28 de dezembro de 2008

OUTRA HISTÓRIA DE BAIRRO

O bairro é um espaço de familiaridade. Na Bica, os carris do elevador desprendem-se do patamar que os turistas escolheram para as recordações fotográficas e duplicam ao meio do trajecto, permitindo o cruzamento da carruagem que desce com a que sobe, ambas carregadas de mulheres domésticas sobraçando hortaliças e munições de tacho, de homens vestindo gangas de trabalho, ambas tagarelas e laboriosas, como se cada dia fosse um ganho de existência. À semelhança de todos os demais bairros, toda a gente se conhece. Todos e cada um parecem viver ali desde sempre. Na cidade grande emergem, assim, pequenas aldeias, como a da Bica, ressoando nelas a má-língua inocente dos questionadores de reputações e a vozearia em desvairo dos carregadores de mercadorias e dos funcionários da Carris.

Matei saudades da Bica um pouco antes do Natal, como quase sempre, de há quatro ou cinco anos a esta parte. A minha viela não terá mais do que uma dúzia de metros, que servem de passeio público a pombos filósofos, inocentes defecadores de caleiras e roupas em estendal, para grande incómodo e escândalo dos senhorios e das engomadeiras.

Eu julgava conhecer, ao menos de vista, todos os habitantes da minha viela. Por isso, foi com alguma surpresa que vi surdir, do interior de um rés-do-chão, uma figura singular e jamais vista. Era um pedaço vivo da Beira ou de Trás-os-Montes transplantado para um dos bairros históricos de Lisboa. Tratava-se de uma anciã, de rosto muito redondo, com um traje – blusa, chaile, lenço de cabeça atado sob o queixo – todo em negro, contrastando com uma pele de cera, leitosa, semelhando pergaminho sulcado por rugas antigas. Quando lhe cruzei a soleira, não pude deixar de surpreender no rosto afável da velha uns olhos perscrutadores, vivíssimos, como se pretendessem devassar os segredos daquela família invasora, que acabara de desaguar no empedrado antigo da Travessa do Sequeiro.

 « Então, muito boa tarde!», disse-lhe. E ela, com a maior naturalidade, respondeu-nos: «Viram gente da minha terra?».

 Compreendi então que a minha adorada Lisboa podia ser, para alguns, um sofrido exílio.  

21 de dezembro de 2008

NATAIS MEUS

Sentia outrora o Natal no corpo todo. Quando era menino, a paisagem invariavelmente branca de Trancoso era comparada com os postais ilustrados que os meus Pais enviavam e recebiam. Neles surpreendia, maravilhado, Pais Natal pançudos, vestidos de vermelho, com o rosto rubicundo e o riso fácil, de orelha a orelha. Vejo-me, em lembrança, dentro de abafos de lã, tricotados pela minha Mãe, a caminho de uma Missa do Galo pouco entendível, toda recitada em latim, língua muito bárbara, cheia de recortes sonoros irreconhecíveis. As árvores combinavam a alvura do nevão com o adorno dos gelos, muito cintilantes, de uma transparência mágica, pendentes de ramos silenciosos. Tanto bastava para que eu pudesse imaginar que o Menino Jesus deveria também ter uns cueirinhos confortáveis, bem quentes, talvez igualmente tecidos pela Sua Santa Mãe.

Outras vezes, os Natais eram passados na velha casa dos avós paternos, com a Avó-viúva a pontificar numa cozinha de aldeia, por entre panelas pretas de ferro, com três pernas, aquecidas directamente pelo crepitar da velha lareira fumarenta. Aí se cozinhava o melhor bacalhau com batatas e couves galegas de que me lembro. E enquanto a noite progredia, estirando a sua preguiça por camas forradas de neblinas azuis e pingos discretos de chuva, a Tia Ermelinda, competente doceira, aplicava-se na fabricação de sonhos de açúcar, de filhós e bolinhos de noz. In illo tempore, o Natal já ressumava um vago, quase imperceptível incómodo, associado à percepção difusa de haver Natais diferentes do meu – quase sem bacalhau e definitivamente sem sonhos açucarados e bolinhos de noz. Era outra, com efeito, a realidade de lares agrestes, onde ventos desabridos rompiam pelas frinchas esbeiçadas, regelando essa população rural, pobre e analfabeta, do coração de uma Beira Alta submissa às imposições do Estado Novo. E o Natal começou a doer-me nas raízes do sentimento.

Depois, a Avó-viúva morreu e os Natais transferiram-se para S. Pedro do Sul. Frequentava por então a Universidade de Coimbra e a minha Mãe ainda tricotava, fazendo-me agora cachecóis com as cores da moda e recebendo de mim quadros de parede onde se pintavam amores-perfeitos, por ser esse o nosso símbolo secreto. O meu Pai, esse, muito preocupado com o sopro da contestação política académica, obtemperava: - Vê lá, rapaz, olha que um curso é melhor do que um comício! E o Natal começou a racionalizar-se, a ser vivido sob dilema, em tensão repartida entre a imagem da pobreza de S. Francisco de Assis e a arrogância opulenta dos Papas-Bórgias.

Nasceram-me quatro filhos em Coimbra e com eles passei alguns outros Natais em lares autónomos, pessoais, com os meus progenitores volitando numa memória de lágrimas, transformados em saudades desses outros Natais distantes. Então se combinava o conforto carinhoso dos vivos com a angústia de não ver outra vez a Mãe a tricotar, novamente o Pai a preocupar-se com o meu destino político…

E aqui estou hoje. À espera de um outro Natal. Devo confessar que já não sinto o Natal no corpo todo. Corro às compras, olho as iluminações, ouço a lamúria dos pedintes e dos comerciantes, os primeiros queixando-se da parcimónia das esmolas e os segundos do rateado dos negócios. E pressinto que há em tudo isto, nesta Democracia de agora e nesta globalização dos nossos dias, um azedume de alma, uma cápsula de solidão que dói e confrange. Deixei de ver o Menino muito rechonchudo e rosado no seu leito de palhinhas. Para falar com franqueza, só consigo ver hoje a macerada face de Cristo na cruz, à espera que lhe façam um melhor Natal. 

14 de dezembro de 2008

VAIDADE

Ai, como é inábil e vaidosa,

A humana natureza,

Gerando, pressurosa,

A solução imaginosa

Da própria vileza.

Sobre a sua milenar ignorância

Milenares gerações tornaram importantes

Uns tantos broncos cidadãos impantes

Com os armários do cérebro esvaziados

Para utilizarmos palavras de Cervantes.

Coitados destes sábios flatulentes

Manejadores de verbos incipientes

E de fala tão supinamente ática

Como a correspondente falta de gramática !

Haja, contudo, cuidado e parcimónia.

Somos todos assim, feitos deste metal

Vulgar e quebradiço. O verdadeiro mal

Está em nos julgarmos para sempre

Mui merecedores de mesura e cerimónia…

 

10 de dezembro de 2008

APRENDIZAGEM DA POESIA


Quando ela me disse que não gostava de poesia,

eu entendi mostar-lhe um bebé

recém-nascido;

Quando ela repetiu que mesmo assim

não gostava,

eu levei-a a ver um jardim

cheio de flores;

Depois de me ter afirmado  

que ainda não chegava,

eu pedi-lhe para olhar

a cúpula do céu

semeada de estrelas;

Passado algum tempo,

aquela menina fez-se Mulher

e teve um filho

que levava a jardins

cheios de flores

e amamentava

por noites de verão,

sob a cúpula dos céus

povoados de estrelas.

Ela então entendeu 

o segredo da vida;

e nunca mais me disse

que aborrecia

e desmerecia

da poesia. 

6 de dezembro de 2008

UMA HISTÓRIA DE BAIRRO

Aquilo que lhe definia a diferença era a forma de andar. Ele vinha vê-la todos os dias, contemplando-a de longe, para que ninguém percebesse a estranha confusão dos seus sentimentos. Aquilo começara como começam quase todas as coisas verdadeiramente sérias: por um simples acaso. Tinha parado para apertar um atacador e ela passou-lhe rente ao sapato. Naquele dia, nem sequer lhe tinha visto a cara. Mas esse é que foi o mal, ou talvez o bem … Sob a forma de um vulto fugidio, ela desceu as escadas do bairro e desapareceu na esquina. O que lhe ficou na retina não foram as cores do vestido, nem a forma do chapéu-de-chuva, nem mesmo as dimensões da estatura. Foi apenas o balanço do andar, o jogo estranho dos quadris, movimentando-se de modo diferente, entre a hesitação e o bailado. “Nunca vi uma tal forma de andar”, pensou para si. Correu até à esquina, seguiu-a por ruelas durante um bom bocado e viu-a finalmente entrar numa casa igual a tantas outras, nem bonita nem feia, nem pretensiosa nem banal. Depois da porta se ter cerrado, imaginou-a no patamar, ganhando fôlego para a subida das escadas. Sim, porque o prédio, com carradas de anos em cima, não deveria ser servido de elevador. Seria que o subir das escadas também proporcionava aquele jogo de movimentos, entre a suspensão e a dança? Disparate! Toda a gente sobe as escadas da mesma maneira, apoiando um dos pés no degrau anterior e movendo o outro para o seguinte. Mas se fosse possível assegurar que a personalidade de cada um era decifrável através do movimento da locomoção, se tal não fosse uma patetice igual à da quiromancia, certamente que aquela criatura deveria ser tímida como uma gazela e sonhadora como um poente de Outono. “Com quem teria ela aprendido aquela forma de andar? Talvez com uma professora de ballet ou com um ensaiador de teatro. Talvez…”. Passou a colocar-se, todas as manhãs, numa posição estratégica, suficientemente distante para não lhe despertar a atenção e num enquadramento favorável para que a pudesse contemplar de costas, pois era de costas que aquele balanceamento se lhe afigurava mais sugestivo. Fez isto durante meses seguidos. Se lhe pedissem que descrevesse minuciosamente o rosto, não seria capaz de o fazer. Toda a sua atenção se concentrava nas ancas e das ancas para baixo. O resto era um somenos. Depois, deu-se a comparar aquele modo de andar com vários outros, centrando a sua observação sobre mulheres que lhe parecessem de idade aproximada e de morfologia semelhante. O exercício não durou muito, pois viu-se obrigado a confessar que nenhum outro ser humano do género feminino se movia assim, como se estivesse com medo de tropeçar nas nuvens. Concluiu finalmente que estava apaixonado. E um dia, vencendo algum pudor de macho dominante, esperou-a no passeio em frente e dirigiu-lhe a palavra:  “Desculpe, não me leve a mal, peço-lhe. Sabe, eu só lhe queria dizer que … que …”. “Que quê?”, replicou ela. “Que …, pronto, que gosto muito do seu andar”. Ela encarou-o com surpresa e ele verificou então, pela primeira vez, que aquela mulher se parecia com o prédio onde morava, nem bonita nem feia, nem jovem em excesso nem idosa em demasia. “Então reparou, foi?”, disse ela. “Foi, foi. Agrada-me tanto a sua maneira de caminhar !” . Então ela rematou: “Pois é, fiquei assim depois de ter sido operada aos ossos da bacia. Tinha um problema degenerativo complicado. Foi esta a herança daquela cirurgia. Que se há-de fazer?”. Confundido, ele respondeu: “Não sabia, lamento. Mas olhe, não faça nada, ouviu? não faça mesmo nada”.   

3 de dezembro de 2008

BRAGANÇA, O ÚLTIMO

Foi-me pedido um trabalho sobre o ano de 1909, para a exposição bibliográfica que proximamente irá ser feita pela Biblioteca Nacional. Quando acabei de escrever o primeiro parágrafo, entendi que ele não ficaria deslocado nesta tribuna. As realidades são certamente muito diferentes. Até por isso, valerá a pena o cotejo. Passo a citar(-me) – e perdoe-se a imodéstia autoral:

 

Um rei imberbe, vacilante e tutelado por sua mãe, a rainha-viúva; quatro gabinetes governamentais – os de Campos Henriques (este vindo do ano anterior), Sebastião Teles, Venceslau de Lima e Veiga Beirão – que se sucedem de modo pouco pacífico, gerando nos próprios arraiais da monarquia uma tempestade de recriminações, ressentimentos e amarguras; uma oposição republicana que se prepara para todas as eventualidades, pronta a aproveitar as oportunidades que vierem a suscitar-se, de modo espontâneo ou preparado, para desencadear contestações e paradas públicas de força; a Autarquia lisboeta com a presidência entregue, desde Novembro do ano anterior, a Anselmo Braamcamp Freire, um antigo servidor do Paço, que a desilusão atirara para os braços do republicanismo; uma sociedade corroída por suspeições de honorabilidade em relação à gestão das finanças públicas e ao escrúpulo do seu pessoal político; um sector religioso, talvez minoritário mas muito activo, defensor de um catolicismo afectado por princípios radicalmente conservadores e por ânsias de intervencionismo bem distantes do simples “serviço das almas”; um quotidiano só aparentemente tranquilo, mas na realidade desconfiado da “acalmação” que lhe fora prometida, após o rei D. Carlos e o príncipe-herdeiro terem sido assassinados, no pretérito primeiro de Fevereiro do ano de 1908 – eis aqui uma sucinta súmula das notas caracterizadoras do ano de 1909

28 de novembro de 2008

UMA BÍBLIA PROFANA

Já o disse uma vez e volto a repeti-lo: tenho respeito pelas coisas, pelos seres inanimados e imóveis que nos rodeiam. São eles provenientes do engenho da Natureza, da indústria dos homens ou da inspiração última de Deus? Há, talvez, nesta minha atitude, uma ressonância mitigada de neo-platonismo. Olho para as coisas como esboços do sagrado, pois sagrada é a Mãe Natureza, que nos dá as condições de sobrevivência e nos acolhe no seu seio; sagrados são também os seres humanos, essas estátuas de barro, essas costelas de Adão, que a Bíblia fez derivar, ainda e sempre, de um solo natural e moldável, prolongado na costela masculina, de que provieram as graciosas silhuetas das mulheres; e ainda sagrado, o mais sagrado de tudo e de todas as coisas, é Deus. Confesso que interpreto a narração bíblica de maneira herética. Para mim, a Sagrada Escritura não define uma relação hierárquica entre o barro, o homem, a mulher e Deus. Afinal, a Divindade poderia ter criado o ser humano a partir do Nada, como o fez para o Luz ou para o Mar. Mas não. Serviu-se de um barro que moldou. Porquê? Porque, no meu modesto entender de incréu (ou de crente adiado?), Deus quis sublinhar que o chão mais modesto, mais humilde, mais obediente, era portador de potenciais de vida, de fermentos subtis e criadores, de sementes prestes a explodir em ser. Cada homem é, desta maneira, um crisol de matéria dignificada. E cada mulher é o natural prolongamento de um barro que se fez osso e sangue, anatomia e sensibilidade. Não é verdade que a mulher tenha sido remetida a um estatuto de subalternidade só por ter nascido de uma parte da ossatura do companheiro. O que o Criador teria querido sublinhar era que cada mulher, parteira de Vida, era já - e desde a génese – vida da vida. Por isso a separou um pouco mais da Natureza. Finalmente, conferindo unidade e sentido à narrativa, vem a própria tarefa do Divino. Ela percorre toda esta arquitectura de Ser. E para a tornar mais próxima das realidades humanas, naturais, a narração sagrada até confessa que Deus sentiu a necessidade de repousar, ao sétimo dia. Francisco, meu bom Santo de Assis, como tu tinhas razão, no amor panteísta, naturalista, singularíssimo, que devotavas às folhas e às águas, ao verde dos montes e às criaturas mais primárias, como a “irmã serpente” ou o “irmão boi”!

 Um barro que se faz gente; uma gente que se prolonga para além de si, mudando de sexo mas não de natureza; um Deus que se fatiga e quer descansar, após a Magna Empresa.

 Pobre escrevinhador que eu sou, feito de barro, amante de mulheres e de mundo, duvidoso do Deus da convenção; modesto parafusador de sentidos, ai de mim, condenado infalivelmente a perecer numa qualquer fogueira inquisitória, se tivesse tido a infelicidade de viver no século XVI …

24 de novembro de 2008

LISBOA, ATÉ JÁ !

Lisboa é uma cidade assente sobre o dorso do resto de Portugal. Lisboa não tem lisboetas: possui minhotos e beirões, alentejanos e transmontanos, açorianos e durienses, madeirenses e algarvios; mas não preza especialmente a camada de indígenas nados e criados junto às águas bonançosas do Tejo. O alfacinha tende a ser um produto anómalo, afogado como está pelos que o não são, mas que reivindicam a Cidade como sua. Lisboa é hoje também o Eldorado reticente do Portugal-negro de outrora e talvez esteja agora a ser a Outra Banda de um brasileirismo recente. Mas estas arribações ainda conseguem ser remotamente lisboetas, através de elos e afinidades invisíveis, de parentelas pretéritas, de sangues, sabores e cheiros afins. Lisboa é a única Cidade portuguesa que colhe a sua identidade da simbiose operada entre a portugalidade de agora e o lastro multiforme do que já foi um dia Portugal. O encanto de Lisboa está no facto de não querer ser uma grande metrópole. Experimentemos uma digressão por ruelas de Alfama ou da Bica, da Graça ou da Madragoa, longe, bem longe da cidade dos negócios, dos sapatos de polimento, das lojas da moda. É sempre possível a interpelação familiar, a partir de uma trapeira ou de um vão de escada: “Então, menino, que anda a fazer por aqui?”. E logo a conversa prossegue e se atiça, como se tivesse sido interrompida ontem e como se a familiaridade implícita manasse de um universo de cumplicidades que se esboçam na indulgência de sorrisos. Lisboa é a cidade que eu mais amo, apesar de beirão empedernido. É a minha Cidade-fêmea, esparramada por sete coxas que são sete colinas, rescendendo a aromas ensonados de cama acabada de deixar. Lisboa não é uma orografia, nem um urbanismo, nem uma geometria pombalina. Lisboa é um estado de alma, exigindo de cada visitante, habitual ou ocasional, o esforço da compreensão empática. Lisboa, sendo embora a alfurja da politicagem venalíssima de agora, não tem nem os adereços nem os ademanes de uma Cidade-Poder. O poder de Lisboa está no seu enigma eterno, na inesperada surpresa de tão facilmente nos identificarmos com ela e de a sentirmos simultaneamente retraída e disponível. Lisboa é um rio com gaivotas por fora e bergantins por dentro. Lisboa é a luz mansa a escorrer do cimo dos céus, é um sol amarelo-palha a revelar arcarias impossíveis, fontenários sem água, aquedutos sem função.

 “Então, menino, que anda a fazer por aqui?”

21 de novembro de 2008

CORAÇÃO DA TERRA



Mas onde bate, onde bate o coração da terra?

Onde devo procurar o olhar, a pura face

Que nos dê o segredo, o sulco e o enlace

Do que bate e rebate no coração da terra?

 

Já um dia vivi como se fosse pedra

Num caminho qualquer à beira mar

E disso não tirei mais que o arfar

Da vaga que é aquém e que não medra.

 

Já um dia quis ser frondoso castanheiro

No rocio cinzento da manhã nublada

E disso não colhi mais do que um nada

Por não me terem feito arder luzeiro.

 

Nascido homem, quis fazer do destino

Um peregrinar constante e descontente

Como se a minha dúvida impotente

Me condenasse sempre a ser menino.

 

Quando um dia cessar em mim o sol da vida

Sofredor penitente da sorte de quem erra

Irei saber onde bate o coração da terra

E darei por finda, só então, a minha lida.

17 de novembro de 2008

VIAGEM PORTENTOSA

 A Ciência não é mais do que o conhecimento adequado e comprovado. Mas as adequações e comprovações são as que o tempo histórico permite. Desta maneira, a Ciência é a verdade de cada circunstância epocal. Que imagem adequada e comprovada tiveram os Gregos anteriores e posteriores a Péricles dos seus iguais? Eles sabiam-se a partilhar um espaço onde se reflectiam memórias de heróis e de deuses. Os homens gregos mais comuns, persuadidos por narrativas que vinham do fundo dos tempos – e  que Homero haveria de unificar – supunham que a realidade do mundo consciente era partilhada por deuses, potências antropomórficas com virtudes e defeitos similares aos da mais vã criatura, por heróis, no meio termo entre o divino e o puramente humano, e por seres muito comuns, açoitados pela precaridade e pela contingência. Mas acima dos homens, para lá dos heróis, mais alto que Zeus, Deus dos deuses, sobrevoava a Moira, o Destino inflexível, implacável, determinante, ao qual todos haveriam de vergar-se, uma vez que nenhum o poderia torcer, desviar ou sofismar. Era a Moira um deus? Não era. Mas hoje diríamos que era a face da Necessidade, do que “teria de ser”, ali, na borda do Mediterrâneo, ou na mais desvairada lonjura bárbara. Por lá identificaram esses homens os elementos constitutivos da realidade, desde a água de Tales ao ar de Anaxímenes, desde a matéria total de Xenófanes aos números sagrados de Pitágoras. Não teria sido por acaso que a Moira, esse princípio sumamente determinante, irrenunciável, pairou acima de tudo e de todos na espantosa aventura do conhecimento, então iniciada. É que ela ganhou o nome de Providência na Idade Média, de Virtus no Renascimento e de Causalidade na época Contemporânea. Como negar a adequação e a comprovação deste fermento espiritual? E é então que concluímos, através da dialéctica de uma história feita saber, que a descida do homem na lua, realizada ontem, se iniciara nos braços da Moira grega, que ainda anteontem velejava nas ondas opalinas da Hélade.

 

 

13 de novembro de 2008

CASA COM RISCA AO MEIO

A casa era velha e de risca ao meio, o que significa que existia um longo e sombrio corredor e que os quartos se distribuíam por ambos os lados. Era a casa dos avós. Velha, aldeã, com um último vestígio de pequena nobreza rural e com o cheiro incomparável que se desprendia de todas as infâncias nela vividas. Os nossos pais levavam-nos até lá, a mim e aos demais primos, por alturas das férias do Natal e da Páscoa e no dia em que se celebrava a festa da Nossa Senhora da Esperança. Quando a avó-viúva faleceu, ficou por lá um tio, que naquele tempo não se sentia ultrajado por ser mencionado como professor primário. Fumava muito e percorria o corredor, para cá e para lá, em passadas medidas, cadenciadas, destinadas por decreto inflexível a fazer ranger as mesmas tábuas, nos mesmos lugares, em todas as idas e vindas. Era benquisto das gentes da aldeia porque escrevia as cartas dos analfabetos, os requerimentos dos injustiçados da Administração e acertava as contas de cada um com o merceeiro do lugar, que era finório e renitente aos trocos; quando calhava, esse tio também dava injecções aos enfermiços, curando tosses e protelando mortes. Foi com ele que ganhei o gosto dos romances policiais e das peripécias intermináveis de Rocambole e do Conde de Monte Cristo. A voragem do tempo ficou então marcada, para mim, por essas periódicas passagens pelo velho casarão, com o tal corredor um pouco soturno, risca ao meio entre quartos vazios, onde o tabuado chiava como se também ele estivesse predestinado a bater as aldrabas dos instantes repetidos. Por isso, fui assistindo ao envelhecimento daquele tio preferido, a quem pedia que reproduzisse aquela intriga do Crime no teatro chinês e aquela vingança de Edmundo Dantès, o forçado que tiraria a desforra dos seus sicários abjectos. E quando ele hesitava neste ou naquele momento da narrativa, eu corrigia, aditava, clarificava. Então ele, batendo na cabeça, dizia: «Sim, é isso, é isso. E eu que já soube tão bem esse contar!...». E agitava as mãos, como um náufrago a quem tivesse fugido a bóia. Em certo ano encontrei-o mais esquálido, com a barba por fazer, e sem atinar com a tábua que rangia exactamente à vigésima quinta passada. Quando lhe quis lembrar o motivo que levara Phileas a ganhar a sua aposta na Volta ao mundo em oitenta dias, ele voltou para mim uns olhos implorativos, marejados de húmidas penas, e obtemperou: «Cala-te, cala-te, já quase nada me ocorre». Na visita seguinte, quando eu e a minha irmã o fomos saudar, ele levantou-se de um salto e, muito exaltado, acariciando os cabelos dela, murmurou: «Tu, meu anjo loiro, tu vais ser a salvação do mundo. E é preciso que eu parta para que esse efeito se possa alcançar. Mas sobre isto, nem um pio para ninguém. Há denunciantes por toda a parte. Silêncio! Nem uma palavra, ouviram?».

Foi então que eu aprendi que a velhice não é um sinal de loucura. É antes a porta de entrada num mundo maravilhoso, numa fábula infinita, a caminho da mais espantosa das aventuras.

9 de novembro de 2008

DILEMAS DE HOJE

A actual crise económica do capitalismo internacional evidencia a decadência cívica e ética dos que até agora mais o têm defendido, por serem, manifestamente, os seus maiores beneficiários: referimo-nos à clique dos grandes chefes da finança, dos maiorais da política ocidental e dos especuladores especializados em converterem em negócio chorudo o que mais deveria servir à afirmação do humano. Desde a construção da casa à edificação do espírito, desde a água que se bebe ao petróleo que se coloca no motor dos automóveis, desde o que se come ao que se frui, desde o que se lê ao que se adquire para tratar as mazelas do corpo ou do espírito, não tem havido um único sector das necessidades humanas que não tenha sido objecto da cupidez dos argentários e da sede insaciável dos adoradores do dinheiro.

O que começa a ficar transparente para o cidadão médio, ou seja, para aquele agente social que se vê obrigado a trabalhar todos os dias para comer em cada vinte e quatro horas, o que começa a ser transparente para o chamado homem comum, é somente isto: o capitalismo, o liberalismo descomandado e sem freio, alimentou e fez crescer uma certa categoria de parasitas que convertem em interesses próprios o esforço, a produtividade e a aplicação laboral de todos os demais concidadãos. Vai sendo tempo de fazer acordar para esta parasitária realidade os mais largos sectores da sociedade civil, representados pelos trabalhadores por conta de outrém, pelos profissionais liberais, pelos pequenos e médios agricultores e comerciantes, pelos industriais de porte diminuto ou tão só suficiente, pelos professores, pelos intelectuais, pelos jornalistas e por todos os que têm sido simples joguetes do imenso logro protagonizado pela mais desbragada exploração. É tempo de todos eles reconhecerem que têm sido os humildes e silenciosos obreiros inconscientes dessa descomunal volúpia lucrativista e dessa saturnal e gigantesca libação do seu sangue, do seu suor e das suas lágrimas. 

O que hoje é já manifesto é isto: o desmoronamento do campo socialista não representou, sem mais e por si só, a legitimação da usura, a justificação do locupletamento indevido, o branqueamento da negociata, do nepotismo e do infamante devorismo de uns poucos. Foi excelente que a ficção comunista se tivesse desmoronado. É que se torna possível, a partir de agora, transferir para o interior de cada uma das sociedades concretas do capitalismo ocidental aquilo que antes era genericamente analisado com base num confronto entre blocos de poder. Expliquemo-nos. Era possível, antes da queda do sovietismo, apelar para o espírito de corpo, para os brios sectários e para a emocionalidade de dois internacionalismos em confronto. O leste das “vermelhas madrugadas” engalfinhava-se com o oeste das liberdades jacobinas. Foi esta situação que ofereceu a todos os nababos parasitas o argumento terrorista e eficaz de apresentar o protesto da miséria como uma forma de conluio ou de subtil aliança com o comunismo. Uma tal argumentação é doravante impossível. Que significa isto? Isto significa que continua a haver fome e miséria apesar da queda do comunismo e que tais défices já não podem ser apresentados como uma espécie de pecado contra o chamado “mundo livre”. A partir de agora, a imensa hoste dos injustiçados pode – e deve! – reivindicar o quinhão de justiça social de que é credora sem que tal possa ser identificado como um serviço prestado a “potências estranhas”. A partir de agora, o ajuste de contas transferir-se-á do domínio das geo-estratégias para o campo das trivialidades quotidianas. E o remanescente desta luta parece ser previsível: ou as democracias capitalistas se socializam, apesar de já não haver União Soviética, ou as mesmas democracias se desnaturam pelo recurso à repressão, como se passassem a ser novas Uniões Soviéticas.

 A História dos homens é uma permanente ironia…    

6 de novembro de 2008

JESUS NUNCA RIU ?

Se o Bem só existe como o oposto do Mal, também a Tristeza só subsiste como o inverso da Alegria. Demonstram-se, em todos os jogos de antíteses, os imperativos obrigatórios do acto de viver. Tudo está ligado a tudo, de tal modo que – por hipótese – se um ser humano só conheceu a Alegria ao longo da sua existência, ele não a teria saboreado em plenitude, por lhe faltar o antónimo termo de comparação.

O único suposto que pode conferir sustentáculo à Alegria é a certeza de que a morte não é o fim inelutável dos vivos. Assim se compreende a vivacidade do riso ingénuo de S. Francisco de Assis, que não hesitava em considerar-se o “palhaço do Senhor”. Porém, os Padres Doutores da Igreja foram quase unânimes na condenação do riso. A Epístola a Lêntulo, um evangelho apócrifo, serviu de mote aos mais insignes católicos para sustentarem o princípio de que Jesus Cristo nunca rira. A Sua missão de resgate era tão decisiva, tão radicalmente séria, que o teria inibido de rir. A partir deste pressuposto, virão a desenhar-se todos os anátemas a quaisquer formas de Alegria que pudessem traduzir-se em francas gargalhadas. Basílio da Cesareia, Santo Ambrósio, S. João Crisóstomo ou Clemente de Alexandria inauguraram o retrato de uma Igreja sisuda, de cenho carregado, pouco propensa a liberdades, liberalidades ou festividades de riso. Um dos mais terríveis adversários do acto de rir foi Bossuet, que deixou plasmado este conselho numa carta dirigida à irmã Cornuau: “Passe um quarto de hora de todos os dias a considerar de relance esse austero e doce mestre da virtude cristã, na pessoa de Jesus Cristo, que dela foi o perfeito modelo e que tanto chorou e nunca riu”.

No entanto, a crença na vida eterna deveria ter sido garante de manifestações prazenteiras. Percebe-se que o materialismo e o existencialismo contemporâneos tenham feito assentar os estilos de vida desesperançados, pessimistas, tendencialmente niilistas, no sorumbático fardo de um corpo condenado sem escapatória ao apodrecimento e à definitiva decomposição. Mas entende-se mal que quaisquer doutrinas anunciadoras da Boa Nova da imortalidade para os crentes se afundem no pântano de uma tristeza assumida como modo de ser. Por mim – que nunca consegui ultrapassar os limites do agnosticismo – não me chocaria que Jesus Cristo tivesse contado aos seus discípulos alguma anedota inocente, alguma historieta de casta zombaria, algum manso e espirituoso dito. É que, estou certo, era um dos meios de comprovar a sua condição de Divindade feita Humanidade. E até Pedro iria mais contente, deste modo, para a sua pescaria de almas transviadas.   

2 de novembro de 2008

TRINDADE COELHO


Já se cumpriu, neste ano da graça de 2008, o centenário da morte de José Francisco Trindade Coelho, mimoso escritor d’Os Meus Amores e amorável redactor da mais celebrada crónica da vida académica de Coimbra, contida na soberba evocação do In Illo Tempore. Claro que nos dias de hoje já quase ninguém lê estes textos. Valha a verdade, nos dias de agora já quase ninguém lê coisa nenhuma … Mas Trindade Coelho merecia como poucos ser divulgado, apreciado e meditado.

Em jovem, no seu Mogadouro pasmado e silencioso, era ele quem ia de porta em porta, ler ao povo analfabeto – monarquicamente analfabeto, graças à ficção do constitucionalismo dinástico – o acervo dos contos ingénuos, como o do Menino da Mata e o seu cão Piloto e dos versos de pé quebrado, como os do Monte Verde. Foi depois estudar para um colégio do Porto e o pai quase teve de o arrancar à força da beira do mar, tão apaixonado ele ficara pelo balançar das ondas e pelo piar das gaivotas.

Arribou a Coimbra para se fazer jurista e observou de perto o viço e o bolor da urbe mondeguina, espartilhada entre a gravidade distante dos seus lentes e a estúrdia proverbial da sua estudantada em flor.

Depois de formado, começou o seu calvário. A vida profissional arrancou-o ao mundo secreto dos seus prazeres rurais – às flores singelas da borda dos caminhos, ao ar lavado das eiras, ao perfume suave dos fornos de pão, ao marulhar dos regos de água e ao cantar dos galos por entre a neblina dos matos e dos bosques. Como delegado do Procurador régio, enxertaram-no à força por lonjuras que pouco ou nada lhe diziam. Passou como gato por brasas pelas planuras de Portalegre e pelas doçuras de Ovar, antes de se ver plantado em Lisboa, como se ninguém tivesse percebido que em Lisboa não havia flores campesinas na fímbria das avenidas, nem cães a ladrar ao rapazio, nem sussuros de água a saltaricar por levadas e por canais de rega. Apanhou em cheio com a vergonha do Ultimato inglês, eterno opróbrio de governantes acéfalos, e teve de mediar o conflito entre o autoritarismo germanizante do Poder coroado e a reivindicação do civismo e do civilismo republicanos. E ficou provisoriamente de mal com a democracia, por ter de fazer cumprir leis liberticidas, como lhe era imposto pela ética do cargo. Mas, apesar disso, tentou influenciar os legisladores do tempo para que não fosse tão duro e tão inapelável o rigor dos mandantes.

O fim do dia de trabalho era a sua libertação. Tal como correra outrora pelas ruelas do seu Mogadouro, subia agora a correr os primeiros lances das cento e onze escadas que o faziam trepar, com a alma em festa, ao seu quarto andar lisbonense. Muitos dos seus escritos ficaram entre nós para comprovar que Trindade Coelho foi, desde sempre e para sempre, um verdadeiro amigo do povo, dessa arraia-miúda a quem um dia a rainha Maria Antonieta sugeriu que comesse brioches, replicando à notícia de não ter tal multitude dinheiro para comprar pão!

Merece ser contado o circunstancialismo que originou a redacção da sua Cartilha do Povo. Um dia, jantando no Hotel Central com Carolina Michaëlis de Vasconcelos, ouviu-lhe dizer que num certo salão mundano de Lisboa se defendera que o povo deveria ser mantido na ignorância, para felicidade própria. Foi a indignação gerada por tamanha enormidade que lhe fez redigir,pela calmaria de um domingo, de chofre, sentado num banco da Avenida da Liberdade, a sua Cartilha. A ela se juntam, na firme intenção de elevar os mais fracos e mais atolados em ignávia, o seu Remédio contra a Usura, a sua Parábola dos Sete Vimes, o seu Abc do Povo.

Num outro dia, Trindade Coelho cansou-se da vida e do viver. Suicidou-se em 9 de Agosto de 1908.

Com a mesma singeleza rústica com que nos seus tempos de infância recitara contos tradicionais à gente humilde de Mogadouro, José Francisco Trindade Coelho exarou estas palavras, na sua Autobiografia : “ Creio em Deus; sou cristão; amo a Arte de toda a minha alma; gosto muito das mulheres e das crianças, das flores e da natureza; e o meu maior e mais vivo prazer seria remediar os necessitados”.

Pode lá morrer Gente tamanha! 

29 de outubro de 2008

HOMENAGEM A MONTAIGNE

" No mais elevado trono do mundo, não estamos nós sentados em cima de um traseiro ?"
(Michel de Montaigne, Essais, III, 3)

Em dia d’aniversário

D. Duarte quis saber

Se podia engrandecer

Seu saber imaginário.

 

Quis conhecer seus limites

Medir todas as leituras

Comparar as criaturas

Com seus próprios apetites.

 

Julgou ser excepcional

Muito acima do vulgar

Pois se dava a divagar

Coisas só do seu bornal.

 

Mas de súbito irrompeu

Do profundo da barriga

O flato duma intriga

Do comido ao que comeu.

 

Duarte então entendeu

Como qualquer plebeu

Esse dom que o adornava

E em vapor o tornava.

 

Era de simples matéria

A heráldica passada;

Há lá coisa mais provada

Na bicheza pouco etérea !

 

25 de outubro de 2008

GERIR O EGOÍSMO


Tenho de confessar que perfilho uma concepção desalentada e céptica acerca da bondade intrínseca da condição humana. Nem sequer direi, acompanhando Rousseau, que o ser humano era originariamente bom, antes de ser moralmente destruído pelas delícias convencionais da civilização. O caso, para mim, perfila-se ainda com maior dramatismo. Somos bichos egoístas desde o nascimento. Experimentemos dar brinquedos a uma criança e coloquemos uma outra a seu lado, para que ambas possam recrear-se. Aquela que primeiro identificou os objectos como seus, desde que abandonada à espontaneidade da sua imediata reacção, não permitirá que a outra lhos dispute, sequer que os utilize com posterior retorno. Ou, na melhor das hipóteses – talvez advertida por alguma voz adulta mais caridosa -, consentirá em partilhar os seus jogos, sim, mas fazendo sentir a outrem o seu incontestável estatuto dominante. Acredito no altruísmo? Sim, mas apenas como resultado derivado e reflexo de um porfiado exercício de Cultura. Por isso foi ela para mim, mais do que uma opção, um destino que quis abraçar e uma forma de minorar (sem contudo substituir) o instinto primitivo. 

Somos egoístas desde o começo e iremos manter-nos como tal até ao fim. Há implicações de natureza política que devem derivar-se desta dimensão antropológica. Estou persuadido que as propostas de organização social nada ganham em abandonar-se à ficção verbal da solidariedade, do altruísmo, da grande tirada oratória idealista, da propaganda ruidosa e estéril através da emoção. Tudo teriam a ganhar, porém, se metodicamente, implacavelmente, friamente, concebessem equações de convivência que apontassem para uma gestão criteriosa e para uma correcta ponderação dos egoísmos em luta. O Estado seria então, como foi desejado por alguns teorizadores sociais da época contemporânea, o agente moderador do Todo sobre o agenciamento individualista das partes. Ou, dito de outro modo, o obreiro do altruísmo geral possível sobre a força dispersiva das subjectividades. São estas as razões que me fazem acreditar numa Democracia Social, num Socialismo humanista e realista que não desconheça ou sofisme o Homem concreto na sua vida concreta. Aquém disto temos Darwin; além disto temos Estaline. E entre as propostas sociais de um e de outro, que o Diabo possa vir, para fazer a sua escolha.

23 de outubro de 2008

DORIAN GRAY REVISITADO

Óscar Wilde escreveu um dia uma parábola imorredoira: a do Retrato de Dorian Gray. O protagonista era um dândi cúpido, exibicionista e dúplice, talvez um pouco à maneira do próprio Wilde. Por isso, ia vogando, aparentemente incólume, por entre os rumores da agitação social e os brilhos dos salões mundanos. A sua aparência, cuidada, quase perfeita, servia de salvo-conduto para a obtenção das chaves do sucesso, que lentamente o elevavam às culminâncias da sua ambição. E no entanto … E no entanto, à boa maneira da denúncia romântica, Dorian Gray apercebe-se que aloja no seu próprio domicílio o instrumento denunciador da sua verdade mais íntima. Um espelho, um simples e inocente espelho, irá registar-lhe em cada dia a progressão dos vícios, a devastação das concessões malévolas, a aliança com o lodo mais infamante dos infames do seu tempo.

Dizem os estudiosos do corpo humano que este se degrada implacavelmente porque a usura do tempo  lhe mina a robustez material e o viço orgânico. Hoje claudica um pouco mais o sistema respiratório, amanhã o digestivo, depois o circulatório, finalmente tudo junto, até ao colapso final. O que ainda ninguém pôde ou quis estudar, com assumida intenção reformadora, foi o desgaste inexorável da Alma (seja lá isso o que fôr para padres ou laicos) com a decadência irreversível daquela matriz de original inocência e bondade que talvez um dia tenhamos exibido no nosso rosto, adormecido e suave, de crianças. Cedemos hoje num princípio, amanhã num juramento, depois num compromisso, agora num valor fundamental, logo num pilar de carácter, até entregarmos toda a nossa integridade ao primeiro proxeneta que entenda explorar o nosso corpo moral. No entanto, talvez guardemos, em local discreto e privadíssimo da nossa própria casa, o impassível espelho dos Dorian Gray em que nos vamos transformando, mostrando-nos em cada hora a distorção monstruosa da nossa abdicação. 

Talvez aí resida a última esperança de um resgate improvável. Mas quem quer ver? Quem? 

 

20 de outubro de 2008

ORAÇÃO DOS EXCLUÍDOS


A Humanidade culta apaixonou-se pela morfologia humana desde os remotos tempos da Grécia clássica. Os maiores escultores, como Policleto ou Fídias, apresentaram o corpo humano como se as suas proporções e configuração fossem em si mesmas a própria comprovação da superioridade estética. Esta manifestação de narcisismo prolongou-se e adensou-se no interior do idealismo cristão, que assegurava que a imagem da espécie humana era um símile daquela que a própria Divindade havia ostentado, ao fazer-se carne e Verbo, para nos salvar. “Fomos criados à imagem Dele, à semelhança Dele. Somos, por isso, as mais perfeitas e superiores criaturas, desde sempre e para sempre”.

É aqui que o meu racionalismo engasga. A Natureza, criada ou não por Deus, é uma sinfonia incomparável de formas e cores, parecendo ter sido concebida ou simplesmente articulada para nos deslumbrar. Não estivesse eu tão agarrado à minha casca corpórea e gostaria de possuir as maravilhas cromáticas da cauda do pavão; e bem assim a resistência incomparável da morfologia da formiga, que leva para a sua lura um mantimento várias vezes superior ao próprio peso ; ou então a graça de movimentos das garças, a rapidez de reacção dos tigres, a incomparável elegância das águias, vogando no azul dos céus.

Se eu fosse pavão, ou formiga, ou garça, ou tigre, ou águia – e se tivesse o privilégio de orar ao Deus que me criou (fosse Ele qual fosse) – a minha prece seria talvez assim: - “Obrigado, meu Deus, por me teres criado perfeito. Exactamente à tua imagem e semelhança!”

16 de outubro de 2008

NÁUFRAGOS DA TREVA

Vi, por especial consideração de um Amigo, a representação deste nosso mundo sublunar, colhida a partir de um satélite, à noite. Uma fascinante miríade de luzes, uma bela flor reverberante, uma sementeira de diamantes, aos milhares, ocupa literalmente todo o território da Europa Ocidental, da América do Norte, do Japão. Brilha também a Índia, com a maior parte dos seus luzeiros aninhados junto à costa e tornados menos profusos para o interior. O Brasil, essa parte de nós mesmos, também ofusca junto ao mar, como se todas as suas Iemanjás aí se tivessem concentrado, mas deixando o interior num lume vago e intermitente. Brilha pouco, quase nada, a África, condenada irremediavelmente ao negrume do seu negro, belo e silencioso coração. Vista a partir do ar, esta Terra será para uns a jóia bendita de uma abundância sem limites, como cornucópia exposta nas montras do comércio e na voracidade das vontades de consumo; para outros, porém, ela é só a montra distante, apenas imaginada em sonhos, a promessa virtual, o Eldorado por cumprir. Lá do cimo, lá bem do cimo, não se vêem naufrágios da Medusa de um qualquer Géricault. Mas eles existem. Saem das costas magrebinas ou antilhanas, peregrinam como errantes e improvisados nautas de um injusto Poseidon, são arremessados como coisas das escarpas de Cila às ciladas de Caribdes e apodrecem desmerecidamente no mar, como frutos que não puderam desabrochar, nem sequer num humilde vagalume. É muito bela a Terra, fascinante planeta azul, visto a partir dos longes e do alto. Mas ela mata sem pudor, com eficácia cruel, quando promete a todos os direitos de luz que só alguns conhecem. É por isso que o negrume da negra África se torna mais denso, mais implacavelmente acusatório. Como se assistíssemos ao último bater de um coração fatigado. Até quando?

12 de outubro de 2008

CARNAVAL, OPUS 9, DE SCHUMANN

Um dia, descobri numa velha mala, desde há muito lançada para o desvão de um sótão poeirento, o seguinte manuscrito, incompleto e truncado, quer por lhe faltarem páginas, quer porque a humidade do local o tornara, em certas passagens, ilegível:

 Sim, é verdade, eu odeio-o. Há nele um não sei quê de superioridade que me irrita e desconcerta. Ontem mesmo aproveitou a oportunidade de estarmos sós e perguntou-me: «Conheces o Carnaval, Opus 9, de Schumann?». Forte asno! Como se fosse só ele a gostar de música clássica. Senti-me tão vexada que lhe virei as costas, não sem que antes dissesse para os meus botões – Qualquer dia, pagas-mas todas juntas! Claro que é absolutamente necessário (ilegível a partir daqui)”.

 Texto de uma outra página:

 “ […]  se te apetecer. Sofre muito. Já nem canta pela manhã. E eu estava muito habituada a esse acordar. Sabes que o bicho se me afeiçoou deveras. Não admira, criei-o desde muito novo, era quase um pássaro implume. E habituei-o a vir mordiscar-me o dedo, para pedir comida. Mais tarde, já o podia levar comigo para o banho e ele ficava empoleirado no (grande mancha de humidade, alastrada por várias páginas, impedindo a leitura)”

 Imagina que decidi ir ouvir o Carnaval, de Schumann. Um horror! Não sei como se pode gostar daquilo. E na festa da mamã lá estava ele, cheio de prosápia, rodeado de discípulos meios embasbacados. Passou por mim, quase sem reparar que eu existo e limitou-se a dizer «Olá, está com bom parecer.». Senti vontade de o esbofetear.”

 Mais à frente:

 “ […] Lembro-me como se fosse hoje. Trilhou a pata no bordo da gaiola e, espantado com um gesto que fiz por inadvertência, partiu-a, sem que eu me tivesse dado conta disso. Depois foi o declínio. As minhas leituras deixaram de ser acompanhadas […] e cabeceia muito, talvez por causa da febre. […] isto porque, se a intenção dele é desqualificar-me perante toda a gente, interpelando-me acerca de pintores ou literatos de meia tigela, que ninguém conhece nem quer conhecer, cá estou eu, para lhe fazer a cama sem que disso se aperceba. Infame! Já tenho o meu plano bem meditado e não irei falhar. Assim, […] e depois de […] atraio-o ao meu quarto e acuso-o de atentado ao pudor, em altos berros. O Papá anda com medo dos ladrões e tem um revólver na mesinha de cabeceira. Se eu o segurar bem e não deixar que mostre o rosto, virando-se, o Papá dispara de […] verdadeira dor de alma. Acredita que eu gosto dele, mas irá custar-me muito […] já mal se mexe […]

 Noutra página:

 “ […] pois, como sabes, morreu. Não me culpo de nada. De certa maneira, agora estou muito mais em paz. Ouvi outra vez o Carnaval, Opus 9, de Schumann, e começo a gostar daquilo.”

 O manuscrito não vinha assinado. Apesar disso, decidi comunicar o caso à Polícia e à Sociedade Ornitológica. 

8 de outubro de 2008

A VISITA DE HERACLITO

Creio ter sido Heraclito, o filósofo da permanência e da mudança, que disse que o caminho a subir e a descer era o mesmo. Lembrei-me dele a propósito do imperativo ético. 

A tradição judeo-cristã firma o dever-ser no altruísmo, no serviço para com os outros, ou seja, nas diversas manifestações da filantropia. Isto produz em certas consciências – que alguns apelidarão de burguesas (TGV do marxismo) ou de pequeno-burguesas (via reduzida do neo-marxismo) – um singular complexo de culpa, sempre que as manifestações do egoísmo se impõem às generosidades do viver para os outros. Aliás, o cristianismo e o judaísmo são, visceralmente, “religiões da culpa”. Imputam ao pecado a decadência do Homem, não se chegando muito bem a perceber se esse pecado derivou da fornicação ou do acto de desobediência para com a Divindade. 

Seja como for, a verdade é que estas religiões pariram uma multidão de crentes timoratos, sempre dispostos a interiorizar, sob a forma da culpa, todos os desvios, reais ou supostos, que os teóricos lhes foram imputando. Lembro-me que tive amigos de infância, nascidos no seio de famílias com orçamentos médios, que, após umas leituras apressadas do “Manifesto Comunista”, escondiam envergonhadamente o seu “estatuto de classe” e diziam barbaridades como esta: “O meu pai é engenheiro mas é de esquerda” !!! Era uma miséria verbal muito próxima desta outra forma de cretinice: “A minha tia é beata mas fuma”. 

O complexo de culpa de que padeceu toda a minha geração gerou duas perversões: a dos que foram compelidos a “adorar” as ideologias de esquerda como exorcismo de um pretenso pecado social de origem e a dos que aplaudiram o Estado Novo e se fizeram fascistas, como resposta reflexa a esta forma larvar de chantagem. Dou-me a pensar, hoje, que muito outros teriam sido os caminhos da minha geração se esta tivesse sabido manejar o egoísmo como forma de reivindicação social. É que, a auto-defesa do indivíduo – quando tal individualismo não entra em vertigens doentias – supõe e implica que as reclamações dirigidas aos governos acabem por desaguar em lógicas de Bem Comum. Explico melhor: parto do meu egoísmo e do complexo das minhas necessidades e reclamo escolas públicas competentes (porque me ficam mais baratas), hospitais públicos eficazes e bem equipados (porque preciso deles para tratar as minhas doenças), casas com rendas acessíveis (porque quero instalar os meus filhos recém-casados), crédito não especulativo (porque necessito de ampliar o meu negócio) etc, etc. 

Foi por isso que o enigmático Heraclito me veio visitar. Com efeito, é efectivamente o mesmo o caminho a subir ou a descer. Necessário é que não me venham impingir balelas tolas ou açular culpas imaginárias. Por um lado, porque já sou crescidinho; e, por outro, porque já não estou com pachorra para ouvir o Conselheiro Acácio. 

4 de outubro de 2008

COISAS


As coisas rodeiam-nos, interpelam-nos, afagam-nos, intimidam-nos. Elas são, sob a nossa vista, realidades aparentemente neutras e silenciosas. Por detrás desta aparente neutralidade estamos nós, inteiriços e expectantes. As coisas são a nossa história, a família de parentes com que contamos a todo o momento, mas que ignoramos tantas vezes. 

A espaços, remexendo uma gaveta, descobrimos coisas que já nem sequer lembrávamos, mas que nos emocionam: as agulhas de tricotar da Mãe, a cigarreira do Pai, ainda com os cigarros partidos ao meio, para iludir a pressão do vício; a carta de namoro, vinda daquela jovem que hoje é sexagenária e tem filhos de outro; o brinquedo de latão que agora não se fabrica, ainda colorido mas cheio de mossas; a cópia da escola que os “grandes” guardaram porque apresentava as letras bem certinhas e desenhadas, no alinhamento dos cadernos de duas linhas (“vai ser escritor, o pequeno tem pinta de escritor!...” ) ; a fotografia de uma festa de aniversário, com aquele Amigo antigo, ceifado antes do tempo por um absurdo acidente de automóvel. 

Tudo está ali, passivo e renitente, na verdade do “em si”, mas dinâmico e mobilizador, na redescoberta do “para nós”. As coisas somos nós, sem que elas o possam saber; somos só nós, que as anexamos em silêncios de tédio ou em gritos de entusiasmo, registos de tragicomédia,  notas da sinfonia de uma vida que vai avançando, para que cada um de nós passe a ser coisa. Também.  

29 de setembro de 2008

MAR DA PALHA

E se, verdadeiramente, Portugal não devesse ter saudades do que foi? E se os Gamas, os Cabrais, os Perestrelos, a demanda do Preste João e o elefante ao Papa não tivessem sido senão o pesadelo do domínio fero e bruto sobre populações inermes ou o simbolismo cenográfico de uma esquizofrenia da Vontade? E se tivessem sido muito mais imperiosos e vivos os desejos egoístas de encher o bornal de ouro fácil do que as intenções altruístas de dar ao Mundo novos mundos? E se um Sá de Miranda tivesse tido razão, quando escreveu que “ao cheiro desta canela o Reino se despovoa”? E se o implacável requisitório de Antero de Quental, nas Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, imputando filáucia e desvergonha às imposições de partida lançadas pelos grandes da Corte sobre os “gentios do interior”, se revelasse singelamente razoável e cristalinamente verdadeiro? Quem poderá impedir-nos de pensar assim, com a radicalidade ousada dos que já nada esperam, já nada têm a perder ou a ganhar, mas decidem dar respiradouros a todo um mundo de possibilidades, de verdades em embrião? E se a mais íntima vocação portuguesa tivesse sido o agro em vez da onda, a miniatura em vez da imensidão, o castiço em vez do universal apátrida? A Suíça de ontem e de hoje, para referendar o argumento com um exemplo óbvio, valeu ou vale menos do que Portugal, por não ter tido epopeia ultramarina? Lá se ostentou, com drama, uma aventura mental e religiosa, se nos lembrarmos que por lá se incendiaram as cóleras protestantes de um Calvino, entre outros, contra o desenfreado apetite das bulas pontificais romanas. “Pois sim”, replicarão uns tantos, “mas estão agora condenados aos chocolates, aos relógios de precisão e aos cofres de segredo”. E nós? Com tamanho passado, estamos hoje condenados a vender o sol do Algarve aos abonados anciãos da Europa, repletos de pecúnia e de artrite, e nem sequer nos é permitido cultivar, por grosso, as couves do caldo verde. A Europa não deixa!

Além disto, teria sido justo, criterioso, equilibrado, fundar na maresia, segundo alguns, uma identidade nacional multissecular e cortar agora, inopinadamente, o nexo, tantas vezes apresentado como umbilical, pondo-nos apenas ao olhar a realidade do além-Pirinéus ? Será isto um retorno a nós próprios? Poderia aqui emergir a teoria da dupla matriz nacional: éramos lavradores e cabreiros por tradição, mas a realeza renascentista fez de nós nautas por vocação. Por vocação ou por obrigação?

Pressentimos que tantas são as perguntas que se colocam como as que se dissolvem numa infusão de perplexidades. De uma forma ou de outra, quero ir contemplar o Tejo. Ali para os lados do “mar da palha” … 

    

25 de setembro de 2008

"PORTUGUESES SOMOS"

À memória de Joel Serrão

 Na realização existencial dos seres humanos e na consumação moral dos objectivos das pátrias impõe-se sempre o imperativo de se saber para onde vamos e o que queremos fazer. Sem este nítido discernimento, a vida individual andará aos baldões, como barco sem vela, e a existência colectiva afundar-se-á na mediocridade de uma simples gestão de sobrevivência. No decurso da multissecular existência de Portugal foi possível  definir, a espaços, alguns magnos desígnios colectivos, que lhe galvanizaram as forças e lhe clarificaram os programas de acção. À luta pela definição das fronteiras territoriais, dos séculos XII e XIII, sucedeu-se a saga das descobertas marítimas, a partir dos finais do século XV. Mas esta visão de transcendência, este olhar para o além de si próprio, parece ter-se esgotado com o fim da aventura náutica. Portugal criou um Império que não soube desenvolver e que, em última análise, pouco lhe aproveitou. À dinâmica de D. João II, dos Infantes D. Pedro e D. Henrique e do Rei Venturoso sucedeu-se uma estática de pura conservação defensiva, como se o país tivesse caído no torpor de uma digestão laboriosa ou na inércia de uma depressão definitiva. Perdido o horizonte do além, Portugal centrou a visão própria no aquém de si mesmo, passando a expressar o pior do seu património caracterial. E assim irromperam os traços mórbidos do choradinho, do destino fadista, da miniaturização como perspectiva, das emulações e das invejas paroquiais, da crápula instalada nas relações de sociabilidade, da incapacidade de inserir em vectores universais a sua cultura autóctone, do miserabilismo assumido como ditame inevitável. É este o acervo anunciador de um colapso sempre adiado, mas omnipresente.

É certo que, também intermitentemente, têm surgido entre nós episódios eruptivos, de dimensão predominantemente interna, que contribuíram para mascarar a maré vasa do nosso perdido universalismo. As guerras liberais do século XIX e a guerra colonial do século XX, longe de se inserirem na visão alargada dum mundo “que pula e avança”, à maneira de António Gedeão, plasmam-se, respectivamente, numa simples luta entre irmãos desavindos, ávidos e rudes, ou na inconcebível cegueira de um ditador sertanejo quanto à percepção das correntes profundas da História universal.

Hoje, porém, Portugal nem sequer se confronta com esta sorte de derivativos ou de panaceias evasivas. Hoje, Portugal, como atrelado subalterno de uma Europa onde nada vale e nada conta, é um Colectivo sem norte, sem referências e em perda acelerada de identidade. Começam a ouvir-se por aí apologias iberistas, que já nem sequer desencadeiam os nojos e repelências com que foram recebidas nos meados do século XIX. Que queremos? Para onde vamos? Que lugar nos está reservado no concerto das nações? Que podemos fazer por nós próprios, para além do exercício mesquinho de garantirmos ( se garantirmos …) as três refeições diárias? Claro que poderemos sempre dizer que estamos vivos, o que já não é mau! Mas, estaremos vivos, de facto? Quem semeou a alma pelas vastas pradarias de África e da Índia, da Ásia e do Brasil, quem levou a mala de cartão para Paris e quis entregar ao ignoto Preste João os termos de um acordo de amizade, quem levou à Roma dos Papas a imponência de um elefante vivo, quem tudo isto fez, teria o direito de esperar no presente um retorno mais confortante. Portugal tem vindo a interpretar um destino histórico singular, que se equilibra entre o sublime grotesco e o trágico risível. Como o filho pródigo da Bíblia, delapidou longe da casa paterna o património da ancestral herança. Gastou tudo, às punhadas: o sangue, o sémen, a Ideia, o dobrão, a Palavra. Regressou abatido e miserável. Mas, ao contrário do episódio bíblico, passou a habitar uma casa de empréstimo. Chama-se Europa. Tem como função fazê-lo esquecer, de uma vez por todas, o rosto que já teve.

 

22 de setembro de 2008

UMA BORBOLETA NO VATICANO


A Praça de S. Pedro, em Roma, regurgitava de preces e de transeuntes devotos. Era um marulhar de formigas em alvoroço, muito compenetradas, graves e mal tingidas de cores neutras. Embora estivesse calor, os corpos encontravam-se suficientemente tapados, não fossem os mesmos lembrar alguma orgia romana, talvez outrora perpetrada no Fórum, nesse espaço por longos tempos desprezado, mas de onde se fizeram transportar (às ocultas ?) parte dos soberbos mármores, outrora dedicados ao hino glorificador dos deuses vencidos. Hoje, o Deus vencedor – tão longe do humilde espírito do Rabi galilaico… – blasona a sua condição de triunfador incontestável, decretando as nostalgias de Infinito nos corações e as imposições de pudicícia nos corpos. Todas os templos católicos de Roma ostentam à entrada um cartaz morigerador, onde se encontram desenhadas minuciosamente as peças de roupa consentidas e aquelas que são vistas como indutoras do pecado.

Foi então que a vi. Não teria mais de dezassete ou dezoito anos. Fresca como o rocio da manhã. Amarela na roupa escassa e rosada na face risonha.Um anátema insultuoso em pleno Vaticano. E a matéria do seu corpo, essa famigerada condição de humano desejo, esse pressuposto teológico de decadência, simbolizaria, para todos os que quisessem realmente VER, o viço das regras de Vitrúvio e a superioridade estética do paganismo. 

Como uma borboleta amarela, rutilante de graça e de paradoxo, a rapariga volitou por entre a gente parda de S. Pedro e acabou por desaparecer numa esquina. 

Do alto da arcaria, os Santos, os Anjos e os Arcanjos respiraram de alívio.