8 de dezembro de 2011

FRIO


Faz frio lá fora, não achas?

As coisas estão brancas por dentro

E a terra revela o estranho silêncio do estéril.

Ao longe, um sol redondo e menos do que morno;

Ao perto, expressões de amantes desavindos.

Está frio aqui, não achas?

Acende-se a lareira?

Mas como e com quê?

A lenha só existe em árvores transidas.

Ainda agora vi um pássaro de penas eriçadas

De pavor e solidão.

Não, não caem co’a calma as aves.

O que cai sobre nós é o protesto de raízes

Procurando alcançar um renovado alento de seiva.

Faz frio, muito frio, não é ?

O fogão de sala prescindiu da sala e ficou só.

E nós também.

Somos frio, não somos?

4 de dezembro de 2011

PELA MANUTENÇÃO DO 5 DE OUTUBRO COMO FERIADO NACIONAL


A opção republicana está além E ACIMA da simples opção partidária. É que não se trata de defender um emblema, uma casta, um sector grupal, uma corporação. Ser republicano significa uma declaração solene de pertença a um ideal de serviço a favor do BEM COMUM ( a famosa "Res Publica" não é mais do que esse Bem Comum). Por isso, com exclusão de opções totalitárias, um republicano pode orgulhosamente afirmar que o é independentemente da sua particularista simpatia por este ou aquele agrupamento institucionalizado e inserido no leque da Democracia concreta. A opção republicana funciona mais como elo de ligação e de confraternidade do que como sinónimo de ruptura e de antinomia. Prezemos o sufrágio universal, a liberdade de consciência, o pluralismo de opiniões, o laicismo na vida civil, a franca tolerância no convívio, o ecumenismo das crenças, o patriotismo na forma de estar, o livre associativismo, o multiculturalismo, a integração sem preconceitos do diferente, a Escola para todos, a Saúde para todos, o viver sem medos de qualquer natureza - prezemos e defendamos tudo isto porque quando tudo isto acontecer dentro de nós, todos diremos com orgulho : "é verdade, SOU REPUBLICANO" .

3 de dezembro de 2011

BREVE NOTA SOBRE A ARTE

A Arte norteia-se por dois grandes princípios. É necessário, por um lado, que o que se vê, o que se ouve, o que se sente, o que se percepciona, nos remeta para além da intuição ou da vivência imediata. A Arte, desta maneira, será sempre uma refiguração da vida. O outro princípio - que vem, aliás, na peugada do primeiro - assegura-nos que o Artista constrói um objecto inteiramente novo, embora utilize recursos, matérias-primas ou processos técnicos já conhecidos. E como o princípio da novidade é complementar do princípio da recriação, isto significa que a Arte é um continuado milagre.

24 de novembro de 2011

LISBOA DO MEU FADO

(por ocasião da candidatura do Fado como Património Imaterial da Humanidade)

Ai, vielas de Lisboa , ai veias da minha alma

Ai alegrias e dores, claridades , destinos.

Uma cidade-magia por onde correm meninos

E poetas fazem versos como actores que fossem Talma.

Ensoleirada portada debruçada sobre um rio

Calçada bem enroupada em dias de muito frio

Castelo de cotovelo acastelado num cimo

De gentes acreditadas, carenciadas de arrimo

E D. José vigilante em cavalo pata-ao-ar

E o Carmo arruinado no seu perpétuo cismar

E a casa de bonecas duma Torre de Belém

Jerónimos doutros tempos guardados como refém

E todo um Povo a fremir de vida sem mordomias

Se tu a soubesses ler decerto que a lerias

Como livro croniqueiro dum tal Lopes bem Fernão

Como entremez joalheiro dum Vicente dito Gil

Cidade de coração com corações mais de mil

Teu fado é prenderes a ti os que presos ficarão

Meu fado é prender-me a ti como musgo num desvão.

19 de novembro de 2011

TRONO DE CETIM


Reclinada num trono de cetim

A Deusa é um fuste da gávea intemporal.

E no entanto , lá em baixo ruge a fera do mal.

Rolam fogos de lava, vomitando carmim

As entranhas da terra. Isso que importa?

A Deusa ripa uvas

Esquecida das chuvas,

Ela, que nunca se sentiu como morta.

Lá longe, no denso crepitar de gente aflita

Há quem sofra terrores de medo e maldição

Mas não assim a Deusa, a Deusa não.

E é então que penso para mim

Que tal Deidade

Ignota e recolhida num casulo malsão

Reclinada assim

Num latrinário trono de cetim

É só a edição duma maldade;

É igual ao nada que se soma

À caminhada penosa dos que vão

Morrendo aos poucos, como quem toma

Veneno e perdição

Perto, tão perto já do fim

Longe, tão longe

De tronos de carmim

E de cetim.

9 de novembro de 2011

A ERVA DA SARDENHA

Sustentam alguns que certa forma de riso maldoso, intencionalmente dirigido à humilhação do nosso semelhante, foi designado de “sardónico” por existir na Sardenha uma erva venenosa que, uma vez ingerida, provocava rapidamente a morte. Nestas circunstâncias, a face do defunto apresentar-se-ia arrepanhada, distorcida, contraída num “rictus” de aparente sorriso. A este riso ou sorriso mortal foi dado pelos homens o nome de riso “sardónico”. Isto permite a extrapolação do domínio dos factos para o das interpretações, caucionando o salto da Ciência para a Ética. É que quando nos rimos de alguém com intenção depressora, quando derramamos sobre o adversário o mesmo riso que Ulisses dirigiu a um dos pretendentes a Penélope, sua mulher, no momento em que regressou a Ítaca disfarçado em pedinte, numa palavra, quando vexamos o nosso irmão de espécie com a malignidade deste riso, estamos a vaticinar a morte antecipada desse adversário, agora convertido em inimigo. Voltemos à “Odisseia”. Ulisses, ao chegar, só foi reconhecido por Argus, o velho cão que deixara no seu palácio antes de peregrinar por sobre as salsas ondas. Homero não o declara, mas é de calcular que tenha afagado o animal com um sorriso não-ervado. Ao inimigo, pretendente do tálamo da sua esposa, ele endereçou um riso venenoso e letal. Como é sabido, ao desvelar-se, Ulisses matou com as suas próprias mãos todos os invasores da sua intimidade, todos os disputantes daquela que o reconhecia como esposo e que, como tal, o havia esperado em ânsias. O caso está em que a justificação do “mortal-sardónico” é apenas admissível – se o for… – nos casos extremos em que nos batemos por causas indeclináveis. Nem sempre Ulisses arriba a Ítaca. Mas são inúmeras as vezes em que soltamos da alma a erva daninha com que vamos matando moralmente os nossos irmãos, obrigando-os a ingerir a erva da Sardenha.

6 de novembro de 2011

IMPROPRIEDADES TEOLÓGICAS

Dizem os teólogos que os desígnios de Deus são insondáveis. Insondável é, desde logo, o modo como o Antigo Testamento estabeleceu as fronteiras do Bem e do Mal. Estas categorias não surgiram como emanações directas de Forças opostas mas antes como uma interdição do próprio Criador. Recapitulemos. Após a criação do primeiro homem e da primeira mulher, o Divino colocou o par originário num Jardim de Delícias paradisíaco. Mas logo decretou que o fruto de certa árvore lhe estava interdito. A nossa longínqua mãe Eva obrigou Adão a pecar, oferecendo-lhe o fruto dessa árvore proibida. Deus expulsou-os do Paraíso e, a partir dessa desobediência, foram estabelecidos inumeráveis malefícios para os rebeldes originários e para toda a sua descendência. Uma pergunta se impõe : que estranha fronteira de inibição desenharia essa tão perigosa árvore ? O que aprendi com sacerdotes católicos , desde a mais tenra infância, foi, sobre este ponto, algo de muito contraditório. Uns declaravam que Adão e Eva tinham comido o fruto da Árvore da Ciência e que tal ousadia aparecera como intolerável aos olhos de Deus, por nela se ocultar o desejo de uma concorrência insuportável, de uma divinização a partir do barro humano. Mas - pergunta a nossa ignorância - não foi Adão criado á imagem e semelhança de Deus ? A ter sido assim, não se afigura exorbitante que a criatura tivesse desejado imitar o Criador, por efeito desse mimetismo que o próprio texto sagrado confessou existir. Quando atingi a adolescência, um outro padre católico assegurou-me que a linguagem utilizada da Bíblia era alegórica e que o famigerado fruto proibido não era mais do que o império carnal, ou seja, o desejo sexual consumado pecaminosamente. Mas, a ser assim, a imagem do Criador não sai nada favorecida. Por um lado, verificar-se-ia uma insanável contradição entre o Antigo Testamento, que proscreveria o desejo da carne, e o Novo Testamento, no qual o Filho de Deus prescreveria o ditame do « crescer e multiplicar » ; por outro lado, a severidade divina, a ser observada, iria reduzir a Humanidade à « parca ração » - como diria a saudosa Natália Correia -de duas criaturas. Ora isto projecta sobre o nosso tempo uma angústia geométrica, sobre a qual já Malthus refectiu, na transição do Século XVIII para o Século XIX. A tremenda angústia resultaria axiomaticamente desta elementar conclusão : a Humanidade, até ao presente, teria pecado mais de sete mil milhões de vezes. Valha-nos o facto de estarmos confiados a um Deus de uma evangélica paciência. E tranquilize-nos a circunstância de ser o escrivão deste texto um livre-pensador crivado de pecados e, como tal, pasmosamente ignorante destas seráficas e misteriosas transcendências.