
20 de julho de 2008
ELOGIO DO CINISMO

17 de julho de 2008
A QUEM NOS QUER BEM
Aos Meus Amigos ProfessoresLuís Alves de Fraga e João de Castro Nunes.
Que viva quem nos quer bem
Na porfia desta vida
E quem nos der por cumprida
A razão deste entretém.
Quem me lê dá-me a certeza
De saber que vivo estou
E de conhecer que vou
No bom rumo da lhaneza.
Que viva quem nos quer bem
E quem nos dá alegrias
No vencer destas porfias
De saber o que se tem.
Cá por mim digo em verdade
Que por cada verso feito
Me sinto tão imperfeito
Quão falho de qualidade.
Cada vento, cada vela
Cada mar, cada saudade
Cada hora de trindade
Aponta uma nova estrela.
Sinto-me vogar no Além
Como se me desfizesse
Num caminho, numa prece,
Que tudo pede a ninguém.
Cada um guarde o que tem
A cada qual obrigado
Por destino destinado.
Que viva quem nos quer bem!
15 de julho de 2008
DE MONSTRIS
Se quiseres converter-te num monstro, não te esqueças de viver de acordo com os seguintes preceitos:1º - Considera sempre a diferença como uma ameaça, seja ela diferença de etnia, de opinião, de gosto subjectivo ou de estatuto social.
2º - Não acredites na generosidade. Invoca Hobbes e declara, em todas as situações, que “o homem é o lobo do homem”.
3º - A Liberdade será sempre para ti uma utopia generosa mas irrealizável, porque o que o ser humano necessita é de rédea curta e de chicote preparado.
4º - Proclama legítima e pedagógica toda a violência sobre as mulheres e as crianças.
5º - Descobre, nos actos de cada um e de todos, a hipocrisia de um entranhado calculismo, mesmo se, aparentemente, tais actos possam ter a feição de dádivas movidas pelo altruísmo.
6º - Desconfia da ingenuidade e não acredites na inocência. Todos deverão ter uma culpa escondida a expiar.
7º - Declara-te infalível na avaliação do comportamento alheio.
8º - Repudia energicamente a ternura, sempre que a vires assomar ao teu coração.
9º - Nunca aceites que alguém possa ser-te superior, quaisquer que sejam os planos da comparação com as tuas próprias realidades.
10º - Nunca sejas grato a quem te fez bem.
13 de julho de 2008
NOS CINQUENTA ANOS DA "CARTA A SALAZAR"
Faz hoje precisamente cinquenta anos que um grande português e um nobilíssimo bispo da Igreja Católica, D. António Ferreira Gomes, confrontou o ditador António de Oliveira Salazar com um documento denunciador do carácter aviltante do regime então vigente. Não se tratou exactamente de uma carta, como ficou impropriamente conhecida, mas de um memorial, através do qual aquele notável representante da hierarquia eclesiástica interpelava Salazar sobre os termos em que poderia ou não ser exercida a actividade política por parte dos católicos. Porém, antes de o questionar sobre tal exercício, D. António Ferreira Gomes examinava atentamente os mais salientes e controversos aspectos da medíocre vida pública do tempo. A chamada “Carta a Salazar” reconhecia que o Estado Novo semeara a miséria e a desesperança por largos sectores da população; que o corporativismo, adoptado como panaceia para desdramatizar as relações de negociação entre o Capital e o Trabalho, era um simples artifício para que aquele exercesse sobre este uma despudorada exploração; que a proibição da greve era uma violência à luz do direito positivo e uma ilegitimidade à luz do direito natural; que a distribuição da riqueza produzida estava longe de ser equitativa e pacificadora, antes produzindo nos mais carenciados o espírito de inconformismo e de revolta; que o “financismo à outrance”, praticado em Portugal, acabava por saldar-se num “economismo despótico”, traduzido “em benefício dos grandes contra os pequenos e finalmente na opressão dos pobres”. Numa palavra, D. António Ferreira Gomes lançava a Salazar e ao salazarismo o desafio de uma denúncia inteligente e fundamentada. Esse memorial, que deveria servir como enunciado de questões a tratar numa futura reunião entre o bispo e o ditador, transpirou para a opinião pública e suscitou nela uma reacção de pasmo. Pois quê? A Igreja Católica portuguesa, poder espiritual tido como conservador e encarado por muitos como cúmplice da ditadura, falava à tirania com o vocabulário de uma viril desafronta? A Igreja acomodada do Patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, parecia situar-se nos antípodas desta outra Igreja incómoda, frontal e rebelde. Salazar reagiu ao seu modo provinciano e brutal: aproveitou uma saída do país do seu contraditor para, no regresso, lhe fechar a fronteira. E o bispo do Porto só regressou a Portugal em 1969, em pleno consulado marcelista. D. António Ferreira Gomes cumpriu exemplarmente, no seu pastoreio espiritual, aquela máxima que adoptara nos inícios da sua edificante carreira e que o mandava estar de joelhos perante Deus, mas de pé perante os homens. Houve na Igreja daquele tempo, há cinquenta anos, num país vergado à sanha de verdugos medíocres, uma Consciência que se recusou à capitulação. Essa Consciência foi a do bispo D. António Ferreira Gomes. Evocá-lo hoje é um dever de gratidão e um direito de cidadania.10 de julho de 2008
FOME E TRUFAS

O noticiário diz-me que os representantes dos mais ricos países do globo reuniram num qualquer lugar deste peregrino mundo para discutirem gravemente o flagelo maior da Humanidade: a fome. A conversa foi renhida. Tão renhida e séria, tão polémica e incandescente que fez … fome. As sublimidades foram então almoçar, acrescentando o noticiarista que o apetite era muito. Mas as vitualhas escolhidas revelaram-se à prova de quaisquer exigências estomacais e dos mais imperiosos assomos de requinte. Sabe-se que foram servidas trufas negras, vinhos preciosos e toda a casta de iguarias, dignas de Nero e do seu afeiçoado Petrónio. Como era de prever, o conciliábulo terminou sem conclusões, mas com muitos "tagatés" e votos de mútuas prosperidades, formulados pelos ilustres convivas. Todos falaram, aos brindes da sobremesa, nas crianças do Sudão, nos velhos da Etiópia, na penúria de certos pueblos mexicanos, nas patifarias de Mugabe e nas razias da tuberculose, já às portas da Europa, seguramente trazida por etnias magrebinas, em migratórias demandas, incómodas e pouco recomendáveis. Depois rumaram todos às suas casas, convictos de que o problema da fome no mundo é de tal maneira sério que se tornavam necessárias, para o resolver cabalmente, mais umas cinco ou seis reuniões, iguais à que decorrera. O jornal não dizia o mais importante, ao omitir que a vergonha é hoje um prurido escasso. Tão escasso como as trufas negras.
8 de julho de 2008
SAUDADES DE NÓS

7 de julho de 2008
REFLEXOS DE ÁGUA
