26 de dezembro de 2011

SOBRE A "ARTE MENOR" DA CARICATURA




Na infância, o mundo é perscrutado por olhos inocentes e curiosos. São os objectos, a diversidade das coisas, que estimulam os nossos órgãos visuais. Apesar disso, o registo objectivo é acompanhado, de forma lúdica, pelo trabalho da imaginação. Num muro coberto de musgo o olhar juvenil pode destrinçar dois cavaleiros numa justa medieval, um velho a percorrer uma floresta, uma vaca a pastar, um moinho junto ao rio ou até um enxame de abelhas à entrada de um cortiço. Olhando para o céu, observando a consecutiva mutação das nuvens, a visão ingénua pode discernir um navio no alto mar, ou um pássaro no seu ninho, ou um rosto patibular. O primeiro esforço foi o do registo do real, com a imperfeição formal de quem ainda não conhecia as regras de perspectiva ou a normalização das proporções. O cavernícola desconhecia os preceitos de Vitrúvio. Por isso, a reprodução dos seus animais ou dos seus caçadores era muito próxima da interpretação inerente aos desenhos infantis.
O esforço artístico da Humanidade fez-se, durante séculos, no sentido da naturalização e da fidelidade aos fenómenos circundantes. Quiseram os homens representar o mundo, “tal qual ele se nos dava, exactamente como ele existia”. E, no entanto, desde o primeiro momento se imiscuiu neste projecto o fermento anarquizante da libérrima imaginação. Onde os olhos viam uma mulher, a imaginação descortinava uma sereia ou até um monstro marinho. Perenizou-se a luta entre o objectivo e o subjectivo, entre o estruturado e a desestruturação voluntária. Na Idade Média, o artista plasmou Cristo – mas só a imaginação supôs a Dor; na Renascença, o pincel pintou os Bórgias – mas só a imaginação pressentiu o punhal.
Chegou-se então à Época Contemporânea. Nela se desenvolveu um património de versatilidade e incontinência, de tripúdio por regras canónicas e de rejeição do “dado”. Mais importante era o “constructo”, esse “quid” com que Lewis Carroll serviu Alice, precisamente ali, do outro lado do espelho. Continuou a fidelização objectiva, a representação “tal e qual”? Decerto que sim. Mas surgiram certos artistas que começaram a baralhar tudo, a empurrar monarcas absolutos dos tronos do seu dogma, a troçar de burgueses ventrudos e de damas em estado de suspiro diferido. Que gente era essa? Era aquela que passou a atribuir a certos pormenores, sobretudo os de significado grotesco, muito mais “vis” expressiva do que essa outra que se revia nos leques dos salões, na majestade dos majestáticos, no realismo da realidade. Era, sobretudo, gente que queria rir e, se possível, troçar. Chamaram-lhe “exagerados”, “tabeliães da vulgaridade”, “cultivadores de uma arte menor”. Foram depois designados de “caricaturistas”. Organizaram-se em legião para a conquista do mundo, tendo por generais Hogarth, Carle Vernet,Thomas Rowlandson, James Gillray, Daumier, Rafael Bordalo Pinheiro, Francisco Valença …
Aconteceu então um grande terramoto na cidadela da Arte. É que mesmo os Artistas que se reconheciam com A grande, partiram para a decifração do mundo com uma aumentada dose de subjectividade e de deselegância. É Belo, isso? E por que não há-de o feio transmudar-se em Verdade na ponta do meu lápis ? Foi então que se produziram inesperadas rendições. À caricatura, ao pormenor cómico, à fealdade satírica foram prestando o seu preito nomes como os de Reynolds, Eugène Delacroix, Gustave Doré, Goya (um génio absoluto), Géricault, Victor Hugo,Toulouse-Lautrec, George Grosz, Paul Klee, Pablo Picasso.
Era a arte “modernista”, expressionista, surrealista, a impor a regra do desregrado, a subjectividade do objectivo, o “às avessas” a um mundo até então excessivamente arrumado. Talvez possamos dizer que foi, é, está a ser, um regresso aos primórdios. Só que agora, os cavernícolas que ainda somos descobriram o doce, subtil e requintado perfume da liberdade criativa sem limites. E desde então o mundo nunca mais foi o mesmo. Ele acabara de descobrir que o mesmo é sempre "um outro". A questão é chegar lá ...

20 de dezembro de 2011

MICROCOSMO-MACROCOSMO



Quando se devassa a realidade – ou o que é suposto sê-lo – com um microscópio electrónico, acontece o que nunca poderíamos imaginar possível. O salto do infinitamente pequeno para escalas de grandeza que nos eram insuspeitas revela um mundo de novidade insuspeitada. O que era apenas a ruga indelével, apresenta-se como a garganta de um abismo; o que passava por ser uma simples penugem, dá-se-nos como o torso imenso e negro do que parece ser uma planta incomensurável; uma pequena variação de pele, uma verruga, por exemplo, revela um temeroso dorso de descontinuidade. As coisas passam a ser outras, porque sujeitas ao olho ciclópico de uma máquina de aumentar. E eis-me assaltado pelo pressentimento de que estou a ser observado pela pupila de Andrómeda ou pela iris do olho imenso de uma outra realidade, tão distante que, longe de me magnificar, me reduz à poeira, longe de me engrandecer, me situa na rasura do espaço minúsculo. Tudo muda então. E para que me servem as regras da lógica, os normativos dos códigos, os princípios da epistemologia, a própria dialéctica? E para que me serve o servir-me? Ou o servir-me de ? Há quem diga que desaparecem coisas no “triângulo das Bermudas”. É possível. Basta que se abra, a partir da vontade de Andrómeda, uma infinitésima partícula deste Ser global.

12 de dezembro de 2011

NATUREZA SOLAR



No côncavo do gineceu
Reconheço-me pólen.
Frutificou a primavera
Que passou por mim
E deu-me forma de romã;
Como se bem outro eu
Tivesse fecundado hímen
Imaculado no fruto que sonhara
Intocado por mazela malsã.
Como se bem outro eu
Tivesse produzido o sémen
Multiplicador da múltipla seara.
Assim me reconheço e sei
Parte do mundo todo:
Como se o veio da minha Grei
Fosse ribeira clara e nunca lodo.

8 de dezembro de 2011

FRIO


Faz frio lá fora, não achas?

As coisas estão brancas por dentro

E a terra revela o estranho silêncio do estéril.

Ao longe, um sol redondo e menos do que morno;

Ao perto, expressões de amantes desavindos.

Está frio aqui, não achas?

Acende-se a lareira?

Mas como e com quê?

A lenha só existe em árvores transidas.

Ainda agora vi um pássaro de penas eriçadas

De pavor e solidão.

Não, não caem co’a calma as aves.

O que cai sobre nós é o protesto de raízes

Procurando alcançar um renovado alento de seiva.

Faz frio, muito frio, não é ?

O fogão de sala prescindiu da sala e ficou só.

E nós também.

Somos frio, não somos?

4 de dezembro de 2011

PELA MANUTENÇÃO DO 5 DE OUTUBRO COMO FERIADO NACIONAL


A opção republicana está além E ACIMA da simples opção partidária. É que não se trata de defender um emblema, uma casta, um sector grupal, uma corporação. Ser republicano significa uma declaração solene de pertença a um ideal de serviço a favor do BEM COMUM ( a famosa "Res Publica" não é mais do que esse Bem Comum). Por isso, com exclusão de opções totalitárias, um republicano pode orgulhosamente afirmar que o é independentemente da sua particularista simpatia por este ou aquele agrupamento institucionalizado e inserido no leque da Democracia concreta. A opção republicana funciona mais como elo de ligação e de confraternidade do que como sinónimo de ruptura e de antinomia. Prezemos o sufrágio universal, a liberdade de consciência, o pluralismo de opiniões, o laicismo na vida civil, a franca tolerância no convívio, o ecumenismo das crenças, o patriotismo na forma de estar, o livre associativismo, o multiculturalismo, a integração sem preconceitos do diferente, a Escola para todos, a Saúde para todos, o viver sem medos de qualquer natureza - prezemos e defendamos tudo isto porque quando tudo isto acontecer dentro de nós, todos diremos com orgulho : "é verdade, SOU REPUBLICANO" .

3 de dezembro de 2011

BREVE NOTA SOBRE A ARTE

A Arte norteia-se por dois grandes princípios. É necessário, por um lado, que o que se vê, o que se ouve, o que se sente, o que se percepciona, nos remeta para além da intuição ou da vivência imediata. A Arte, desta maneira, será sempre uma refiguração da vida. O outro princípio - que vem, aliás, na peugada do primeiro - assegura-nos que o Artista constrói um objecto inteiramente novo, embora utilize recursos, matérias-primas ou processos técnicos já conhecidos. E como o princípio da novidade é complementar do princípio da recriação, isto significa que a Arte é um continuado milagre.

24 de novembro de 2011

LISBOA DO MEU FADO

(por ocasião da candidatura do Fado como Património Imaterial da Humanidade)

Ai, vielas de Lisboa , ai veias da minha alma

Ai alegrias e dores, claridades , destinos.

Uma cidade-magia por onde correm meninos

E poetas fazem versos como actores que fossem Talma.

Ensoleirada portada debruçada sobre um rio

Calçada bem enroupada em dias de muito frio

Castelo de cotovelo acastelado num cimo

De gentes acreditadas, carenciadas de arrimo

E D. José vigilante em cavalo pata-ao-ar

E o Carmo arruinado no seu perpétuo cismar

E a casa de bonecas duma Torre de Belém

Jerónimos doutros tempos guardados como refém

E todo um Povo a fremir de vida sem mordomias

Se tu a soubesses ler decerto que a lerias

Como livro croniqueiro dum tal Lopes bem Fernão

Como entremez joalheiro dum Vicente dito Gil

Cidade de coração com corações mais de mil

Teu fado é prenderes a ti os que presos ficarão

Meu fado é prender-me a ti como musgo num desvão.

19 de novembro de 2011

TRONO DE CETIM


Reclinada num trono de cetim

A Deusa é um fuste da gávea intemporal.

E no entanto , lá em baixo ruge a fera do mal.

Rolam fogos de lava, vomitando carmim

As entranhas da terra. Isso que importa?

A Deusa ripa uvas

Esquecida das chuvas,

Ela, que nunca se sentiu como morta.

Lá longe, no denso crepitar de gente aflita

Há quem sofra terrores de medo e maldição

Mas não assim a Deusa, a Deusa não.

E é então que penso para mim

Que tal Deidade

Ignota e recolhida num casulo malsão

Reclinada assim

Num latrinário trono de cetim

É só a edição duma maldade;

É igual ao nada que se soma

À caminhada penosa dos que vão

Morrendo aos poucos, como quem toma

Veneno e perdição

Perto, tão perto já do fim

Longe, tão longe

De tronos de carmim

E de cetim.

9 de novembro de 2011

A ERVA DA SARDENHA

Sustentam alguns que certa forma de riso maldoso, intencionalmente dirigido à humilhação do nosso semelhante, foi designado de “sardónico” por existir na Sardenha uma erva venenosa que, uma vez ingerida, provocava rapidamente a morte. Nestas circunstâncias, a face do defunto apresentar-se-ia arrepanhada, distorcida, contraída num “rictus” de aparente sorriso. A este riso ou sorriso mortal foi dado pelos homens o nome de riso “sardónico”. Isto permite a extrapolação do domínio dos factos para o das interpretações, caucionando o salto da Ciência para a Ética. É que quando nos rimos de alguém com intenção depressora, quando derramamos sobre o adversário o mesmo riso que Ulisses dirigiu a um dos pretendentes a Penélope, sua mulher, no momento em que regressou a Ítaca disfarçado em pedinte, numa palavra, quando vexamos o nosso irmão de espécie com a malignidade deste riso, estamos a vaticinar a morte antecipada desse adversário, agora convertido em inimigo. Voltemos à “Odisseia”. Ulisses, ao chegar, só foi reconhecido por Argus, o velho cão que deixara no seu palácio antes de peregrinar por sobre as salsas ondas. Homero não o declara, mas é de calcular que tenha afagado o animal com um sorriso não-ervado. Ao inimigo, pretendente do tálamo da sua esposa, ele endereçou um riso venenoso e letal. Como é sabido, ao desvelar-se, Ulisses matou com as suas próprias mãos todos os invasores da sua intimidade, todos os disputantes daquela que o reconhecia como esposo e que, como tal, o havia esperado em ânsias. O caso está em que a justificação do “mortal-sardónico” é apenas admissível – se o for… – nos casos extremos em que nos batemos por causas indeclináveis. Nem sempre Ulisses arriba a Ítaca. Mas são inúmeras as vezes em que soltamos da alma a erva daninha com que vamos matando moralmente os nossos irmãos, obrigando-os a ingerir a erva da Sardenha.

6 de novembro de 2011

IMPROPRIEDADES TEOLÓGICAS

Dizem os teólogos que os desígnios de Deus são insondáveis. Insondável é, desde logo, o modo como o Antigo Testamento estabeleceu as fronteiras do Bem e do Mal. Estas categorias não surgiram como emanações directas de Forças opostas mas antes como uma interdição do próprio Criador. Recapitulemos. Após a criação do primeiro homem e da primeira mulher, o Divino colocou o par originário num Jardim de Delícias paradisíaco. Mas logo decretou que o fruto de certa árvore lhe estava interdito. A nossa longínqua mãe Eva obrigou Adão a pecar, oferecendo-lhe o fruto dessa árvore proibida. Deus expulsou-os do Paraíso e, a partir dessa desobediência, foram estabelecidos inumeráveis malefícios para os rebeldes originários e para toda a sua descendência. Uma pergunta se impõe : que estranha fronteira de inibição desenharia essa tão perigosa árvore ? O que aprendi com sacerdotes católicos , desde a mais tenra infância, foi, sobre este ponto, algo de muito contraditório. Uns declaravam que Adão e Eva tinham comido o fruto da Árvore da Ciência e que tal ousadia aparecera como intolerável aos olhos de Deus, por nela se ocultar o desejo de uma concorrência insuportável, de uma divinização a partir do barro humano. Mas - pergunta a nossa ignorância - não foi Adão criado á imagem e semelhança de Deus ? A ter sido assim, não se afigura exorbitante que a criatura tivesse desejado imitar o Criador, por efeito desse mimetismo que o próprio texto sagrado confessou existir. Quando atingi a adolescência, um outro padre católico assegurou-me que a linguagem utilizada da Bíblia era alegórica e que o famigerado fruto proibido não era mais do que o império carnal, ou seja, o desejo sexual consumado pecaminosamente. Mas, a ser assim, a imagem do Criador não sai nada favorecida. Por um lado, verificar-se-ia uma insanável contradição entre o Antigo Testamento, que proscreveria o desejo da carne, e o Novo Testamento, no qual o Filho de Deus prescreveria o ditame do « crescer e multiplicar » ; por outro lado, a severidade divina, a ser observada, iria reduzir a Humanidade à « parca ração » - como diria a saudosa Natália Correia -de duas criaturas. Ora isto projecta sobre o nosso tempo uma angústia geométrica, sobre a qual já Malthus refectiu, na transição do Século XVIII para o Século XIX. A tremenda angústia resultaria axiomaticamente desta elementar conclusão : a Humanidade, até ao presente, teria pecado mais de sete mil milhões de vezes. Valha-nos o facto de estarmos confiados a um Deus de uma evangélica paciência. E tranquilize-nos a circunstância de ser o escrivão deste texto um livre-pensador crivado de pecados e, como tal, pasmosamente ignorante destas seráficas e misteriosas transcendências.

31 de outubro de 2011

NOVA CANTIGA DE MALDIZER


O Dias era um huguenote duma crença qualquer.

Oh, quantos dias emergiam do ventre do Tempo

Em que tínhamos de aturar o Dias (oh, quantos dias)…

Mas houve um dia, perdido entre dias,

Em que o Dias se apaixonou por uma Puritana;

E o Dias deixou então, durante dias, de ser um huguenote.

O Dias, pobre dele, sofreu metamorfose e acordou parrana.

Dizem que os dias do Dias perderam a nota do edificante

E que a Puritana – que o era, a sacana – nada perdeu .

Ou seja, o Dias levou dias a pedir o que se sabe

Mas ela, arteira, dissimulada, sabidona, nada lhe deu.

Sim, porque o Dias tinha dias de doutrinações berrantes!

A ironia é que, apesar da paixão, ficou tudo como dantes …

Aqui temos durante muitos dias o Dias preso

À garridice contida de uma bem vivida Puritana

E não já a demonstrações racionais de muito peso.

“Dias, vê como correm os teus dias” , bem lhe dizia a mana.

O bom do Dias, que tinha sido um denodado huguenote,

Levou dias e dias a descobrir que certas formas de amor

Só nos tornam irrecuperável e miseravelmente pequenotes.

Isto de viver dias de grande Amor não é de todos os dias.

Sabes que mais, oh Dias ? até o Amor, velho gaiteiro, tem dias!

26 de outubro de 2011

APONTAMENTO SOBRE A CARICATURA

Pode dizer-se que a caricatura constitui a ilha de um continente muito maior: o continente da imagem satírica. Embora haja quem considere que toda a satirização plástica é caricatural, a verdade é que, tradicionalmente, a caricatura se aplicou à deformação e recomposição dos traços fisionómicos das pessoas. Tal como o riso pode comportar dois significados – o da integração simpática e o da exclusão antipática – assim a caricatura pode assumir a benevolência de nos apresentar um rosto indutor de reacções complacentes ou a implacabilidade de nos dar um rosto susceptível de um juízo de repulsa. Em regra, a caricatura política, por se encontrar fundada sobre um maniqueísmo valorativo, expressa-se através da indução do segundo daqueles risos, compelindo a respostas sardónicas e desqualificantes. A caricatura situa-se nos antípodas da doutrina de Jesus, o qual, explicitamente, de acordo com o testemunho dos Evangelhos, aconselhava os seres humanos a “não julgar segundo o rosto”. Mas o desígnio da caricatura é exactamente esse: o de permitir, através de uma “visão-outra”, que nos é trazida pelo sublinhado de alguns elementos morfológicos da face, o de consentir, mediante a descoberta de uma verdade interior, até então oculta, julgar através dum rosto. O caricaturista seria então uma espécie de mago, um adivinhador de signos e sinais, um profeta de morfologias antropológicas. Ele seria animado por uma sorte de feitiçaria, de talento de adivinhação, trazendo á superfície os segredos recônditos de uma personalidade. A caricatura, quando preenche efectivamente o lugar a que tem direito no mundo da Arte, quando se destaca da simples intenção do “fazer engraçado”, comporta pretensões demonstrativas evidentes. Por isso é que o trabalho, decerto honrado mas primário, dos chamados “caricaturistas de boulevard”, não atinge a craveira suficiente que imediatamente reconhecemos aos caricaturistas de corpo inteiro, como Daumier, Hogarth, Rafael Bordalo Pinheiro, Leal da Câmara ou João Abel Manta. A intencionalidade caricatural pode respeitar ao corpo todo. O exagero das grandes barrigas ou o rectilíneo das figuras esquálidas têm fornecido a inúmeros caricaturistas uma parte da matéria-prima do seu trabalho. Mas a alvo preferencial da caricatura é, inquestionavelmente, o rosto. Diz o saber popular que “o Mal e o Bem ao rosto vem”. Por isso, esse acto pictórico de olhar, a partir de fora, para o que está dentro, de divisar, a partir da altura da testa, da comissura dos lábios, do prognatismo ou da falta dele, da implantação das orelhas, do feitio do nariz, do rasgo dos olhos, de vaticinar, a partir do que “está aí”, o que “aí se anuncia”, esse sortilégio de auscultar os segredos do Animus absconsus, essa faculdade constitui, numa palavra, a grandeza da Arte: a grandeza de nos fornecer uma Verdade mais verdadeira do que aquela que é tão cerradamente manifesta.

22 de outubro de 2011

UM CLÁSSICO BANZÉ

Parece que Alcibíades se ofereceu a Sócrates. Sim, ofereceu-se-lhe fisicamente, tal despudorado ! Não sei bem se tal ocorreu no decurso do “Banquete” de Platão ou na ponte pênsil por onde transitava o pessoal que seguia para uma das numerosas festas dionisíacas. O que sei é que tamanha desvergonha foi muito comentada por gente que deambulava pela ágora de Atenas. Constou que Diógenes, o Cínico, mal se tornou sabedor de tal rumor, deu-se a acariciar o sexo, não se desse o caso de tal convite lhe poder ser também dirigido. Foi no dia em que Epicuro comia uvas bem sazonadas com ovas de peixe e uma amálgama de azeitonas sem caroço e de medronhos esmagados. Também por ali deambulava o satirista Aristófanes, congeminando já o entrecho a “Lisístrata”, peça futura na qual as mulheres negavam comércio carnal aos seus senhores guerreiros, a menos que eles deixassem de combater. Foi então que irrompeu, lépido, um seguidor de Heraclito, que forcejava por levar ao pasmo a maior parte dos que se pacientavam para lhe escutar a fala. Este só declarava, enfaticamente, mas tão repetido como o chiar das rodas dos carros: “Tudo muda, tudo muda; e o segredo do saber está no conhecimento da mudança”. As mulheres, sobretudo essas, acotovelavam-se, muito cúmplices, sem saber se esse cenário de mudança projectava um mundo de suspeitas sobre a veracidade da luxúria de Alcibíades ou sobre a mansa recusa de Sócrates. E diziam as mulheres umas para as outras: “ O Alcibíades deve desejar que Sócrates com ele pratique sexo anal ao mesmo tempo que lhe recita aquela história de se chegar à verdade através de partos mentais”; “nada disso”, declarava outra, “aquilo é um sofisma completo, bastando para tal a consideração da fealdade de Sócrates, a sua idade, e o equívoco convívio de Alcibíades com jovenzinhos de catorze e quinze anos”. Neste momento, Platão deu-se às vistas mais distraídas. Vinha grave, mas convencido, como sempre, que era o guardião dos costumes da Cidade e o garante de tudo o que de Belo nela pudesse ocorrer. Era por isso que se ouvia, vinda de dentro da barrica de Diógenes, a interpelação reiterada: “Platão, grande cabrão, vem mexer-me aqui co’a mão”. Nunca se sabia se era Diógenes a falar ou o cão que o habitava. O que se sabia, não por efeito de boato mas por audição de mútuos dichotes, era a fundíssima desavença que lavrava entre Diógenes e Platão, troçando um do outro o mais que podiam. Mas Platão fazia-o pedindo de empréstimo a Sócrates alguma "eironia" , enquanto Diógenes o escorchava roubando a Diónisos o vinho da ira e da descompostura. Quem anotava tudo, enchendo as palmas das mãos e a barriga de inscrições, traçadas a carvão, era Aristófanes.

Não tive tempo de conhecer o desenlace disto tudo. Parece que Sócrates foi condenado à cicuta, mas não por indulgências carnais; parece que Platão surgiu mais tarde, num quadro renascentista de Rafael sobre a “Escola de Atenas”, a apontar com o dedo o céu dos pardais, como se o Empíreo lhe pertencesse ; parece que Diógenes reencarnou, nos inícios da Modernidade, em Rabelais, transmitindo-lhe o segredo do alívio de ventos intestinais, o que ditou acumulações de más vontades e de cheiros fétidos; parece que os discípulos de Heraclito continuam, ainda hoje, como relógios falantes, a debitar a máxima segundo a qual o segredo do conhecimento consiste em dizer que tudo muda, silenciando, porém, a natureza e o sentido desse mudar; parece que Alcibíades já reivindicava, ao tempo, direitos de adopção sobre os meninos órfãos da ágora.

Nesta parlenda, a única conclusão segura é esta: Aristófanes escreveu mesmo a “Lisístrata” e as mulheres de todos os tempos conseguem suster todas as guerras masculinas, oferecendo aos machos o que têm entre as pernas.

14 de outubro de 2011

LIMÕES E LARANJAS


Na frente da minha casa

Limoeiro e laranjeira

Limões e laranjas dão.

Laranja da laranjeira

Tu que és assim brejeira

Não deixes cair no chão

O suco desse limão.

Mesmo no patim da casa

Limoeiro e laranjeira

Limões e laranjas dão.

Limão desse limoeiro

Não percas da laranjeira

A flor da sagração.

É que ao vê-la assim ligeira

Na flor da viração

Eu quis que de mim nascessem

Em frente da minha casa

Laranjas do coração

E também nesse patim

Sobre mim assim descessem

Sucos fortes de limão

Para tos dar mui cheirosos

Sucos florais, olorosos,

Na concha da minha mão.

Na frente da minha casa,

Junto ao patim, num desvão,

Limoeiro e laranjeira

Limões e laranjas dão.

10 de outubro de 2011

O RISO EXISTE

O homem ri dos outros sem que por vezes se aperceba que está a motejar acerca de si mesmo. Mas desde a mais remota Antiguidade aos nossos dias, o riso foi uma das suas emoções mais recorrentes. Riram sem atrição os deuses de Homero, num olímpico desconchavo, quando Vulcano, o coxo, os serviu à mesa, manquejando irreparavelmente. Riram os mimi romanos, os goliardos medievais e os actores facetos da commedia dell’arte, nos inícios da Renascença, já numa altura em que sobre o riso se abatia a censura do “parece bem-parece mal”, obrigando-o a abandonar as ruas e a refugiar-se nas páginas dos livros e nos palcos dos teatros. Que riso é o de hoje? Cremos ser menos espontâneo do que o que vibrava na ágora de Atenas, no Forum de Roma ou nos canais de Veneza. Sobre o riso do nosso tempo passaram duas grandes guerras mundiais e a percepção, em surdina, de que o único humor possível, o único historicamente justificável, é o humor inconsequente do Dadaísmo ou o “humor negro” de Breton e do surrealismo. “E, no entanto, move-se”, diria um Galileu de agora, estudioso das regras e modas que o comandam. Move-se? Sejamos menos ousados. Limitemo-nos a dizer que existe.

6 de outubro de 2011

ORAÇÃO REPUBLICANA


Mãe Nossa, que estais na Terra, bem abençoada seja a Vossa face, venha a todos nós a Justiça, a Igualdade sem demagogia, o sentirmo-nos gente entre gentes, capazes de fruir da Felicidade que o nosso Trabalho for capaz de conquistar, e seja feita a nossa vontade, nós que somos Obreiros do Tempo e da Charrua, da Pena e do Escopro, da Enxada e da Espátula, do Músculo e da Palavra. O Pão nosso de cada dia haveremos de o conquistar, contra o devorismo e a desmedida ambição, contra a manipulação e o Privilégio. Nós, que somos gente comum, sem deixarmos de ser Gente de suma importância nos caminhos do Futuro, nós que temos a universal certeza de que em nós reside o pão e a sopa quotidiana, o saciar da fome e a vingança da Iniquidade, nós, gente comum entre seres humanos vulgares, nós que somos a gota de água no deserto, o grão de trigo na Terra Inóspita do Sem Fim, nós que temos na palma da nossa mão o querer de uma vida mais séria e melhor, nós aqui vimos, junto da ara da Humanidade, colados à responsabilidade da Nossa precária Humanidade, para te dizeremos, Irmão de todas as estações, que não desistiremos de fazer a Justiça, de fazer a Liberdade sem licença, de edificar a Res Publica sem corrupção, para que as Crianças possam nascer em Paz e para que o Sol nascente nos ilumine a todos, nós aqui declaramos o nosso AMEN, como charneira de Salvação, como Arca de Aliança para todo o Sempre. Amen !"

1 de outubro de 2011

SACO PRETO COM CORES


Quando me despedi

Do meu país distante

Não sabia de mim.

Pintava-me de escuro

Havendo um muro

Que me mostrava o fim.

Havia apenas a pena

Do penar

E um saco preto

Onde meto

O que sobre em carmim.

21 de setembro de 2011

O MEU ARQUIVO DE IMAGENS 3. Pérolas a porcos


A expressão “dar pérolas a porcos” revela-nos uma genealogia muito antiga. Tome-se como exemplo a representação que se apresenta num baixo-relevo do período medieval, de um templo em Ruão, na Normandia, onde se apresenta uma mulher que alimenta os seus porcos com rosas. “Alimentar porcos com rosas” é uma ideia completamente equivalente ao sentido que ainda hoje se confere à frase “dar pérolas a porcos”. Seria curiosa a demanda em torno da questão de apurar os motivos da menor consideração que o porco mantém, mesmo nas formações sociais judaico-cristãs, em relação a outros animais comestíveis. Poderia indicar-se a nula tendência, apresentada pelo porco, relativamente a práticas ou hábitos higiénicos. Poderia imaginar-se que um animal pouco exigente no domínio alimentar tenha suscitado pendores marcantes de repulsa por parte do ser humano. Mas contra isto poderá prevalecer a inegável utilidade de um animal cuja matéria física é totalmente aproveitada na nutrição corrente. O porco é, comprovadamente, um bicho mal-amado. Na expressão “dar pérolas a porcos” , o animal visado poderia ser substituído por qualquer outro. Mas ninguém diz “dar pérolas a ovelhas”, “dar pérolas a jumentos” ou “dar pérolas a cães”. E contra isto, nem os belos enchidos são factor de valorização…

20 de setembro de 2011

DE DANTE A RABELAIS

A “Divina Comédia”, de Dante Alighieri, encerra a Idade Média e descerra a Idade Moderna. A comédia perdera, “in illo tempore”, direitos de cidade. Tinham ficado para trás o Aristófanes, das “Nuvens”, o Plauto, da “Comédia da Marmita” e da “Comédia dos Burros” e também o Terêncio do “Eunuco” e da “Sogra”. Mas a Idade Média quase viria a esquecer os legados clássicos. E esse esquecimento foi tão vincado que a própria palavra “comédia” perdeu o significado que os gregos e os romanos lhe haviam atribuído: passou a significar apenas “narrativa”, “enunciado de factos concatenados e recheados de peripécias”, “narração dramática”, ou seja, um dizer susceptível de produzir emoções. Assim se compreende que a obra de Dante se intitule “A Divina Comédia”, ou seja, a “narrativa dramática” que nos conduz à emoção, a qual não pode deixar de produzir-se quando as sublimidades do verso nos levam, em círculos lógicos, epopeicos, das danações dos Infernos à luminosa verdade do Céu. A comédia, a verdadeira, aquela que retomava e ampliava o eco das origens, essa ficou-se pela praça pública, nas momices dos “jongleurs” e, mais tarde, nas tropelias dos bobos da corte. E esse povo indiferenciado riu tanto e tanto que, precisamente também pelos fins da Idade Média e pelos alvores da Modernidade, ficaram criadas as condições para que se originasse um prodígio de sátira, se engendrasse uma gargalhada imensa e uma gigantesca torrente de graça, onde ficaram para sempre soterradas as seriedades e gravidades de todos aqueles que, por não serem povo, jamais souberam rir. Foi então que nasceu a obra de Rabelais. Foi então que o riso ganhou tais proporções que nem um Homero se atreveria a imitar.

12 de setembro de 2011

O MEU ARQUIVO DE IMAGENS 2. Uma sátira pagã

Foi em 1857 que se descobriu, em escavações arqueológicas que estavam a ser feitas no Monte Palatino, em Roma, o desenho ou “grafitti” aqui reproduzido. Ele encontrava-se miraculosamente preservado na “Domus Gelotiana”, uma vivenda que o Imperador Calígula adquirira para fazer parte das suas instalações imperiais. O desenho data, assim, do século III d. C. Representa o corpo de um homem crucificado, com a particularidade de ser dotado de uma cabeça de burro. Em frente aparece-nos um outro homem, em postura de adoração, com a seguinte inscrição em grego antigo : “Alexameno venera [o seu] deus”. É, manifestamente, uma sátira pagã à nova religião cristã. Mas porquê a figura do crucificado com uma cabeça de burro? É necessário ponderar que, na altura, os conteúdos doutrinais do Cristianismo ainda eram alvo de grandes ataques por parte dos cultos pagãos. Nem sequer se diferenciava o judeísmo do cristianismo. Em Roma, ecoava a velha calúnia de que os judeus adoravam um asno. Por isso, Jesus é representado na cruz com a cabeça de um burro. O cristão Tertuliano confirma, nos seus textos, esta convicção pagã de que os cristãos também adoravam um burro.

7 de setembro de 2011

O MEU ARQUIVO DE IMAGENS 1. A Dama de Tebas

Sir Gardner Wilkinson revela-nos, na sua obra "Manners and Customs of the Ancient Egyptians" uma série de figuras históricas gravadas num dos grandes monumentos de Tebas. Uma dessas gravações representa uma festa de vinho, frequentada por ambos os sexos. Uma mulher, seguramente de bom nível social, é apresentada a vomitar, enquanto uma serva, colocada por detrás dela, procura auxiliá-la nesse momento embaraçoso e difícil.

Esta imagem fornece-nos abundante material de reflexão sobre a especificidade dos comportamentos "de género".

2 de setembro de 2011

MUNCH E A ANSIEDADE

Há gente em busca de si, depois de lhe terem prometido o Paraíso. Antes da promessa, a vida que se vivia era normal e sem sobressaltos. Também sem muitos sonhos, certamente. O sonho é aquele pedaço de alma que se recolhe no sudário do “talvez seja, talvez possa ser, um dia será”. Mas é, em tal caso, apenas a esperança contida nos limites da descrença, que , apesar de tudo, ainda faz correr as imagens do mito na tela da ilusão. Durante a promessa, tudo pareceu alcançável. Por isso, os olhos reverberam de crença e de paixão. Prometer é criar sempre uma Juventude artificial, de céu sempre azul e de poentes afogueados. E um dia a promessa falha. Instala-se então o lento morticínio das faces bambas, arroxeadas, e dos olhos vazios. O que impressiona é essa distância que os olhos fitam sem ver. Sim, decerto uma ponte cheia de gente vazia. Uma ponte sem gente, embora pisada por centenas de pés. E um céu lívido, nos antípodas dessa promessa incumprida : tal como esta “Ansiedade”, que Edvard Munch um dia pintou.

3 de agosto de 2011

QUERER RIMAR

Aquilo passou-se num fim de tarde. Eu descia pela Rua Nova, aquela que bordeja o mar e desemboca na praça grande. Ela subia a mesma rua, numa passada lenta, já denunciadora da chegada de artrites e outras complicações do serôdio da idade. Cumprimentávamo-nos sempre, com certa circunspecção eivada de curiosidade mútua. Ela talvez se perguntasse por que é que eu, com alguma cotação no mercado da opinião pública, andava sempre vestido com negligência; ou , pior ainda, talvez fosse comparando o inflar da cintura e dissesse para os seus botões, de cada vez : “Mas por que raio é que este fulano não faz uma dietazinha? Está cada vez mais gordo”. A admissão deste solilóquio eventual enchia-me de tensões em surdina, porque era para mim mais evidente a perda de forças do que o ganho de gorduras. Mas, pelo meu lado, o que me despertava nela a atenção era o outoniço do porte, como se ela fosse um pêssego quase fora de prazo, mas ainda capaz de ser trincado uma última vez.

Esse era um dia invulgarmente quente, e nem sequer o sopro marítimo evitava uma geral sonolência nas coisas e nos corpos. Nem sei bem porquê, dei comigo a falar com ela depois da saudação inicial : “ Calor danado, não acha?”; e ela respondeu logo, com a pressa de quem se quer fazer compincha : “Calor cabrão, é o que é!”. Dei comigo a rir desabaladamente, porque a última das coisas que eu esperaria ouvir da sua boca era um palavrão daquele quilate. Mas foi assim que a conversa pôde prosseguir, pois não há como um dichote sem vergonha para dessacralizar tudo aquilo que pode ser visto como sagrado nos outros. Quando me viu rir, ela retrucou: “Mas está a rir de quê? É um calor cabrão ou não é ?”. Ao que eu lhe respondi: “Ora, é conforme os cornos do bicho”. Foi a vez dela rir e de tomar uma iniciativa que eu julgava absolutamente interdita : “E se fossemos beber um copo, ali no bar do Beto? Pago eu” ; “Ora essa, não paga nada. Isto está pela hora da morte, mas para um trago em boa companhia ainda dá”. Descemos à Praça, como se fossemos dois velhos amigos que se tivessem perdido depois da Grande Guerra e que subitamente se tivessem descoberto numa viela , das mais apertadas, do bairro judeu.

O Beto estava de camisa aberta no terceiro botão, já sonolento pelo aviar de “cognacs” em proveito próprio , mas, apesar disso, muito loquaz. Disse : “A última das coisas que estes meus olhos pecadores esperavam ver era um par como o vosso. Que é que vos deu?” . Antes de eu me preparar para responder, ela tomou-me a dianteira e declarou, toda encostada ao balcão : “Olha lá a novidade, oh Beto. Isto é do calor”. E eu, para não fazer a parte do choninhas, acrescentei: “Perdão, é do calor cabrão!”. E vai o Beto: “Vocês querem é rimar!”.

A verdade é que , talvez por causa do calor ou da insinuação do Beto … queríamos mesmo.

2 de agosto de 2011

TRIBUTO A VAN GOGH

Nada que possas dizer

Obriga o mundo a mostrar

O que de ti quer fazer.

Nada que possas pensar

Cumpre a sina de assinar

Um decreto do destino.

Hás-de ser sempre menino

Por nunca chegares a ter

Segredos na tua mão.

Serás talvez um tufão

Em dia sem vendaval ;

Uma alma tresnoitada

A brigar consigo mesma

Por tudo se volver nada.

Serás decerto o sinal

Imperceptível, fatal,

No modo como conjuga

A própria arte da fuga.

Melhor que tu é a flor

Que na morte decompõe

Mil cheiros em que viveu

Para recompor depois

As mil seivas que nutriu.

Mas tu, enfim, és o dois

Da unidade perdida

Trazes na alma essa ferida

Do que ficou por fazer.

Aceita, pois, o conselho:

Cheira a flor ao fenecer.

Fazendo do novo velho,

Do velho fazendo novo

E dos dois novo nascer.

Partirás então sem dolo

Envolvido no consolo

Dum fulgente entardecer.

31 de julho de 2011

TEMPO DE INVERNO E FLORES


A rosa tem um porte singular e acúleos de raiva

Mas é a violeta macerada quem distribui carinho.

Fica de fora a flor da paixão, a flor de laranjeira

E o alfazema do subtil, delicado e recatado aroma.

Mas no pino do inverno as flores são como ervas

E murcham quais centins velhos na volta do Outono.

Há quem lhes pinte o destino das telas coloridas

Mas aí o que fica é somente o engano do artista

Ou a ilusão com que ele se justifica como criador

Sem que jamais o seja, sem que o possa ter sido …

É tudo assim porque a vida é o botão de rosa

Sem rosa, e a maceração da violeta está só no violeta

Da cor ; e a flor da paixão só nos vem visitar nos dias

Em que circula quente o sangue depurado, e o cheiro

A alfazema só se conserva no salvatério de roupas

Muito velhas. Mas apesar de tudo as flores existem

Na breve natureza em efusão. Que tal nos sirva e baste

E o inverno nos venha encontrar bem enrolados

No xadrês nazareno da manta colorida da velhice.

20 de julho de 2011

ANATOMIA DO "BOY"

Quando um “boy” – que também pode ser “girl”, mas com menor frequência – acaba um curso médio ou universitário, aos tropeções e gargarejos – um pai zeloso, um tio previdente, um amigo calculista , chama-o de parte e diz-lhe: “Agora tens de te fazer à vida ; vai inscrever-te como militante de base no partido X ou Y”. Feito isto, o “boy” – ou a “girl” menos frequentemente – terá de provar no interior do partido a sua irrecuperável imbecilidade, pelo que concerne ao acto maduro de pensar com a própria cabeça. O “boy” – falemos em moldes hermafroditas – adoptará o estilo, a argumentação e a lógica partidárias, sem jamais as questionar. Essa é, de resto, a condição para ser considerado “um dos nossos”. O único cuidado a salvaguardar é o de se saber “situar” nos momentos delicados das eleições internas. O neófito deverá saber situar-se ao lado do candidato que irá ganhar, independentemente da valia intrínseca ou da utilidade real das candidaturas em presença. Desta maneira, o “boy” irá ganhando peso real na estrutura sectária, começando a ser encarado como uma peça importante “da máquina eleitoral”. A “máquina eleitoral” é montada, com todos os matadores, na proximidade dos actos de votação nacional. No intervalo, o “boy” poderá arrastar o coirão pelos cafés, sendo conveniente, no entanto, que neles seja visto pelos correligionários a ler o jornal oficial do partido. Também deverá ter o cuidado de se afastar a sete pés de convívios comprometedores, nomeadamente com indivíduos de ambos os sexos conotados como adeptos de outras bandeiras partidárias. Mas quando é chegado o momento da montagem da “máquina eleitoral”, será conveniente que o “boy” apareça, se possível todos os dias, na sede partidária, colocando-se à disposição dos chefes para as transcendentes missões que o momento exige: colar cartazes, frequentar comícios- de preferência agitando uma grande bandeira - e insultar com muita veemência as propostas oponentes. É também de toda a conveniência que os mesmos chefes o reconheçam como um indefectível, coisa que se consegue colocando na lapela um orgulhoso emblema (sabemos de um caso onde um dos “boys” chegou ao ponto de colocar o estandarte partidário … no jardim, imitando a estratégia do velho Scolari relativamente à selecção de futebol). O “boy” terá a sua ambição consideravelmente facilitada se um ou vários dos seus hierarcas forem parentes próximos ou amigos do peito. A partir do momento em que o “boy” fique solidamente identificado como “um dos nossos”, o futuro divisar-se-á mais risonho. Ele deverá, nos primeiros tempos da ascensão, conter em limites decentes a sua legítima ambição; já será excelente se então for convidado para integrar, em nome do partido, o elenco de uma Junta de Frequesia, como vogal. A sua função será então a de provar que o executivo da Junta comporta sujeitos de outros partidos que, manifestamente, terão de ser ou inaptos, ou bandalhos, ou gatunos. Se não houver provas de nenhuma destas coisas, também não faz mal. Basta murmurá-las nos corredores da sede, pedindo alguma discrição e elegante tolerância. Depois disto, o “boy” procurará acercar-se, agora por direito de conquista, da mesa das almoçaradas dos tribunos mais qualificados, podendo aí apanhar umas leves pielas e proferindo dislates de segundo grau. A glória chegará quando a Concelhia ou a Distrital o distinguir com o formal convite de assimilação. Nessa altura, ele já será “um dos nossos”, o que arrasta a agradável consequência de estar doravante liberto da rude tarefa de colar cartazes e da ingente responsabilidade de chamar em voz alta “filho da …” ao chefe do governo ou ao Presidente da República do partido oposto. Ser-lhe-á então explicado, de mansinho e à puridade, que o convívio com gente do outro partido rotativo até é tolerável e útil, se for feito recatadamente e com o desígnio de fazer funcionar “o sistema”. O “boy” está então maduro. Ele não sabe nada de nada; nunca exerceu qualquer profissão; é um asno chapado ; tem da Cultura a óptica que lhe é dada pela leitura das “gordas” da “Bola” ou do “Record” ; nunca leu um livro completo de Eça, de Aquilino, de Ramalho, de Lídia Jorge, de José Cardoso Pires, nunca passou por uma só estrofe de Camões, por um magro verso de Cesário, por um isolado soneto de Bocage – mas, sendo imperativo, cita-os a todos, canhestramente, com a mesma prosápia com que um emigrante bem sucedido mostra o automóvel comprado para deslumbrar os vizinhos, no torna-viagem. O “boy” é agora, por mérito próprio, um verdadeiro “político” do sistema “partidocrático”. É um inútil social, um ignorante insanável, um paspalho insuportável, a rebentar presunção pelas costuras da acanhada alma. É também o exemplo demonstrável da intolerância e da vesga visão da realidade, em todas as suas implicações. Ou seja : está preparado para ser vereador, presidente da Câmara, secretário de Estado, ministro ou Presidente duma “republiqueta”, ao serviço deste “sistema que infelizmente nos rege”.

16 de julho de 2011

PELO VOTO OBRIGATÓRIO

Podemos prescindir dos direitos. Mas não temos o direito de ignorar os deveres. Os direitos são voluntariamente renunciáveis – é do âmbito do nosso alvedrio, da nossa livre determinação íntima, abrir mão deles. Não assim os deveres, dado que estes comportam um índice de coactividade que repousa para além de nós, ultrapassando-nos. Votar em eleições gerais, sejam elas quais forem, não é um direito mas antes um dever. Entendemos, por isso, que um ordenamento jurídico permissivo da postura abstencionista é completamente inaceitável. O que está em causa em qualquer acto eleitoral é o futuro da comunidade, a correcta gestão dos meios postos pelos Cidadãos à disposição dos nossos representantes. O que está em causa em eleições democráticas é , numa palavra, o amanhã das Pátrias. E o eleitor, no caso de não se rever em qualquer das propostas em jogo, pode e deve votar em branco, ficando o voto nulo reservado para as manifestações de inépcia, para o desconhecimento das formas correctas de votação ou até para a explicitação do repúdio mal-humorado, bem-disposto ou grosseiro (sendo isto de evitar, dada a solenidade das manifestações colectivas de vontade). A opção pelo VOTO OBRIGATÓRIO deriva em linha recta da responsabilidade colectiva na gestão da Coisa Pública, da Res Publica. Não se divisa um só argumento lógico, consistente, fundamentado, que possa opor-se a uma abordagem desta natureza.

Dizem alguns que o direito à abstenção salvaguarda a sua liberdade, o seu livre-arbítrio. O que se pergunta é se é mais importante o livre-arbítrio individual ou o dever de todos e cada um contribuírem para a definição das linhas futuras de desenvolvimento das Pátrias. Se este argumento tivesse a mais ténue sombra de lógica, tal lógica também poderia servir para que se respeitasse o direito de não tornar obrigatório o ensino elementar. Ora, isto não é tolerável ou admissível pela símplice razão de ser coisa de interesse colectivo a existência de uma população letrada, evoluída, culturalmente capaz. Ora, a Política, na sua mais nobre expressão, não é mais do que o alfabeto da defesa do Bem-Comum. Consentir que, por vontade particular, subjectiva, um qualquer Cidadão queira ficar um analfabeto quanto ao conjunto dos problemas de interesse colectivo, é um absurdo completo.

Sabe-se que existem forças políticas que contestam vivamente o princípio do voto obrigatório. Fazem-no, invariavelmente, por conveniência partidária ou por cálculo grupal. Temem a eventual perda de peso e de capacidade de influência. Ou seja, antepõem à verdade dos Princípios os jogos de cintura das suas estratégias de facção. E é curioso verificar que a denúncia da falsificação larvar que é inerente à divulgação das percentagens eleitorais nunca parte destes grupos organizados em bandeira e seita particularista. Todos sabemos que as percentagens anunciadas são calculadas com referência ao número dos cidadãos que efectivamente votaram e nunca com referência à expressão numérica total do eleitorado. Imaginemos, através da seguinte ilustração exemplificativa, que três quartos do eleitorado se abstinha e que um dos partidos granjeava metade da votação da quarta parte restante. No dia seguinte, os jornais noticiariam que o partido em causa tinha angariado 50% de “score” eleitoral. O que temos aqui ? Uma burla completa, embora cometida “de mansinho”, bem como uma subreptícia tentativa de manipulação da Opinião Pública. Mas é com base em tais expedientes que a partidocracia actual ainda sobrevive. Cada vez mais desprestigiada, como aliás merece. Mas sobrevivente, apesar de tudo, contra os mais elementares princípios dessa Luz eterna que se chama Verdade.

15 de julho de 2011

PLAÇA DE CATALUNYA


Era produto duma textura

Débil

Sobrevivendo de maneira

Hábil.

Mulher de quantos a quisessem

Lábil

Pois que só um a possuía

Frágil.

Ao dandinar por avenidas

Ágeis

Trazia cheiros de serralhos

Flébeis

Mulher perdida lhe chamaram

Hábeis

Débeis

Frágeis

Moralidades, mortalidades

Mundanais

Perdidos mundos

Gente perdida

Toda aos ais

Menos aquela, menos ela

Que dandinava

E se encontrava

Em avenidas

Muito perdidas

Todas vazias

Mas não de si

É bom, por isso

Estar aqui

A olhar-te

A querer pegar-te

À unha

Na Praça

Roliça

Da Catalunha.

Barcelona, 10 de Julho de 2011

5 de julho de 2011

O SILÊNCIO

Fazemos barulho. O que nós fazemos é muito barulho. Mas, bem vistas as coisas, apenas nos habita o silêncio de nós-mesmos. Mas convivemos. Decerto que sim. Até inventámos um código de ruído que vocaliza letras e nos dá a possibilidade do que chamamos “comunicar”. Com base nisto, criámos um sistema prodigioso. Cada um fala de si, depois nós ouvimos ou lemos o que os outros declaram e, finalmente, digerimos aquilo tudo com a mesmidade com que tragamos a nossa ração alimentar. Ou seja, tudo se converte num quilo gástrico que só nós absorveremos. Afinal, a “comunicação” é uma forma de ensimesmação, de um estar-comigo. E mais nada. Por isso é que é tão fácil sermos ferozes, ou genocidas, ou máquinas de matar. Como só nos conhecemos a nós, apesar da ficção da “comunicação”, os outros são o radicalmente Outro, ou seja, o diferente. Não há clemência ou piedade para o diferente. Às vezes, as religiões, os escuteiros, os chás de caridade (ainda haverá disso?) ou as tertúlias convidam-nos a que simulemos exercícios de descentração. Nada feito. Quando muito, salva-se o decoro, a boa-vontade ou então o polimento. Conheci um dia uma pessoa que concordava sempre, no início das suas frases, com tudo o que os outros opinavam. “Mas, sim, perfeitamente, é isso mesmo. Contudo …” . E o “contudo” era o derrancar da convergência, da simpatia, da paciência, da confraternidade. É por isso que carecemos tanto do silêncio. Para nos ouvirmos. Para sopesarmos os nossos solilóquios. E para concluirmos, no fim ( e sempre que possível): mas eu sou assim ? eu sou isto? É que, sem o nosso silêncio prodigioso, nem sequer estaríamos a habitar a própria casa.

1 de julho de 2011

UM HOMEM ?

As palavras são compromissos. Não são missangas de esbanjar. As palavras são densas e permanentes. Não são jogos malabares para utilizar como convém. Há dois tipos de criaturas, apostadas em utilizar palavras: os que as usam como marcos de fronteira e os que as utilizam como pedras roladas. Os primeiros são os que delas se servem para selar compromissos irrenunciáveis. Nos velhos tempos da HONRA, alguém dizia, para selar um negócio: "Eu compro por tanto ! Tem a minha palavra.". E não era necessário mais nada. O que era inerente àquele compromisso era sangue e coração, tripas e alma. Mas, como diria Ney Matogrosso, na sua espantosa canção, "o mundo foi mudando nas patas do meu cavalo". E os tristes homúnculos que hoje temos, mudaram essência e condição, ser e parecer, raiz e peidos. Sabujaram tudo. O que ontem era aro de bronze, pacto de alma, marco miliário, converteu-se em tripúdio de feira, boneco de armar, jogo de cachopagem displicente. O que desapareceram foram CIDADÃOS. Ficaram em praça, só, os GAJOS, a " GAJADA ", os APOSTADORES DA VERMELHINHA. Leitor, sabes tu o que é um apostador da "vermelhinha"? Eu explico, para que não te sobrem dúvidas. Nas feiras antigas, apareciam sempre uns sabidões que tinham à sua frente uns copos opacos e uma bolinha redonda, vermelha, que o "jongleur" ia mudando de posição, até a poder sonegar sem que ninguém reparasse. E então, desafiava: "onde está a "vermelhinha"? Todos os que apostavam, perdiam, porque a "vermelhinha", tendo sido empalmada pelo habilidoso, não estava em parte nenhuma. Era uma mera ilusão de conveniência, uma habilidade sem escrúpulos, um cálculo pulha de feira quinzenal. Quando o Partido Socialista ocupou o Poder, o Presidente Cavaco proferiu a consabida máxima: " Há limites aos sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos" (Discurso de tomada de posse, na Assembleia da República, de 9 de Março de 2011). Agora, um Primeiro-Ministro que é afecto à sua preferência política, acaba de anunciar que a maior parte dos seus Concidadãos - e a maior parte aritmética, sem a menor dúvida - irá ser privada de 50% do seu subsídio de Natal. E impõe-se que se pergunte ao Cidadão Cavaco: a sua afirmação ainda subsiste, ou foi apenas a sua "vermelhinha"? Temos o direito de saber se quem ocupa a suprema Magistratura de uma Pátria multissecular é, de corpo inteiro, um Homem. Sem tergiversações. Queira responder ( se puder ...) .

28 de junho de 2011

O MENINO DA NEVE


(Adaptado a partir de um conto medieval)

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Por névoas da manhã brumosa e fria

Deixando atrás queixumes de mulher

Partiu do lar a demandar seu ter

Um mercador de chã mercadoria.

Andou três anos por cerros e fronteiras

Três anos de saudade amarga e crua

Sem que uma só vez chamasse sua

A fêmea ocasional colhida em feiras.

E quando regressou ao seu telheiro

Dobrada a curva do último caminho

Espreitando pelo vidro com carinho

Viu esfolhada a flor do seu canteiro.

Entrou e quis saber, com voz distante

Se o Menino lindo que ali reverdecia

Era só o penhor do tempo que corria

E se já não era amado mas amante.

A mulher disse-lhe então, pressurosa,

Que não chegara o tempo de carpir

Pois com ninguém tinha sido amorosa

No intervalo do chegar e do partir.

“Foi pois um milagre, sou novo S. José?”

“Não, Senhor Marido, foi apenas a neve;

Comi-a certa vez por não estar ao pé

Da cantarinha onde beber se deve;

Então loguinho me soube abençoada;

O menino nasceu sem dar por nada

Foi a neve, Marido, foi a neve !”

Passaram quinze dias sem nevar

E ao décimo sexto disse o Homem

“Por regos e valados vou caçar

E levo este menino a ensinar

Honras e regras que se tomem”

Passaram oito dias sem voltar

Oito dias de sol severo e quente.

No regresso, o Homem vinha só

Ouviu-se a Mulher ranger de dó

E perguntar agora em tom diferente:

“ O Menino, que fizeste ao menino?”

“Que fiz, Mulher? (hoje está quente…)

Vi-o trepar com muito pouco tino

Na direcção do alto e do Destino

Ainda lhe gritei – “Menino da Neve,

Menino da Neve, nem mão nem pé

Devem passar por onde se não deve;

Mas ele foi subindo a caminho do céu

Mulher, o que aconteceu ao teu Menino?

Decerto o mesmo que finou o amor meu

Mulher, teu Menino de Neve … derreteu.