
Dizem os entendidos, sejam eles linguistas, literatos ou outros especialistas da palavra, que a Saudade – habitualmente escrita com letra maiúscula – é um vocábulo ímpar, específico do modo de ser português, tão nosso como as unhas são das mãos. As unhas, desde que saudáveis, só se arrancam dos dedos com dor e sangue. Também as saudades, se é certo o que se proclama, só se removem do peito com drama e tempo de esquecimento. Estes afectos íntimos, estes eflúvios, que Descartes identificaria como paixões da alma, provocados pela movimentação dos espíritos animais, estas comoções, estes transportes de nostalgia vaga, são o resultado de ausências sentidas como privações.
Mas quando um povo, no seu todo, plasma na sua melhor poesia, na sua mais decantada prosa, o estímulo deste ciciado vocábulo e o eleva à dignidade de uma categoria identitária, o que se pode declarar é que não é da privação de um ser concreto e individual que emana o fundamento da Saudade. O que os portugueses têm é saudades deles próprios, como Alma Colectiva, como Ser Social, como ponto de aplicação de um Comum Destino. Se isto for verdade, o que tal significa é que nós, portugueses, nunca ou quase nunca pudemos conseguir realizar a Paixão de que somos portadores. Fazemos fados, uns atrás dos outros, que não é mais do que um modo de chorarmos sobre nós próprios.





