma ilha de bruma, que havia guilhotinado e lançado à rua uma boa parte da sua obra -, feito isto ela acendeu uma grande fogueira e queimou, cantando, a resma das inúteis instruções. A partir de então, a maquineta passou a funcionar muito melhor.
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