8 de março de 2011

A "MANIF" DO DIA 12


Por responsabilidades próprias e alheias, a “manif” do dia 12 está a assentar em imperdoáveis equívocos. O primeiro desses equívocos resulta do facto de alguns dos seus promotores terem vindo à praça pública para reclamarem a destituição de “toda a classe política”. Ora, como o conceituoso Louçã, o arrenegado Jerónimo e o impagável Alberto João, o “do jardim”, se apressaram a declarar a sua solidariedade ao evento – e talvez até a respectiva presença no mesmo – Portugal irá assistir a esta singularidade: a de três ilustres cidadãos exigindo, impantes e impávidos, que os destituam da cena política e os afastem como pestíferos (o que talvez não fosse demasiado mau). Por outro lado, a “geração à rasca” pratica uma espécie de fascínio maximalista. Não se limita a exigir o afastamento dos crapulosos, dos desonestos, dos desonrados, dos pulhas, dos traidores ao povo e ao país, dos apátridas. Nada disso: é necessário, segundo o seu parecer, destroçar, varrer, aniquilar, TODA a “classe política”. E aqui, ressoam nos meus ouvidos os consabidos anátemas de todos os totalitarismos. Também Lenine pediu, na Rússia, TODO o Poder para os sovietes; também Mussolini reclamou, em Itália, a extirpação de TODAS as oposições; também Hitler impôs, na Alemanha e depois no mundo, a perseguição a TODOS os judeus; também Salazar, mais melífluo, aconselhou, em Portugal, a filiação na União Nacional a TODOS os “bons portugueses”. É o bafio do “déjà vu” a intrometer-se no cotão da fatiota da “geração à rasca”. Um outro equívoco radica na pobreza das declarações de intenção. Quem se manifesta, deveria manifestar-se pela positiva: não queremos isto e preferimos aquilo; rejeitamos estas práticas, mas preconizamos que se adoptem aquelas; não queremos ir por esta viela, mas propomos que se caminhe por aquela azinhaga. Ou seja: uma manifestação ditada pelo puro e duro fascínio “manifestativo” é ainda mais pobre do que a pobreza material (efectiva e inaceitável) da “geração à rasca”. A “manif” do dia 12 arrisca-se a congregar o “lumpen mental” de Lisboa e do Porto – o que é verdadeiramente tragicómico, sobretudo se ponderarmos o grau de empenhamento cívico, lucidamente fundamentado, que é agora exigível a todos e a cada um de nós, no exausto Portugal de agora.

É verdade que uma boa parte da “classe política” portuguesa se instalou, com vilania velhaca, na fruição de prebendas inaceitáveis, no egoísmo de privilégios injustificáveis, na manigância de negociatas reles, no tripúdio de valores democráticos fundamentais. Mas desejar a inculcação da ideia de que TODA a “classe política” se atascou no lamaçal da indignidade é, em si mesmo, a demonstração da incompetência de diagnóstico de quem quer atirar a “geração à rasca” para o beco sem saída da impotência. E isto fornece aos desejosos da manutenção do “status quo” este argumento irretorquível: “Coitados dos rapazes. Nem ideias têm. Divertem-se em desfiles inócuos e nada mais”!

Nestes últimos dias, o apregoado carácter apartidário desta “manif à rasca” conheceu um novo e paradoxal desenvolvimento. Segundo alguns, o evento visaria sobretudo os não-sei- quantos-anos da prática governativa do PS e do PSD. Ou seja: já nem sequer se salva o putativo distanciamento que poderia assacar-se à rejeição do “sistema”. É apenas UMA PARTE do dito “sistema” que irá ser alvo de execração. Mas, afinal, em que ficamos: é TODA a “classe política” que se vai crucificar ou já só UMA PARTE dela? E quem acredita, lealmente, com a autenticidade dos que prezam uma coisinha elementar chamada Verdade, que as demais formações partidárias se encontram na completa Bem-Aventurança política, por uma espécie de desígnio providencial, de milagre continuado, de banho santo sem mácula?

A “geração à rasca” merecia mais. E merecia melhor. E deveria ter procurado melhor aconselhamento. É que, por este caminho, tudo aponta para que continue, de futuro, ainda mais “à rasca”…

4 de março de 2011

PORTUGAL


Certo dia, num início de Primavera, o telefone tocou. Do outro lado estava Artur Portela, pedindo-me para fazer a apresentação, em Coimbra, do seu livro “História Fantástica de António Portugal”. Senti-me honrado com o repto. Desde os meus tempos de universitário que eu admirava Artur Portela e o seu pendor satírico. Para mim, ele era “A Funda”, esse título memorável, com base no qual foi feita a demolição de muitos dos aparatos senis do Estado Novo. Aceitei. Li o livro num sopro e fiz a apresentação que me era pedida na Casa da Cultura, em Coimbra, no já remoto passado de um 25 de Março de 2004. Creio ter tomado umas notas e improvisado a intervenção. Digo “creio”, porque nas gavetas domésticas nunca encontrei, em letra de forma, essas minhas palavras. A Prezada Amiga e Poeta Isabel Mendes Ferreira foi desenterrá-las à Internet, sem que eu suspeitasse que elas aí poderiam estar. Tais palavras, agora convertidas em texto, aqui ficam. Para ilustrarem duas leituras: a leitura de Portugal, feita por Artur Portela, e a releitura dialógica que a sua obra me permitiu realizar sobre os destinos da Pátria comum.

« Esta “História Fantástica de António Portugal” não é assim tão... fantástica. É apenas fantástica a metodologia adoptada, sendo mais uma história simbólica do que fantástica, na medida em que o simbolismo de uma figura que tem olhos verdes com reflexos rubros, anexado que está ao próprio país, vai, de algum modo, acompanhar todos os textos, desde o assassinato de Miguel Bombarda até aos momentos posteriores à nossa adesão ao espaço europeu. Se me é consentido, a primeira reflexão que eu queria fazer seria sobre o modo como certos autores, para ficarem mais próximos do povo que somos, acabam por se socorrer desta metodologia. Isto nos remete para uma questão: o que é um símbolo e de que modo funcionam os símbolos, sobretudo quando pretendem traduzir a verdade profunda de um povo e de um país. Eu penso que o simbolismo está acompanhado de uma certa perspectiva onírica. Abordamos a verdade de um país com os olhos do sonho e diz-nos Freud que a interpretação dos sonhos é uma interpretação que se faz através de processos típicos, como o processo de condensação. Isto é, um ir buscar, em momentos precisos, exactamente aquilo que nos foi definindo enquanto seres colectivos, enquanto colectividades. Os processos de condensar em momentos particularmente visíveis e em momentos dramáticos a verdade do nosso sentir e da nossa espontaneidade dão forma à metodologia seguida por Artur Portela nesta longa digressão que começa com o assassínio de Bombarda e que vai praticamente até aos dias de ontem. E não é por acaso que nesta peregrinação nos vão surgir os momentos mais densificados da História de Portugal, como por exemplo o regicídio ou a fuga da família real. Também aqui cabe aquele episódio, que é picaresco, um pouco humorístico, mas que define tão bem o espírito de um tempo, todo ele percorrido por tensões diversas, ou seja, aquela circunstância de, pelo facto de se ter soltado um disjuntor num eléctrico, Afonso Costa se ter atirado pela janela e ter partido uma perna. Como simbólico é o sofrimento português nas trincheiras da Flandres. Assim também o caso da "Noite Sangrenta" e do assassínio do António Granjo. Como é a reconstrução da figura de Sidónio Pais. Como é o advento de António Oliveira Salazar. Como é a Exposição do Mundo Português. Como é o modo como aborda os torcionários da DITA, que é a PIDE. Como são os massacres africanos. Como é o início da revolução de Abril. Como é o enfoque dado ao problema da nossa adesão ao espaço europeu. E o que se contém de extraordinário e de contraditório - porque o espelho da alma portuguesa é o de uma viva contradição – no que respeita às missões humanitárias portuguesas no exterior, as quais, não raro, muito pouco de humanitário contêm, servindo muito mais a causa da guerra do que a causa do humanitarismo e da paz. Finalmente, não podia deixar de me referir ao modo como esta abordagem se encerra: através de um julgamento feito a António Portugal, que é um “alter ego” do Autor.Não sei se estou a interpretar bem ; mas penso que este António Portugal não mantém com o autor o mesmo tipo de relação que podemos encontrar entre a figura do Zé Povinho e Rafael Bordalo Pinheiro. Bordalo Pinheiro constrói a figura do Zé Povinho como um “outro” , como algo que está para além dele, que é diferente, como uma entidade que densifica tudo aquilo que Bordalo Pinheiro não queria que Portugal fosse. Mas este António Portugal, o de Artur Portela, é uma figura que, ao contrário da figura do Zé Povinho, o aproxima do próprio criador. É como que um prolongamento, em certos casos com reticências, do seu próprio processo de criação. Mas estava eu a falar do julgamento a que é sujeito António Portugal que, como figura simbólica que é, e como alma portuguesa que traz, responde “sim” a todas as perguntas. O nosso “Portugalinho” responde que sim a todas as perguntas, sobretudo quando elas são feitas pela Autoridade. António Portugal é julgado pelos historiadores literários, homens de " história toda curta ".É uma abordagem extremamente irónica, extremamente humorística, sorridente, sem deixar, no entanto, de ser, nuns casos lírica, noutros casos intensamente dramática. Por exemplo, no momento em que Artur Portela pergunta " A que sabem os beijos de Genciana?" ( que é o mesmo que perguntar a que sabem os beijos de uma certa portugalidade afectiva, a que sabe Portugal, a que sabe o abraço que o povo português pode dar à sua terra, à sua gente) a pergunta encerra alguma amargura e dramatismo. Não posso deixar de ler uma passagem que é uma das leituras mais pertinentes, mais verdadeiras da nossa essência de portugalidade que alguma vez li: "Tanta súbita culpa, tão densa, tão ferozes estes brandos costumes, tão sempre o mesmo e tão de longe, tão antigo, tão familiar, tão hereditário, tão simultaneamente fantástico e real, tão matador, tão desinfiel, tão escarnecedor, tão maldizente, tão alongado amigo, tão amante, tão demandante, tão salgado, tão negreiro, tão roceiro, tão mineiro, tão mesticeiro, tão troca-voltas, tão apiratado, tão exilado, tão queimador, tão mirone de cadafalsos e de chãos salgados, tão enforcador e forcado, tão iluminado, tão importador, tão revolucionário, tão aventalado, tão mata-frades, tão rubro, tão verde, tão camionista de mortes, tão bombista de urinóis, tão amochado, tão clandestino, tão estátua de dor, tão polícia, tão cravista, tão polícia de polícias, tão ateador de fogos, tão defenestrador, tão entrado nos eixos, tão sacador de perdidos fundos, tão deseuropeu, tão linguista, tão papagaio, tão bom aluno, tão instalado, tão untador de mãos, tão jonglador de contabilidades, tão imprescritível, e assim imprescrita toda esta culpa. E depois quem, Portugal? Sim, mas e os beijos, que sabor? E depois que Portugal?" (pág.as 249-250) Acho que esta página deve ter sido escrita num valioso momento de raríssima, preciosa inspiração. Aliás, todo o livro está cheio desses momentos. Mas esta página é, para mim, antológica, porque simultaneamente nos dá a simbiose do que nós fomos e somos e continuamos a ser enquanto povo: uma combinatória de grandeza e da falta dela. Portugal e os portugueses nunca deixaram de ser isto, um povo que se lança para todos os desafios para depois, subitamente, de um modo um tanto espantado, verificar que perdeu tudo ou quase tudo. E que foi, por um instante, magnífico, brilhante, realizado no momento em que se sente na crista das coisas; só que depois, lentamente, há como que o refluxo das coisas, o refluxo dos entusiasmos, das esperanças, dos próprios símbolos. E Portugal fica confrontado consigo mesmo, fica com um nó na garganta. Este excelente romance é um pouco feito neste registo. Vê-se que Artur Portela é um português em Portugal, um português lúcido num tempo que exige cada vez mais lucidez, e que a relação que mantém com os diversos momentos da História Contemporânea de Portugal e a relação que mantém com o seu António Portugal é uma relação dupla, como se estivesse num permanente exercício de sonho acordado. É como se Portugal lhe chegasse cheio de perfume, de garra mas simultaneamente cheio de uma simbólica de finitude ou de quase finitude em que, apesar de tudo, se acredita. E é neste novelo de ser e não ser, neste magma de contradição, que eu vejo que a “História Fantástica de António Portugal” é a história de António Portugal vista na fantasia dos nossos sonhos e das nossas esperanças »

(Texto agora revisto e pouco corrigido)

2 de março de 2011

ELEGIA PARA UM FIM DE MUNDO


Escrevo-te a partir do século oitenta e cinco

E quero dizer-te que não te reconheço.

No teu tempo, o mundo era só um começo

...Ignorante das certidões em que me finco.

A voz de Homero já não chega a mim.

Ulisses não pisou a gruta do obscuro Polifemo

Nem singrou pelo mar, nem teve barca e remo

Nem sereias cantaram anunciando o fim.

Escrevo-te a partir do século oitenta e cinco

Na linguagem dos signos virtuais

Morreu Dante, Camões e todos os demais

E a Beleza abalou, partiu, fechou o trinco.

Eu próprio nem como homem me conheço

E neste corpo torcido trago a fogo escrito

O drama do que foi fome, guerra e grito

Do que ditou em mim a marca do destroço.

Sabes, eu sou o último dos homens da tua geração

O que terminou a hecatombe anunciada

O que da vida e da esperança fez o nada

O que foi o profeta da própria maldição.

Lanço esta carta ao mar, dentro do desespero

Neste sinal de alarme inútil e perverso

Cerca-me agora o silêncio do Universo

Quebrado a espaços por meu uivo fero.

Recomece então a Natureza ou Deus

O seu teimoso e incessante retomar

Possam novas alquimias renovar

Caminhos, outros homens, outros céus.

24 de fevereiro de 2011

COIMBRA, MIL E NOVECENTOS E SESSENTA E TAL

-- Lembro-me, sim, lembro-me. Era uma jovem arruivada, muito de bem consigo e com a vida, uma filha-de-família, está bom de ver. Chegou a casar com o Marcelo? Esse dado biográfico não me escapa. Já te conto. Sei que era requestada pelo Marcelo, esse tal que andava sempre com um emblema na lapela que se assemelhava grosseiramente com a efígie de Lenine, mas que gostava sobretudo de ceias opíparas. Era uma estampa, tal pedaço de mulher … Usava os cabelos apanhados e , em pleno café-restaurante “ Mandarim” , mesmo nas barbas dos “pides”, passeava-lhes nas ventas os livros de Luckacs, Gorki, Althusser, sei lá eu que mais de herético. E os gajos, pesados como a roda da mó, olhando-lhe as redondezas dos seios e o torneado das pernas , oh meu amigo, queriam eles lá saber da luta de classes, da fascismo, do comunismo, do Lenine e do materialismo dialéctico, até mesmo do ressono pesado do Salazar!

O Marcelo era o candidato mais viável, sim. Mas lembra-se do Sampaio? O Sampaio não frequentava, em regra, o “Mandarim”. Era um rapaz reservado, magro, quase ascético. Andava sempre de capa e batina. Ia às nove e meia em ponto para a Praça da República, fazendo “piscinas” de um lado para o outro, só para a ver passar. Adorava-a de longe, como se ela não fosse uma colega como as demais, mas uma “madonna” da Renascença. Ao Sampaio não se lhe conhecia preferência política, embora se soubesse que o pai era secretário de Finanças numa vilória do interior e a mãe não tivesse outro camarote de distinção para além do que lhe estava reservado pela condição de doméstica. O Marcelo nem sonhava que o Sampaio lhe disputava discretamente a presa. Por isso, apesar de passar rés-vez pelo Sampaio nos serões primaveris da Praça da República, nem lhe passava pela cabeça provocá-lo. Era como se bordejasse uma vinha já vindimada. Entrava no café-restaurante, como um César triunfador, e ia postar-se numa posição estratégica, a partir da qual a pudesse deslumbrar. Às tantas, a partir do oitavo copo de cerveja, o Marcelo subia para cima da cadeira, espantando toda a gente, e orando assim, “urbi et orbi” : “ Eu quero aqui assinalar todos os centenários que a Ilustre e Sábia Academia de Coimbra venera e celebra: o centenário da Sebenta, o tricentenário de Camões, o centenário do Marquês de Pombal” – e acrescentava, virado para a mesa dos “pides” – “tão do agrado daqueles senhores; o centenário do Hilário, e também o centenário de todos os corações amigos e amantes da Beleza” . Esta última arrancada era posta em destaque com um olhar intencional, dirigido para a tranquila mesa onde se encontrava , a saborear um “pingado”, de companhia com outros, uma jovem de cabelo cor de cobre, apanhado em tótó, como o das velhas da Beira.
Nesse dia, o Sampaio seguira a estátua da sua adoração e ficara de pé, reservado, pensativo, muito só, num ângulo do café, com o copo da água sem gás consumido à metade. Atentíssimo, também. Quando o Marcelo concluiu a diatribe, o Sampaio, muito calmo, dirigiu-se à mesa do colega depoente e disse : - Senhores meus colegas, este Marcelo é uma burla monumental; ele é tão comunista como eu sou Rei da Abissínia. Está morto por ser preso por aqueles funcionários da “pide”, transigirá até com a vergonha de apanhar uns tabefes, para ganhar o estatuto que lhe permita transitar, como um Deus, pelas cuecas de todas as colegas que lhe interessam. E eu sei quem lhe interessa sobremaneira”.
Segiu-se o pandemónio. O Marcelo atirou-se ao Sampaio como os cristãos se aplicaram a dar murraças nos mouros. Os da “pide”, completamente ultrapassados pelos acontecimentos, só tartamudeavam “mas que é isto? mas que é isto? Ordem! haja Ordem, senão vai tudo preso”. O Talina, empregado de mesa, metido num casaco largo e impecavelmente branco, repetia, como um fonógrafo estragado, “isto nem parece dos senhores doutores, dos senhores doutores”. E a causa eficiente da balbúrdia, a jovem bela e leitora, pagou ao Hugo - também ele fun cionário do “Mandarim” - a despesa da mesa e saiu a sorrir, imperturbável, mas não sem que antes, ao cruzar-se com o Sampaio, lhe tivesse murmurado baixinho : “Não esteve mal. Mas, sabe, há cuecas e cuecas…”.
Eu ouvi toda esta evocação, procurando exumar, dos arcanos da memória, o Sampaio, os “pides”, o Marcelo, o Talina, o Hugo e “tutti-quanti”. Depois, dirigi ao meu amigo a pergunta óbvia: -- Olha lá, com quem é que ficou a pequena? E fiquei varado, quando ele me respondeu: -- Ora essa, comigo. Comigo! Pois se era eu que nesse dia estava na mesa com ela… Tinha vindo de Abrantes para a rever. Amiga de escola, sabes? Eu dediquei-me ao negócio do turismo e abri um hotel de vinte quartos nos arredores de Tomar. Casei com ela logo a seguir à formatura em Geografia, por ela tirada em Coimbra. Achei piada, porque o Marcelo foi nosso cliente do hotel, onde pernoitou há uns meses . E foi ela que o atendeu no balcão da portaria. Nem sequer se conheceram. Tive de ser eu a refrescar-lhe a memória, perante o nome, depois do tipo ter desandado. Mas o que me deu mais gozo foi o facto do Marcelo trazer na lapela , muito visível e embandeirado, o emblema do PSD. Típico, não ?
-- E o Sampaio? – perguntei.
-- Desse nunca mais ouvi falar. Já deve ter morrido.

23 de fevereiro de 2011

OS PENITENTES


Os penitentes saem das casas ao lusco-fusco

E ao lusco-fusco caminham por estradas sem distância.

Os penitentes levam na mão um nodoso bordão

E na alma uma incomensurável Fé

E fazem sempre muitos calos no pé.

Os penitentes são de muitas cidades e de muitas idades

E de condições plurais ; e não soltam ais

Quando os músculos já doem

Quando as pernas vacilam

Quando os corpos se encharcam

Em Deus e em suores devotos; e também

Em inevitabilidades de carne viva.

Os penitentes gostam de orar nos longos caminhos

Muito sofridos e onde carinhos não abundam.

Por vezes, automóveis arquejantes em velocidades impiedosas

Matam os penitentes piedosos e os jornais do dia seguinte

Anunciam que morreu atropelado um penitente

E que não foi realizado o teste alcoólico

Porque o penitente trazia no bornal um papelinho

Dobrado em quatro vincos onde dizia que perdoava,

Que perdoava tudo a todos ( e também obviamente

À carripana desarvorada). Os penitentes morrem então

De excesso de octanas e de míngua de código da estrada.

Tenho pena de nunca ter sido um penitente.

Por agora, limito-me a ser um resistente

Já não é mau. Resisto ao Tempo. Que esse

Mata mesmo e sempre. Mata sim, sem contrição

Por força de trânsitos a que não demos atenção

E também, como nem sempre convém,

Por míngua de octanas de saúde

E ainda por decretos do Divino, daquele Divino

Sempre honrado, finalmente,

Pelo peregrinar do penitente.

Lastimo nunca ter sido penitente

Mas cumpro a minha jornada lealmente

Contra o Tempo, a destempo

Procurando evitar o contratempo inevitável

Não sei bem se do Motor Imóvel de Aristóteles

Se daquele Anjo Caído, Mefistófeles,

O monstro, o transviado, o grande cão

Que continua a peregrinar

( e a guiar, valha-nos Deus)

Sem carta de condução.

15 de fevereiro de 2011

SINA DE "PORTUGA" ...

"Descansa, rapaz! Vais continuar aí dependurado por mais cem anos..."

Existem duas Europas : a católica e a calvinista; a normativa e a anárquica; a res-publicana e a res-mafiosa; a construtora de Futuro e a nostálgica do Passado; a laboriosa e a parasitária; a previdente e a dissipadora. A primeira corresponde geograficamente à Europa Central e à Europa do Norte; a segunda ocupa, em termos amplos, a fatia mais próxima da bacia mediterrânica. Estas duas Europas nunca irão conseguir uma aliança de boa-fé. A segunda jamais apreciará o rigor administrativo e a seriedade decisória da primeira. Um cidadão da Europa consistente terá sempre presente que os seus índices de bem-estar não podem ser alcançados à margem dos cómodos e das garantias que os demais concidadãos também tiverem. Um “cívico” da Europa “berluscónica” partirá sempre do princípio de que o Bem Comum é uma treta e de que quem não tem “padrinhos” morre mouro. Os princípios de solidariedade da primeira Europa foram na segunda substituídos pela expressão com que Alexandre O’Neill nos caracterizava : “vamos mas é fazer pela vidinha…”. A “vidinha” é, no pátrio poiso, o golpe do baú no casamento, a mão-de-finado no testamento, o videirismo na política, o suborno na Administração, o oportunismo no negócio, o “depois-de-mim- que-se danem” na partidocracia. É uma espécie de prodígio providencial que este país ainda não tenha desaparecido. A única razão para tal prodígio deve estar no facto de que, depois de nos tornarmos conhecidos, no nítido contraste das respectivas endogenias, ninguém nos quer. Fomos um rebanho disciplinado enquanto tivemos a ameaça das ditaduras a pesar-nos sobre os lombos: Salazar não foi uma fatalidade, mas o reflexo de uma imagem no espelho da idiossincrasia. Quem declara que precisamos de mais uma dúzia de Salazares tem a razão que provém da circunstância de reconhecer o seu fundo de bestialidade e de cerrada estupidez. E quem acredita que certo Presidente da República é honesto, cercado pelos Amigos que teve e tem, não é apenas ingénuo: é um Sancho Pança que passou pelas forcas caudinas de uma calda imbecilóide, onde foi mergulhado, à maneira de Aquiles, não para que se tornasse imortal, mas para que se convertesse para sempre num pobre-diabo.

Eu já nada espero do grito espontâneo da lisura patriótica. Espero tudo da Fome e da Miséria. Que já chegaram.

14 de fevereiro de 2011

HAVANA ; HAVANA ...

O que acontece é que só nos repetimos. Julgamos falar para o Universo, para todos os vivos e até para todos os mortos, quando afinal nos limitamos a dizer de nós, sempre e só de nós, como uma melopeia, a mesma cançoneta. É como se fossemos um daqueles solipsismos melódicos de certas canções cubanas, onde aparece sempre a voz metálica dum refrão a repetir incansavelmente as mesmas notas. Percebi isto, com muita clarividência emocional, em Havana, quando me consegui escapulir do guia que nos levava, como rebanhos, pelos recessos da cidade esventrada, na tentativa insólita de recuperar inutilmente a aura similar à de um Cadillac cataléptico e de cromados já amarelecidos. A receita turística dos Castros repetia-se incansavelmente : levavam-nos, de cambulhada, para uns pátios sem graça, onde se faziam ouvir as notas arrastadas de Carlos Puebla a celebrar o Comandante Imortal e depois se estorciam umas patéticas marafonas, de gâmbias desnudadas, procurando dar vida a uma cenografia virtualmente erótica, mil vezes repetida.

Fui passear para o Malecón. O Malecón não é mais do que um passeio rente ao mar, cheio de pescadores de canas improvisadas e de olhos fitos mais no além da América do que no picar improvável do peixe. No Malecón há desesperos. E putas para turistas. Ciranda-se por lá como se fosse um roteiro sem fim. Um autóctone, escuro e de bigode, interpelou-me, perguntando se eu poderia estar interessado em “donzelas virgens de catorze ou quinze anos”. A verdade é que me ouviu dizer que estava mais curioso da memória de Hemingway e que as meninas poderiam ficar para mais tarde. De Hemingway não sabia nada. Só de jovenzinhas. Ofereceu-me um “puro”, contra a eventual permuta de uma “gilette” descartável. Como não tinha comigo a “gilette”, fiquei também impedido de baforar o “puro”. Também me interrogou sobre se já tinha visto a Praça da Revolução. Disse-lhe que sim, que tinha estado lá, naquele terreiro vazio e calcinado, com a caricatura do Che desenhada com hastes de ferro na parede de um Ministério qualquer e com um fálico monumento a memorar o passado heroísmo dos barbudos da Sierra Maestra.

Havana afigurou-se-me como ponto nodal da relatividade da vida. É que a percepção da decadente nostalgia consegue ser tão forte, tão omnipresente, que nos damos conta que um dia, depois da pletora das forças vitais, todos nós iremos ser assim.

Fui a Havana duas vezes, em dois tempos diferentes. Eu, diferente também. Mas Havana igual a si mesma, das duas vezes. Das duas vezes vi velhas vestidas de branco a cobrar um ou dois dólares por fotografia que se lhes quisesse tirar. Das duas vezes peregrinei por lá, demandando as balas dos insurgentes em fachadas pulverulentas. Das duas vezes fui à Bodeguita del Medio, transitando por ruas fedorentas para beber um “mojito”, pretensamente intelectual, acotovelando gentes a baloiçar-se entre a fruição do exotismo e a libertação etílica.

Repetir Havana é ter a certeza de que somos tautológicos. Mas a vista geral da cidade, do cimo de um decrépito hotel de comprovada centralidade, é a evidente certeza de que continuamos, nós, os Cadillacs fanados da estranja, a perceber, para além dos prédios de pintura velha e descascada, e também das prostitutas e das velhas de charuto nos dentes, e do ridículo “cliché” oficial, e dos proxenetas do Malecón, que todos nós, todos, sem excepção, acolhemos nas funduras de nós próprios a esperança de que um dia tudo se recrie e renove, nas ruas, nas praças e nos lupanares de nós mesmos.