
Depois disto, aconteceu uma deriva tragicómica. Um anónimo vem à liça derrancar-me. Diz que eu moro nas Alpenduradas e sou incompetente; alega que devo aprender com dois competentes Colegas meus, subitamente promovidos a santos. Insulta o meu sempre Respeitado Professor e chama-lhe goiesco, não sei se como homenagem a Goya, que ambos apreciamos, se como reverência a Góis, terra linda, álacre, risonha e campesina. E chama a terreiro o também meu muito querido Professor Alves de Fraga, completamente alheio ao diferendo vertente, alegando que só ele faltava ao hossana para que eu subisse ao Sétimo Céu da imerecida Fama, quando, verdadeiramente, por ter falhado uma data, deveria ser defenestrado para o Sétimo Círculo do Inferno de Dante (se é que ele existe).
Convenho e declaro, com toda a pompa e solenidade, que eu mereci toda a algazarra do anónimo foliculário: errar uma data em dois anos, mesmo por distracção, é uma hórrida, tenebrosa e insustentável coisa, para mais estando eu antecipadamente convicto de que esse campeão da exactitude, que tão rudemente imaginou interpelar-me, nunca errou coisa nenhuma, desde o troco ao padeiro ao preenchimento dos campos do IRS.
Mas quem não merecia nenhuma das insólitas e descompostas diatribes era o meu estimado, querido e respeitado Professor. Por isso aqui estou eu para lhe pedir desculpa, não em nome do homúnculo que o visou insultuosamente, mas em nome da Decência, inerente à Natureza Humana saudável e limpa, que ambos compartimos.
Por mim, estou pronto a confessar, de baraço ao pescoço, os meus perversos e hórridos crimes e as minhas imperdoáveis inépcias: é verdade que moro nas Alpenduradas; é verdade que corrigi em dois anos a data da Revolução de Setembro; é verdade que sou o administrador de um blog que vai a caminho das dez mil consultas; é verdade que já escrevi uma dezena de livros e que em alguns deles, seguramente, ocorrem imprecisões, que não soube evitar, ou até erradas interpretações, que não logrei suprimir; é verdade que o mesmo irá acontecer, a espaços, nos meus livros futuros; é verdade que fundei, com o activo concurso de antigos Alunos, uma associação cultural à qual se vincularam uma centena e meia de consócios e que tal organização dá pelo nome de ALTERNATIVA; é verdade que tenho Colegas que primam pela competência, senão mesmo pelo halo santificador; é verdade que João de Castro Nunes e Alves de Fraga são dois queridos Amigos, por mim muito apreciados, um pela excelência da Poesia que faz, o outro pela probidade da investigação histórica que produz; é verdade que, além destes, eu me vejo hoje cercado por largas dezenas de solidariedades e de amizades sólidas; é verdade que sou feliz, que estou satisfeito com o meu trabalho e com a minha imagem e me sei portador de muitas insuficiências, reconhecendo embora que também me assistem umas poucas de virtudes. E, a concluir, é sobretudo verdade que, dando o meu melhor em tudo o que ensino, em tudo o que escrevo, em tudo o que organizo, faço todas estas coisas com a perfeita consciência das minhas limitações.
Digo-lhe isto a si, porque lhe quero muito bem e porque um Homem que viveu como o Senhor, produzindo centenas de brilhantes versos, tendo ensinado várias gerações de estudantes e tendo a estatura humana que possui, merece a solidariedade activa deste réprobo.
Quanto ao mais, silêncio. Por mim, sempre evitei responder a almas latrinárias. Evito que os infinitamente pequenos possam promover-se com a minha réplica. E assim viverei, para o resto dos meus dias, de bem comigo e de bem com aqueles que venero, respeito e amo.





