24 de fevereiro de 2011

COIMBRA, MIL E NOVECENTOS E SESSENTA E TAL

-- Lembro-me, sim, lembro-me. Era uma jovem arruivada, muito de bem consigo e com a vida, uma filha-de-família, está bom de ver. Chegou a casar com o Marcelo? Esse dado biográfico não me escapa. Já te conto. Sei que era requestada pelo Marcelo, esse tal que andava sempre com um emblema na lapela que se assemelhava grosseiramente com a efígie de Lenine, mas que gostava sobretudo de ceias opíparas. Era uma estampa, tal pedaço de mulher … Usava os cabelos apanhados e , em pleno café-restaurante “ Mandarim” , mesmo nas barbas dos “pides”, passeava-lhes nas ventas os livros de Luckacs, Gorki, Althusser, sei lá eu que mais de herético. E os gajos, pesados como a roda da mó, olhando-lhe as redondezas dos seios e o torneado das pernas , oh meu amigo, queriam eles lá saber da luta de classes, da fascismo, do comunismo, do Lenine e do materialismo dialéctico, até mesmo do ressono pesado do Salazar!

O Marcelo era o candidato mais viável, sim. Mas lembra-se do Sampaio? O Sampaio não frequentava, em regra, o “Mandarim”. Era um rapaz reservado, magro, quase ascético. Andava sempre de capa e batina. Ia às nove e meia em ponto para a Praça da República, fazendo “piscinas” de um lado para o outro, só para a ver passar. Adorava-a de longe, como se ela não fosse uma colega como as demais, mas uma “madonna” da Renascença. Ao Sampaio não se lhe conhecia preferência política, embora se soubesse que o pai era secretário de Finanças numa vilória do interior e a mãe não tivesse outro camarote de distinção para além do que lhe estava reservado pela condição de doméstica. O Marcelo nem sonhava que o Sampaio lhe disputava discretamente a presa. Por isso, apesar de passar rés-vez pelo Sampaio nos serões primaveris da Praça da República, nem lhe passava pela cabeça provocá-lo. Era como se bordejasse uma vinha já vindimada. Entrava no café-restaurante, como um César triunfador, e ia postar-se numa posição estratégica, a partir da qual a pudesse deslumbrar. Às tantas, a partir do oitavo copo de cerveja, o Marcelo subia para cima da cadeira, espantando toda a gente, e orando assim, “urbi et orbi” : “ Eu quero aqui assinalar todos os centenários que a Ilustre e Sábia Academia de Coimbra venera e celebra: o centenário da Sebenta, o tricentenário de Camões, o centenário do Marquês de Pombal” – e acrescentava, virado para a mesa dos “pides” – “tão do agrado daqueles senhores; o centenário do Hilário, e também o centenário de todos os corações amigos e amantes da Beleza” . Esta última arrancada era posta em destaque com um olhar intencional, dirigido para a tranquila mesa onde se encontrava , a saborear um “pingado”, de companhia com outros, uma jovem de cabelo cor de cobre, apanhado em tótó, como o das velhas da Beira.
Nesse dia, o Sampaio seguira a estátua da sua adoração e ficara de pé, reservado, pensativo, muito só, num ângulo do café, com o copo da água sem gás consumido à metade. Atentíssimo, também. Quando o Marcelo concluiu a diatribe, o Sampaio, muito calmo, dirigiu-se à mesa do colega depoente e disse : - Senhores meus colegas, este Marcelo é uma burla monumental; ele é tão comunista como eu sou Rei da Abissínia. Está morto por ser preso por aqueles funcionários da “pide”, transigirá até com a vergonha de apanhar uns tabefes, para ganhar o estatuto que lhe permita transitar, como um Deus, pelas cuecas de todas as colegas que lhe interessam. E eu sei quem lhe interessa sobremaneira”.
Segiu-se o pandemónio. O Marcelo atirou-se ao Sampaio como os cristãos se aplicaram a dar murraças nos mouros. Os da “pide”, completamente ultrapassados pelos acontecimentos, só tartamudeavam “mas que é isto? mas que é isto? Ordem! haja Ordem, senão vai tudo preso”. O Talina, empregado de mesa, metido num casaco largo e impecavelmente branco, repetia, como um fonógrafo estragado, “isto nem parece dos senhores doutores, dos senhores doutores”. E a causa eficiente da balbúrdia, a jovem bela e leitora, pagou ao Hugo - também ele fun cionário do “Mandarim” - a despesa da mesa e saiu a sorrir, imperturbável, mas não sem que antes, ao cruzar-se com o Sampaio, lhe tivesse murmurado baixinho : “Não esteve mal. Mas, sabe, há cuecas e cuecas…”.
Eu ouvi toda esta evocação, procurando exumar, dos arcanos da memória, o Sampaio, os “pides”, o Marcelo, o Talina, o Hugo e “tutti-quanti”. Depois, dirigi ao meu amigo a pergunta óbvia: -- Olha lá, com quem é que ficou a pequena? E fiquei varado, quando ele me respondeu: -- Ora essa, comigo. Comigo! Pois se era eu que nesse dia estava na mesa com ela… Tinha vindo de Abrantes para a rever. Amiga de escola, sabes? Eu dediquei-me ao negócio do turismo e abri um hotel de vinte quartos nos arredores de Tomar. Casei com ela logo a seguir à formatura em Geografia, por ela tirada em Coimbra. Achei piada, porque o Marcelo foi nosso cliente do hotel, onde pernoitou há uns meses . E foi ela que o atendeu no balcão da portaria. Nem sequer se conheceram. Tive de ser eu a refrescar-lhe a memória, perante o nome, depois do tipo ter desandado. Mas o que me deu mais gozo foi o facto do Marcelo trazer na lapela , muito visível e embandeirado, o emblema do PSD. Típico, não ?
-- E o Sampaio? – perguntei.
-- Desse nunca mais ouvi falar. Já deve ter morrido.

23 de fevereiro de 2011

OS PENITENTES


Os penitentes saem das casas ao lusco-fusco

E ao lusco-fusco caminham por estradas sem distância.

Os penitentes levam na mão um nodoso bordão

E na alma uma incomensurável Fé

E fazem sempre muitos calos no pé.

Os penitentes são de muitas cidades e de muitas idades

E de condições plurais ; e não soltam ais

Quando os músculos já doem

Quando as pernas vacilam

Quando os corpos se encharcam

Em Deus e em suores devotos; e também

Em inevitabilidades de carne viva.

Os penitentes gostam de orar nos longos caminhos

Muito sofridos e onde carinhos não abundam.

Por vezes, automóveis arquejantes em velocidades impiedosas

Matam os penitentes piedosos e os jornais do dia seguinte

Anunciam que morreu atropelado um penitente

E que não foi realizado o teste alcoólico

Porque o penitente trazia no bornal um papelinho

Dobrado em quatro vincos onde dizia que perdoava,

Que perdoava tudo a todos ( e também obviamente

À carripana desarvorada). Os penitentes morrem então

De excesso de octanas e de míngua de código da estrada.

Tenho pena de nunca ter sido um penitente.

Por agora, limito-me a ser um resistente

Já não é mau. Resisto ao Tempo. Que esse

Mata mesmo e sempre. Mata sim, sem contrição

Por força de trânsitos a que não demos atenção

E também, como nem sempre convém,

Por míngua de octanas de saúde

E ainda por decretos do Divino, daquele Divino

Sempre honrado, finalmente,

Pelo peregrinar do penitente.

Lastimo nunca ter sido penitente

Mas cumpro a minha jornada lealmente

Contra o Tempo, a destempo

Procurando evitar o contratempo inevitável

Não sei bem se do Motor Imóvel de Aristóteles

Se daquele Anjo Caído, Mefistófeles,

O monstro, o transviado, o grande cão

Que continua a peregrinar

( e a guiar, valha-nos Deus)

Sem carta de condução.

15 de fevereiro de 2011

SINA DE "PORTUGA" ...

"Descansa, rapaz! Vais continuar aí dependurado por mais cem anos..."

Existem duas Europas : a católica e a calvinista; a normativa e a anárquica; a res-publicana e a res-mafiosa; a construtora de Futuro e a nostálgica do Passado; a laboriosa e a parasitária; a previdente e a dissipadora. A primeira corresponde geograficamente à Europa Central e à Europa do Norte; a segunda ocupa, em termos amplos, a fatia mais próxima da bacia mediterrânica. Estas duas Europas nunca irão conseguir uma aliança de boa-fé. A segunda jamais apreciará o rigor administrativo e a seriedade decisória da primeira. Um cidadão da Europa consistente terá sempre presente que os seus índices de bem-estar não podem ser alcançados à margem dos cómodos e das garantias que os demais concidadãos também tiverem. Um “cívico” da Europa “berluscónica” partirá sempre do princípio de que o Bem Comum é uma treta e de que quem não tem “padrinhos” morre mouro. Os princípios de solidariedade da primeira Europa foram na segunda substituídos pela expressão com que Alexandre O’Neill nos caracterizava : “vamos mas é fazer pela vidinha…”. A “vidinha” é, no pátrio poiso, o golpe do baú no casamento, a mão-de-finado no testamento, o videirismo na política, o suborno na Administração, o oportunismo no negócio, o “depois-de-mim- que-se danem” na partidocracia. É uma espécie de prodígio providencial que este país ainda não tenha desaparecido. A única razão para tal prodígio deve estar no facto de que, depois de nos tornarmos conhecidos, no nítido contraste das respectivas endogenias, ninguém nos quer. Fomos um rebanho disciplinado enquanto tivemos a ameaça das ditaduras a pesar-nos sobre os lombos: Salazar não foi uma fatalidade, mas o reflexo de uma imagem no espelho da idiossincrasia. Quem declara que precisamos de mais uma dúzia de Salazares tem a razão que provém da circunstância de reconhecer o seu fundo de bestialidade e de cerrada estupidez. E quem acredita que certo Presidente da República é honesto, cercado pelos Amigos que teve e tem, não é apenas ingénuo: é um Sancho Pança que passou pelas forcas caudinas de uma calda imbecilóide, onde foi mergulhado, à maneira de Aquiles, não para que se tornasse imortal, mas para que se convertesse para sempre num pobre-diabo.

Eu já nada espero do grito espontâneo da lisura patriótica. Espero tudo da Fome e da Miséria. Que já chegaram.

14 de fevereiro de 2011

HAVANA ; HAVANA ...

O que acontece é que só nos repetimos. Julgamos falar para o Universo, para todos os vivos e até para todos os mortos, quando afinal nos limitamos a dizer de nós, sempre e só de nós, como uma melopeia, a mesma cançoneta. É como se fossemos um daqueles solipsismos melódicos de certas canções cubanas, onde aparece sempre a voz metálica dum refrão a repetir incansavelmente as mesmas notas. Percebi isto, com muita clarividência emocional, em Havana, quando me consegui escapulir do guia que nos levava, como rebanhos, pelos recessos da cidade esventrada, na tentativa insólita de recuperar inutilmente a aura similar à de um Cadillac cataléptico e de cromados já amarelecidos. A receita turística dos Castros repetia-se incansavelmente : levavam-nos, de cambulhada, para uns pátios sem graça, onde se faziam ouvir as notas arrastadas de Carlos Puebla a celebrar o Comandante Imortal e depois se estorciam umas patéticas marafonas, de gâmbias desnudadas, procurando dar vida a uma cenografia virtualmente erótica, mil vezes repetida.

Fui passear para o Malecón. O Malecón não é mais do que um passeio rente ao mar, cheio de pescadores de canas improvisadas e de olhos fitos mais no além da América do que no picar improvável do peixe. No Malecón há desesperos. E putas para turistas. Ciranda-se por lá como se fosse um roteiro sem fim. Um autóctone, escuro e de bigode, interpelou-me, perguntando se eu poderia estar interessado em “donzelas virgens de catorze ou quinze anos”. A verdade é que me ouviu dizer que estava mais curioso da memória de Hemingway e que as meninas poderiam ficar para mais tarde. De Hemingway não sabia nada. Só de jovenzinhas. Ofereceu-me um “puro”, contra a eventual permuta de uma “gilette” descartável. Como não tinha comigo a “gilette”, fiquei também impedido de baforar o “puro”. Também me interrogou sobre se já tinha visto a Praça da Revolução. Disse-lhe que sim, que tinha estado lá, naquele terreiro vazio e calcinado, com a caricatura do Che desenhada com hastes de ferro na parede de um Ministério qualquer e com um fálico monumento a memorar o passado heroísmo dos barbudos da Sierra Maestra.

Havana afigurou-se-me como ponto nodal da relatividade da vida. É que a percepção da decadente nostalgia consegue ser tão forte, tão omnipresente, que nos damos conta que um dia, depois da pletora das forças vitais, todos nós iremos ser assim.

Fui a Havana duas vezes, em dois tempos diferentes. Eu, diferente também. Mas Havana igual a si mesma, das duas vezes. Das duas vezes vi velhas vestidas de branco a cobrar um ou dois dólares por fotografia que se lhes quisesse tirar. Das duas vezes peregrinei por lá, demandando as balas dos insurgentes em fachadas pulverulentas. Das duas vezes fui à Bodeguita del Medio, transitando por ruas fedorentas para beber um “mojito”, pretensamente intelectual, acotovelando gentes a baloiçar-se entre a fruição do exotismo e a libertação etílica.

Repetir Havana é ter a certeza de que somos tautológicos. Mas a vista geral da cidade, do cimo de um decrépito hotel de comprovada centralidade, é a evidente certeza de que continuamos, nós, os Cadillacs fanados da estranja, a perceber, para além dos prédios de pintura velha e descascada, e também das prostitutas e das velhas de charuto nos dentes, e do ridículo “cliché” oficial, e dos proxenetas do Malecón, que todos nós, todos, sem excepção, acolhemos nas funduras de nós próprios a esperança de que um dia tudo se recrie e renove, nas ruas, nas praças e nos lupanares de nós mesmos.

27 de janeiro de 2011

MEMORIAL REPUBLICANO LXII

Machado Santos, o "herói da Rotunda"

LXII - A VITÓRIA DA ROTUNDA (2)

Por esta altura, já o movimento revolucionário era abertamente discutido pelos lisboetas, em botequins e nas raras casas comerciais que se atreviam a abrir, com os taipais meio-corridos. O jornal republicano O Mundo declarara o seu aplauso à causa da Rotunda. Lisboa passou a acrescentar mais um brado ao seu rumor habitual. Por ruas escusas ou avenidas mais largas, começaram a ouvir-se os gritos, ainda por então sediciosos, de “Viva a República!”. Nos primeiros alvores do dia 5 de Outubro, um diplomata alemão, Encarregado de Negócios do Kaiser, dirigiu-se ao Quartel-General monárquico e solicitou uma suspensão das hostilidades durante uma hora, para que, segundo a sua proposta, os súbditos germânicos pudessem sair da cidade com toda a segurança. Era um gesto que apenas visava reforçar o prestígio teutónico, atendendo ao facto de serem quase inexistentes as pessoas de tal nacionalidade em efectivo estado de risco. Para que o armistício tivesse viabilidade, era necessário ser também aceite pelo comando republicano. O general Gorjão escreveu uma carta explicativa das intenções do Encarregado, arranjou-lhe uma escolta militar e aconselhou-lhe a que procurasse entender-se também com a parte oponente. E eis que o Encarregado, sob a protecção de uma escolta que ostentava uma bandeira branca, sobe a cavalo a Avenida, em direcção à Rotunda. Seriam oito horas e quinze minutos da manhã. O povo de Lisboa atribuiu imediatamente à bandeira o significado simbólico da rendição. A partir de então, explodiram incontidamente as manifestações populares de júbilo e a onda da “arraia-miúda”, liberta de recentes medos, inunda literalmente o teatro das hostilidades. No Rossio, populares entusiastas desfazem completamente as formações militares e convivem alegremente com as tropas. Quando o Encarregado de Negócios da Alemanha chegou à fala com Machado Santos, já este tinha obrigado a escolta a bandear-se com a parte republicana. Depois de algumas palavras rudes travadas entre os dois, é cometido a António Maria da Silva o encargo de redigir os termos do armistício. Ficou escrito que a suspensão de hostilidades se iniciaria às oito horas e quarenta e cinco e cessaria uma hora depois. Não havendo já escolta, Machado Santos dispõe-se a acompanhar o diplomata alemão ao Quartel-General. Seriam pouco mais do que oito e meia da manhã. Ao descer a Avenida a cavalo, o comandante da Rotunda é ovacionado por populares lisboetas, arrancado da garupa do animal e levado ao colo até ao destino. Chega ao Quartel-General desalinhado, coberto de pó e sem uma dragona, que lhe tinha sido subtraída pelas efusões apoteóticas a que fora sujeito. Assim se apresenta perante um general Gorjão completamente desalentado, por ter reconhecido a balbúrdia indisciplinada e festiva que se instalara no Rossio. Apesar de tudo, ainda encontra força e dignidade para interpelar gravemente Machado Santos, acusando-o de ter violado o armistício. Ao que este, olhando para o relógio, lhe replica que, sendo oito horas e quarenta e quatro minutos, faltava um minuto para o seu início. Depois, declara-lhe que a República havia sido declarada. Antes de se render, Gorjão manifesta as suas apreensões pela segurança do rei e recebe de Machado Santos uma resposta tranquilizadora.

Enquanto decorriam estes decisivos lances, os membros do Directório republicano proclamam a República e formam o governo provisório, presidido por Teófilo Braga, na Câmara Municipal de Lisboa. Eram cerca de nove horas da manhã quando Eusébio Leão, Inocêncio Camacho e José Relvas, cercados por outros republicanos, se dirigem da varanda do município ao povo da capital, apinhado no largo fronteiro. Leram a declaração da abolição da monarquia, o manifesto de proclamação da república e os nomes previstos para o governo provisório. Cessava o tempo dos militares e iniciava-se o tempo dos políticos. Às onze horas da manhã tiveram fim as solenidades no edifício da Câmara. A festa transbordou para a rua, traduzida em “entusiasmo, bandeiras hasteadas, exclamações, palavras, gritos”, no dizer quase fotográfico de Raul Brandão. Não faltou também a nota romântica, no telegrama com que Guerra Junqueiro saudou o governo. Nele se dizia, nomeadamente: “A alma da Pátria desabrocha, vitoriosamente, em flor de luz, em flor de ideal”.

A República estava feita? Estava. Mas hoje sabemos, talvez mais seguramente do que nunca, que ela, na sua dimensão mais exigente e essencial, está sempre por fazer. A sua perenidade reside precisamente nisto.

13 de janeiro de 2011

A REPÚBLICA E "ISSO QUE AÍ ESTÁ"



Encaminham-se para o fim as celebrações relativas ao centenário da implantação da República em Portugal. Várias conclusões se puderam tirar desta efeméride, que alguns viram como campanha cívica e outros analisaram como assunto de morgue. A primeira e mais gratificante conclusão é a de que a República permanece viva nos seus ideias de pluralismo teórico e ideológico, de convívio tolerante, de reivindicação de igualdade perante a lei, de reclamação de maior equidade na distribuição dos rendimentos e de maior civilismo laicista na vivência social quotidiana. Foram estes os valores que os mais humildes puderam saudar e que se demonstraram exuberantemente, em Coimbra, nesse memorável 5 de Outubro de 2010. No espreguiçar de uma tarde cálida, a Praça Velha e a Baixa de Coimbra, com a Praça 8 de Maio apinhada, contemplaram o desfile das mais variadas organizações populares, desde os ranchos folclóricos às bandas de música, sem esquecer as tendas de artesanato e as locandas de comes-e-bebes. Foi uma torrente de Povo, Povo verdadeiro e anónimo, que se juntou à festa e que se sentiu jubilosa. Uma festa deste jaez teria, seguramente, provocado o incómodo (indisfarçável, em certos casos) de certa gente, dita bem-pensante, do burgo conimbricense. E à Pedagogia dos valores houve quem quisesse contrapor a realidade dos factos, insinuando que “a República é isso que aí está”. Este juízo comprova, de uma só vez, duas coisas: a pusilanimidade dos que confundem os ideais com a perversão dos mesmos pela natureza humana, e o inconsciente pendor dos depoentes para o sarro do conservadorismo mais cego e mais rasteiro.

Imaginemos que um convicto defensor do regime republicano pudesse dizer, a esta casta de gente, coisas como estas: a generalidade dos dirigentes históricos do republicanismo em Portugal deu mostras de uma inconcussa probidade; Teófilo Braga utilizava os transportes públicos e rejeitava as demonstrações de faustosa vaidade; Manuel de Arriaga fazia questão de pagar do seu bolso a ocupação do seu domicílio presidencial; Bernardino Machado foi verdadeiramente exemplar, tanto na sua esfera profissional como na sua vida pessoal; José Falcão ensinou a cidadania aos seus concidadãos. Tudo isto, pensaríamos nós, no reduto da nossa ingenuidade, brilha como ouro e como ouro deverá ser conservado. Mas há quem se compraza com os detritos da “História”. É tudo uma questão de escolher, confundindo paradigma com perversão. E logo alegam o regicídio, de que o Partido Republicano esteve isento. E vem a seguir a instabilidade ministerial, sem se referir que ela apareceu, sobretudo, na ressaca de uma Grande Guerra completamente arrasadora. E metem no mesmo bornal o Pimenta de Castro, o Sidónio Pais e o Oliveira Salazar, como se fossem estes os exemplos mais lúcidos e acabados da mensagem republicana, em vez de terem sido, como foram efectivamente, os falsificadores de todo um trabalho, escorreito e idealista, de honrada propaganda. E tratam de remexer no lixo do passado para concluírem, impávidos mas pouco serenos, que a República é “isso que aí está” …

Levada a lógica destas especiosas mentes às suas últimas consequências, poderemos entrar no campo do mais completo delírio surrealista. A Igreja Católica é pedófila – houve Cristo, sim, o Doutrinador, mas há que atentar “nessa coisa que aí está”. A literatura portuguesa é a Rebelo Pinto, pois ela, a escrevente, é “isso que aí está” e que mais vende, em concreto, nas livrarias. A honradez política – que ainda existe – é uma figura de retórica, porque “isso que aí está” é o “Freeport”, as acções do Cavaco e o cheque do Alegre. Estes “intelectuais” não querem que a República seja uma Demopedia em marcha. Querem-na rameira, vulgar e pulha, mas dentro do velho princípio, convenientemente psicanalítico, do “similia similiabus”. Há, em tudo isto, um ajuste de contas a fazer. E nem sequer serão os republicanos sinceros, intransigentemente aferrados aos princípios fundamentais, a pedirem a satisfação da factura. Quem vai proceder ao balanço final será … a História. E ela, segundo cremos, irá dizer isto: “No decurso da efeméride do Centenário da Implantação da República houve gente que se disse republicana, que se confessou democrata, que se apresentou como cultíssima, e que não fez outra coisa senão acutilar, deprimir e vexar – o melhor que soube e pôde – o Republicanismo e a Democracia”.

No dia em que a lógica e a análise possam provar isto, não haverá outra sanção para estes “Catões-de-meia-leca” senão a justa punição de uma monumental gargalhada.

10 de janeiro de 2011

MEMORIAL REPUBLICANO LXI

LXI - A VITÓRIA DA ROTUNDA (1)

Na madrugada de 4 para 5 de Outubro de 1910, Lisboa dormiu mal. Os canhões da Rotunda troaram toda a noite, cumprindo as ordens de Machado Santos, comissário naval que aí se acantonara para fazer vingar uma revolução republicana. O seu envolvimento revolucionário começara cerca da uma hora da madrugada do dia 4. Nessa altura, sob a sua chefia, uma patrulha sediciosa de militares e civis submetera o Regimento de Infantaria 16, em Campo de Ourique, não sem que se tivesse travado uma rija fuzilaria que ceifou a vida ao coronel Celestino da Costa, comandante desta unidade. O grupo dirigiu-se seguidamente para o Regimento de Artilharia 1, em Campolide, objectivo fundamental para os desígnios republicanos, uma vez que guardava grande quantidade de armas pesadas e munições. O auxílio que a patrulha revolucionária pôde prestar, na unidade de Campolide, ao Capitão Pala e aos seus homens revelou-se precioso. Também este quartel caiu nas mãos dos sublevados, dele saindo três baterias sob o comando do capitão Sá Cardoso e do capitão Pala que teriam as missões de atacar o Paço Real das Necessidades e de forçar à rendição da Guarda Municipal, aquartelada nas alturas do Carmo. Tais resultados não foram alcançados por se ter verificado a falta de apoios complementares inicialmente previstos. Assim, as colunas acabaram por se fundir e, contando novamente com o apoio de Machado Santos, seguiram para a Rotunda do cimo da Avenida. Lá se concentraram por volta das três horas da madrugada e aí resistiram a uma débil tentativa de ataque, desferida pela Guarda Municipal. O balanço que os revolucionários puderam fazer sobre a realização do plano previsto não podia ser mais decepcionante. É certo que se soube que em Alcântara, o Quartel dos Marinheiros passara para as mãos de gente republicana, devido à intrepidez de decisão do primeiro-tenente Ladislau Parreira e dos segundos-tenentes Sousa Dias e Carlos da Maia. Mas também se divulgou que, não tendo sido possível prender o rei nas Necessidades, o aquartelamento sofria agora os ataques das forças monárquicas protectoras do Paço, de localização bem próxima, sobranceira à unidade revoltada. Assim, o Quartel dos Marinheiros ficaria obrigado a uma estratégia meramente defensiva. Nas primeiras horas da concentração na Rotunda, os rebeldes à monarquia também não poderiam saber dos sucessos alcançados pela sua parcialidade nas águas do Tejo. Com efeito, o tenente Mendes Cabeçadas subordinara o cruzador “Adamastor” e um grupo audaz de sargentos e praças tomara conta do cruzador “S. Rafael”, transferindo mais tarde o comando para o tenente Tito de Morais.

Na Rotunda, a manhã veio projectar uma luz fria sobre o ânimo descoroçoado das gentes. Constou que as forças monárquicas se estavam a acantonar no Rossio e que a Guarda Municipal se preparava para carregar, Avenida acima, sobre o reduto insurrecto. A esperança estava na possibilidade de a marinhagem poder tomar o Terreiro do Paço, colocando o inimigo entre dois fogos. Mas mesmo isso aparecia como projecto vago e aleatório. Que fazer, então? O comandante Sá Cardoso reuniu um conselho de oficiais, no qual expôs em palavras cruas a angustiante situação. Com uma excepção, foi decidido aceitar a inevitabilidade dos factos. Muitos militares despiram a farda, envergaram roupas civis e desapareceram na primeira esquina. Porém, Machado Santos não o quis fazer. Ia ficar, contra todos os ventos de descrença e todas as marés de desesperança. A primeira contagem de recursos humanos deixou-o gelado. Estavam com ele apenas nove sargentos, cerca de duzentos militares, uns quantos inexperientes cadetes da Escola do Exército e um magote de civis, na sua maioria desarmados. Do Directório Republicano, repositório de políticos maioritariamente civis, apenas se divisava na Rotunda a presença solidária do Dr. Malva do Vale. Foi aproveitada a boa vontade dos populares para cavar trincheiras e reforçar barricadas. Por volta das onze horas do dia 4, irão ocorrer, em simultaneidade, duas iniciativas de consequências verdadeiramente decisivas. No Tejo, os dois cruzadores “Adamastor” e “S. Rafael”, vão fundear em frente à zona de Alcântara e, cumprindo a ordem de Ladislau Parreira, dão-se ao bombardeio do Paço das Necessidades. A metralha provoca estragos no aposento privado do rei e um dos disparos corta, como que simbolicamente, a adriça do pavilhão real. A criadagem deserta, em completo estado de pavor. Por seu turno, os áulicos próximos de D. Manuel II aconselham-no a retirar para Mafra, onde se lhe irão juntar as rainhas avó (D. Maria Pia) e mãe (D. Amélia). Por vontade do monarca, é transmitida à Escola de Torpedos e Electricidade do Vale do Zebro a ordem de afundamento, por torpedeiros, dos navios revoltosos, a qual fica sem efeito, uma vez que o comandante da Escola se nega a dar-lhe cumprimento. Pela mesma altura, a Rotunda é sujeita a um ataque sob o comando do capitão Paiva Couceiro, o qual coordenou a acção militar da Bateria de Artilharia a Cavalo de Queluz, do Regimento de Infantaria 2 e da unidade de Lanceiros, da Cavalaria 2. Como que miraculosamente, a Rotunda resiste e neutraliza completamente a acção por volta das quatro horas da tarde, obrigando os adversários à retirada.

Este baptismo de fogo da Rotunda teve um notório efeito galvanizador. Pelas oito horas da noite do dia 4, a Rotunda regurgita de gente: são mais populares a chegar e é também o retorno de muitos dos sublevados que haviam despido a farda e que agora novamente a querem envergar. Uma grosseira contagem dá agora conta da existência de quinhentos militares e de mil civis, metade dos quais armados. Por descrença, descoordenação ou tibieza, as forças monárquicas do Rossio não se movem e entram em desmoralização a cada hora que passa. Machado Santos decide então agravar as condições do campo monárquico, pondo a troar ininterruptamente uma boca-de-fogo na dobragem de 4 para 5 de Outubro. Na Avenida, devido a esta flagelação, um prédio arde. Que importa um prédio a arder contra o fogo inextinguível de um Ideal? Pois que arda, pensa Machado Santos. O estampido do fogo dura toda a noite, conforme regista nas suas “Memórias” o escritor Raul Brandão. O Quartel General da monarquia incumbe novamente Paiva Couceiro da missão de ataque à Rotunda, mas este pouco mais adianta para além da colocação de peças de fogo na Praça dos Restauradores e na zona do Torel. Tudo se salda, afinal, por rijos combates de artilharia que, embora inconclusivos para ambos os lados, produzem o efeito antinómico de entusiasmar os da Rotunda e de provocar o desânimo nos defensores do Trono. No raiar da manhã, o fogo republicano é assestado sobre o Quartel do Carmo, provocando no comandante, coronel Malaquias de Lemos, um indisfarçável temor. No Rossio, lavra a mais profunda inquietação entre as chefias monárquicas. O que mais se teme é que os navios surtos no Tejo - agora ainda mais reforçados pela conquista do “D. Carlos”, feita pelo tenente Carlos da Maia - enfiem a metralha pelos eixos da Rua do Ouro e da Rua Augusta e façam depois desembarcar no Terreiro do Paço uma força complementar de neutralização. Fosse por imperativo moral ou por mera covardia, os comandantes dos Regimentos de Infantaria 5 e de Caçadores 5, respectivamente coronel Cristóvão Ribeiro da Fonseca e tenente-coronel Peixoto, fazem constar que, a confirmar-se tal eventualidade, não mandarão abrir fogo sobre os marinheiros. Isto dava razão à análise posteriormente feita por Teixeira de Sousa, chefe do último governo monárquico, que reconheceu que a resistência contra-revolucionária dependeu exclusivamente, nesta última fase do confronto, de forças da Guarda Municipal, aliás dispersas e mal coordenadas.