23 de junho de 2008

AS CRIANÇAS

Não é verdade que as crianças sejam imaculadas e incorruptas. Não é verdade que elas correspondam aos paradigmas de inocência com que têm sido desculpabilizadas pelas visões românticas e por todas as mães desvanecidas. Não é verdade que as crianças desconheçam radicalmente a cupidez, a inveja, a hipocrisia, a violência, a crueldade. Mas é verdade que são elas o cadinho de um projecto de Humanidade que tanto poderá pender para o resgate do que temos de mau, no nosso ser mais íntimo, como para a anulação do que poderíamos revelar de bom, conforme o encaminhamento na estrada da vida. É por isso que as crianças são o mais precioso capital de esperança ou a mais nefanda promessa de danação. Está nas mãos dos adultos fazerem delas uma ou outra coisa.

21 de junho de 2008

PASSO A PASSO



Dizem os teóricos do saber antropológico que a imagem do humano foi três vezes humilhada, no arco de tempo que se contém entre a Renascença e o século XX. Primeiramente, teria sido Galileu a retirar o Homem do centro do Universo, ao colocar no eixo do seu sistema do mundo não a terra, mas o sol. Viera depois, bem mais tarde, Charles Darwin, negando-lhe o privilégio da criação divina e convertendo-o numa espécie de primata mais aperfeiçoado. Finalmente, na transição do século XIX para o século XX, as pretensões demonstrativas de Freud roubaram-lhe o orgulho da plena consciência dos seus actos, os quais seriam determinados, em última instância, não pelas directrizes de uma consciência soberana, mas pelas imposições incontroláveis do seu inconsciente dinâmico.
As arrumações do pedagogismo têm destas coisas: criam a ilusão do conhecimento, através do recurso a explicações de fácil digestão. O truque está em se encontrarem meia dúzia de imagens aliciantes, suficientemente coloridas e interiorizáveis sem esforço. Assim se consagra a eternidade de fórmulas ambíguas.
Afinal, falamos do Homem do Renascimento como se este se reduzisse ao escasso punhado de sábios dados às coisas da Astronomia. Pior: como se então estivesse verdadeiramente a nascer o postulado de uma racionalidade demonstrativa e triunfante. Mas não foi na Renascença que mais grassaram os fascínios da demonologia e as falsas promessas da Alquimia, da Cabala e dos mil “saberes subterrâneos”? E teria sido só com Darwin que se estabeleceu o princípio da filiação de todas as organizações vitais, homologação do princípio da unidade da Natureza? O sentimento da afinidade de todas as coisas e da transmutação de umas nas outras não se encontrava já em outros pensadores como em Heraclito ou em Leibniz e na Monadologia deste último? E não é também razoavelmente mítica a tal “descoberta do Insconsciente” por Freud, mesmo na sua dimensão dinâmica? Hegel escreveu as suas mais cintilantes páginas sob a influência do álcool; os românticos franceses da geração pertencente aos ciclos revolucionários de 1830 e 1848 abusaram do absinto e do ópio, justamente por saberem que os letargos alcoólicos e opiáceos lhes favoreciam a criatividade, a partir redutos pré-lógicos ou proto-conscientes. Desconfiemos sempre de reduções explicativas excessivamente peremptórias.

19 de junho de 2008

EXORTAÇÃO REPUBLICANA



O cidadão Licínio Granada, de Tomar, reporta-se à minha carta “A propósito do Centenário da República”, publicada no "Jornal do Fundão", em termos muito cordatos e elogiosos, que lhe agradeço, compondo por sua vez um texto através do qual declara não ir celebrar os próximos cem anos de República porque esta, em seu entender, “está inquinada por uma mácula permanente, qual seja, a de ter sido imposta pela força das armas e não pelo sufrágio popular”. Não tenho a menor intenção de abrir polémica com o meu correligionário Licínio Granada, também ele republicano. Gostaria apenas de tecer, acerca dos seus motivos de desgosto, algumas breves considerações.
A ideia de que toda e qualquer mutação socio-política tenha de ser sufragada, ou seja, sujeita a uma votação formal, é, no meu modesto entender, uma generosa, inviável e nociva ilusão. A ter de ser assim, o regime liberal nunca teria chegado a vingar. É que ele foi imposto, primeiro nos Estados Unidos da América, depois em França e logo a seguir numa grande parte dos países europeus, pela força das armas. Os votos só vieram a seguir. E nem de outro modo poderia ser. O absolutismo monárquico assentava em fundamentos históricos que não se conformavam com o eleitoralismo. Pois se nem sequer havia partidos políticos … É bom também recordar que a monarquia constitucional se impôs em Portugal, fundamentalmente entre 1834 e 1910, como efeito do desenlace de uma longa e cruenta guerra civil, travada entre os adeptos do absolutismo de D. Miguel e os partidários de D. Pedro, antigo Imperador do Brasil, estes últimos apostados em oferecer um trono constitucional à pequena Dª Maria da Glória, filha de D. Pedro. Como se sabe, também a monarquia, quer na sua versão absolutista, quer no seu mote constitucional, não foi legitimada por qualquer sufrágio universal. Nem antes, nem depois de implantada.
A minha honradez intelectual obriga-me a concordar com Licínio Granada num ponto: Portugal não era maioritariamente monárquico em 5 de Outubro de 1910. Era, isso sim, de uma ignorância empedernida e crassa; a taxa de analfabetismo ultrapassaria, segundo alguns historiadores credíveis (Oliveira Marques incluído), mais de oitenta e cinco por cento da população global!!! Era uma formação social que se via à margem do progresso geral do industrialismo europeu. Os campos rebentavam de fome. As cidades, como o registou Ramalho Ortigão (insuspeito monárquico), tresandavam, pois eram fétidas e sujas, por falta de saneamentos básicos e de recolha de lixos. As vias férreas – que na Grã-Bretanha já existiam desde o início do século XVIII e que já eram uma trivialidade na Europa dos primeiros decénios de Oitocentos – só surgiram entre nós em 1856, através de um pindérico troço de 25 quilómetros, inaugurado com pompa e fanfarra por D. Pedro V, entre Lisboa e o Carregado. A própria “democracia monárquica” era um embuste. A Carta Constitucional de 1826 só consignava direitos eleitorais censitários, isto é, só atribuía capacidade eleitoral, direitos de voto, a quem pagasse determinados montantes de imposto, imposto que na época era designado sob o nome de “censo”. Que significa isto? Isto significa que o voto se concentrava nas mãos de meia dúzia de terratenentes e de caciques. Após o Ultimato inglês de 1890, a corrupção financeira e política era verdadeiramente inimaginável. Quando Oliveira Martins foi ministro, no gabinete presidido por Dias Ferreira, fez questão de provar numa sessão histórica, em plena Câmara Legislativa, com documentos na mão, que o antigo ministro Mariano de Carvalho, do Partido Progressista (monárquico) havia roubado quantias vultuosíssimas. E ele replicou mais ou menos assim: “Pois sim. Mas fui a Inglaterra negociar um empréstimo e salvei Portugal da bancarrota”. Pasmoso episódio! E mais pasmosa se torna a credibilidade da Coroa portuguesa se pensarmos que pouco depois da denúncia de Oliveira Martins, não foi Mariano de Carvalho a ser preso, mas o ministro Martins a ser baldeado da sua pasta. É necessário dizer mais alguma coisa? Uma monarquia que chega a estas formas de vilania merece tombar através da indignação das balas.
Poderia aduzir muitas outras razões. Mas não quero cansar os leitores, nem abusar das colunas do prestigioso “Jornal do Fundão”. Exortarei, isso sim, – com a maior deferência e gentileza – o meu correligionário Licínio Granada, também ele republicano, a celebrar, com alegria e sem quaisquer restrições, os nossos cem anos de República.
Viva a República Portuguesa! “Saúde e Fraternidade”!

17 de junho de 2008

UMA EUROPA DOENTE

A Europa perdeu-se de si mesma. É hoje um continente esgotado, envelhecido e subserviente. A Europa trocou o estimulante mundo dos seus valores primitivos – a cogitação criativa da filosofia, de matriz grega, a ponderação dos princípios de equidade, de raiz romana, a forte alegria e exteriorização vital da latinidade – por modelos de vida e de pensamento importados a partir dos Estados Unidos da América. Ao fazê-lo, vendeu a alma. Prostituiu-se. Ninguém poderá esperar hoje desta Europa, vergada a modelos tecnocráticos e a evangelhos grosseiramente utilitaristas, ninguém deverá presumir que dela fluam directrizes de pensamento, escolas estéticas, correntes literárias, propostas musicais, inovações de palco, ousadias de imagem, que foram a sua “marca de água” desde os tempos originários. Ou, se houver de tudo isto um arremedo, um esgar, uma grosseira imitação, de tudo isto se poderá dizer que é o distante clarão de um incêndio pretérito. Com que sonha hoje a média da cidadania europeia “educada”? Sonha com automóveis, com operações especulativas e com hedonismos gástricos. A Europa quer, nos dias de hoje, comer como os americanos, vestir como os americanos, auferir salários “à americana”, viver como lá. Começa-se a falar na necessidade de se equipar militarmente. É a cereja no cimo do bolo: a Europa deseja também matar tão eficaz e discricionariamente como os Estados Unidos da América ! …

15 de junho de 2008

NATURA NATURATA


Às vezes, julgo-me transportado ao ventre da Natureza e imagino-me pertença da sua verdade essencial. Não vou até ela cheio de orgulho em mim, nem sequer dou como certo que nela desempenhe um papel fundamental. Pelo contrário, tenho o pressentimento de ter jorrado a partir dela como coisa muito humilde, como uma espécie de resultado secundário, como resultante, portanto, da íntima e avulsa combinação dos seus elementos básicos. Quando penso nisto que sou, nisto que somos todos, neste Ser-para- a-morte, julgo discernir em tudo o que nos rodeia uma espécie de nexo, de global simpatia, de universal afinidade. Imagino-me a subir, sob a forma de um fumo azulado, à transparência de um céu cheio de sol. E creio que tudo se descompõe e recompõe. As moléculas materiais que me geraram como complexidade, desatam-se de mim e são devolvidas à Natureza na sua mais despojada singularidade. Admito que haja neste meu perceber muito de Darwin. Mas há também muito de S. Francisco de Assis, que em cada madrugada saudava a irmã serpente e exaltava o irmão peixe. Depois, nesse ventre misterioso e fundo da Natureza haverá de recomeçar um processo, (inteligente ou não, casual ou determinista), de parto de novos seres. Gostaria de regressar? Certamente que sim. Não me importaria de vir a ser papoula, em campo onde não pastassem cabras. Talvez possa acabar, num qualquer futuro, na jarra florida de uma camponesa. De acabar? Não. De recomeçar sob a forma de húmus, acolhido e recolhido no ventre materno de onde vim.

12 de junho de 2008

BICHEZAS PEREGRINAS

Era um homem que se tinha dado à tarefa de coleccionar ideias. Mas cedo concluiu que para isso seria necessário abandonar os muros da casa onde vivia. Dentro dela colhera a ideia de um pequeno mundo, por onde passeava um gato siamês, um cão S. Bernardo e uma fiada de formigas, quando se esquecia dos restos do almoço na banca da cozinha. Passou então a percorrer a pé a sua cidade. Dentro dela colheu a ideia de uma pequena comunidade, por onde passeavam ao fim da tarde, junto ao rio, vários pares de namorados, muito enlaçados e a escorrerem ternura, dois varredores de lixo e um polícia. Entendeu então que deveria percorrer o país vizinho de automóvel. Dentro dele foi vendo passar praças de touros, lembranças do Quixote, fiadas de gente atrás de andores, em Semanas Santas roxas de crença, e Plazas Mayores atulhadas de gente e de calor. Colheu ali a ideia da alteridade próxima, ou seja, de algo de muito idêntico à sua cidade, mas tão proximamente idêntico que acabava por ser muito outro. Decidiu então correr o resto do mundo, mas reconheceu que só o poderia fazer de avião, sendo certo que não lhe sobejava o dinheiro para pagar tão distantes viagens. Voltou para casa, desgostoso. Recolheu-se à sua biblioteca e começou a ler. Leu muitas coisas: sobre os atavismos das formigas, os hábitos de higiene dos gatos siameses, as fidelidades pachorrentas dos cães S. Bernardo; leu depois romances românticos, textos sobre ecologia e regulamentos de polícia; nos meses seguintes releu o livro do Ingenioso Hidalgo e o poema de García Lorca “ A las cinco de la tarde/ Ay qué terribles cinco de la tarde!/ Eran las cinco en todos los relojes! / Eran las cinco en sombra de la tarde! ” ; nos anos que se sucederam aprendeu outras línguas ... e continuou a ler. Reconheceu, enfim, que podia coleccionar ideias sem sair de casa. Mas também concluiu, logo depois, que só num qualquer país concreto, à beira de um concreto rio é que os seres humanos se reconhecem como tais, sobretudo por fins de tardes namoradas, cheias de sol, quando é possível fazer correr, como na Bíblia, o leite e o mel da nossa promissão.

11 de junho de 2008

HERESIA Nº 2


Em certas portas, o Deus vingador
Mandou gravar um sinal de salvação.
Isto se passava no Egipto de então,
E a Civilização vivia o seu alvor.

Certa noite, o mesmo Deus soltou
Um vento gélido de maldição,
Contra filhos de outra geração
Que sem mínima clemência devastou.

Tal Deus passou a ser, desde então,
Um Deus ridículo e sem verdade,
Por todos despedido sem saudade
Do preceito moral em gestação.