20 de julho de 2008

ELOGIO DO CINISMO


O cinismo, tão mal visto ao longo da história por sucessivas gerações idealistas, converteu-se hoje no último bastião da denúncia ética. O cinismo repousa, fundamentalmente, numa reserva mental e no recurso à falsa aparência: numa reserva mental porque o cínico sabe, no interior de si próprio, que rejeita os valores da sociedade que o rodeia; numa falsa aparência, porque ele também sabe que a simulação de obediência à realidade instalada é o preço a pagar pela sua sobrevivência. Não nos enganemos com as roupagens da chamada “liberdade democrática”. A democracia representativa, tal como foi instalada pelos distantes revolucionários de 1789, nunca quis ser outra coisa senão a contrafacção das opressões anteriores, agora com novos comparsas de classe, a que se somou, apressadamente e de forma nem sempre convicta, a mitologia do sufrágio universal. Foi um negócio de ciganos que, a espaços, convenceu os feirantes de que alguma coisa de novo e de edificante se poderia esperar. Foi o que se passou, por exemplo, nessa “alvorada dos povos” do ano de 1848, rapidamente volvida em crepúsculo de tirania e de imperialismo. Foi também o que aconteceu, por exemplo, no Maio francês de 1968 ou, à nossa pequena escala, no Abril de 1969 e de 1974. O que a ciganagem dos poderes acabou por conseguir está aí, à vista de todos. Assim, as esperanças vencidas, traídas ou trapaceadas acabaram por se acolher ao ninho de corações desiludidos, sim, mas também tangencialmente resistentes. Foram esses que disseram para os botões da farpela usada pela antiga crença: “vou fazer de contas que gosto disto; vou simular que estou adaptado”. São estes os cínicos autênticos, aqueles que ainda podem contar no amanhã. Um protesto surdo, qual sombra vaga em alma dolorida, espalha-se por comportamentos aparentemente conformados. Dirão os mais rigorosos que falta aqui a figura do resistente à outrance. Faltará? Por mim, que sempre gostei do teatro de sombras chinesas, confio mais num bom cínico silencioso do que nos uivos parlamentares de um resistente histérico. Tenho o primeiro por mais fiável … e até por mais honesto. Mas isto sou eu a pensar alto: não liguem !

17 de julho de 2008

A QUEM NOS QUER BEM

Aos Meus Amigos Professores
Luís Alves de Fraga e João de Castro Nunes.

Que viva quem nos quer bem
Na porfia desta vida
E quem nos der por cumprida
A razão deste entretém.

Quem me lê dá-me a certeza
De saber que vivo estou
E de conhecer que vou
No bom rumo da lhaneza.

Que viva quem nos quer bem
E quem nos dá alegrias
No vencer destas porfias
De saber o que se tem.

Cá por mim digo em verdade
Que por cada verso feito
Me sinto tão imperfeito
Quão falho de qualidade.

Cada vento, cada vela
Cada mar, cada saudade
Cada hora de trindade
Aponta uma nova estrela.

Sinto-me vogar no Além
Como se me desfizesse
Num caminho, numa prece,
Que tudo pede a ninguém.

Cada um guarde o que tem
A cada qual obrigado
Por destino destinado.
Que viva quem nos quer bem!

15 de julho de 2008

DE MONSTRIS

Se quiseres converter-te num monstro, não te esqueças de viver de acordo com os seguintes preceitos:

1º - Considera sempre a diferença como uma ameaça, seja ela diferença de etnia, de opinião, de gosto subjectivo ou de estatuto social.

2º - Não acredites na generosidade. Invoca Hobbes e declara, em todas as situações, que “o homem é o lobo do homem”.

3º - A Liberdade será sempre para ti uma utopia generosa mas irrealizável, porque o que o ser humano necessita é de rédea curta e de chicote preparado.

4º - Proclama legítima e pedagógica toda a violência sobre as mulheres e as crianças.

5º - Descobre, nos actos de cada um e de todos, a hipocrisia de um entranhado calculismo, mesmo se, aparentemente, tais actos possam ter a feição de dádivas movidas pelo altruísmo.

6º - Desconfia da ingenuidade e não acredites na inocência. Todos deverão ter uma culpa escondida a expiar.

7º - Declara-te infalível na avaliação do comportamento alheio.

8º - Repudia energicamente a ternura, sempre que a vires assomar ao teu coração.

9º - Nunca aceites que alguém possa ser-te superior, quaisquer que sejam os planos da comparação com as tuas próprias realidades.

10º - Nunca sejas grato a quem te fez bem.

13 de julho de 2008

NOS CINQUENTA ANOS DA "CARTA A SALAZAR"

Faz hoje precisamente cinquenta anos que um grande português e um nobilíssimo bispo da Igreja Católica, D. António Ferreira Gomes, confrontou o ditador António de Oliveira Salazar com um documento denunciador do carácter aviltante do regime então vigente. Não se tratou exactamente de uma carta, como ficou impropriamente conhecida, mas de um memorial, através do qual aquele notável representante da hierarquia eclesiástica interpelava Salazar sobre os termos em que poderia ou não ser exercida a actividade política por parte dos católicos. Porém, antes de o questionar sobre tal exercício, D. António Ferreira Gomes examinava atentamente os mais salientes e controversos aspectos da medíocre vida pública do tempo. A chamada “Carta a Salazar” reconhecia que o Estado Novo semeara a miséria e a desesperança por largos sectores da população; que o corporativismo, adoptado como panaceia para desdramatizar as relações de negociação entre o Capital e o Trabalho, era um simples artifício para que aquele exercesse sobre este uma despudorada exploração; que a proibição da greve era uma violência à luz do direito positivo e uma ilegitimidade à luz do direito natural; que a distribuição da riqueza produzida estava longe de ser equitativa e pacificadora, antes produzindo nos mais carenciados o espírito de inconformismo e de revolta; que o “financismo à outrance”, praticado em Portugal, acabava por saldar-se num “economismo despótico”, traduzido “em benefício dos grandes contra os pequenos e finalmente na opressão dos pobres”. Numa palavra, D. António Ferreira Gomes lançava a Salazar e ao salazarismo o desafio de uma denúncia inteligente e fundamentada. Esse memorial, que deveria servir como enunciado de questões a tratar numa futura reunião entre o bispo e o ditador, transpirou para a opinião pública e suscitou nela uma reacção de pasmo. Pois quê? A Igreja Católica portuguesa, poder espiritual tido como conservador e encarado por muitos como cúmplice da ditadura, falava à tirania com o vocabulário de uma viril desafronta? A Igreja acomodada do Patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, parecia situar-se nos antípodas desta outra Igreja incómoda, frontal e rebelde. Salazar reagiu ao seu modo provinciano e brutal: aproveitou uma saída do país do seu contraditor para, no regresso, lhe fechar a fronteira. E o bispo do Porto só regressou a Portugal em 1969, em pleno consulado marcelista. D. António Ferreira Gomes cumpriu exemplarmente, no seu pastoreio espiritual, aquela máxima que adoptara nos inícios da sua edificante carreira e que o mandava estar de joelhos perante Deus, mas de pé perante os homens. Houve na Igreja daquele tempo, há cinquenta anos, num país vergado à sanha de verdugos medíocres, uma Consciência que se recusou à capitulação. Essa Consciência foi a do bispo D. António Ferreira Gomes. Evocá-lo hoje é um dever de gratidão e um direito de cidadania.

10 de julho de 2008

FOME E TRUFAS


O noticiário diz-me que os representantes dos mais ricos países do globo reuniram num qualquer lugar deste peregrino mundo para discutirem gravemente o flagelo maior da Humanidade: a fome. A conversa foi renhida. Tão renhida e séria, tão polémica e incandescente que fez … fome. As sublimidades foram então almoçar, acrescentando o noticiarista que o apetite era muito. Mas as vitualhas escolhidas revelaram-se à prova de quaisquer exigências estomacais e dos mais imperiosos assomos de requinte. Sabe-se que foram servidas trufas negras, vinhos preciosos e toda a casta de iguarias, dignas de Nero e do seu afeiçoado Petrónio. Como era de prever, o conciliábulo terminou sem conclusões, mas com muitos "tagatés" e votos de mútuas prosperidades, formulados pelos ilustres convivas. Todos falaram, aos brindes da sobremesa, nas crianças do Sudão, nos velhos da Etiópia, na penúria de certos pueblos mexicanos, nas patifarias de Mugabe e nas razias da tuberculose, já às portas da Europa, seguramente trazida por etnias magrebinas, em migratórias demandas, incómodas e pouco recomendáveis. Depois rumaram todos às suas casas, convictos de que o problema da fome no mundo é de tal maneira sério que se tornavam necessárias, para o resolver cabalmente, mais umas cinco ou seis reuniões, iguais à que decorrera. O jornal não dizia o mais importante, ao omitir que a vergonha é hoje um prurido escasso. Tão escasso como as trufas negras.

8 de julho de 2008

SAUDADES DE NÓS


Dizem os entendidos, sejam eles linguistas, literatos ou outros especialistas da palavra, que a Saudade – habitualmente escrita com letra maiúscula – é um vocábulo ímpar, específico do modo de ser português, tão nosso como as unhas são das mãos. As unhas, desde que saudáveis, só se arrancam dos dedos com dor e sangue. Também as saudades, se é certo o que se proclama, só se removem do peito com drama e tempo de esquecimento. Estes afectos íntimos, estes eflúvios, que Descartes identificaria como paixões da alma, provocados pela movimentação dos espíritos animais, estas comoções, estes transportes de nostalgia vaga, são o resultado de ausências sentidas como privações.
Mas quando um povo, no seu todo, plasma na sua melhor poesia, na sua mais decantada prosa, o estímulo deste ciciado vocábulo e o eleva à dignidade de uma categoria identitária, o que se pode declarar é que não é da privação de um ser concreto e individual que emana o fundamento da Saudade. O que os portugueses têm é saudades deles próprios, como Alma Colectiva, como Ser Social, como ponto de aplicação de um Comum Destino. Se isto for verdade, o que tal significa é que nós, portugueses, nunca ou quase nunca pudemos conseguir realizar a Paixão de que somos portadores. Fazemos fados, uns atrás dos outros, que não é mais do que um modo de chorarmos sobre nós próprios.

7 de julho de 2008

REFLEXOS DE ÁGUA


Lançamos uma pedra às águas paradas e a resposta é-nos dada sob a forma de círculos concêntricos, que se vão desenhando de forma cada vez mais oscilante. Encrespam-se as águas dentro de limites bem definidos, como se uma regra íntima comandasse a resposta dada ao nosso gesto. Dou-me a pensar que é também desta maneira que o mundo da nossa sociabilidade se constrói. O círculo mais pequeno é o da nossa família directa, apresentando contornos precisos e contidos. Mas logo vem o círculo mais dilatado dos amigos da juventude ou dos simples conhecidos que vamos encontrando por aqui ou por ali. Lentamente, formamos a ideia de país, já mais vasta do que a de família, mas inesperadamente próxima do primitivo modo de ser. Há que sublinhar a proximidade vocabular, em língua portuguesa, da palavra pais e da palavra país, penhor provável de uma parentela moral mais ampla, mas sentida, emotivamente, em moldes muito semelhantes. Outros círculos concêntricos são traçados pela pedra da Consciência na água da Convivência. O último deles chama-se Género Humano. É de todos o mais ondulante e problemático. Mas é também o mais amplo. Atrevo-me a dizer que é também o mais belo. É nele que se joga o valor e o préstimo do Cidadão do Mundo, consagrado desde a experiência vivente e convivente da “polis” grega.
A questão está toda em saber se as fontes desta universalidade ainda permanecem cristalinas. Faltam-nos filósofos e sobram-nos técnicos de publicidade. E estes, quando atiram as suas pedras à água, nunca conseguem o equilíbrio do concêntrico. Vá-se lá saber porquê!