21 de dezembro de 2008

NATAIS MEUS

Sentia outrora o Natal no corpo todo. Quando era menino, a paisagem invariavelmente branca de Trancoso era comparada com os postais ilustrados que os meus Pais enviavam e recebiam. Neles surpreendia, maravilhado, Pais Natal pançudos, vestidos de vermelho, com o rosto rubicundo e o riso fácil, de orelha a orelha. Vejo-me, em lembrança, dentro de abafos de lã, tricotados pela minha Mãe, a caminho de uma Missa do Galo pouco entendível, toda recitada em latim, língua muito bárbara, cheia de recortes sonoros irreconhecíveis. As árvores combinavam a alvura do nevão com o adorno dos gelos, muito cintilantes, de uma transparência mágica, pendentes de ramos silenciosos. Tanto bastava para que eu pudesse imaginar que o Menino Jesus deveria também ter uns cueirinhos confortáveis, bem quentes, talvez igualmente tecidos pela Sua Santa Mãe.

Outras vezes, os Natais eram passados na velha casa dos avós paternos, com a Avó-viúva a pontificar numa cozinha de aldeia, por entre panelas pretas de ferro, com três pernas, aquecidas directamente pelo crepitar da velha lareira fumarenta. Aí se cozinhava o melhor bacalhau com batatas e couves galegas de que me lembro. E enquanto a noite progredia, estirando a sua preguiça por camas forradas de neblinas azuis e pingos discretos de chuva, a Tia Ermelinda, competente doceira, aplicava-se na fabricação de sonhos de açúcar, de filhós e bolinhos de noz. In illo tempore, o Natal já ressumava um vago, quase imperceptível incómodo, associado à percepção difusa de haver Natais diferentes do meu – quase sem bacalhau e definitivamente sem sonhos açucarados e bolinhos de noz. Era outra, com efeito, a realidade de lares agrestes, onde ventos desabridos rompiam pelas frinchas esbeiçadas, regelando essa população rural, pobre e analfabeta, do coração de uma Beira Alta submissa às imposições do Estado Novo. E o Natal começou a doer-me nas raízes do sentimento.

Depois, a Avó-viúva morreu e os Natais transferiram-se para S. Pedro do Sul. Frequentava por então a Universidade de Coimbra e a minha Mãe ainda tricotava, fazendo-me agora cachecóis com as cores da moda e recebendo de mim quadros de parede onde se pintavam amores-perfeitos, por ser esse o nosso símbolo secreto. O meu Pai, esse, muito preocupado com o sopro da contestação política académica, obtemperava: - Vê lá, rapaz, olha que um curso é melhor do que um comício! E o Natal começou a racionalizar-se, a ser vivido sob dilema, em tensão repartida entre a imagem da pobreza de S. Francisco de Assis e a arrogância opulenta dos Papas-Bórgias.

Nasceram-me quatro filhos em Coimbra e com eles passei alguns outros Natais em lares autónomos, pessoais, com os meus progenitores volitando numa memória de lágrimas, transformados em saudades desses outros Natais distantes. Então se combinava o conforto carinhoso dos vivos com a angústia de não ver outra vez a Mãe a tricotar, novamente o Pai a preocupar-se com o meu destino político…

E aqui estou hoje. À espera de um outro Natal. Devo confessar que já não sinto o Natal no corpo todo. Corro às compras, olho as iluminações, ouço a lamúria dos pedintes e dos comerciantes, os primeiros queixando-se da parcimónia das esmolas e os segundos do rateado dos negócios. E pressinto que há em tudo isto, nesta Democracia de agora e nesta globalização dos nossos dias, um azedume de alma, uma cápsula de solidão que dói e confrange. Deixei de ver o Menino muito rechonchudo e rosado no seu leito de palhinhas. Para falar com franqueza, só consigo ver hoje a macerada face de Cristo na cruz, à espera que lhe façam um melhor Natal. 

14 de dezembro de 2008

VAIDADE

Ai, como é inábil e vaidosa,

A humana natureza,

Gerando, pressurosa,

A solução imaginosa

Da própria vileza.

Sobre a sua milenar ignorância

Milenares gerações tornaram importantes

Uns tantos broncos cidadãos impantes

Com os armários do cérebro esvaziados

Para utilizarmos palavras de Cervantes.

Coitados destes sábios flatulentes

Manejadores de verbos incipientes

E de fala tão supinamente ática

Como a correspondente falta de gramática !

Haja, contudo, cuidado e parcimónia.

Somos todos assim, feitos deste metal

Vulgar e quebradiço. O verdadeiro mal

Está em nos julgarmos para sempre

Mui merecedores de mesura e cerimónia…

 

10 de dezembro de 2008

APRENDIZAGEM DA POESIA


Quando ela me disse que não gostava de poesia,

eu entendi mostar-lhe um bebé

recém-nascido;

Quando ela repetiu que mesmo assim

não gostava,

eu levei-a a ver um jardim

cheio de flores;

Depois de me ter afirmado  

que ainda não chegava,

eu pedi-lhe para olhar

a cúpula do céu

semeada de estrelas;

Passado algum tempo,

aquela menina fez-se Mulher

e teve um filho

que levava a jardins

cheios de flores

e amamentava

por noites de verão,

sob a cúpula dos céus

povoados de estrelas.

Ela então entendeu 

o segredo da vida;

e nunca mais me disse

que aborrecia

e desmerecia

da poesia. 

6 de dezembro de 2008

UMA HISTÓRIA DE BAIRRO

Aquilo que lhe definia a diferença era a forma de andar. Ele vinha vê-la todos os dias, contemplando-a de longe, para que ninguém percebesse a estranha confusão dos seus sentimentos. Aquilo começara como começam quase todas as coisas verdadeiramente sérias: por um simples acaso. Tinha parado para apertar um atacador e ela passou-lhe rente ao sapato. Naquele dia, nem sequer lhe tinha visto a cara. Mas esse é que foi o mal, ou talvez o bem … Sob a forma de um vulto fugidio, ela desceu as escadas do bairro e desapareceu na esquina. O que lhe ficou na retina não foram as cores do vestido, nem a forma do chapéu-de-chuva, nem mesmo as dimensões da estatura. Foi apenas o balanço do andar, o jogo estranho dos quadris, movimentando-se de modo diferente, entre a hesitação e o bailado. “Nunca vi uma tal forma de andar”, pensou para si. Correu até à esquina, seguiu-a por ruelas durante um bom bocado e viu-a finalmente entrar numa casa igual a tantas outras, nem bonita nem feia, nem pretensiosa nem banal. Depois da porta se ter cerrado, imaginou-a no patamar, ganhando fôlego para a subida das escadas. Sim, porque o prédio, com carradas de anos em cima, não deveria ser servido de elevador. Seria que o subir das escadas também proporcionava aquele jogo de movimentos, entre a suspensão e a dança? Disparate! Toda a gente sobe as escadas da mesma maneira, apoiando um dos pés no degrau anterior e movendo o outro para o seguinte. Mas se fosse possível assegurar que a personalidade de cada um era decifrável através do movimento da locomoção, se tal não fosse uma patetice igual à da quiromancia, certamente que aquela criatura deveria ser tímida como uma gazela e sonhadora como um poente de Outono. “Com quem teria ela aprendido aquela forma de andar? Talvez com uma professora de ballet ou com um ensaiador de teatro. Talvez…”. Passou a colocar-se, todas as manhãs, numa posição estratégica, suficientemente distante para não lhe despertar a atenção e num enquadramento favorável para que a pudesse contemplar de costas, pois era de costas que aquele balanceamento se lhe afigurava mais sugestivo. Fez isto durante meses seguidos. Se lhe pedissem que descrevesse minuciosamente o rosto, não seria capaz de o fazer. Toda a sua atenção se concentrava nas ancas e das ancas para baixo. O resto era um somenos. Depois, deu-se a comparar aquele modo de andar com vários outros, centrando a sua observação sobre mulheres que lhe parecessem de idade aproximada e de morfologia semelhante. O exercício não durou muito, pois viu-se obrigado a confessar que nenhum outro ser humano do género feminino se movia assim, como se estivesse com medo de tropeçar nas nuvens. Concluiu finalmente que estava apaixonado. E um dia, vencendo algum pudor de macho dominante, esperou-a no passeio em frente e dirigiu-lhe a palavra:  “Desculpe, não me leve a mal, peço-lhe. Sabe, eu só lhe queria dizer que … que …”. “Que quê?”, replicou ela. “Que …, pronto, que gosto muito do seu andar”. Ela encarou-o com surpresa e ele verificou então, pela primeira vez, que aquela mulher se parecia com o prédio onde morava, nem bonita nem feia, nem jovem em excesso nem idosa em demasia. “Então reparou, foi?”, disse ela. “Foi, foi. Agrada-me tanto a sua maneira de caminhar !” . Então ela rematou: “Pois é, fiquei assim depois de ter sido operada aos ossos da bacia. Tinha um problema degenerativo complicado. Foi esta a herança daquela cirurgia. Que se há-de fazer?”. Confundido, ele respondeu: “Não sabia, lamento. Mas olhe, não faça nada, ouviu? não faça mesmo nada”.   

3 de dezembro de 2008

BRAGANÇA, O ÚLTIMO

Foi-me pedido um trabalho sobre o ano de 1909, para a exposição bibliográfica que proximamente irá ser feita pela Biblioteca Nacional. Quando acabei de escrever o primeiro parágrafo, entendi que ele não ficaria deslocado nesta tribuna. As realidades são certamente muito diferentes. Até por isso, valerá a pena o cotejo. Passo a citar(-me) – e perdoe-se a imodéstia autoral:

 

“Um rei imberbe, vacilante e tutelado por sua mãe, a rainha-viúva; quatro gabinetes governamentais – os de Campos Henriques (este vindo do ano anterior), Sebastião Teles, Venceslau de Lima e Veiga Beirão – que se sucedem de modo pouco pacífico, gerando nos próprios arraiais da monarquia uma tempestade de recriminações, ressentimentos e amarguras; uma oposição republicana que se prepara para todas as eventualidades, pronta a aproveitar as oportunidades que vierem a suscitar-se, de modo espontâneo ou preparado, para desencadear contestações e paradas públicas de força; a Autarquia lisboeta com a presidência entregue, desde Novembro do ano anterior, a Anselmo Braamcamp Freire, um antigo servidor do Paço, que a desilusão atirara para os braços do republicanismo; uma sociedade corroída por suspeições de honorabilidade em relação à gestão das finanças públicas e ao escrúpulo do seu pessoal político; um sector religioso, talvez minoritário mas muito activo, defensor de um catolicismo afectado por princípios radicalmente conservadores e por ânsias de intervencionismo bem distantes do simples “serviço das almas”; um quotidiano só aparentemente tranquilo, mas na realidade desconfiado da “acalmação” que lhe fora prometida, após o rei D. Carlos e o príncipe-herdeiro terem sido assassinados, no pretérito primeiro de Fevereiro do ano de 1908 – eis aqui uma sucinta súmula das notas caracterizadoras do ano de 1909”. 

28 de novembro de 2008

UMA BÍBLIA PROFANA

Já o disse uma vez e volto a repeti-lo: tenho respeito pelas coisas, pelos seres inanimados e imóveis que nos rodeiam. São eles provenientes do engenho da Natureza, da indústria dos homens ou da inspiração última de Deus? Há, talvez, nesta minha atitude, uma ressonância mitigada de neo-platonismo. Olho para as coisas como esboços do sagrado, pois sagrada é a Mãe Natureza, que nos dá as condições de sobrevivência e nos acolhe no seu seio; sagrados são também os seres humanos, essas estátuas de barro, essas costelas de Adão, que a Bíblia fez derivar, ainda e sempre, de um solo natural e moldável, prolongado na costela masculina, de que provieram as graciosas silhuetas das mulheres; e ainda sagrado, o mais sagrado de tudo e de todas as coisas, é Deus. Confesso que interpreto a narração bíblica de maneira herética. Para mim, a Sagrada Escritura não define uma relação hierárquica entre o barro, o homem, a mulher e Deus. Afinal, a Divindade poderia ter criado o ser humano a partir do Nada, como o fez para o Luz ou para o Mar. Mas não. Serviu-se de um barro que moldou. Porquê? Porque, no meu modesto entender de incréu (ou de crente adiado?), Deus quis sublinhar que o chão mais modesto, mais humilde, mais obediente, era portador de potenciais de vida, de fermentos subtis e criadores, de sementes prestes a explodir em ser. Cada homem é, desta maneira, um crisol de matéria dignificada. E cada mulher é o natural prolongamento de um barro que se fez osso e sangue, anatomia e sensibilidade. Não é verdade que a mulher tenha sido remetida a um estatuto de subalternidade só por ter nascido de uma parte da ossatura do companheiro. O que o Criador teria querido sublinhar era que cada mulher, parteira de Vida, era já - e desde a génese – vida da vida. Por isso a separou um pouco mais da Natureza. Finalmente, conferindo unidade e sentido à narrativa, vem a própria tarefa do Divino. Ela percorre toda esta arquitectura de Ser. E para a tornar mais próxima das realidades humanas, naturais, a narração sagrada até confessa que Deus sentiu a necessidade de repousar, ao sétimo dia. Francisco, meu bom Santo de Assis, como tu tinhas razão, no amor panteísta, naturalista, singularíssimo, que devotavas às folhas e às águas, ao verde dos montes e às criaturas mais primárias, como a “irmã serpente” ou o “irmão boi”!

 Um barro que se faz gente; uma gente que se prolonga para além de si, mudando de sexo mas não de natureza; um Deus que se fatiga e quer descansar, após a Magna Empresa.

 Pobre escrevinhador que eu sou, feito de barro, amante de mulheres e de mundo, duvidoso do Deus da convenção; modesto parafusador de sentidos, ai de mim, condenado infalivelmente a perecer numa qualquer fogueira inquisitória, se tivesse tido a infelicidade de viver no século XVI …

24 de novembro de 2008

LISBOA, ATÉ JÁ !

Lisboa é uma cidade assente sobre o dorso do resto de Portugal. Lisboa não tem lisboetas: possui minhotos e beirões, alentejanos e transmontanos, açorianos e durienses, madeirenses e algarvios; mas não preza especialmente a camada de indígenas nados e criados junto às águas bonançosas do Tejo. O alfacinha tende a ser um produto anómalo, afogado como está pelos que o não são, mas que reivindicam a Cidade como sua. Lisboa é hoje também o Eldorado reticente do Portugal-negro de outrora e talvez esteja agora a ser a Outra Banda de um brasileirismo recente. Mas estas arribações ainda conseguem ser remotamente lisboetas, através de elos e afinidades invisíveis, de parentelas pretéritas, de sangues, sabores e cheiros afins. Lisboa é a única Cidade portuguesa que colhe a sua identidade da simbiose operada entre a portugalidade de agora e o lastro multiforme do que já foi um dia Portugal. O encanto de Lisboa está no facto de não querer ser uma grande metrópole. Experimentemos uma digressão por ruelas de Alfama ou da Bica, da Graça ou da Madragoa, longe, bem longe da cidade dos negócios, dos sapatos de polimento, das lojas da moda. É sempre possível a interpelação familiar, a partir de uma trapeira ou de um vão de escada: “Então, menino, que anda a fazer por aqui?”. E logo a conversa prossegue e se atiça, como se tivesse sido interrompida ontem e como se a familiaridade implícita manasse de um universo de cumplicidades que se esboçam na indulgência de sorrisos. Lisboa é a cidade que eu mais amo, apesar de beirão empedernido. É a minha Cidade-fêmea, esparramada por sete coxas que são sete colinas, rescendendo a aromas ensonados de cama acabada de deixar. Lisboa não é uma orografia, nem um urbanismo, nem uma geometria pombalina. Lisboa é um estado de alma, exigindo de cada visitante, habitual ou ocasional, o esforço da compreensão empática. Lisboa, sendo embora a alfurja da politicagem venalíssima de agora, não tem nem os adereços nem os ademanes de uma Cidade-Poder. O poder de Lisboa está no seu enigma eterno, na inesperada surpresa de tão facilmente nos identificarmos com ela e de a sentirmos simultaneamente retraída e disponível. Lisboa é um rio com gaivotas por fora e bergantins por dentro. Lisboa é a luz mansa a escorrer do cimo dos céus, é um sol amarelo-palha a revelar arcarias impossíveis, fontenários sem água, aquedutos sem função.

 “Então, menino, que anda a fazer por aqui?”