
Lisboa é uma cidade assente sobre o dorso do resto de Portugal. Lisboa não tem lisboetas: possui minhotos e beirões, alentejanos e transmontanos, açorianos e durienses, madeirenses e algarvios; mas não preza especialmente a camada de indígenas nados e criados junto às águas bonançosas do Tejo. O alfacinha tende a ser um produto anómalo, afogado como está pelos que o não são, mas que reivindicam a Cidade como sua. Lisboa é hoje também o Eldorado reticente do Portugal-negro de outrora e talvez esteja agora a ser a Outra Banda de um brasileirismo recente. Mas estas arribações ainda conseguem ser remotamente lisboetas, através de elos e afinidades invisíveis, de parentelas pretéritas, de sangues, sabores e cheiros afins. Lisboa é a única Cidade portuguesa que colhe a sua identidade da simbiose operada entre a portugalidade de agora e o lastro multiforme do que já foi um dia Portugal. O encanto de Lisboa está no facto de não querer ser uma grande metrópole. Experimentemos uma digressão por ruelas de Alfama ou da Bica, da Graça ou da Madragoa, longe, bem longe da cidade dos negócios, dos sapatos de polimento, das lojas da moda. É sempre possível a interpelação familiar, a partir de uma trapeira ou de um vão de escada: “Então, menino, que anda a fazer por aqui?”. E logo a conversa prossegue e se atiça, como se tivesse sido interrompida ontem e como se a familiaridade implícita manasse de um universo de cumplicidades que se esboçam na indulgência de sorrisos. Lisboa é a cidade que eu mais amo, apesar de beirão empedernido. É a minha Cidade-fêmea, esparramada por sete coxas que são sete colinas, rescendendo a aromas ensonados de cama acabada de deixar. Lisboa não é uma orografia, nem um urbanismo, nem uma geometria pombalina. Lisboa é um estado de alma, exigindo de cada visitante, habitual ou ocasional, o esforço da compreensão empática. Lisboa, sendo embora a alfurja da politicagem venalíssima de agora, não tem nem os adereços nem os ademanes de uma Cidade-Poder. O poder de Lisboa está no seu enigma eterno, na inesperada surpresa de tão facilmente nos identificarmos com ela e de a sentirmos simultaneamente retraída e disponível. Lisboa é um rio com gaivotas por fora e bergantins por dentro. Lisboa é a luz mansa a escorrer do cimo dos céus, é um sol amarelo-palha a revelar arcarias impossíveis, fontenários sem água, aquedutos sem função.





