
As Pátrias mal se aguentam nas andas carunchosas, revelam desfalecimentos, resvalam à beira de fundões infinitos – mas os patriotas ressonam em boa ordem, à luz das estrelas mortiças. A Educação Cívica anda por aí aos baldões duvidosos de vândalos, armados de “sprays” ou camartelos para as vandalizações de edifícios privados ou para a destruição do Património colectivo – mas os bravos campeões do Bem Comum, estirados na “chaise longue” da comodidade, viram-se para o outro lado e pigarreiam, de olhos bem fechados. A Obra Colectiva revela-se anémica, enfezada, quase envergonhada, como se necessitasse de suprimentos de alma ou de unguentos reconstituintes – mas estes tais Missionários da Colectividade coçam a moleirinha da preguiça e entregam-se, regalados, aos braços de Morfeu. A Cidade desordena-se, entope, descaracteriza-se, perde influência, perde força, perde indústria, ganha insegurança, ganha bolores de incomodidade, ganha o ranço da paragem no tempo e da deselegância do espaço – e os paladinos da Polis continuam abúlicos e eternamente devotados ao remanso dos lençóis.
Entretanto, o tempo vai passando, implacável. Aproximam-se eleições. E então é um “valha-me Deus, que dormi demais”. Todos despertam, sem excepção, muito lépidos, muito senhores das suas verdadinhas, muito trepadores, muito escritores, muito vaidosos da sua entrevista, muito guardadores da sua rua, do seu bairro, da sua Cidade, do seu País, do seu Cosmos.
Há em toda esta comichão “patrioteira” e “civiqueira” , em toda esta geringonça de afogadilho, um halo de mercantilismo, um cheiro a Feira da Ladra (com vantagens sobejas para o que nesta se vende), um fartum a Ali Babá que deixa perplexo o mirone ou o simples curioso.
É tempo de desmascarar esta mistela. E de dizer que as sonoras afirmações, os descantes, os despiques, os motes e motejos desta raça de gente são percepcionados pelo anónimo, pelo simples pagador de impostos, pelo aplicado oficial do seu ofício, como uma coisa “lá dos gajos”, que apenas provoca um bocejo de tédio e, em certos momentos, uma imensa explosão de hilariedade. O mal é que rimos sobre a hipoteca do futuro das mais próximas gerações.




