22 de junho de 2011

POIESIS

Primeiro são palavras alinhadas

E de comportamento exemplar

Oh, quão forçado é fazê-las rimar

Quais batalhões de tropas perfiladas.

Depois, p´ra quem não sabe, a poesia

Nunca presta, se demais disciplinada.

Solta-se a vela e vamos à deriva

Dos cheiros, dos sabores, da maresia.

Agora sim, ficou enfim terra perdida

E água à vista. Um sangue todo novo

Em nova escrita. Um não sei quê

De infinita percepção do que se vê

Mas sobretudo do que vai só por si

Uma distância que se palmilha

Um amargor que se toma e se rilha

Sem a necessidade de sair daqui.

A seguir, ou antes, ou agora

O embrulhar sem tino da memória

Destino-vagalume em sintonia

Com um tempo qualquer, tão privativo,

Solto, ou (se quisermos) decepado

Daquilo que não foi por nós amado

Restando só aromas de amor vivo.

18 de junho de 2011

VISITAÇÃO AO NOME PRÓPRIO

Penso, por vezes, que a minha auto-percepção e a imagem que produzo nos outros poderia variar, melhorando ou piorando, se os meus pais me tivessem baptizado com outro nome. Imaginem que, em vez de me identificarem como um Amadeu, se lhes colocava a rude tarefa de me saudarem como um Afrânio. Nós também somos o som do nosso nome; ora, Amadeu faz suceder à neutralidade da letra a (todas as vogais são neutras, exceptuando o i ) a sequência murmurante da consoante m, logo seguida, uma vez mais, pela incolor presença de um outro a. Daqui se segue que eu terei de gerar – pelo menos perante mim – a imagem preguiçante que me confere personalidade. Ora, a letra que confere personalidade ao nome Amadeu, é claramente o m. Como o mar, como a manhã, como o mito, esse m determinante dá-me a certeza de que vou flutuando na vida, ao sabor das marés. O meu m possui dois “airbags”, um de cada lado, prontos a salvar-me de todos os naufrágios. Os meus ás, redondos e serviçais, dão-me o sossego da imponderabilidade. É o que me acontece, em geral, nas cidades desconhecidas – que eu gosto de descobrir a pé. Nunca traço itinerários. Nunca vou ao Turismo. Nunca tenho no bolso as listas dos monumentos. Vou caminhando, caminhando, e é a própria aventura da descoberta inesperada que me traz toda a alegria.

Imaginem, agora, que eu me chamava Afrânio. Logo após a impassibilidade do a, sobrevém o terramoto. O fr só funciona na Amazon.fr ; é uma dupla de um cabotinismo incrível, ou não fosse a França iniciada por essas duas famigeradas letras. Um Afrânio é um foguete em figura de gente : fr… fr … fr . Nenhum grão de poesia ou de contemplação resiste a um nome destes. Por isso, se um infeliz com este nome decide ir a Londres, ou a Paris, ou mesmo a Lisboa, ele terá de levar no bolso o mapa detalhado da respectiva urbe, com os locais emblemáticos marcados com bolinhas vermelhas. Um homem destes chorará se se enganar no nome da rua ou na saída do metropolitano. Leram a “Dona Flor e seus dois maridos”, de Jorge Amado? Pois bem, um Afrânio nunca será um Vadinho, vadio e trotamundos, mas será sempre o outro marido da Flôr, o tal cujo nome agora me escapa, mas que fazia amor com ela em dias prefixos, salvo se houvesse uma “ponte” de fim-de-semana, caso em que a cópula era adiada por um dia (será que me estou a lembrar bem?).

Seja como for, é óptimo chamar-me Amadeu!

(Com pedidos de desculpa a todos os Afrânios …).

15 de junho de 2011

ALCOBAÇA SEM MONGES ... MAS COM FRANCESES

Nova visita a Alcobaça e ao velho mosteiro cisterciense. Um espaço carregado de história e de arte sacra, aquele. Património da Humanidade, informa um folheto para turista distraído. A circulação é tão livre como desprevenida. Uma velha, com ar de beata, pesadamente sentada à entrada, vigia meia dúzia de brochuras alusivas, que ninguém compra. Nas capelas laterais alinham-se santos e santas de madeira dos séculos XVI e XVII. Peças únicas, autênticas, à distância de menos de três metros. O que nos separa deles é uma fitinha vermelha, comicamente frágil. Tudo aquilo está ali à mercê de todas as intenções : as boas e as más. Dou comigo a pensar que a Igreja Católica já por mais de uma vez se queixou do roubo de insubstituíveis e valiosíssimas peças sacras. Que Povo é este ? Que Igreja portuguesa é esta ? Que gestão de património é feita neste jardim de espanto e de insânia? Aquelas imensas naves acolhiam gente "de desvairadas partes", como diria o vate. Entraram por ali dentro sem que lhes fosse exigido um cêntimo. Fotografaram o que melhor entenderam, como bem lhes aprouve. Dizem as Autoridades que não há verbas para recuperar os monumentos nacionais. Como não? Como assim? Então o "camóne" , o das Franças e das Araganças, o "brutus Germanicus" entra num monumento português, "património da Humanidade", sem pagar um cêntimo, às dezenas, às centenas, aos milhares, e depois vêm os tipos da Administração e da Tutela respectivas dizer-nos que "não há verbas para recuperar o património artístico português" ? Isto é deveras um País, uma Pátria ou é apenas um lupanar, uma loja de cuspos da sueca, uma nitreira a levedar? Como querem que eu não me indigne se vi com os meus olhos um casal de franceses - pertencente ao mesmo povo que nos invadiu por três vezes e que, numa dessas vezes, rebentou barbaramente os mimosos túmulos de Pedro e de Inês de Castro porque a soldadesca, ébria e napoleónica, imaginava que no seu interior poderiam jazer , mais do que os corpos dos amantes eternos, os ceptros ou as coroas de ouro e prata, cravejadas de pedras preciosas - se vi tal casalinho, talvez de Montmartre, talvez do Quartier Latin, talvez da baiúca de Madame Sans Souci, fitar o túmulo de Inês, com evidente cabotinismo, e comentar audivelmente : - "Pas pareil à Notre-Dame" ? Ainda que o dissessem depois de terem contribuído com meia dúzia de euros para a preservação do que nos pertence e nos emociona !!! Numa das naves laterais fui surpreendido com o convite, colectivo e mais uma vez gratuito - o que já é compreensível - para um concerto de metais, interpretado por um quinteto do Orfeão de Leiria. Os franceses tinham chegado primeiro. Lá os vi sentadinhos, numa das filas da frente. A distância não permitiu que lhes escutasse as apreciações. Mas o facto foi que saíram ao intervalo.

1 de junho de 2011

A FILHA DO QUIM VENDEIRO

Ao Engº Carlos Ferreira, meu Amigo, que gosta das minhas ficções.

A filha do Joaquim Vendeiro era loira, apresentava uns olhos azuis e muito redondos, como se fossem feitos de cristal de rocha, incrustados num rosto de porcelana, e era invulgarmente alta para a sua idade. Sempre que na casa da avó havia dúvidas sobre o neto que haveria de ir num pulo à venda do Vendeiro, eu, muito lépido, simulava o jogo da exemplaridade, dizendo: - “Ora essa , Vóvó, vou já para lá a correr”. E como os primos fossem songa-monga, inaptos de vista ou de codícia, eu saía pelo portão, como um foguete, e chegava esbaforido à porta do Quim Vendeiro, com uma folha de encomendas na mão e um vácuo cardíaco que ainda se agravava mais se a filha do Joaquim Vendeiro não comparecesse ao encontro apenas sonhado.

Na aldeia havia hierarquias sociais muito rígidas. No topo da pirâmide hierárquica estava a Avó, que até ainda era prima em segundo grau do Vendeiro. Mas o Avô, médico João-Semana, tinha amanhado os trapinhos com aquela analfabeta, linda de morrer no seu porte amouriscado. Fizera-lhe, com toda a consciência demográfica, – para além da lascívia animal que nessa altura era censurada acremente pelo Senhor Prior – meia dúzia de filhos, que ela parira orgulhosamente sem a assistência de outro arrimo para além do seu próprio parceiro de cama e de Destino. Um João-Semana médico, nessa altura, era, na aldeia, um ornamento e uma utilidade; um ornamento, porque poder salvar-se alguém como Hipócrates das berças – “boa tarde, Senhor Doutor” – representava o Sétimo Céu de uma população que ainda encarava um clister ou uma injecção como forma de bruxedo, embora mais qualificado; mas era também uma utilidade complementar às infusões de erva-cidreira ou de flor de laranjeira, uma espécie de última instância no tribunal contingente da vida, ao qual se recorria em desespero de estômago ou de tripa. Por todos estes motivos, acrescidos dos que advinham de meia dúzia de terras de semeadura, quase todas de sequeiro, e de quatro pinhais, a casa da Avó – assim chamada porque o Avô morrera inesperadamente com uma “angina pectoris” – fazia o figuraço homólogo da “Domus Aurea” de Nero, no período antecedente ou consequente (os arqueólogos que o decretem) ao incêndio de Roma.

Mas quem se encontrava de alma incendiada, por muito que desejasse ocultá-lo, … era eu. A filha do Quim Vendeiro era, dia-sim dia-não, a imagem que me ajudava a adormecer, vogando no azul dos seus olhos muito redondos, e me animava o acordar, com a ideia fixa de que talvez as provisões da despensa pudessem revelar défices de abastecimento, que me permitissem promover a boa-vontade com que corria como um gamo até à tenda do Vendeiro. A Avó, completamente absorvida pela ingente tarefa de alimentar a considerável descendência, nem reparava na lépida disponibilização dos meus préstimos. Mas havia uma pessoa que eu não enganava, que eu nunca consegui iludir: a minha Mãe. Num desses dias em que eu me aprestava para esquadrinhar todos os ângulos da locanda do Vendeiro, a minha mãe chamou-me de parte e disse-me: -“ Meu filho, tu és crescidinho e não te tenho por tolo. O que eu te quero dizer, de uma só vez e sem mais palavreado é isto: a filha do Vendeiro não está à tua altura. E agora desanda”. Foi como se estivesse a olhar para o firmamento e caísse, de chofre, num charco de águas pútridas. Ainda por cima, numa altura em que eu já havia combinado com a filha do Quim Vendeiro um romântico “rendez-vous”, logo a seguir à janta, nas cercanias do poço do Pinhal Novo. Mesmo assim, à hora combinada, lá estava eu, a espreitar a vereda inóspita que separava a aldeia da cintura verde das cercanias imediatas. E foi assim que a vi, ligeira, muito loira, volitante como um pássaro novo, determinada como uma andorinha, galgando a distância com o seu passo de gazela.

Não me contive e ainda ela não tinha chegado junto a mim já as lágrimas, grossas e impotentes, me corriam pela cara abaixo. - “Então, que tens tu, meu lindo ?” - “não sei, já não sei nada, esta vida é uma merda” – “vê como falas, olha que o meu pai nem aos jogadores de sueca permite palavrões; além disso, o Senhor Prior também não gosta” – “pois, mas imagina que a minha Mãe diz que tu não estás à minha altura”. Foi então que no pinhal aconteceu um súbito, infinito silêncio. Aqueles olhos azuis, muito redondos, eram fios de gelo a perfurar o meu rosto, a procurar o esquivo da minha expressão confusa. Pela primeira vez desde o nosso segredo, ela colocou as suas mãos por baixo do meu queixo, obrigou os meus olhos peregrinos a fitar de frente os seus olhos crentes e disparou : “ E tu, que pensas disso?” – “Merda, merda, merda, não sei, sei lá, como queres que saiba? Só tenho catorze anos, ainda nem ando na Universidade…” – “Vá, não digas mais tolices; fecha os olhos bem fechado e conta até vinte. Abre-os aos vinte e um. Verás que o teu problema ficará então resolvido”. Lembro-me que comecei a contar um, dois, três … quinze, dezasseis … dezanove, vinte. Aos vinte e um abri os olhos e verifiquei que estava muito só e muito infeliz, junto ao poço do Pinhal Novo.

A Avó faleceu no ano seguinte e o clã familiar dispersou. Só voltei à aldeia muito tempo depois, já bem espigado, num dos últimos anos do meu curso universitário. Foi uma romagem de saudade à casa dos Avós, agora habitada por fantasmas benfazejos. Lembro-me que a loja do Quim Vendeiro estava transformada num cabeleireiro, especificamente designado como sendo “de senhoras”: “Haja altura ! – Cabeleireira de Senhoras”, rezava a tabuleta.

29 de maio de 2011

SOBRE O GROTESCO


Apercebemo-nos fragmentariamente da realidade. O nosso fragmento é o recanto da nossa humanidade. Mas é só um recanto. Ando às voltas com o grotesco na arte, na literatura, na caricatura e dou-me conta que o vocábulo não merece a desvalorização que se lhe associa. Imputamos ao grotesco uma condição de monstruosa menoridade. A verdade é que nele residiu a primeira mensagem da abordagem da realidade plástica como um todo. A descoberta, no século XV, da “Domus Aurea” , de Nero, revelou aos olhos espantados dos arqueólogos do tempo um novo modo de ver. É que, salvo opinião mais qualificada, a Arte mais não é do que a incessante ruptura da solidão, a caminho de um novo diálogo. Ora, o diálogo que foi travado até à Renascença ressentiu-se do facto de se julgar que a dominância de Deus tornava Dele dependentes as realidades criadas e sublinhava a precaridade e fragilidade de todas as “criaturas”, fossem vivas ou inertes. Ora, o que foi revelado nos frescos que, por se encontrarem no subsolo, tiveram a designação de “grotescos” – como coisas vindas das grutas – isso que desta sorte foi trazido à tona das perplexidades humanas, consistiu num tipo de objectividade que repudiava a segmentação do real. A lógica dos “três reinos” – animal, vegetal e mineral - , tão esforçadamente estabelecida na Meia Idade, recebia aqui um desmentido formal. É que a haste de uma flor, nascida da terra, podia prolongar-se para o rosto de um sátiro, ou enovelar-se numa folha de acanto, ou configurar-se num animalejo monstruoso, ou até servir de sustentáculo ao trono de uma deidade. Ou seja, o “continuum” do real – dizemo-lo hoje … - anunciava Darwin ou as diversas modalidades de monismo. Esta novidade foi intuída claramente pelo génio do Romantismo oitocentista e por um dos seus mais qualificados intérpretes : Victor Hugo. Foi ele que, no prefácio do “Cromwell”, veio afirmar que a arte do seu tempo e a que se lhe seguiria não mais poderia olvidar que entre a objectividade e a subjectividade, entre a matéria e o espírito, entre o animal e o homem, entre o belo e o feio, entre a covardia e o heroísmo, entre a serpente e a maçã, vai a distância que separa o Todo das partes, ou seja, vai a cesura que inexiste entre o Físico e o Metafísico.

25 de maio de 2011

PEDIDO ENCARECIDO AOS AMIGOS

Este vosso Amigo tem o prazer de vos comunicar que, desde a presente data ao próximo dia 5 de Junho, se dará metodicamente a práticas de grande higiene mental. Isto significa que, excluído o tempo necessário ao desempenho de obrigações profissionais e sociais, irá ler bons livros, escutar muito boa música ligeira e música clássica de excelência, dispensar ao seu jardim os cuidados que as plantinhas exigem (elas não têm culpa nenhuma de vicejarem em período eleitoral) e só ouvir da caça aos votos os nacos necessários à emissão de vocalizações inerentes ao exercício do riso.

Os meus Familiares já estão instruídos no sentido de ligarem baixinho as telefonias - como antigamente se dizia - , bem como as duas televisões cá de casa, para que a minha homeostase não seja minimamente perturbada. Desenham-se contudo no horizonte ameaças a este projectado plano de beatitude individual: elas provêm da passagem à minha porta de umas quantas carripanas, munidas de altifalantes, que projectam sons estrídulos, a partir do aparelho fonador de uns desgraçados que só fizeram as Novas Oportunidades, repetindo incansavelmente que os concidadãos podem e devem votar nos malfeitores do costume. Chegado o fatal dia 5 de Junho, irei depositar na urna (refiro-me à eleitoral e não àquela que a "gajada" reserva para Portugal) um papelinho imaculadamente branco. Deixo, finalmente, um pedido aos meus queridos Amigos e Amigas. Se tiverem de entrar em contacto com este vosso admirador, tenham a bondade de aventar todos os temas da vossa e minha preferência - v.g., a filosofia dos séculos XIX e XX, a pintura de Jerónimo Bosch ou de Goya, a próxima época futebolística do SPORTING, o sabor das alheiras transmontanas, o surrealismo, as desgraças do Cavaleiro da Triste Figura (não me estou a referir ao Conejo, não), o fado castiço de Lisboa, a qualidade da próxima colheita vinícola dos tintos maduros, a sápida fascinação da vitela de Lafões, a influência da Geração de 70 na Cultura portuguesa, o significado polissémico do arroto após uma boa refeição, o fascínio do modo de contar de Fernão Mendes Pinto e muitas outras contumélias subjectivo-funcionais - mas NUNCA, NUNCA, EM MOMENTO ALGUM a mais passageira alusão às beijoquices do Portas, às diarreias verbais do Conejo, aos dislates justificativos do promotor do computador Magalhães, às tonitruâncias dos "manhãs a cantar" do Jerónimo-que-não-é-e-nunca-poderia-ter-sido-Bosch, assim como ao melífluo cantor, cheio de louçanias, da Esquerda-com-trufas.

Entendido? Conto convosco! Por favor, não me desiludam !

12 de maio de 2011

PELA MÃO DE TALES


Na origem dos mundos, tudo era silêncio e perplexidade. Apenas os sentidos viviam em alerta, pois só deles resultava a continuidade do acto de viver. E foi assim que os primeiros filósofos tentaram discernir o suporte do suportado, o fundamento das coisas fundamentadas, a raiz vivente dos fenómenos vivos a partir de generalizações ou intuições operadas com base nos dados que lhes afectavam as sensações. Como é sabido, a primeira cosmogenia foi parturejada por Tales de Mileto, o qual imaginou ser a água essa “arché” procurada. Porquê a água? Porque o elemento líquido era aquele que mais visível e imperativamente se podia invocar por um pensamento que tivera a ventura de nascer junto dos azuis marítimos de uma costa recortada e polvilhada por ilhas centenares e centenárias. Os peixes enrolavam-se nas loiras areias das praias gregas, sucumbindo em esgares de prata e em preces de regresso ao líquido e salgado elemento. E foi também probatório o facto de guerreiros tão poderosos como os que atacaram as muralhas de Tróia terem sido vistos a sucumbir quando o vermelho mar do sangue vertido se derramava agora pelos bronzes das espadas ou pelas metálicas defesas dos arcaboiços violados. E foi ainda inequívoco que o ventre húmido das mulheres dava fruto quando à feminil humidade do seu sexo se juntava a varonil humidade do sémen que os homens nelas derramavam, por noites de prazer e carinho.

Afinal, na estrita base de todos os cometimentos filosóficos só um fermento leveda o pão da arte cogitante: o acto, tão singelo, de uma primeira interrogação, à qual se junta outra, ainda mais outra e outra mais porque isto de roubar segredos à Natureza é mais complicado do que roubar carinhos a mulheres insaciadas.

Voltemos a Tales. Dele se conta que, em certa noite, saído a observar o firmamento, tanto se distraiu com a abóbada celeste que caiu numa cova. Talvez pelo seu carácter eminentemente simbólico – a dialéctica do perto e do longe, do realismo pragmatista e do idealismo mais metafísico, do imanente e do transcendente – esta historieta da vida de Tales riscou o horizonte de toda a cultura ocidental, de Esopo a Diógenes Laércio, de Pedro Damião a Voltaire, de Pierre Bayle a Nietzche, ficando omitidos no inventário muitos e muitos outros “parafusadores de Infinitos”. O que há de mais curioso e humano na anedota de Tales radica na infinidade de variações narrativas da sua desditosa queda. Disseram uns, que Tales saíra de casa acompanhado por uma bonita jovem, que quando o viu caído o advertiu, perguntando-lhe como poderia ele acalentar a esperança de conhecer o Além se não se precatava com o que estava colocado mesmo em frente do seu nariz. Para outros, a bonita jovem não tivera propósitos de mofa, mas de gentil advertência. Segundo uns, a mulher não era assim tão juvenil, tratando-se antes de uma matrona, bem servida de anos; de acordo com outros, a queda não despenhara Tales num buraco, mas numa nitreira, atulhada de dejectos e sujidades. Disseram estes que o pobre milésio perdera neste episódio a vida, pois o trambolhão acontecera do cimo de um penhasco. Asseguraram aqueles que não teria sido sua a falta de cuidado, mas antes da mulher que o acompanhava e dele se queria vingar, devido a razões que não serão para aqui chamadas.

O que esta anedota contém é o próprio sortilégio da Filosofia – que não é mais do que a demanda da Verdade. E ao longo dos preguiçosos séculos foi ficando, igual a si próprio, o desafio incitante de a procurarmos – à Verdade – por penhascos, montes e vales, de noite, de dia e ao lusco-fusco, completamente sós ou favoravelmente acompanhados, vencendo as boas ou as más-fés, junto à nesga da fronteira da Jónia, ou junto ao mar Egeu ou nos limites obscuros de terras que ainda sejam de ninguém. A Verdade – eis o Ideal eterno e puro, neste tempo agreste de Sofistas …