
3 de outubro de 2010
PELA REPÚBLICA ! VIVA A REPÚBLICA !

30 de setembro de 2010
EMENTA REPUBLICANA

EMENTA PARA UM ALMOÇO (OU JANTAR) COMEMORATIVO DO CENTENÁRIO DA REPÚBLICA
A minha Amiga e distinta Senhora Drª Dona Rosa Maria Resende de Oliveira, que reside em S. João da Madeira, solicitou-me, há algum tempo que lhe apresentasse uma sugestão para um almoço ou jantar comemorativo do Centenário da República. Não me fiz rogado e mandei-lhe a seguinte ementa, devidamente justificada. Mal eu sabia que a minha proposta iria ser executada, conforme notícia a que tive acesso. Mas passemos à apresentação da ementa:
Caldo verde
Bacalhau com batatas a murro
Pão de Alcântara e Queijo de Azeitão
Papos de Anjo
Leite-Creme Queimado
Vinhos do Dão e/ou do Douro
Cognac francês
Transcreve-se a notícia do que irá ocorrer no próximo dia 1 de Outubro em S. João da Madeira, conforme o que se diz no jornal “O Regional” (edição de 23 de Setembro de 2010):
Parceria Autarquia e Escola Secundária Dr. Serafim Leite
JANTAR REPUBLICANO CELEBRA O 5 DE OUTUBRO
O Projecto «Espaço Aberto» motivou uma parceria entre a Escola Serafim Leite e a autarquia sanjoanense para a celebração dos 100 anos da República, na realização de um jantar com a ementa a condizer com a efeméride. O restaurante «Fábrica dos Sentidos», do Museu da Chapelaria, receberá os convidados, onde, em ambiente republicano, será saboreada uma refeição com iguarias sugeridas pelo professor Amadeu Carvalho Homem. A Escola Secundária Dr. Serafim Leite e a Câmara Municipal criaram uma parceria através do projecto «Espaço Aberto», que se desenvolve naquele estabelecimento de ensino, para a comemoração do centenário da República. Esta iniciativa vem na sequência da já realizada em 29 de Janeiro último, nos Paços do Concelho, e que contou com a presença de Amadeu Carvalho Homem e António Arnaut. Assim, os promotores decidiram celebrar o 5 de Outubro com a realização de um «jantar republicano aberto, sigiloso e conspirativo», no próximo dia 1, um repasto que será servido no já refrido restaurante. As inscrições devem ser feitas antecipadamente, mediante o pagamento de 15 euros.
De acordo com os promotores, Maria Assunção Sousa, em declarações à nossa reportagem, o encontro, além do convívio que a mesa nos oferece, pretende “criar um espaço simultaneamente de comemoração e reflexão sobre a “res publica”, pelo que estão previstas algumas intervenções”, referiu.
A preocupação com a refeição levou os organizadores a pedirem sugestões para a ementa deste jantar. Por isso, segundo informações colhidas, a ementa integrará elementos simbólicos da efeméride. Os convivas poderão saborear as propostas sugeridas por Carvalho Homem, que tão graciosamente apresentou.
O caldo verde terá honra de mesa (uma das cores da bandeira), «pelo motivo óbvio de não se dever servir sopa azul e branca, demasiadamente “corcunda” (os “corcundas” eram os monárquicos, que se dobravam todos por ocasião do “beija- -mão” real e, por isso, ficavam irreparavelmente “encarquilhados”). Sobre a mesa abundará o pão de Alcântara, “em homenagem à gente revolucionária de Alcântara, que na altura acolhia ainda muitos marinheiros, os quais estiveram sempre com a República”. O queijo de Azeitão também terá honras republicanas, “para lembrar os pobres dos rurais das vizinhanças de Lisboa, mantidos na ignorância pelos poderes monárquicos”.
O caldo verde terá honra de mesa.
O eterno e sempre tão desejado bacalhau com batatas a murro (já que o 5 de Outubro foi cá um sopapo na aristocracia de ‘alto lá com ele’; e o Machado Santos ameaçou alguns dos seus combatentes de lhes dar uns tabefes, se eles abandonassem a Rotunda), fará crescer água na boca. Aconselha-se que a degustação do bacalhau seja bem regada com um vinho de primeira e esmerada qualidade - mas deverá inegavelmente falar a língua de Camões: poderá ser um Dão devido ao facto de os republicanos terem DADO uma boa trepa à gente do Senhor D. Manuel II ou mesmo um Douro (pois o regime republicano é DE OURO e tem de ser muito bem conservado), sugeriu Amadeu Carvalho Homem, filósofo, historiador e investigador na área da História Moderna e Contemporânea, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Chegado o momento da sobremesa, “por escárnio”, serão trazidos aos convivas “os papos de anjo monárquico” (os “talassas” foram uns anjinhos, porque tinham superioridade militar e nem sequer a souberam usar), acrescidos de “leite-creme queimado à Carbonária” (os carbonários eram combatentes que iam “à queima”, para ganhar ou morrer). Para ajudar à digestão, depois da “barriga republicana se sentir abastada, será degustado um cognac francês, em homenagem à “Liberté, Égalité, Fraternité” (é a única concessão que deve ser feita a produtos estrangeiros, por especial deferência para com a revolução francesa de 1789). “O ágape deve terminar com um brinde democrático e com um “VIVA A REPÚBLICA” sonoro e sentido”.
Como indumentária festiva, a condizer com o acto celebrativo, os convivas deverão obrigatoriamente usar um laço bicolor verde-rubro, um hino aos 100 anos da implantação da República.
Por: António Gomes Costa
17 de setembro de 2010
ENTREVISTA
A crise (económica, financeira, cultural, institucional, crise de desemprego e fome, crise colonial, crise de existência e de valores) foi uma palavra e circunstância que marcou o período envolvente à implantação da República, em 1910. Que semelhanças e/ou diferenças se podem encontrar entre a dobragem do séc. XIX para o séc. XX e a actualidade?
Em que medida o mundo do trabalho, com a “questão social” e as dramáticas condições de vida da classe trabalhadora, com várias greves (mesmo que ilegais) foram decisivos na aceitação do republicanismo?
Assim os Republicanos tentaram (muito inteligentemente, aliás) captar para o seu lado o proletariado, aconselhando-os a pôr entre parêntesis as reivindicações económicas, a não recorrer à greve e a travar a luta política, fomentando a perspectiva de que com as eleições e o processo eleitoral se poderia instalar uma República que daria depois resposta aos anseios do operariado,
Mas as coisas acabaram por não serem rigorosamente assim, sobretudo porque a primeira República enfrentou terríveis dificuldades, algumas das quais vindas já do regime constitucional anterior. Os Republicanos tiveram que inventar um regime político com os cofres inteiramente vazios e poucos anos depois entenderam (e bem na minha opinião) que deveriam travar a Primeira Grande Guerra ao lado de Inglaterra. Portanto isso fez com que os Governos Republicanos não pudessem nem tivessem condições para atender às reivindicações operárias. Essa a razão pela qual uma figura como Afonso Costa foi apelidado de racha-sindicalistas, porque não tinha ao seu alcance quaisquer meios para atender às reivindicações dos operários e dos trabalhadores por conta de outrem.
Liberalismo, Anarquismo, anarco-sindicalismo, socialismo, comunismo…muitos ismos despontaram então, respondendo aos ecos distantes de acontecimentos radicais pelo mundo. Cem anos passados, aprendemos com a História a fazer melhores escolhas?
Recorrendo a uma expressão sua, quem foram afinal os cavaleiros da Távola Redonda Republicana?
Os cavaleiros da Távola Redonda Republicana foram homens como Teófilo Braga, António José de Almeida, Alves da Veiga, Sebastião Magalhães Lima, Afonso Costa, José Elias Garcia. Foi gente dessa que conferiu à República o conjunto de ideias de base que ainda hoje a definem.
A contribuição das mulheres republicanas, dentro do que lhes era permitido fora do espaço doméstico, foi ainda assim notória. Temos feito justiça, neste Centenário, também a estas revolucionárias?
Maria Veleda, Ana Castro Osório, Carolina Michaelis, Adelaide Cabete e outras foram exemplos absolutamente excepcionais. Tal como hoje, as mulheres tinham que comprovar uma competência muito superior à do homem para conseguirem impor-se.
Alguns grandes valores legados pela República estão hoje a ser subtilmente ameaçados. Pode apontar-nos um ou mais destes valores que importe salvaguardar a todo o custo?
Em que medida o espírito republicano original inspirou os percursos de resistência (individuais e colectivos) desde a ditadura desde 1926, até à alvorada de Abril de 1974?
A luta contra o Estado Novo foi protagonizada por uma ampla frente de sensibilidades. Foram sem dúvida os anarquistas, os socialistas, os comunistas um pouco mais tarde, foram os sociais-democratas, foram mesmo os homens de uma igreja progressista que combateram as prepotências políticas, sociais e culturais daquele tempo e daquele regime. Os republicanos foram sempre dos mais activos contra o Estado Novo, que até os designou de “Reviralhistas”.
É certo que houve republicanos, sobretudo os mais conservadores, que depois se transferiram com armas e bagagens para o interior do próprio Estado Novo. Mas isso é uma constante na história dos povos. Quando existem mutações político-sociais que se apresentam para durar, há sempre quem, sem convicções profundas, queira apanhar o barco, para poder pescar em águas turvas.
1 de setembro de 2010
MEMORIAL REPUBLICANO LVII

Lisboa foi uma cidade praticamente abúlica e perplexa após o regicídio. Muitos repetiam, sem mais comentários, como se estivessem a fazer estéreis esforços de compreensão, estas palavras tremendas : “mataram o rei; e também o príncipe real”. Os dias seguintes permitiram vislumbrar as mais desencontradas opiniões. Os velhos monárquicos da tradição rotativa pareciam querer distribuir simetricamente, pelo Partido Republicano e pelos dissidentes de José de Alpoim, as responsabilidades maiores da matança. Os republicanos imputavam à ditadura de João Franco a autoria moral do atentado. As hostes franquistas não se atreviam a apontar o dedo acusatório a formações partidárias concretas e preferiam falar numa acção criminosa perpetrada por “um bando de exaltados anarquistas”, como se escrevia no “Jornal da Noite”, órgão franquista. A opinião pública mais vulgar difundia boatos atrás de boatos, que se revelavam completamente infundados, quando analisados por autoridades policiais ou judiciárias.
Vejamos mais de perto as motivações de alguns dos comparsas coevos. Os progressistas de José Luciano de Castro, certamente chocados com a brutalidade dos acontecimentos, não deixavam de fazer coro com os republicanos, quando estes apresentavam João Franco como o “deus ex machina” da trama fatal. Com efeito, a ditadura fora a mordaça, a força arbitrária, o favorecimento descarado dos amigos de Franco e a perseguição implacável movida aos seus inimigos. Portugal convertera-se num reino em “estado de sítio”, entregue aos caprichos do mais escancarado despotismo. Os estudantes de Coimbra faziam greve? Encerrava-se a Universidade. Certas vereações autárquicas opunham resistência, invocando a legalidade? Substituíam-se os resistentes por vereadores afectos ao franquismo. Havia jornais recalcitrantes? Opunha-se-lhes a mordaça de uma draconiana lei de imprensa. Os partidos da oposição moviam-se? Procurava-se a sua paralisação e apodavam-se os mesmos de anti-patrióticos. A revolução queria estalar, como em 28 de Janeiro de 1908? Apresentava-se à referenda régia, concedida a 31, um “decreto de desterro” que prometia a expatriação para colónias distantes de todos os que tivessem a veleidade querer derrubar pela força o puro arbítrio instalado.
Mas a vantagem das forças monárquicas também se identificava com uma suposta cumplicidade do Partido Republicano nos fúnebres factos de 1 de Fevereiro. Tudo foi feito para que esta cumplicidade se comprovasse. Sem resultados verosímeis, contudo. Na Câmara Baixa, ficaram famosos os discursos de António José de Almeida, proclamando, a um tempo, o completo alheamento do Directório Republicano quanto a um presumido envolvimento e, por outro lado, algum espírito de compreensão para com os regicidas, apresentados como os meros executantes de uma “descarga fatal e irreprimível do espírito público”. Nas mesmas águas navegava João Chagas, ao referir o regicídio como “uma tremenda explosão de cólera popular”. A reacção pública não os desmentia. As exéquias do monarca e do seu filho mais velho foram solenes, mas frias. Pelo contrário, as campas dos regicidas foram alvo de um verdadeiro culto e apresentaram-se, durante muitos dias, juncadas de flores, levadas ao cemitério por mãos anónimas.
Após a entronização de D. Manuel II, o processo judicial, tendente a apurar responsabilidades e conluios, entrou numa fase de modorra. Estranha e inexplicavelmente, acabaria por levar sumiço. Que espúrias transacções não estariam aí consignadas? É de calcular que o conteúdo do processo fosse apregoado aos quatro ventos, se dele resultasse a evidência de maquinações republicanas. Mas sabe-se, pelo contrário, que Teixeira de Sousa, íntimo de Alpoim, opinou pela subtracção do documento à divulgação pública, declarando enfaticamente : “Isto não pode aparecer em público, porque é a vergonha dos dissidentes”.Eram tamanhos os indícios do seu comprometimento no regicídio que os amigos de Alpoim passaram a ser designados por “buissidentes”. A carabina disparada pelo Buiça fora adquirida num armeiro, para ser utilizada na revolta de 28 de Janeiro, por um deputado da Dissidência. Como teria transitado ela para as mãos do regicida? Quem lha teria entregue? Outros factos, talvez menos credíveis, poderão arrolar-se. Sabia-se que fora sobretudo o Visconde da Ribeira Brava, dissidente, a superintender na compra das armas que não chegaram a ser disparadas em 28 de Janeiro. Também se disse que dois criados, que tinham ajudado Alpoim a fugir para Espanha, haviam declarado, no dia do atentado, no interior de uma taberna do lugar fronteiriço de Pinzio: “A esta hora já não há rei em Portugal, porque deve estar morto”. Mas há um testemunho esmagador e insuspeito, vindo de quem vem. Contou-o à imprensa espanhola uma das glórias da cultura do país vizinho, Miguel de Unamuno. Passeava ele no fim da tarde do dia 1 de Fevereiro, acompanhado por Alpoim, na belíssima Plaza Mayor de Salamanca. Subitamente, um súbdito português dirige-se ao chefe dissidente, interpela-o, e ouve-o proferir estas palavras terríveis: “Olhe que já morreu o canalha”. Unamuno também as ouviu, confiando-as depois ao periódico “Liberal”, do seu país. Quem era “o canalha”? E como sabia Alpoim que “o canalha” já morrera? É isto prova subalterna e quebradiça? Não nos atrevemos a dizer tal, embora José de Alpoim viesse a manter, em pleno reinado de D. Manuel II, relações de cordialidade com o filho e sucessor de D. Carlos e com a rainha-mãe, D. Amélia.
16 de agosto de 2010
MEMORIAL REPUBLICANO LVI

A revolta de 28 de Janeiro de 1908 produziu em João Franco um efeito de fúria incontida. As determinações subsequentes traduziram o seu fundo psicológico instável e psicótico. Lisboa passou a ser vigiada por efectivos policiais que a tornavam terra sitiada e foram dadas ordens à cavalaria da Guarda Municipal para exibir todo o seu poder atemorizante. Os jornais que circulavam eram apenas os que se revelavam afectos à ditadura. Um enxame de informadores invadiu cafés, botequins e locais de convívio. O ditador convenceu-se que a viabilização da sua política requeria a rigorosa medida de expatriar os seus mais denodados opositores. Nesse sentido, João Franco preparou um decreto que permitiria “expulsar do Reino, ou fazer transportar para uma província ultramarina, aqueles que, uma vez reconhecidos culpados, [importasse] à segurança do Estado, à tranquilidade pública e aos interesses gerais da Nação”. A intenção do projectado texto legal foi conhecida pela opinião pública, sendo ele imediatamente designado por “decreto da proscrição” ou “do desterro”. Era uma verdadeira arma de extermínio sobre a qual Franco procurava fazer assentar a sua indisputável soberania política.
O Ministro da Justiça, Teixeira de Abreu, assumiu o encargo de partir para Vila Viçosa, onde então se encontrava a família real, com o objectivo de alcançar, através da assinatura do monarca, a plenitude das condições para a vigência urgente do diploma. Em Lisboa lavrava a murmuração que dava como certa a existência de uma lista de proscritos, designados pelo ditador, prontos a ser expulsos do Reino. A ratificação régia foi dada no dia 31 de Janeiro de 1908. Apesar de seduzido pela riqueza cinegética dos montados alentejanos, D. Carlos entendeu que o momento histórico era demasiado solene para que o seu valido permanecesse na capital do Reino sem a sua expressa e presencial solidariedade. Entendeu regressar a Lisboa no dia seguinte, 1 de Fevereiro.
A viagem correu mal. O comboio real descarrilou e foi com atraso que a comitiva atingiu o objectivo. Era um fim de tarde luminoso e tão cálido quanto era permitido pelos rigores de Fevereiro. Nem uma nuvem no céu. Foi dito, mais tarde, que o rei fizera toda a viagem com estigmas de preocupação no rosto. No séquito dos aristocratas havia quem estivesse com turvos pressentimentos. Foi o caso da duquesa de Palmela, que interpelou João Franco sobre a segurança régia. Obteve a promessa de que tudo correria pelo melhor e que a família real seria ovacionada nas ruas pelo povo e, à noite, no teatro de S. Carlos, voltaria a ser vitoriada pela boa sociedade lisbonense. Era tão grande a confiança do ditador numa recepção entusiasta que o rei e os seus familiares iniciaram o trajecto a percorrer no interior de uma carruagem aberta. Também constou que D. Carlos dispensara uma guarda de honra, como forma de demonstrar à cidade que a normalidade era completa. Lentamente, a carruagem deslocou-se para a esquina próxima da arcaria correspondente ao Ministério da Fazenda. Foi então que a tragédia se consumou.
As versões foram múltiplas e contraditórias. Estampidos vários ocorreram. Quantos? Uns tantos. A família real foi alvejada. Por quantos conspiradores? Dois, seguramente. Mas não seriam três? Ou mesmo mais? Um deles era mais novo e bem vestido. Saltou como um gamo para as traseiras da carruagem e disparou mais do que uma vez com um revólver, enquanto a rainha D. Amélia o procurava sacudir, agitando freneticamente um ramo de flores. Um outro, mais velho e mais alto, de barba preta, retirou de um gibão ou varino uma carabina e disparou repetidamente, antes de ser abatido por um sabre vingador. O rapaz novo chamava-se Alfredo Luís da Costa. O homem das barbas dava pelo nome de Reis Buiça. Nem um nem outro tinham dúvidas de irem morrer. O atentado, que ceifou imediatamente a vida a D. Carlos e fez morrer mais lentamente o Príncipe Real, D. Luís Filipe, ferindo ainda ligeiramente o filho mais novo, D. Manuel, instalou o pandemónio e a desorientação nas tropas e entre os populares. Tudo correu de uns lados para os outros, sem norte e sem tino. As forças policiais desvairaram a um tal ponto que assassinaram a sangue frio um popular, Sabino da Costa, empregado comercial, no interior de uma esquadra da polícia, só porque ele se apresentava ferido. A noite foi caindo sobre uma cidade apavorada. Soube-se depois que os matadores eram carbonários. Teriam agido por conta própria? Há razões para supor que sim. A investigação histórica ainda não pôde estabelecer, até ao presente, outras conclusões. E iria perder-se o rasto do inquérito judicial que foi aberto para indagar com minúcia sobre as circunstâncias do drama. Este descaminho não se verificou no tempo da República. Ocorreu em pleno reinado de D. Manuel II, último rei da dinastia de Bragança.
28 de julho de 2010
MEMORIAL REPUBLICANO LV

A conspiração progredia a olhos vistos. No sector militar distinguia-se especialmente o oficial marinheiro Cândido dos Reis, com os seus longos bigodes pendentes e um olhar vivo mas melancólico. Por seu turno, os conjurados militares começaram a reparar num humilde comissário naval, Machado Santos de seu nome, sem nada de especial a recomendá-lo senão o ardente desejo de derrubar as instituições e um optimismo ingénuo, a roçar a insensatez. Aliás, era no grupo dos marinheiros que a revolução recrutava boa parte dos seus efectivos, com destaque para João Serejo, Álvaro Andreia e Marinha de Campos. Também os civis se movimentavam. Alguns deles eram responsáveis cimeiros do Partido Republicano, mas outros não apresentavam outros créditos para além dos da sua generosidade para com a causa do republicanismo. Contavam-se neste número o comerciante Alfredo Leal e o seu irmão, proprietários da casa comercial “A Liquidadora”, a qual serviu de depósito de armamento para a conjura em marcha. Na zona de Alcântara situava-se a “Tipografia Liberty”, na Calçada do Sacramento, que os irmãos Lamas (Franklin e Augusto) haviam convertido num foco conspiratório muito activo. O rebentamento de bombas em Lisboa, nomeadamente na Rua do Carrião, certificava a natureza de um clima social crispado, pronto a explodir ao primeiro pretexto.
Traçaram-se estratégias, discutiram-se movimentos de tropas, combinaram-se ataques a zonas e instituições vitais para o poder monárquico e em tudo isto se distinguiram, pela sanha combativa e pela intransigência próxima do ódio, os homens da Dissidência Progressista de José de Alpoim. Monárquicos, portanto! Mais: sobram os testemunhos dos que afiançam que a maior parte do armamento, distribuído sobretudo a civis, veio das hostes alpoinistas. Hostes monárquicas, portanto!
Depois de vários avanços e recuos, a eclosão do movimento revolucionário ficou marcada para 28 de Janeiro de 1908. Mas ficara combinado que os sinais de desencadeamento da acção só seriam accionados após se conhecer a prisão de João Franco. Isto revelou-se fatal para o sucesso do empreendimento. Afonso Costa, ao qual tinha sido cometido a chefia civil da revolução, negou-se a avançar antes de lhe ser afiançada a neutralização do ditador. Um dos mais importantes locais de concentração dos revolucionários iria funcionar no ascensor da Biblioteca, que viabilizava a ligação entre o Largo do Pelourinho, paredes-meias com a Câmara Municipal, e o Largo da Biblioteca. O projectado assalto ao edifício autárquico far-se-ia a partir dessa posição. A audácia era grande, uma vez que o local era contíguo a uma esquadra policial. Além do mais, o elevador encontrava-se paralisado e sem prestar o serviço para que tinha sido concebido. Mas foi lá que se concentraram os mentores do movimento, os quais, pelo seu número e notoriedade pública, atraíram a atenção e a perplexidade de um guarda de giro. Foi este que denunciou à sua chefia hierárquica o insólito da situação. Por isso, lá acabaram por ser presos Afonso Costa, o visconde da Ribeira Brava, Álvaro Pope, Egas Moniz e outros conjurados de menor envergadura. Gorara-se esse 28 de Janeiro, apesar de incidentes sangrentos que aconteceram em locais sensíveis da cidade de Lisboa.
Estava feito o ensaio geral da revolução republicana, a estalar num futuro próximo. Mas antes dela ocorreriam outros dramáticos desenlaces.
4 de julho de 2010
MEMORIAL REPUBLICANO LIV
A história do carbonarismo em Portugal está por fazer e dificilmente poderá ser erguida com inteira garantia de veracidade. Escasseia a documentação, até porque este tipo de organizações secretas não pretendia guardar memórias para o futuro, uma vez que pesavam mais as urgências do presente e, por outro lado, o sigilo equivalia à garantia de defesa contra a agressividade policial. O movimento, em Portugal, terá remontado ao período do Ultimato, sabendo-se que a revolta de 31 de Janeiro de 1891 já contou com a organização secreta de núcleos populares armados. Mas foi indubitavelmente sob os rigores da ditadura franquista que a Carbonária Portuguesa se organizou e mais disciplinadamente se ampliou. Referimo-nos àquela organização que foi dirigida por uma Alta Venda dirigida por um triunvirato a que pertenciam Machado Santos, Luz de Almeida e António Maria da Silva.
A Carbonária Portuguesa apresentava a “choça” como unidade de base, sendo esta composta por um número de combatentes inferior a vinte; as “barracas” eram constituídas pelos chefes de cerca de vinte “choças”; as “vendas” eram formadas pelos presidentes de vinte “barracas”. A “Alta Venda” resultava da agremiação das chefias de vinte ou mais “vendas”. Os desígnios da organização eram muito claros, pois pretendiam aliciar e armar um exército popular, completamente devotado à tarefa de destruir o regime monárquico pela força. As aliciações, na maior parte dos casos, faziam-se nos quartéis, chamando à causa as praças e os sargentos de condição económica e social mais humilde. Esta regra era também observada nos recrutamentos feitos fora das unidades militares. Exigia-se ao novo membro uma dedicação ilimitada, que ia ao ponto do sacrifício da vida, se tal fosse necessário. As traições, delações ou denúncias seriam punidas com a morte do prevaricador. Por outro lado, as iniciações faziam-se solenemente, em locais ermos, obedecendo a um cerimonial proto-maçónico, no qual era usual a exibição de armas e todo um solene interrogatório, tendente a comprovar a solidez de vontade do neófito. Os símbolos carbonários reproduziam esta mística de combate, neles aparecendo os punhais, os machados, as estrelas de cinco pontas e os triângulos formados por três pontos de vértice invertido. Era invocada frequentemente a divisa que fora divulgada pela revolução francesa de 1789: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”.
Se Machado Santos centrou a acção da Carbonária preferencialmente no plano militar, António Maria da Silva e Luz Almeida trabalharam intensamente as regiões do interior de Portugal, agindo sistematicamente junto dos estratos mais baixos da sociedade civil. No interior do Partido Republicano, nem todos apreciavam por igual a latitude e intenção do movimento carbonário. Se António José de Almeida o apreciava, vindo a ser o elo de ligação entre o Directório do Partido Republicano e a Carbonária, João Chagas não lhe dava qualquer cobertura e procurou mesmo dissuadi-lo. O seu receio é que, chegada a hora, viessem a fazer-se revoluções paralelas sem coordenação. O ensaio geral do carbonarismo em luta verificou-se no decurso da tentativa revolucionária de 28 de Janeiro de 1908. Tal tentativa malogrou-se, devido a notórias deficiências de planeamento, embora o movimento congregasse sectores muito diversificados, que iam do republicanismo ao anarquismo e deste á Dissidência Progressista de José de Alpoim, estando ainda representados alguns militantes isolados do socialismo.
É muito provável que fique para sempre no limbo do virtual o apuramento do número global dos carbonários, quando a organização atingiu o máximo da sua capacidade de aliciação. O que se sabe é que a Carbonária Portuguesa foi a mais impaciente quando se tratou de marcar a data da eclosão revolucionária e conformou-se dificilmente com os sucessivos adiamentos das alturas inicialmente previstas para o efeito. E é também sabido que foram os civis e militares carbonários os elementos mais activos e decididos na difícil e indecisa marcha da revolução de 5 de Outubro de 1910.
