
Eu podia ter tido como apelido um Silva, ou um Sousa, ou um Ferreira, ou um Santos. E todos estes apelidos haveriam de ser, por igual, excelentes. Mas como o meu saudoso Pai era um roble, um daqueles carvalhos meditativos, possantes e copados, e como a raiz familiar remontava também aos homem, eu passei a ser designado, pelos amigos, pelos colegas, pelos simples conhecidos, como “o Carvalho Homem”. Em caso de zanga bem puxada e renitente, alguns dos meus oponentes afrontavam-me com expressões como estas : “ Mas que carvalho de homem” … e às vezes até tiravam o v, para me irritarem. Outros, mais gentis e crescidotes, sublinhavam a minha puerícia e chamavam-me assim: “Anda cá, carvalhito!”. E eu ia, mas convencido de que haveria de crescer e de me fazer também possante, também copado, bem distante da vulgaridade de uma arvorezita de trazer por casa.
Um dia, numa sessão de catequese, para onde era despachado pela guia de marcha da Senhora minha Mãe – uma católica de tamanha ortodoxia que nunca compreendeu muito bem que o Vaticano se tivesse decidido a substituir as missas em latim (língua sagrada, meu filho, língua do céu) por missas em vulgar – o Senhor Prior contou-nos, a todos nós, catecúmenos em carteira, a história de um Santo cuja angélica postura só fora alcançada na senectude, após uma vida de dissolução e de rebeldia. E o tal sacerdote concluía sempre a narrativa com esta observação: - E finalmente, meninos, ele mereceu o seu próprio nome.
Aquilo fez-me pensar. Passei a imaginar que um Silva tivesse de ser intrépido e acutilante, como um acúleo ou uma zagaia, para merecer tal nome. Dei comigo a cogitar que um Sousa deveria possuir uma poética modulação de alma e uma acção social tão persuasiva como a das águas de um regato, que vão mitigar o torrão ressequido ou a raiz sedenta, para lá de todas as dificuldades da orografia. Defendi no meu íntimo que um Ferreira estava vocacionado para uma firmeza sem quebranto e para uma lealdade sem sofisma; e que também um Santos haveria de condensar no mais fundo do seu coração todas as virtudes, todas as generosidades e todos os altruísmos a que se podem elevar os caracteres de excepção.
Carvalho Homem – e ainda por cima Amadeu por nome próprio (escolhido pela Mãe, por amor ao Marido terreno e por devoção ao Pai Celestial). Espinhosa missão esta, a de merecer tal nome …





