22 de fevereiro de 2008

A LUTA DOS PROFESSORES


Em artigo recente, publicado numa revista semanal de larga audiência, José Gil, que goza com justiça da fama e do proveito de ser talvez o nosso mais competente filósofo vivo, rematava com esta pergunta: “porquê tanto ódio, tanto desprezo, tanto ressentimento contra a figura do professor?”.
Trata-se de uma questão demasiadamente complexa para poder ser exaustivamente tratada no curto espaço de um artigo de opinião. Contudo, talvez seja possível adiantar alguns subsídios de resposta.
Entre os conceitos de ensino e de educação existem diferenças consideráveis. O ensino dirige-se mais, segundo pensamos, à aquisição de competências intelectuais variadas, à apropriação de noções susceptíveis de fazerem a ponte entre o teórico e o prático, ao manejo de conteúdos capazes da tornar os destinatários mais peritos em certas áreas do conhecimento. Por isso se diz que este ou aquele “ensinam” matemática ou biologia, história ou inglês. Seria inapropriado afirmar que eles “educavam” essas matérias. A educação contempla uma vertente primordialmente referida à maturação da personalidade e não tanto à perícia do intelecto. Assim sendo, a educação reporta-se ao plano da assimilação dos valores, da interiorização de padrões aceitáveis (ou mesmo requintados) de sociabilidade, da adequação à vida de válidas formas de conduta. Os órgãos difusores do ensino são as escolas (nos seus diversos graus), os institutos de investigação, nas suas diversas áreas de especialização, ou até os grupos informais que partilham informação. Por seu turno, os núcleos educativos por excelência são as igrejas, os círculos extra-escolares de reflexão e, fundamentalmente, as famílias.
Antes de se fazerem sentir em Portugal todos os efeitos da economia individualista, de cepa liberal e de cariz industrialista, o consenso social recomendava que a escola ensinasse, dando instrução, e que as famílias educassem, formando as almas e as personalidades dos seus elementos, sobretudo dos mais jovens. Porém, uma vez desfeita a família tradicional, através do envolvimento das mulheres na luta pela vida e da expulsão dos anciãos do seu seio (remetidos, como o foram, para asilos, lares ou hospícios), também se desfez o aludido consenso. As famílias passaram a exigir que a escola, através dos professores, cumprisse uma dupla missão: a do ensino e a da educação. Ou seja: os docentes teriam de saber transmitir o corpo de conhecimentos integradores das suas disciplinas e, cumulativamente, deveriam arvorar-se em “tutores do comportamento” dos seus discípulos. E todas as vezes que os professores lamentavam para as famílias, com amargura, as faltas de asseio, o uso de palavrões na sala de aula, as ameaças sobre outros alunos ou sobre eles próprios, os roubos, o uso de drogas leves e pesadas, as vandalizações mais inconcebíveis, as mais inomináveis brutalidades, as famílias, muito empertigadas, passaram a responder, do fundo da sua má-consciência: “mas por que raio é que os professores não os ensinam?”. Evitaram a palavra correcta, “educar”, ladeando a questão nuclear. E por que procederam ( e procedem) assim? Pela elementar razão de que, posta a pertinente interrogação, se tornaria inevitável uma conclusão que as amarraria, a elas, a essas famílias e não aos professores, ao pelourinho da incúria, da demissão, do absentismo ético-social e da mais lastimável incivilidade.
Os professores, sobretudo os do ensino secundário, são hoje a corporação profissional mais desgraçada deste desgraçado Portugal. Pedem-lhe o que eles não podem dar (uma espécie de tutela paterna diferida!), nem são funcionalmente obrigados a dar. As frustrações das famílias médias portuguesas – tais como a escassez de dinheiro, o acanhamento das casas, o anonimato das vidas, a ausência de horizontes de futuro, as misérias morais da Grei, a derrota do clube de futebol, a furo do pneu, etc, etc – são para eles transferidas com a implacabilidade inerente à descoberta de um bode-expiatório. Não se pára um só momento para pensar que um país sem professores motivados é um agregado desnorteado, em vias de inelutável barbarização. O drama poderia ser um pouco mais atenuado através do poder de direcção de uma tutela governamental esclarecida e atenta. Qual quê! A digníssima Ministra Maria de Lurdes Rodrigues gozará, nestes próximos cinquenta anos, da duvidosa auréola de ter contribuído para a perseguição mais inconcebível, para a montaria mais cruel, para a exautoração mais canhestra que algum governo ou poder moveu aos professores portugueses da sua tutela, desde a implantação do liberalismo em Portugal.
É este o pano de fundo sobre o qual se desenha a actual luta dos professores portugueses. Por enquanto, apenas dos que labutam no ensino secundário. Amanhã, caso continuem os despautérios, de todos nós. De todos nós, professores, primeiro. E de todos nós, cidadãos, logo a seguir …

13 de fevereiro de 2008

PELAS BANDAS DE SÍRIUS

Os meus pacientes leitores farão o favor de considerar a seguinte situação. Imaginem um ser humano curioso, dotado de um cérebro pronto a responder a subtis estímulos, com um QI que qualquer psicólogo da “velha guarda” consideraria notável, fruindo de uma “inteligência emocional”que todos os psicossociólogos da “nova vaga” teriam por excelente. Imaginem agora que essa infeliz unidade do género humano, feitos os respectivos estudos elementares, complementares e superiores, se decide a mergulhar mais nas raízes do saber, propondo-se tirar um curso de 2º ciclo (mestrado) ou de 3º ciclo (doutoramento). A situação descrita será ainda mais probatória se imaginarmos também que o dito espécime galgou por áreas de conhecimento estranhas às preferências de todos os coxos e gagos deste planeta, isto é, por disciplinas de literatura, de história, de filosofia, de estética e por outras sublimes “inutilidades” (útil, útil, verdadeiramente, é o arroto fácil, a arte do mão-pilha, o bit, o betão, a tecnologia das escadas rolantes e os golaços do Rui Costa, a quem chamam de Maestro por desconhecimento de ou desprimor para com Oistrakh e Barenboim).
Imaginem agora que o dito cidadão habita um país lá para as bandas do planeta Sírius, uma triste nação absorta, pilhada sistematicamente por uma alcateia de medíocres, entregue ao devorismo de politiquelhos rudes, de patos-bravos cúpidos, de financeiros venalíssimos, de articulistas sem gramática e sem vergonha, país completamente rendido e avassalado por mandantes cujo perfil oscila entre os farrapos do Zé Povinho bordaliano e a puerilidade ávida do Tio Patinhas. Neste conglomerado de egoísmos em luta, luta perversa e sem regras, uma entidade vagamente parecida com um Estado proclama todos os dias que é imperativo o critério das Competências (com C maiúsculo) e que é tão urgente introduzir entre nós o princípio da Qualidade (com Q maiúsculo) como urgente foi salvar a Humanidade, mandando-lhe um Messias.
O incauto e ingénuo pagador de impostos de que falámos, persuadido pelas loquazes asserções de todos os coxos e gagos desse planeta, tratou de se abalançar a somar leituras, a tirar apontamentos, a compulsar livros em línguas estrangeiras, a galgar quilómetros para esquadrinhar peregrinas bibliotecas, insólitos museus, recônditos arquivos. Queria agora adiantar que o modesto homúnculo de que tratamos ocupa o lugar mais ínfimo da hierarquia das profissões do planeta Sírius: é por lá professor dos 9º, 10º, 11º e 12º anos da escolaridade obrigatória. E a prova dessa inferioridade resulta, em linha recta, do facto mirabolante de se saber insultado, vexado, vilipendiado e diminuído, todos os dias, pela Ministra da respectiva tutela. Numa terra decente, com governantes decentes, um Ministro decente deveria servir para estimular as suas gentes. Mas nós não estamos a falar de um país normal. Deixámos claro que nos reportamos ao planeta Sírius. E aí, torna-se trivial que um governante irrompa, para com os subordinados, em diatribes como estas: “Malandros! Safados! Absentistas! Desonestos! Esperem aí, que eu já vos escovo a penugem!”. Numa terra decente, a primeira das medidas a tomar para com esta Harpia seria baldeá-la, na primeira remodelação governamental. Mas nós não estamos a falar sobre nacionalidades recomendáveis. Reportamo-nos, isso sim, ao planeta Sírius. E nele, a Ministra permanece em funções, à maneira de todos os coxos e gagos deste mundo, para continuar a insultar.
Voltemos agora ao nosso descoroçoado professor. Ei-lo a prestar provas, primeiro de mestrado, depois de doutoramento, perante júris que o avaliam sem o insultarem. E como as coisas correram bem, Sírius passou a contar com mais um Mestre, primeiro, e depois com mais um Doutor. Se estivéssemos a referir-nos a uma sociedade saudável, estimuladora, progressiva, arejada, este modesto homem subiria, como efeito inevitável de boa gestão social, nas escalas profissional, funcional e económica, vendo reconhecido o seu maior esforço e o seu mais aprofundado saber. Mas não é assim em Sírius, terra de papalvos encadernados e de mandaretes de opereta. Em Sírius, o novo Doutor irá ser encarado pelos poderes instituídos como um pobre pateta, que delapidou o seu tempo a aprender, em vez de o aplicar mais rentavelmente, em negociatas ilegítimas ou em intrigalhadas partidocráticas…
Ele voltará, cabisbaixo, ao seu posto de trabalho. O acréscimo do seu cabedal de conhecimento, longe de o catapultar na subida hierárquica, empurra-o para baixo. As leis vigentes consideram mais importante a inércia das gestões acéfalas do quotidiano escolar do que quaisquer graduações, obtidas em quaisquer Universidades. E o infeliz voltou ao seu posto de trabalho para ser julgado na sua competência profissional, na sua valia intrínseca, por Colegas menos habilitados, menos competentes, menos sabedores, mas com mais tempo de carreira ou com mais acções “de formação”, na arte dos ramos de flores, dos barquinhos de corno ou da dobragem de papéis japoneses. Claro que uma coisa destas nunca poderia ocorrer em Portugal. Só em Sírius. Entre nós, felizmente, está prevista para mais logo uma intervenção do Primeiro-Ministro no Parlamento e outra na televisão, onde ele falará, grave, muito grave e pomposo, na Qualidade e na Competência. Irá fazê-lo … sem gaguejar!

PS- Última notícia de Sírius : parece que se prevê que um dos quesitos na futura avaliação dos professores venha a ser o da permissibilidade de passagem de estudantes madraços, manhosos, absentistas ou irrefragavelmente estúpidos. Mas como falamos de Sírius, isto não tem a menor importâcia.


30 de janeiro de 2008

NA PISTA DOS SORRISOS

É uma subtil tarefa, esta de discriminar formas de prazer risonho. Uma das mais primárias, o cómico, opera por simples desfasamento em relação aos trilhos usuais da vida, fazendo-se acompanhar de um propósito de anárquica “desconstrução” do real. O cómico, em regra, usufrui da minimização dos outros. Encontramo-lo nos guizos com que os bobos medievais aturdiam as malfeitorias das dignidades feudais; vemo-lo nos desfiles carnavalescos e em certas figurações caricaturais; reconhecemo-lo no primarismo com que as crianças mofam dos tiques de adultos mais graves.
A ironia, por seu turno, encontra-se no degrau superior do cómico. Tem com ele relações de contiguidade, é certo. Mas assenta no princípio da contradição, da antífrase, praticando uma espécie de “coincidência de opostos” ; assim, passa um anão na rua e as almas mais rudes e descaroáveis dirão para o casual acompanhante: “Olha-me aquele gigante!”. E que dizer do humor ? É o irmão melancólico dos outros dois. Há nele o subtil reconhecimento das debilidades humanas e das fragilidades do vivido. O humor destila um pouco o perfume do barroco, do elaborado sofridamente nas profundezas do Eu. Trata-se aqui de uma melancolia combativa, como a desse condenado à morte que avança para o cadafalso numa segunda-feira e desabafa para o verdugo: “ Óptimo! A semana começa bem!”.
Pois é! Não basta rir. Urge conhecer a linhagem e os parentescos das diversas formas de riso. Saibamos sondar-nos através dos risos e sorrisos.

20 de janeiro de 2008

URGÊNCIA

É urgente que venhas
Vem depressa e já
Bichos estranhos
Invadiram por cá
O quintal dos afectos
Roem tudo (os danados)
Dos legumes aos fetos

Vem, vem sem detença
É urgente que tragas
Da despensa
A tal erva cheirosa
Que acrescentas
Airosa
À comida sem sal

Quando vieres (se vieres ...)
Por tardinhas inundadas
De sol
É urgente que inventes
É forçoso que infundas
No cansaço dos anos
No quebranto do corpo
Algo de vivo e novo
Um alento qualquer
Dos que tu sabes dar
Quando em ti não ressoam
Memórias do passado
Que tanto te magoam

E dá-me (se puderes ...)
A mansa
Confiança
Do teu amor adulto
Assim farás cessar
O meu tumulto

Quem poderá viver
Em morno adiamento
Como se fora
(Vê tu !)
Um requerimento
Jazendo e morrendo
Sem deferimento
Numa repartição
À portuguesa ?

Vem pois por mim
Solene, ilesa
É urgente que saibas
Agora e sempre
Que tudo estranhamente
Perde encanto
(E quanto !)
Se não chegas


É urgente que venhas
Fremente
Carente
E donairosa
Tal como a rosa
No fresco rocio
Da manhã
Enfim calma
Enfim silenciosa
Como virgem vestal
De tempos transitados
Coladas as bocas
Os corpos colados
No lamento
No fingimento
Na simulação
Na convicta
Inconvicção
Do que não é eterno
Mas tomado como pórtico
Final
Mas vivido como se fora
Imortal



14 de janeiro de 2008

PROTÁGORAS E CHE



Foi no século V a.c. que Protágoras de Abdera lançou ao mundo a perspectiva do seu relativismo antropológico: “O Homem é a medida de todas as coisas; das que são, enquanto existem, e das que não são, enquanto não existem”. Este enunciado, um pouco nebuloso à primeira vista, pretende apenas salientar que só há validação de realidade com referência aos que a vivem. Imaginemos um Cosmos totalmente desabitado, radicalmente entregue a si próprio, à sua radical e insuperável materialidade. Imaginemos um silêncio de sepulcro, a transmitir-se de galáxia em galáxia, afundando-se, como chumbo, no vórtice absorto da Infinidade. Imaginemos um mundo-coisa, sem consciência, sem alteridade, sem outra justificação que não fosse a da omnipresença face a si mesmo. Faltando-lhe o Homem, faltava-lhe tudo o que lhe poderia conferir significado. Ora, por maior que seja o significante, este fica aprisionado à sua raiz sem uma entidade de referência. O Homem é a referência do mundo significativo, do mesmo modo que este é a possibilidade daquele.
Houve um dia uma ilha, nas lânguidas Caraíbas, onde alguns guerrilheiros, descidos da Sierra Maestra, fizeram uma revolução. Vieram todos para La Habana, de charuto nos queixos e esperanças na alma. Um deles ganhou a palma dos favores das massas: chamaram-lhe o Che. Mas com ele arribaram também a uma capital de opereta Camilo e Castro. Este último foi El Comandante de tal empreitada. Certo dia, numa ocasião em que El Comandante arengava às massas, na presença avalizadora ( ou avaliadora?) de Jean-Paul Sartre e de Simone de Beauvoir, um fotógrafo ladino, Alberto Korda, fotografou o Che sem que o próprio disso se tivesse apercebido. Apanhou-o melancólico, aparentemente concentrado, com uns restos do cabelo ondeante a surdir por debaixo do boné revolucionário, onde marcava lugar a lendária estrela dos continentes a conquistar. Na altura, poucos teriam reparado na beleza datada daquele efebo fardado. Os jornais do dia seguinte nem sequer escolheram aquela imagem para ilustrarem o loquaz comício; preferiram Castro, com uma granada na mão e cenho colérico, sanguinário, a prometer ao populacho a liquidação do vizinho inimigo imperialista. Passados uns anos -- já o Che houvera sido assassinado,na Bolívia, por um tarimbeiro militar de meia-cana, semi-analfabeto e boçalóide -- o mundo reparou que alguém morrera por ideias. Foi o deslumbramento. Deixar-se alguém matar, não por redondezas de economia, ou por venalidades de sexo, ou por regalos de tripa, mas por fidelidade a um credo? Podia lá ser! Podia lá ser!! E esse mesmo mundo, coçando o piolho da má-consciência hedonista, fez do Che um ícone. Mas um ícone de quê? Da Revolução? Do Ideal? Da Justiça? Dos Pobres? Qual quê! Estamparam-lhe a fronha em t-shirts, em cuecas de senhora, em cinzeiros, em copos de uísque, em anúncios de compota, em tacos de basebol, em luvas de boxe, em chapéus de palha e em mil truanescas e delirantes mercadorias de consumo.
Hoje, talvez naquela mesma desoladora e desolada Praça da Revolução, em La Habana, (talvez…) possa fazer-se ouvir, uma e outra vez, a voz profética de Protágoras de Abdera, decretando ser o Homem a medida de todas as coisas. Ficaria assim provado que os desígnios dos homens são, tal como os dos deuses, verdadeiramente imperscrutáveis.

7 de janeiro de 2008

CULTURA KITSCH


A degradação actual de quase todas as formas mais estruturadas de pensamento conduziu-nos ao culto do improviso e da facilidade. E a mercantilização da vida oferece hoje à mediocridade uma aparência de realização que decorre de simples exercícios de contrafacção. Não são apenas as calças ou videocassetes de marca falsificada que se propõem ao consumo, em feiras de ciganos. Na grande tenda do consumo cultural português, toda a mercadoria que constitui, no seu conjunto, o espólio superior do Espírito, se encontra em almoeda. Daqui resultaram modalidades de cultura kitsch, com muito aparato e pouca substância, que forcejam por passar incólumes ao crivo da crítica exigente. No romance, na poesia, no teatro, no cinema, em todas as modalidades de comunicação valorativa (ou pseudo-valorativa), nos vão aparecendo anõezinhos de jardim ou grossas louças das Caldas, apresentados como se fossem peças de Míron ou faianças de Rafael Bordalo Pinheiro. Como é evidente, nada disto poderá enganar o especialista informado e o verdadeiro estudioso. O português escrito por Camilo Castelo Branco, por Miguel Torga ou por Aquilino Ribeiro distinguir-se-á sempre, aos olhos do mais desprevenido, da rudeza linguística e da impropriedade lexical da loquacidade galega. Queiramo-lo ou não, a produção e a fruição cultural mais intensas e acabadas estarão prometidas, como sempre, ao reduzido número dos que sabem, dos que se aplicam, dos que não se poupam ao esforço do conhecimento. Sobrarão depois, para os preguiçosos ou para os apaixonados pelo kitsch, esses delambidos romances róseos, esses vaporosos espectáculos de cinema holywoodesco, esses entremezes de fácil populismo, esse jornalismo de pacotilha, essas revistas de fado choradinho, esses desprimores de bom-gosto e de bom-senso.
E Antero de Quental terá outra vez razão, em Portugal, neste ano da graça de 2008.

28 de dezembro de 2007

PEDRO PESCAVA HOMENS


Pedro pescava homens e limos velhos
Na borda dum infeliz lago galilaico.
Alguém o avisara que por cada alma
Filada, escorchada e ao sol espalmada
Um Deus viria pregar-se numa cruz
Com Mãe e Madalena e soldadesca ébria
A compor o quadro choradinho do Calvário.
Pedro fizera farta pescaria de fadigas sem fim
Mas só lograra arpoar um vagante madeiro
Que boiava na babugem aquosa e penitente,
Na borda do infeliz lago galilaico.
Pedro imaginou então que os restos do pútrido
Madeiro mais não fossem que os restos pecaminosos
De homens refractários ao quadro choradinho
Daquele Calvário sem Mãe, sem Madalena
Sem soldadesca ébria a jogar dados.
Pedro, então perplexo, perguntou aos céus
Ou a si mesmo, ou mesmo a ambos, se mais sagrado
Seria o Calvário composto por Mãe, Madalena
E ébria soldadesca ou a podridão dos restos
Do madeiro, onde teriam pregado não um macerado
Deus mas a chusma orgiástica, pecaminosa
De transviados e terrenos penitentes.
Pedro, o pescador de homens e limos velhos
Passou então a querer filar na borda
Dum infeliz lago galilaico o mais sofrido de todos
Os homens, tendo como certo que assim poderia
Pescar o maior de todos os Deuses, na borda desse lago
Sem Mãe e sem Madalena, mas com a infinda compaixão
Do maior dos Calvários, onde agoniza a humana condição.