14 de dezembro de 2010

MEMORIAL REPUBLICANO LIX

LIX - D. MANUEL II , O REI BREVE (2)


Com a chegada de Março, o ambiente toldar-se-á. Agora, as questões mais vivamente debatidas irão ser de teor económico. A opinião pública havia sido agitada com notícias, vivamente secundadas por órgãos de imprensa de todas as oposições, segundo as quais estariam a fazer-se abonos ilegais e discriminatórios a certos funcionários, políticos e instituições privadas. Importará recordar que as sucessivas administrações monárquicas tinham sido acusadas, num passado recente, de opacidade na distribuição de verbas e de favorecimentos financeiros ilegais a diversas entidades, entre as quais enfileirava a própria família real. Ainda estava bem viva na memória de todos a questão dos “adiantamentos à casa real”, que originara, no decurso do consulado de João Franco, inacreditáveis tumultos e incendiárias batalhas verbais no interior da Câmara dos Deputados. Também nesta estava agora sob o fogo das críticas o ministro Espregueira, cuja actuação era questionada por muitos e para cujos actos se pediam rigorosos e esclarecedores inquéritos. A maioria parlamentar acorreu prontamente em defesa do ministro, opondo-se a quaisquer inquirições ou demandas. Tudo isto envenenará o relacionamento mútuo dos deputados, fazendo do parlamento uma casa de permanentes tumultos e de reiteradas recriminações. A tensão persistiu até aos últimos dias de Março. No mês seguinte, iria fazer-se mais uma experiência governativa, sendo o poder entregue a Sebastião Teles. Não se tratava de uma escolha feliz. Alguns “marechais” monárquicos, como Júlio de Vilhena – eterno candidato à chefia do Partido Regenerador – , argumentavam que a vontade do rei estava aprisionada, encontrando-se completamente dependente do conselho e da vontade de José Luciano de Castro. E a verdade é que este alquebrado chefe do Partido Progressista se alcandorara ao estatuto de uma verdadeira “eminência parda” do regime. Sobrava-lhe em experiência política o que lhe faltava em clareza de métodos de acção. Como a sua saúde era desde há muito periclitante, impedindo-lhe um protagonismo directo e pessoal, o matreiro José Luciano julgava poder influenciar decisivamente os jogos de poder através de interpostos comparsas. A sua influência não fora estranha, no passado, à corrente de acontecimentos que culminaram nos disparos dos regicidas. Fora ele quem entregara o mando governativo a João Franco, chefe de um insignificante Partido Regenerador Liberal, com quem celebrara uma equívoca aliança política, fundamentalmente destinada a afrontar e desconsiderar o rival Hintze Ribeiro, timoneiro do Partido Regenerador. Fora ainda ele quem negara ao franquismo as condições mínimas de sobrevivência no quadro do constitucionalismo vigente, dando por findo esse pacto quando melhor lhe pareceu e obstando a que João Franco pudesse recompor com credibilidade o seu exausto gabinete. Desta maneira, fora a maquinação política de José Luciano de Castro que atirara João Franco para os braços liberticidas de D. Carlos. A ditadura franquista tivera-os a ambos, rei e valido, como progenitores; mas fora indirectamente apadrinhada por um José Luciano incapaz de prever, qual aprendiz de feiticeiro, o potencial nefasto da sua manobra. Mesmo agora, praticamente imobilizado pela doença e senectude, continuava a mobilizar em proveito da “sua gente” o crédito que lhe outorgavam D. Manuel II e a viúva Dona Amélia. Assim, ao seu palácio da rua dos Navegantes, onde vivia, continuavam a acorrer os maiorais do seu partido, prontos a colher da boca daquele ancião, de manta e gato sobre os joelhos, as directrizes a executar no terreno concreto da luta política. Por isso, todos viram na escolha de Sebastião Teles para a chefia de mais um elenco governativo a mão oculta de José Luciano, convicção reforçada pelo facto de se tratar de um seu amigo indefectível.

Por seu turno, o Partido Republicano, escudado sobretudo na sua vereação lisbonense, continuava a difundir os valores que lhe eram próprios. Foi por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa que se realizou na capital, em meados de Abril, um imponente Congresso Municipalista. Às acusações anti-republicanas que sublinhavam o pendor daquele partido para certa versão de jacobinismo intolerante e de maniqueísmo cego, respondia o município de Lisboa com um evento que bem poderia ser apontado como exemplar, quer na sua explícita mensagem patriótica, quer na sua implícita demonstração de convivência plural.

A 23 de Abril, data em que abriu em Setúbal um importante congresso do Partido Republicano, um violento terramoto abalou o país, afectando especialmente a região ribatejana: Benavente, Samora Correia e Salvaterra de Magos foram lugares especialmente sacrificados, ficando arrasadas sem remédio numerosas edificações. E logo o radicalismo católico mais empedernido veio à liça, para sustentar que entre a convocação da assembleia republicana e a catástrofe natural que derrocara grande parte do Ribatejo subsistia o nexo de uma punição divina, o laço de uma vingança transcendente … Não poderemos saber, pelo menos por enquanto, se Jesus se preocupava assim tanto com a cartilha e com a cartada jacobina do republicanismo português. O que não poderemos negar é a importância das resoluções saídas do Congresso de Setúbal. Chegara a hora de um render da guarda. Os que, como Bernardino Machado, persistiam em considerar vantajosa a adopção de métodos graduais e de meios pedagógicos e eleitoralistas viram-se claramente ultrapassados pelos que defendiam a utilização imediata de dinâmicas revolucionárias. A revolução não era para ser teorizada, discutida e escalpelizada – era para ser feita, no mais curto prazo. É este o significado da eleição de um novo directório sem Bernardino, mas com José Relvas, Basílio Teles, Eusébio Leão, Cupertino Ribeiro e Teófilo Braga. Com excepção deste último, homem de gabinete, estudioso todo recolhido aos labores da sua produção bibliográfica, os demais rendiam culto à acção, ao envolvimento directo, à intrepidez requerida pelos momentos decisivos. O evolver do tempo afinara o tripé revolucionário com que se contava para arrebatar o poder das mãos da dinastia de Bragança: Sebastião de Magalhães Lima garantia a fidelidade maçónica e a retaguarda ideologicamente mais consistente; Machado Santos, Luz Almeida e António Maria da Silva ofereciam a operacionalidade das forças carbonárias, tanto mais temíveis quanto instruídas no culto do messianismo republicano e na disciplina de um verdadeiro exército paralelo e secretíssimo; finalmente, o directório recém-eleito recebia o aval dos que já não toleravam novas dilações.

10 de dezembro de 2010

MEMORIAL REPUBLICANO LVIII

LVIII - D. Manuel II , o Rei Breve

Um rei imberbe, vacilante e tutelado por sua mãe, a rainha-viúva; quatro gabinetes governamentais – os de Campos Henriques (vindo do ano anterior), Sebastião Teles, Venceslau de Lima e Veiga Beirão – que se sucedem de modo pouco pacífico, gerando nos próprios arraiais da monarquia uma tempestade de recriminações, ressentimentos e amarguras; uma oposição republicana que se prepara para todas as eventualidades, pronta a aproveitar as oportunidades que vierem a suscitar-se, de modo espontâneo ou preparado, para desencadear contestações e paradas públicas de força; a Autarquia lisboeta com a presidência entregue, desde Novembro do ano anterior, a Anselmo Braamcamp Freire, um antigo servidor do Paço, que a desilusão atirara para os braços do republicanismo; uma sociedade corroída por suspeições de honorabilidade em relação à gestão das finanças públicas e ao escrúpulo do seu pessoal político; um sector religioso, talvez minoritário mas muito activo, defensor de um catolicismo afectado por princípios radicalmente conservadores e por ânsias de intervencionismo bem distantes do simples “serviço das almas” ; um quotidiano só aparentemente tranquilo, mas na realidade desconfiado da “acalmação” que lhe fora prometida após o rei D. Carlos e o príncipe-herdeiro terem sido assassinados, no pretérito primeiro de Fevereiro do ano de 1908 – eis uma sucinta súmula das notas caracterizadoras do ano de 1909.

Passemos ao detalhe.

Debruçando-se sobre a figura de D. Manuel II nas suas Cartas Políticas, João Chagas declarou, com manifesta crueza, que o monarca o tinha sido quando já não era preciso. Com efeito, o regicídio escrevera o epitáfio da monarquia em Portugal. O que sobejava era uma Corte em estado de descrença, onde apenas a voz do Conde de Arnoso – secundada, no exterior, pela do plebeu Ramalho Ortigão – se elevou para exigir que as responsabilidades homicidas do drama do Terreiro do Paço não ficassem impunes. Porém, é de presumir que o novo rei tivesse sido aconselhado a moderar o seu envolvimento nesta matéria, deixando para o inquérito judicial a imputação definitiva das culpas. D. Manuel II estava manifestamente impreparado para as responsabilidades da alta função em que se viu investido. Não fora educado para tal, e o seu próprio feitio, reservado e fugidio, contrastava em tudo com o mundanismo loquaz e com a fortaleza de convicções de que o seu pai dera provas. Por isso, não surpreende que se tenha entregue à vigilante tutela que lhe foi oferecida por sua mãe, a rainha Dona Amélia. O drama familiar recentemente vivido concorrera, quanto a esta, para fazer compensar a recente viuvez com o enfeudamento recorrente à vivência religiosa. Dona Amélia rodeou-se de directores espirituais jesuítas, dominicanos e lazaristas, tornando também o seu filho excessivamente permeável a tipos de mentalidade em que preponderava a devoção beata. Quando os primeiros revoltosos puderam penetrar nos aposentos privados do rei deposto, após o triunfo da revolução de 5 de Outubro de 1910, foram aí encontrar uma decoração de sacristia, onde abundavam as imagens sacras, as estampas pias, os oratórios, os terços, etc. As restantes individualidades que também o aconselhavam, como José Luciano de Castro, Venceslau de Lima ou o Marquês de Soveral, não souberam ou não quiseram antepor os mais determinantes interesses nacionais às vantagens de casta, de grupo ou de partido.

Logo em Janeiro de 1909, o jornal O Mundo, de marcada orientação republicana, divulgava uma entrevista, concedida por Bernardino Machado (outro trânsfuga das fileiras monárquicas …), onde esta declarava que os erros passados e actuais da monarquia tornavam inevitável a eclosão de manifestações revolucionárias em Portugal. O que tornava tal depoimento especialmente significativo era o facto de Bernardino Machado, professor da Universidade de Coimbra, ser conhecido como um dos mais contemporizadores militantes republicanos. Ele não secundara, num passado não muito distante, a estratégia de ruptura e de imediata confrontação que, após o Ultimato inglês de 1890, fora insistentemente preconizada, nomeadamente, por João Chagas, Alves da Veiga, Felizardo de Lima ou Basílio Teles. Durante anos, o seu discurso irritara visivelmente muitos dos seus correligionários, ao propugnar uma lenta evolução de mentalidades, resultante de uma pedagogia pacífica, persuasiva e demonstrativa da superioridade da república sobre a monarquia. Bernardino Machado não poderia ignorar os avanços que a organização revolucionária fizera desde os tempos rigorosos da ditadura de João Franco. Não lhe eram desconhecidos, sobretudo, os progressos da Carbonária, que se vinha singularizando como o verdadeiro braço armado de uma futura revolução republicana. O lente coimbrão não lhe conhecia detalhadamente todos os meandros. Aliás, nem sequer os bons primos das choças carbonárias entravam na posse de conhecimentos relativos a toda a estrutura organizativa. Só os directores da Alta Venda, como Machado Santos, António Maria da Silva e Luz Almeida, dominavam os segredos desta força armada, deste exército de sombras, que cooptava os seus futuros combatentes com a maior reserva, os vinculava a juramentos iniciáticos e os recrutava sobretudo junto das mais baixas patentes militares. Não será aventuroso sustentar que a entrevista de Bernardino Machado ao jornal O Mundo simbolizava o irreversível reconhecimento do futuro papel das armas, mais do que do raciocínio pedagógico, na mudança iminente das instituições e dos poderes.

Os próprios círculos oficiais não ignoravam totalmente estes aliciamentos, pressentindo que a revolução rondava por perto. Em Lisboa, corria à boca pequena que a propaganda republicana derramava a sua sedução pelo conjunto das forças armadas monárquicas, embora se dissesse que a marinha era deveras permeável ao fascínio do “barrete frígio”. À cautela, António Cabral, ministro da Marinha e Ultramar do gabinete Campos Henriques, que então vigorava, ordenou em Fevereiro à tripulação do cruzador D. Carlos que seguisse para Port-Said, não fosse o diabo tecê-las …

Apesar disto, o mês de Fevereiro de 1909 não se apresentou como especialmente nefasto para as esperanças da monarquia constitucional, caso tal juízo abonatório seja feito apenas a partir da retumbância de certas solenidades exteriores. Foi no decurso deste mês que, irmanados por ideais comuns e por similares imperativos de sobrevivência, D. Manuel II de Portugal e Afonso XIII de Espanha conferenciaram demoradamente em Vila Viçosa. Por outro lado, teria sido com júbilo que se divulgou, na Corte, a notícia de que o ramo miguelista renunciava à sua pretensão de reivindicar a coroa portuguesa. A sucessão de D. Pedro IV passava a deter, de acordo com tal renúncia, o exclusivo da legitimidade dinástica. Foi também por então que se inaugurou em Lisboa o monumento ao marechal Saldanha, esse irrequieto enfant terrible, agora perenizado na estatuária , mas que tantos amargos de boca causara a Dona Maria II e a D. Pedro V.

5 de dezembro de 2010

EPITÁFIO EM MEMÓRIA DE MANSILHA



Transcrevo aqui um dos últimos testemunhos que recolhi de Afonso Ribeiro de Mansilha, ancião de boas letras, que esteve para ser padre, mas acabou por ver recusados os confortos proporcionados aos agonizantes pela Santa Madre Igreja, quando os olhos se lhe fecharam. O Senhor Afonso gozava de má reputação nas redondezas, sendo-lhe imputados vários crimes de sedução e de corrupção da juventude, que nunca chegaram à barra dos tribunais. Aqui fica o traslado fiel que dele pude colher, seis meses e dezoito dias antes de ter aparecido defunto no seu quarto, cercado por incontáveis garrafas de vinho (maduro tinto, do bom, senão mesmo do muito bom, talvez até do excepcional, segundo enólogos capacitados).

Fala Afonso Ribeiro de Mansilha, varão e beberrão:
“Aquilo que mais me agradava era morrer irreversivelmente ébrio, quando chegasse a minha vez. Bem sei que esta confissão deslustra o estatuto que alguns forcejam por me outorgar. Mas – tem paciência! – (dizia ele, fitando-me de través) – tenham todos muita paciência, uma bebedeira magnífica, rente à hora da morte, é a melhor coisa que pode acontecer a um ser humano. Mário de Sá Carneiro, esse magnífico esquizóide, muito preocupado com o facto de ser gordo e duvidosamente sexuado, pedia que batessem em latas, quando se finasse, que rompessem aos saltos e aos pinotes, que fizessem estalar no ar chicotes, que chamassem acrobatas e que o seu caixão fosse sobre um burro ajaezado à andaluza. Tudo volições respeitáveis e sumamente exequíveis, bem sei. Mas eu não peço tanto. Por mim, quererei morrer atulhadinho de vinho maduro tinto, escorrendo-me como um rio pela goela abaixo. Na escolha das castas e dos sumos de uva, eu poderia mandatar alguns amigos do peito, que fizessem por mim o que eu me neguei a fazer por eles, quando, em reiterados carnavais gastronómicos, me furtei ao convite casuístico e honesto : “Mas então não bebemos mais um copo?”. A morte deveria ser o que não é: o gesto final da autenticidade, homérico, no qual os iminentes finados pudessem dizer ao mundo verdades definitivas. Tais como: a) os filhos da puta (por extenso) que tiveram de aturar; b) os amores que ficaram por consumar ; c) as emoções que houveram de suster; d) os vícios ocultos que ficaram no armário; e) as grandezas imensas que lhes sacudiram as almas, sem que ninguém tivesse dado conta de tal ; f, g, h … z) os gritos de confissão e de afirmação que só podem arvorar-se e desarvorar-se com uns litros de excepcional vinho tinto (maduro) no bandulho, na hora em que nos preparamos para entregar às divindades do Olimpo (e de preferência a Diónisos) aqueles restos de “anima” ou de “psyché” que não puderam revelar-se aos “quinzinhos” desta Terra. Está visto! Gostava muito de me finar com um “pifo” imenso. E, já agora, a ler aos repelões, ditados pela convulsividade etílica, os sensatos desejos finais de Mário de Sá Carneiro”.

Afonso Ribeiro de Mansilha, mais conhecido pelo “Vinha-de-Alhos”, deixou inúmeros testemunhos iconoclastas, que eu recolhi contritamente, não porque me revisse na doutrina, mas porque, dado a homenagem que o Vício acaba sempre por prestar à Virtude, me posso assim louvar nas pias advertências das criaturas de bons costumes, que tanto e tão justamente execraram a sua memória e o seu génio.

1 de dezembro de 2010

POR CAMINHOS E CÉUS



Voando assim mansinho

Sob o céu, sobre a casa e rente ao ninho

Assim se vai…

Ai aves minhas de asa larga

Com aromas de erva amarga

E cheiros subtis de rosmaninho

Por entre estevas de perdido caminho

Assim se tem

Cada uma ( e todas)

Como um bem.

Terra minha e dos meus avós

Eu hei-de beijar os nós

Dos trocos ressequidos

E tentar dar-lhes a seiva

Do torrão e da leiva

Olhando sempre os céus

P’ra vos ver renascidos

Quando adeus, adeus , adeus

Um dia vos disser

E bem vos souber ler.

28 de novembro de 2010

ELOGIO DO SETE ( 7 )



Cá por mim, gosto do sete (7). É um número cabalístico e eu gosto de tudo aquilo que está no limbo do conhecer: pronto a ser conhecido ou desconhecido. Regresso à infância. Na velha casa da Avó, camponesa analfabeta, junta com um médico rural, meu avô paterno, que lhe fez conscienciosamente muitos filhos ...(pois se ela era tão linda, como não? ), o céu, todo estrelado, contemplava-se na escadaria do velho casarão da aldeia. Todos sentadinhos no escadório de granito, como se estivéssemos a adorar o Deus-menino. A guitarra do tio Armando dedilhava uns lirismos conimbricenses. E eu olhava para cima, para toda aquela cúpula semeada de pontos luminosos, a piscar, a piscar. Era então que a Avó vinha junto a mim, me acariciava os caracóis (eu tinha caracóis nessa altura, muito antes de ter esta calvície renitente) e dizia : “então meu menino, estás a olhar o Sete-Estrelo” ? E novamente chegava a magia do número sete. Muito antes de eu saber que Israel não é, decididamente, o Povo Eleito, muito antes do conhecimento das inomináveis brutalidades sobre os palestinianos, a minha Mãe, que era uma católica fervorosa, falava-me das Sete Tribos de Israel. Dizia ela que eram sete, que eu nunca as contei. Depois, num momento muito grave da minha vida, foi numa divisão da quintarola do Ladário que eu redigi, em solidão cenobita, a minha tese de doutoramento, durante meses a fio (teriam sido sete?). Mas uma coisa eu posso dizer: a divisão onde o fiz, virada à Serra da Estrela, a perder-se na lonjura, tinha sete janelas. E mais não conto. Que isto de falar demais de nós, pode dar origem a uma camisa de onze varas, menos quatro. Entendido?

8 de outubro de 2010

SOBRE A REPÚBLICA

Entrevista concedida por Amadeu Carvalho Homem a António Gomes Costa. Jornal "O Regional", edição de 7 de Outubro de 2010.

Jornal ‘O Regional’ - 5 de Outubro de 1910. Valeu a pena a República?


Amadeu Carvalho Homem - Claro que valeu a pena. Temos hoje um conjunto de direitos, liberdades e garantias que a monarquia constitucional nunca assegurou. Somos cidadãos de parte inteira, ofereceram-nos o sufrágio universal e um estatuto de cidadania plena como nunca existiu no período monárquico. Há todas as razões para estarmos orgulhosos com a obra da República. E não esqueçamos que falar em República é mencionar tanto a Primeira República, ou seja, a que se escoou entre 1910 e 1926, como designar também a Segunda República, que se iniciou com a resgatadora revolução de 25 de Abril de 1974.

Quais eram as grandes diferenças, na altura, que motivavam o Partido Republicano a lutar pela implantação da República, criticando a própria Monarquia?


Portugal era um reino inteiramente ruralizado. As taxas de analfabetismo eram tamanhas, que apenas um quarto da população sabia ler, escrever e contar. A Carta Constitucional de 1826, diploma fundamental da monarquia, dava ao monarca o direito de vetar os diplomas legais, sem mais apelo ou agravo. O rei podia também nomear “fornadas” de Pares para a Câmara Alta e, portanto, fazer funcionar o sistema político no sentido dos privilégios aristocráticos. Por outro lado, na fase final da monarquia constitucional, quero dizer, a partir do Ultimato Inglês de 1890, o rei D. Carlos enveredou pelo mau caminho de dar cobertura a todas as aventuras ditatoriais, a maior das quais foi a ditadura de João Franco (que viria a ser grande admirador de Oliveira Salazar). Esta aventura conduziu em linha recta ao Regicídio de 1908.

Mas foi, certamente, uma República bem pensada e preparada…


Foi uma República pensada por um conjunto de teóricos e de revolucionários que sabiam bem a preocupante situação de Portugal e que procuraram encontrar portas de saída, alternativas, caminhos de superação que obstassem ao despenhamento e ao declínio sem remédio de Portugal. Entre estes teóricos podem contar-se Bernardino Machado, Alves da Veiga, Afonso Costa, António José de Almeida, João Chagas, Sampaio Bruno, Teófilo Braga e tantos outros exemplares cidadãos.


Quer isso dizer que os portugueses já se sintonizavam com o papel do Presidente da República e com as cores da bandeira nacional?


Os republicanos conheciam perfeitamente a diferença entre um rei, por definição vitalício e com o estranho “direito” de transferir a coroa para o filho varão mais velho, e um Presidente da República, representante temporário dos portugueses, que está absolutamente impedido de cumprir mandatos sem limite, uns atrás dos outros, e ainda mais impedido em deixar o cargo, por morte, ao filho mais velho (era o que faltava!). As cores da bandeira deram origem, depois do 5 de Outubro de 1910, a uma rija luta de argumentos entre os que pensavam que se deveria manter o azul e branco no estandarte da Nação, apenas lhe suprimindo a coroa real (lutavam por isto Guerra Junqueiro e Sampaio Bruno) e os que defenderam a ideia de que as cores deveriam ser mesmo substituídas pelo verde e pelo vermelho (foi o caso de Teófilo Braga). Desde o Ultimato Inglês que as bandeiras das manifestações republicanas apresentavam o verde e o vermelho. Acabou por singrar a tese dos que queriam a bandeira verde-rubra. E ela aí está!

Entende que Portugal poderia viver como uma monarquia similar à implantada noutros países, como a Espanha?


Lá poder, podia. A questão está em saber se devia. E, na minha opinião, não deve nem deverá. É que a história de Espanha é profundamente diferente da de Portugal. E depois de muitas décadas de bons resultados à sombra das Instituições republicanas, não há quaisquer motivos para se regredir à fórmula monárquica. Mas existe um outro argumento decisivo. Se vier a fazer--se um referendo sobre o regime a adoptar - como o desejam os monárquicos e como eu próprio o desejo - iria certamente concluir-se que Portugal é massivamente republicano. Os adeptos da monarquia serão talvez em Portugal uns dez por cento. Se forem... Por isso é que eu sou favorável, em princípio, a esse referendo. A questão ficaria arrumada de vez.


100 Anos sobre a implantação da República. Entende que ainda existem lembranças e respeito pelos anteriores reis?


A ignorância sobre a História de Portugal é hoje assombrosa e os poderes públicos não têm concedido ao conhecimento histórico o papel que ele deveria ter no nosso sistema de ensino. Mas eu penso, por parte daqueles que conhecem bem a História do nosso país, que os monarcas portugueses são reconhecidos e caracterizados no que tiveram de bom e de mau. Reportando-me apenas aos monarcas do nosso constitucionalismo coroado, eu destacaria pela positiva as figuras de D. Pedro V, o rei fundador do Curso Superior de Letras, em Lisboa, financeiramente alimentado com o dinheiro do seu bolso, e o rei D. Luís, que primou em levar à risca o princípio constitucional, segundo o qual “o rei reina, mas não governa”. E ninguém desconhece que, mesmo nos tempos da Monarquia Absoluta, Portugal teve a sorte de contar com grandes monarcas - como D. Dinis, como D. João II, entre outros.

Mas, no fundo, o que mudou nestes 100 anos?


O que mudou nestes últimos cem anos foi a imagem de um País. Dir-se-á que também poderia mudar com a Monarquia. Talvez. Mas as provas dadas pela monarquia constitucional não foram famosas. Somos hoje um Povo que se encontra na cauda da Europa desenvolvida, sem dúvida. É quase certo que também lá estaríamos se as instituições fossem monárquicas. Mas temos hoje, com as instituições republicanas, um clima de laicismo, de cidadania, de constitucionalismo e de tolerância que, certamente, não teríamos se não tivesse chegado a República.

Entende ser importante reflectir cada vez mais sobre o que se passou?


A reflexão histórica, sociológica, económica e cultural é sempre necessária para, em todos os momentos, ser “tomado o pulso” aos destinos de Portugal. É necessário, imperioso mesmo, que cada um de nós analise criticamente o que se faz - e o modo como se faz - em benefício de Portugal. Mas ainda é mais premente que todos nos interroguemos sobre se estamos, cada um de nós na sua função e no seu posto de trabalho - a DAR O MÁXIMO para engrandecer e tornar melhor a nossa querida Pátria.


A República, enquanto ideal, continua a ser o serviço da comunidade?


A República é servir a “res publica”, é servir a Comunidade dos Cidadãos, é servir a “causa comum dos Portugueses”. República é serviço público, desde que desempenhado com limpidez, com transparência, com honradez e com empenho. O falso republicano é aquele que, longe de servir a sua terra e esta boa gente dos cidadãos portugueses, se serve a si mesmo. Há hoje muitos e muitos maus republicanos - gente desonesta, gente corrupta, gente, lamentavelmente, decaída, gente que vendeu a alma ao diabo. É importante que se faça sentir a este género de gentalha que o Centenário da República não é deles, e, pelo contrário, se celebra CONTRA ELES.

De que forma os jovens vêm a República? Acha que a sua maioria sabe o que é e o que ela representa para o país?


Como já referi, os nossos jovens estão, infelizmente, muito mal formados e informados. A culpa não é deles. A questão é que o nosso sistema de ensino revela aspectos de quase calamidade. Aprende-se nas escolas pouco e mal. E a responsabilidade nem sequer é dos professores, pois estes estão completamente asfixiados por uma burocracia inútil e parasitária, que os prepara para tudo menos para poderem dominar bem as matérias que leccionam. É heróico o que os professores de todos os graus de ensino fazem nos seus postos de trabalho, atendendo à falta de condições que possuem e às inconcebíveis tarefas excedentárias que lhes são impostas. Assim, o que há a fazer é tentar continuar a obra escolar, no seio das famílias, das associações culturais e recreativas, dos diversos grupos que ornamentam a sociedade civil. É necessário chamar os jovens ao serviço da “res publica”. Mas para isso é necessário que lhes sejam dados bons exemplos. E os exemplos que lhes chegam “de cima” estão muito longe de se considerarem impolutos...

Mas entende que a mesma é defendida e aplicada nas escolas?


Não tenho a menor dúvida de que as nossas Escolas, nos seus diversos graus de ensino, são republicanas e ministram um ensino republicano. Mais, não duvido um minuto do papel fundamental que as Escolas desempenham no País, apesar das condições censuráveis em que têm de cumprir a sua missão.

Na sua opinião, o que se espera da República daqui para a frente?


Espera-se da República, daqui por diante, um espírito de auto-crítica e generosidade de dádiva. Espera-se uma República impregnada dos generosos ideais da sua origem. Que se imite o exemplo de Teófilo Braga que, embora presidente do Governo Provisório, embora Presidente interino da República, continuava a ir para o seu trabalho, servindo-se dos transportes públicos. Que se imite o exemplo de urbanidade e de humildade de Bernardino Machado, que saudava toda a gente, que cumprimentava com afabilidade e sem falsas prosápias todos os portugueses que a ele se dirigiam. Que se imite o exemplo dos revolucionários humildes, que foram, depois de proclamada a República, guardar os bancos, para que o dinheiro neles existente pudesse estar exclusivamente ao serviço de uma “República de todos”.
Que se imite o exemplo daqueles funcionários públicos que, mesmo instalados nos lugares cimeiros da Administração Pública, serviram sem roubar, tendo sido um modelo de honradez e de probidadeQue se imite o exemplo dos que não quiseram para si senão o que a lei determinava e que recusaram situações de privilégio mesmo quando esses privilégios lhes foram oferecidos. Lembrar aqui o modo como os antigos presidentes Ramalho Eanes e Jorge Sampaio exerceram a sua alta função é obrigatório.
É isto que eu espero da República Portuguesa futura.

3 de outubro de 2010

PELA REPÚBLICA ! VIVA A REPÚBLICA !

Com a devida vénia, transcreve-se o belo texto de Carlos Esperança, depois de obtida a necessária autorização. Obrigado, Estimado Amigo!

Porque sou republicano
Sou republicano porque recuso o carácter divino e hereditário do poder, porque sou cidadão e não vassalo, porque abomino o contubérnio entre o trono e o altar e porque um herdeiro do Iluminismo e da Revolução Francesa abomina vénias.
Sou republicano por me rever nas instituições que o voto popular sufraga e não nas que a tradição impõe. Aceitar os filhos e netos de uma qualquer família, para lhes confiar o poder do Estado, é abdicar do direito de eleger e ser eleito para as funções que dinastias de predestinados confiscavam.
Ser republicano é recusar o poder a quem não se submete ao sufrágio universal e secreto e negar o respeito a quem aceita funções de Estado sem legitimidade democrática.
Ser republicano é recusar o poder vitalício e exigir a legitimação periódica, para reparar um erro ou substituir um inapto, num horizonte temporal previamente determinado. Não há democracia plena em monarquia nem dignidade nas funções herdadas como se o país fosse uma quinta ou a Pátria uma coutada.
A República é o berço da democracia, o lugar da igualdade de género onde desaparecem privilégios de raça, nascimento ou religião, onde se aceitam todas as crenças, descrenças e anti-crenças, onde o livre-pensamento, a laicidade e a liberdade de expressão definem a matriz genética do regime.
Ser republicano é servir dedicada e abnegadamente o País sem se servir dos cargos que os eleitores confiam, ser honrado na utilização dos meios, sóbrio no exercício do poder e determinado na defesa do bem comum.
Ser republicano é exigir que homens e mulheres gozem de igualdade plena, que a escola pública seja a via para a equidade, a saúde um direito universal e a liberdade a conquista irreversível.
Ser republicano é, hoje e sempre, um acto de cidadania que tem a ética como baliza e a Liberdade, Igualdade e Fraternidade como divisa, projecto e ambição.
Viva a República.