7 de julho de 2008

REFLEXOS DE ÁGUA


Lançamos uma pedra às águas paradas e a resposta é-nos dada sob a forma de círculos concêntricos, que se vão desenhando de forma cada vez mais oscilante. Encrespam-se as águas dentro de limites bem definidos, como se uma regra íntima comandasse a resposta dada ao nosso gesto. Dou-me a pensar que é também desta maneira que o mundo da nossa sociabilidade se constrói. O círculo mais pequeno é o da nossa família directa, apresentando contornos precisos e contidos. Mas logo vem o círculo mais dilatado dos amigos da juventude ou dos simples conhecidos que vamos encontrando por aqui ou por ali. Lentamente, formamos a ideia de país, já mais vasta do que a de família, mas inesperadamente próxima do primitivo modo de ser. Há que sublinhar a proximidade vocabular, em língua portuguesa, da palavra pais e da palavra país, penhor provável de uma parentela moral mais ampla, mas sentida, emotivamente, em moldes muito semelhantes. Outros círculos concêntricos são traçados pela pedra da Consciência na água da Convivência. O último deles chama-se Género Humano. É de todos o mais ondulante e problemático. Mas é também o mais amplo. Atrevo-me a dizer que é também o mais belo. É nele que se joga o valor e o préstimo do Cidadão do Mundo, consagrado desde a experiência vivente e convivente da “polis” grega.
A questão está toda em saber se as fontes desta universalidade ainda permanecem cristalinas. Faltam-nos filósofos e sobram-nos técnicos de publicidade. E estes, quando atiram as suas pedras à água, nunca conseguem o equilíbrio do concêntrico. Vá-se lá saber porquê!

2 de julho de 2008

ESPELHOS DA ALMA ?


A fisiognomonia pretendeu ser a ciência dos rostos. Vinda dos confins da antiguidade, o seu programa consistiu em detectar, a partir de certos sinais fisionómicos, considerados significativos, o segredo da alma humana. Leonardo da Vinci, que não considerava a fisiognomonia uma ciência mas um simples processo de adivinhação, concedia que os traços de um rosto, definidos a partir da articulação mútua da ossatura, dos nervos e da distribuição dos tecidos, pudessem predizer o carácter íntimo da pessoa, o seu perfil moral. Afirmou-o sem hesitação no seu Tratado da Pintura e voltou a corroborá-lo em certas obras suas, menos divulgadas do que obras-primas como A Ceia e a Gioconda. Referimo-nos às suas caricaturas grotescas, uma das quais reproduzimos. São rostos feios, mas de uma fealdade toda natural. Olhamo-los e é legítimo que pensemos que os poderemos encontrar ao sair de casa, se descontarmos as vestimentas da época e só atendermos às expressões. Efectivamente, existem rostos de uma doçura infinita; outros há que exprimem uma incontrolável tensão e uma violência sem disfarce; outros supuram lascívia, ou bondade, ou inveja, ou preguiça, ou displicência. Talvez possamos conceder que o rosto seja um “espelho da alma”, reflectindo nele o que temos de melhor ou de pior.
Mas continuaremos a considerar a fisiognomonia uma disciplina perigosa. É que ela tem a pretensão de nos conduzir do aparecer ao ser, ou seja, de nos levar do fenómeno visível à autenticidade invisível. O que vemos é só um produto sob a forma de imagem, uma imagem modelada por malares, maxilares, dentes, rugas, protuberâncias, etc. O julgamento através da imagem, do aparecer, corre o risco de conceder demasiado espaço ao preconceito. É mais seguro julgar o próximo através da acção, do que ele efectivamente faz. É mais seguro e, sobretudo, mais justo. O rosto pode enganar. O acto está lá. Podemos analisá-lo nos mínimos detalhes, sopesá-lo no seu intrínseco significado, atribuir-lhe sentido. Que a navegação não se deixe encantar pela beleza das faces. A beleza dos actos é mais incorpórea, sim, mas é também muito mais taxativa. Foi o canto e o rosto das sereias que arrombou o casco a muitas navegações incautas ...

30 de junho de 2008

DIÁRIO DOS ABUTRES


Vem primeiro a notícia do acidente de viação, depois a do contrato milionário do tal jogador de futebol, a seguir a do tufão nos mares asiáticos e a do aluno que bateu no professor e a do afundamento das cotações na Bolsa e mais a da manifestação sindical e a do tigre à solta numa zona rural qualquer (que afinal não era tigre mas antes cão grande) e mais esta, e mais outra e mais aqueloutra, e mais, e mais, e mais.
O mundo é hoje uma orgia de informação : informação áudio-visual, na televisão, informação puramente auditiva, na rádio, informação virtual, via Internet, informação profissional, transmitida pelos nossos colegas de trabalho, informação social, naquele jantar de anos, informação, informação, informação.
Há um dito latino que nos diz que quod abundat non nocet – “o que abunda (ou o que está a mais) não prejudica”. Cremo-lo falso, quase perverso. O que abunda, o que está a mais, trivializa, cria a ilusão do espectáculo sem consequências. Tudo parece valer o mesmo, ou seja, muito pouco. A notícia é hoje mercadoria abundantíssima e, portanto, de baixa cotação. Foi isto que nos roubou, lentamente, a alma. Fizemo-nos máquinas registadoras de cifras e paisagens. Julgámos equivalente à informação meteorológica a comprovação do comportamento crapuloso dos nossos políticos ( que também são uma chuva de nulidades e um tornado de imbecis). Demo-nos a pensar que a informação do excesso de manteiga nos mercados europeus era tão insignificante como a da razia da tuberculose no Corno de África, ou a da malária na África húmida ou a dos bebés que morrem de fome num qualquer lugarejo do mundo que Cristo ignorou.
Acode-nos à mente a fotografia horrenda daquela criança negra, moribunda, a arrastar-se num chão seco, crestado, vigiada de perto por um abutre quase tão grande como ela, passarão ladino, predador, que aguarda, já impaciente, o último estertor da vida para a poder dilacerar, já morta. A criança talvez não soubesse, no exacto instante em que o repórter disparou a sua máquina, que iria morrer logo depois; mas sabia certamente que sofria e que o chão, indiferente à sua dor muda, era o último limite da sua solidão.
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“Bela foto, não é ? Parece que o tipo que a tirou vai ganhar um concurso importante de fotojornalismo”, dizem-me.

Ah, mundo, mundo imundo, mundo-abutre, mundo-pulha, por onde Cristo, Maomé, Buda e Confúcio não deixaram o menor vestígio de passagem …

27 de junho de 2008

PERGUNTEM A MALTHUS

Dizem as previsões demográficas que a população mundial chegará aos dez mil milhões de indivíduos no ano de 2050. E a questão coloca-se: há terra suficiente para tantos seres humanos? A esta pergunta, outras poderão juntar-se: as possibilidades de sobrevivência deste gigantesco formigueiro assegurar-se-ão com o actual sistema de partilha de riquezas? ; o capitalismo puro e duro, tal como o conhecemos, resistirá ao embate deste acréscimo de consumidores potenciais? ; e, a resistir, poderá tal sistema económico salvaguardar os fundamentos da democracia representativa e do individualismo, em que se tem estribado? ; esta imensa legião de estômagos gerará só o caos ou, por mediação dele, contribuirá para a definição de uma nova ordem internacional, nos planos económico, político-social, cultural, ético?; a dignidade do Homem e a integridade da Terra sairão incólumes deste tremendo desafio?
O crescimento da população mundial tem obedecido, desde os meados do século XVIII, às previsões sombrias de Malthus (1766-1834). Advertiu ele que a “lógica da penúria” era irreversível, caso não fossem tomadas medidas drásticas. É que, de acordo com a sua análise, o incremento dos recursos necessários à vida, sobretudo dos nutrientes, encontrava-se subordinado a um ritmo aritmético de progressão (2,4,6,8,10, etc), ao passo que a multiplicação da espécie obedeceria a um ritmo geométrico (2,4,8,16,32, etc). Por isso, Malthus aconselhava que as mulheres se decidissem a casar mais tarde, em idades menos férteis, recomendando ainda as práticas de abstenção ou de neutralização sexuais e até o recurso a fórmulas idênticas às que hoje se agrupam sob a designação de "planeamento familiar". Defendia ainda que as catástrofes naturais, as grandes epidemias e as devastações militares, longe de serem calamidades absolutas, deveriam ser vistas como “males necessários”, introduzindo correctivos moderadores nesta expansão populacional.
As previsões de Malthus foram tidas como excessivamente pessimistas ao longo do século XIX e durante a primeira metade do século XX. No entanto, a China – que irá ser a Super-Potência do futuro (se não o estiver já a ser no presente…) – adoptou sem hesitação uma parte substancial do programa de Malthus. Uma coisa temos como certa: a questão demográfica irá ser, sem receios de contradita, a mais decisiva, a mais estruturadora das realidades e a mais impositiva, no amanhã que se avizinha.

25 de junho de 2008

SOBRE A FEROZ SUBMISSÃO

Queria hoje falar-vos de uma experimentação psicológica singular, a qual provou até que inimagináveis limites de labilidade e de fraqueza pode o bicho-homem chegar, quando se vê confrontado com tudo o que possa simbolizar ou representar a Autoridade. Em que consistiu essa prova singular? Primeiro arranjou-se um grupo de cidadãos de ambos os sexos, com aquela credibilidade que é fornecida por um registo criminal limpo, um emprego estável, uma família “funcional” (mantenhamo-nos fiel à terminologia “técnica”…) e um registo de tributação identificador da classe média. Convenceram depois estes estimáveis exemplares da espécie humana de que iriam colaborar numa prova de transcendente interesse científico. Essa prova consistiria em premir um botão que comandava um conjunto de descargas eléctricas, progressivamente mais fortes, às quais estaria sujeita uma cobaia, também ela humana e sem abominações reconhecidas. Os “electricistas” foram esclarecidos previamente sobre o grau máximo da voltagem a que resistiria o paciente, para além da qual a sua vida entraria em risco. Mais: foi-lhes dito que uma só descarga de potência muito elevada, devidamente assinalada, de resto, no tabuleiro do disparo, seria inexoravelmente fatal. Depois meteram-lhes nas mãos o instrumento de tortura e pediram-lhes (ou ordenaram-lhes?) que obedecessem às instruções de uma voz-off oculta, nos devidos termos em que esse Grande Pai os instruísse. Ninguém, antes da prova se iniciar, questionou a legitimidade dela. Depois, todos cumpriram sem a menor hesitação as voltagens mais baixas. Continuaram a executar as descargas de risco, mas agora chamando a atenção para a possibilidade de colapso do paciente. Irei silenciar piedosamente a percentagem dos que, embora sob protestos e advertências puramente verbais, atingiram a bestialidade da voltagem fatal. Mas poderei assegurar que foram raros, muito raros, os que se negaram a assassinar o semelhante, reagindo com honra e dignidade à intimação de uma voz imperativa, autoritária, sonoramente coactiva. Claro que a aludida experimentação era um “faz-de-contas”. Mas as vozes dos tiranos que mataram por procuração ao longo da História não foram um jogo inofensivo ou uma ilusão. Falam por eles a memória de todos os torcionários e o testemunho de todos os morticínios.

23 de junho de 2008

AS CRIANÇAS

Não é verdade que as crianças sejam imaculadas e incorruptas. Não é verdade que elas correspondam aos paradigmas de inocência com que têm sido desculpabilizadas pelas visões românticas e por todas as mães desvanecidas. Não é verdade que as crianças desconheçam radicalmente a cupidez, a inveja, a hipocrisia, a violência, a crueldade. Mas é verdade que são elas o cadinho de um projecto de Humanidade que tanto poderá pender para o resgate do que temos de mau, no nosso ser mais íntimo, como para a anulação do que poderíamos revelar de bom, conforme o encaminhamento na estrada da vida. É por isso que as crianças são o mais precioso capital de esperança ou a mais nefanda promessa de danação. Está nas mãos dos adultos fazerem delas uma ou outra coisa.

21 de junho de 2008

PASSO A PASSO



Dizem os teóricos do saber antropológico que a imagem do humano foi três vezes humilhada, no arco de tempo que se contém entre a Renascença e o século XX. Primeiramente, teria sido Galileu a retirar o Homem do centro do Universo, ao colocar no eixo do seu sistema do mundo não a terra, mas o sol. Viera depois, bem mais tarde, Charles Darwin, negando-lhe o privilégio da criação divina e convertendo-o numa espécie de primata mais aperfeiçoado. Finalmente, na transição do século XIX para o século XX, as pretensões demonstrativas de Freud roubaram-lhe o orgulho da plena consciência dos seus actos, os quais seriam determinados, em última instância, não pelas directrizes de uma consciência soberana, mas pelas imposições incontroláveis do seu inconsciente dinâmico.
As arrumações do pedagogismo têm destas coisas: criam a ilusão do conhecimento, através do recurso a explicações de fácil digestão. O truque está em se encontrarem meia dúzia de imagens aliciantes, suficientemente coloridas e interiorizáveis sem esforço. Assim se consagra a eternidade de fórmulas ambíguas.
Afinal, falamos do Homem do Renascimento como se este se reduzisse ao escasso punhado de sábios dados às coisas da Astronomia. Pior: como se então estivesse verdadeiramente a nascer o postulado de uma racionalidade demonstrativa e triunfante. Mas não foi na Renascença que mais grassaram os fascínios da demonologia e as falsas promessas da Alquimia, da Cabala e dos mil “saberes subterrâneos”? E teria sido só com Darwin que se estabeleceu o princípio da filiação de todas as organizações vitais, homologação do princípio da unidade da Natureza? O sentimento da afinidade de todas as coisas e da transmutação de umas nas outras não se encontrava já em outros pensadores como em Heraclito ou em Leibniz e na Monadologia deste último? E não é também razoavelmente mítica a tal “descoberta do Insconsciente” por Freud, mesmo na sua dimensão dinâmica? Hegel escreveu as suas mais cintilantes páginas sob a influência do álcool; os românticos franceses da geração pertencente aos ciclos revolucionários de 1830 e 1848 abusaram do absinto e do ópio, justamente por saberem que os letargos alcoólicos e opiáceos lhes favoreciam a criatividade, a partir redutos pré-lógicos ou proto-conscientes. Desconfiemos sempre de reduções explicativas excessivamente peremptórias.