23 de dezembro de 2012

LIXARAM-ME : O MUNDO NÃO ACABOU !

Tinha-me dado um jeito enorme que o mundo tivesse acabado. Em Janeiro, tenho de pagar um balúrdio à Autoridade Aduaneira e Tributária. Se tivesse acabado, as contas estariam saldadas. Para ambos os lados, ao que se supõe. Depois, já há muito tempo vinha pensando, atendendo ao estado do País, em passar à clandestinidade. Evitaria a conta da luz, do gás, da electricidade, da revisão do carro, dos víveres e de tudo o que se impõe à vida de um mortal. Claro que nós não sabemos como seria uma clandestinidade "in articulo mortis". Mas um Infernozito de trazer por casa ( que é para onde eu irei, pois quero procurar a Ana Magnani, que eu suspeito ter pecado muito , ) não pode comparar-se a uma barca de Caronte com o Relvas, o Gaspar, o Coelho e o Cara-de-Cú aos remos. Não sabe V. quem é o último comparsa ? Ora pense, vá lá ! Ainda não descobriu ? Que vergonha ! Você não merece que o mundo acabe. Até foi por isso que não acabou ...

19 de dezembro de 2012

A DEMOCRACIA DOS DIAS

Gostava muito que o dia 18 de Dezembro fosse um dia comemorativo. Ou o 4 de Março. Ou o 16 de Novembro. Não é justo que o dia de hoje não seja comemorativo. Até no domínio das datas existem classes , bem como é nelas notória a celebrada e sempre invocada luta de classes. Verdadeiramente, digam-me ( se souberem) o que distingue um 18 de Dezembro de um primeiro de Janeiro ou de um 24 de Dezembro. Bem sei que os responsáveis fizeram esforços estimáveis para que qualquer um dos dias do ano subisse no “ranking”. Até é por isso que se convencionaram os aniversários. Os aniversariantes consideram o seu dia um dia especial. E isto promove inquestionavelmente os anseios da Democracia Cronológica. Mas as realidades do calendário gregoriano forçam-nos a reconhecer que há que trilhar um longo caminho para que um qualquer 24 de Outubro possa ter o brilho, a ressonância, o entono de um primeiro de Maio ou de um primeiro de Janeiro. É necessário o empenhado esforço de todos os “democratas cronológicos” para que todos e cada um dos dias do calendário (gregoriano) tenham a dignidade que qualquer dia deve ter : com direitos sociais estabelecidos, abono de família atribuído, cartão diarista de cidadania e direito ao trabalho. Neste último aspecto, o Domingo está francamente diminuído. Parece que houve uma Divindade qualquer que não trabalhou ao sétimo dia. E , vai daí, fica o pobre do Domingo privado do direito ao trabalho ! Não pode ser ! A continuarmos assim, resvalaremos para a ominosa situação do calendário chinês, onde existem anos do burro, da lagartixa e do cão. Será uma rasoira absolutamente deprimente, pois todo e qualquer dia não escapará a ser apontado como um dia de cão. Em frente pela Democracia Cronológica ! Morte ao calendário chinês !

15 de dezembro de 2012

A MADURA ESTAÇÃO

Já alguma vez tiveste saudades de ti ? // De ti que foste um dia // De certo modo e de vária feição. // Lembras-te ? Era no tempo // Em que o sol rodava à tua // Como um Galileu transviado; // Eras ou julgavas ser o eixo do teu mundo // E tu levavas Laura pela mão. // Laura ou Dinamene ? Pouco importa : // Camões já não se ocupa destas coisas. // Era então que tudo gerava poentes vermelhos // E papoilas impacientes em campos de trigo. // Dançavas um minuete todo arcaico // E não davas conta de que a baga da romã // Quebrara já a casca verde da madura estação. // Lembras-te de ter saudades de ti ? // Não por então, não nessa altura, não nesse tempo // De Laura ou Dinamene no centro do coração // De algum Camões versejador mas ocupado. // Muito depois, bem mais tarde, tiveste saudades de ti; // Mas não soubeste bem porquê. Nem eu to vou dizer. // Escuta, escuta essa raiz silenciosa e saberás // Que também tu quebraste a casca verde // Do fruto que contém, inteiro e vago, a madura estação.

12 de dezembro de 2012

EVOCAR HERCULANO : UM DEVER NOS DIAS DE HOJE

Houve um dia um Homem ponderado, até talvez um pouco severo, que cometeu a proeza, em pleno século XIX, de ter criado – praticamente desde os alicerces - a História portuguesa como um saber obje ctivo e fundamentado. Era conservador. Alinhava pelas perspectivas de um grande partido liberal e ordeiro, o Partido Regenerador, que tinha saído de uma revolução comandada militarmente pelo irrequieto Saldanha, que mais tarde seria feito Duque. O Partido Regenerador deu a conhecer um dos maiores políticos portugueses de sempre, sem o qual o nosso país se teria afundado ainda mais na comparação com as realidades europeias transpirenaicas. Referimo-nos a Fontes Pereira de Melo, também ele muito afecto aos valores tradicionais da burguesia. Esse Homem e historiador, inicialmente referido, foi Alexandre Herculano. Evocamo-lo aqui porque foi ele que desde sempre defendeu o papel histórico e insubstituível das “camadas médias”. Alexandre Herculano deu a entender, em todos os seus textos, que Portugal se desfiguraria sem remédio e sem retorno se um dia a classe média desaparecesse. Quando verificou que as consequências da revolução regeneradora, em que inicialmente acreditara, se encaminhavam para um argentarismo especulativo e infrene, Herculano abandonou a vida pública e retirou-se para a sua quinta de Vale de Lobos, onde iria produzir “o melhor azeite de Portugal”. É obrigatório que hoje relembremos Herculano. Se ele por cá andasse, certamente que voltaria a retirar-se para o seu Vale de Lobos. As razões da sua retirada seriam as mesmas.

6 de dezembro de 2012

ESPECIALMENTE PARA UMA TIA DE CASCAIS

Eu cá gostava de escrever um texto modernaço, com palavras assertivas e com resiliência bastante para não ser inócuo. Pois, bem vistas as coisas, a razão entre o bom senso e o vocábulo é a mesma que vai da taxa de câmbio à taxa de juro. Eu juro que me reconverterei ao mercado e utilizo a palavra reconverter porque também é muito “in”. Também prometo que, como as “ tias de Cascais”, tratarei toda a gente por você, mesmo que seja um bébé de mês e meio, e chamarei menina a uma avózinha, já com guia de marcha para as regiões do Eterno. E se vier ter comigo um mendigo andrajoso e esfomeado, eu prometo que farei cara de Eva antes de ter surripiado a maçã e direi nojosamente ao meu acompanhante : “Ai, filho, esta Cascais está cada vez pior frequentada”. Não sei ao certo se consegui escrever um texto modernaço e resiliente. Mas tentei. É como o governo: farta-se de tentar! Acerta é pouco . Ai, que saudades eu tenho da “linha" !!!!

30 de novembro de 2012

ARITMÉTICA MINISTERIAL

Coelho chamou o seu mais próximo colaborador e interpelou-o assim : - Que horas são, por aproximação? O interpelado respondeu : - São dez horas da manhã , exactas, Senhor Primeiro-Ministro. Réplica : _Tudo bem, mas eu quero que me diga as horas dentro do estilo do mais ou menos. O outro : - Mas porquê isso, Senhor Primeiro Ministro ? O Primeiro : - Porque assim , mesmo que traga o relógio avariado, posso sempre dizer que acertei por cálculo, mais coisa, menos coisa. – Mas, Senhor Primeiro Ministro, eu dei-lhe as horas exactas. O Ministro: - Homem, veja se aprende comigo, a exactidão é impolítica, percebe ? E, olhe, daqui para diante quero que me trate só por Senhor- Segundo Ministro. Eu depois ajusto por defeito, percebe? – Percebo, Senhor-Segundo Ministro; mas o Segundo-Ministro não é Segundo por excesso ? O Senhor quer que eu diga mesmo que é por defeito ? E o do Eduardo VII não ficará incomodado ? – Não, nada. Você nunca mais aprende ! A gente desdramatiza o caso do Eduardo VI. – É VII, Senhor Segundo-Ministro. – Irra, está demitido ! ( E como escreveria o saudoso Millôr Fernandes, o pano corre … corre … corre … … … até meio …)

26 de novembro de 2012

HISTÓRIA DO PRATAS

HISTÓRIA DO PRATAS O Pratas era analfabeto e trabalhador rural. Nunca se chegou a perceber se era analfabeto por ser trabalhador rural ou se era trabalhador rural por ser analfabeto. Mas havia poucos que se dedicassem mais do que ele à laboração do olival. O patrão não queria outro para cuidar das oliveiras e dirigir a vareja. Metido consigo, homem de poucas falas, brilhavam-lhe os olhos quando lhe diziam : "Olha que o olival do teu patrão está lindo, mesmo bem composto, um primor !". Aí, o Pratas soerguia o peito e declarava, enfático : "Fui eu que tratei de todas as oliveiras, uma por uma". Um dia, a aldeia soube que o Pratas havia sido preso. Não fora um aprisionamento consequente de alguma patifaria. Constou que o Pratas fora engaiolado por "delito de opinião". Mas os homens mais idosos e graves da aldeia tiveram dificuldade em entender o razão do encarceramento, uma vez que o Pratas não dava opiniões. Só falava quando era requisitado para tal e, mesmo assim, os seus juízos eram breves, quase telegráficos. Depois, veio a saber-se que tinham vindo uns senhores da vilória mais próxima, gente engravatada e de sobrolho carregado, que o intimou a ir buscar a casa um pijama e o levou para a cadeia comarcã. O Pratas voltou a aparecer na aldeia passados uns bons quinze dias, com um olho negro e a manquejar. Perguntaram-lhe : - "Olha lá, oh Pratas, mas tu afinal foste preso porquê ?”. Ao que ele respondeu, seco e peremptório : - “Aquilo foi por causa do azeite”. E mais ninguém lhe arrancou uma só palavra. Quem estava dentro do segredo era o Ti Zé do Pego, que com ele estivera na tabernoca do lugar, três dias antes da prisão. Ao balcão, bebendo aguardente e trincando uns restos de pão de mistura, debruçavam-se alguns homens do lugar. Entrara um pouco mais tarde um fulano moreno, de chapéu mole, engravatado e de sobrolho carregado, que pedira uma água mineral e se apartara, soturno e vago, para uma mesa do canto. A conversa generalizou-se, mas só junto ao balcão. Às tantas, o Pratas disparou o seguinte : - “O azeite do pobre não é igual ao do rico”. Os amigos presentes não se ficaram e pediram- lhe explicações : - “Como é que é isso ?”. E o Pratas respondeu : “ Vocês já viram como sai o azeite da almotolia do rico e do pobre ? Não tem comparação. Na do pobre, o azeite sai em fio muito fino e com ele se regam as batatitas, como se o fio cantasse tiro-liro-liro-liro. Mas na do rico, o fio é grosso e escorre por muito mais tempo, por sobre uma boa posta de bacalhau e grelos, cantando o grosso fio lucas-lucas-lucas”. Dito isto, o homem moreno , de chapéu mole e gravata, levantou-se da sua mesa do canto, identificou o Pratas e disse-lhe que ele não perderia pela demora. O Pratas ficou-se silencioso e com um ar apatetado. Prenderam-no pouco depois. Moeram-no com pancada, lá na cadeia da comarca. O Pratas ficou-se com a sova, mas apenas percebeu, muito vagamente, que tudo aquilo se relacionara com o mofino tiro-liro-liro-liro e com o menos gravoso lucas-lucas-lucas. No dia seguinte ao do regresso à aldeia, despediu-se de capataz do olival do patrão e fez-se almocreve. Pudera !

21 de novembro de 2012

POR UMA DEMOCRACIA INCLUSIVA

Uma qualquer sociedade produz bens materiais e com eles pode dinamizar a sua economia ; também elabora ideias e promove a descoberta de novas teorias científicas e com base em tal constitui a sua cultura teórica, científica e tecnológica ; igualmente oferece aos seus elementos a possibilidade de administrar e gerir ou co-gerir os seus órgãos de decisão e de afectação d e meios, daí resultando o seu funcionamento propriamente político ; finalmente, as sociedades tentam organizar as suas formas de convivência da maneira mais harmoniosa possível. Assim sendo, fácil é reconhecer nos agregados humanos os seus vectores económico, cultural, político e social. Uma Democracia que se queira reconhecer adulta tenta aprofundar, o melhor que lhe é possível, este quadro fundamental de referência. Fala-se muito , nos dias de hoje, em Democracia inclusiva, sem que frequentemente se retirem do conceito as necessárias consequências. A Democracia inclusiva, por definição endógena, terá a necessidade de INCLUIR os respectivos Concidadãos na partilha de todos os bens gerados a partir da instância económica, política, cultural e social. Numa sociedade onde se aprofunde o fosso entre ricos e pobres, a Democracia está em recessão, pois exclui numerosas pessoas da fruição de bens e meios económicos. Uma sociedade que promove o desinteresse das suas partes componentes ao ponto de só votar uma percentagem insignificante do seu corpo eleitoral é uma sociedade anémica, do ponto de vista da Democracia política que pratica, o mesmo se podendo dizer no caso de um significativo número de elementos se negar ao envolvimento político por sentir que daí resultarão imputações crapulosas ou menos dignificantes . Uma sociedade que reserva a formação cultural apenas para uma elite, que corta bolsas de estudo aos estudantes mais carenciados e que paralisa a investigação científica e a produção teórica é uma sociedade incapaz de gerar uma verdadeira Democracia cultural. Finalmente, uma sociedade que exclui do direito à saúde, à habitação, mesmo ao lazer uma muito alta percentagem de Concidadãos e uma sociedade deficitária no âmbito da Democracia social. Ou seja : torna-se necessário proclamar, alto e bom som, que qualquer sociedade que apenas coloque em funcionamento a vertente política, com eleições periódicas e até com um número significativo de votantes, é uma sociedade onde a Democracia se vai realizando numa proporção insignificante e indignificante. A teorização republicana, desde os tempos da propaganda à época da sua realização histórica, sempre teve como seu desígnio a INCLUSÃO da Cidadania em todas as vertentes atrás assinaladas. Isto permite traçar sempre um diagnóstico da maturação democrática do todo social, com a vantagem de tal se poder realizar à margem das cartilhas ideoógicas estritas.

18 de novembro de 2012

HISTÓRIA DE UM NOVELO DE LÃ

Era uma vez um novelo de lã azul. O novelo era de boa lã e servia para muitíssimas coisas. Mas a utilidade mais evidente era a de poder fazer tapeçarias alentejanas. Estava o novelo, muito descansado, na prateleira de uma casa comercial quando entrou uma Senhora, muito afável, que perguntou ao marçano : "Diga-me uma coisa, meu jovem ; tem um novelo de lã azul para fazer tapetes ?". O Zé Luís (assim se chamava o marçano) olhou para a prateleira e replicou: "Temos aqui este produto. Mas não sei se a cor lhe interessa ". A Senhora afável pegou no novelo e afagou a lã com uma e outra mão. E disse : "Acho que está bem". E levou-o consigo. Mal chegou a casa da dita Senhora, o novelo foi misturado com uma infinidade de outros novelos, de cores variegadas : havia-os verdes, amarelos, castanhos e até roxos. E o novelo recém-comprado sofreu o vexame de lhe puxarem pelo rabo e o fazerem enfiar pelo buraco de uma agulha. Nunca fora tão maltratado. Sentiu ganas de se despedir e de voltar à prateleira da casa de comércio, onde tinha tido uma vida tranquila. Mas não o deixaram. A Senhora afável furou com ele uma espécie de serapilheira e colocou-o no penacho de um sultão, o qual, na tapeçaria, se encontava em exercício de ataque a um castelo cristão, dentro do qual existia uma moira cativa. Foi aí que o novelo de lã se sentiu honrado. Afinal, era muito melhor ser um penhacho no turbante de um sultão do que um pobre novelo na prateleira de uma casa comercial. E houve quem testemunhasse que ele segredou no ouvido da Senhora afável: " Fizeste bem em me ires comprar à loja do Zé Luís. Eu ali não passaria da cepa torta". A Senhora afável sorriu e respondeu-lhe : "Já o meu filho dizia a mesma coisa " . E continuou a trabalhar, cheia de fé e de optimismo. A história é verdadeira. A Senhora afável foi minha Mãe.

10 de novembro de 2012

A MERDEL, DIGO, MERKEL ou UM ELOGIO À ALEMANHA

... e a Merkel mandou chamar o Ministro do Tesouro e interrogou-o assim: - "Olha lá, oh Karl (ou Kroller, ou Konrad, não interessa), parece que a Grécia anda por aí a dizer por essa Europa fora que nos auxiliou muitíssimo depois da guerra e que nós somos uns ingratos. Que sabes tu disto ?" . O Kroller (ou Karl, ou Konrad, não interessa) deu um es talido germânico com a ponta da língua no palato da boca e respondeu: - "Chanceler, isso já foi há muito tempo. Quem se poderá lembrar de tal coisa?". A Merkel adoptou então o costumeiro ar de virgem ofendida depois de uma cópula insatisfatória e acrescentou : "Mas isto não pode ficar assim , Konrad" (ou Kroller, ou Karl, não interessa). O Kroller (ou Konrad, ou Karl, não interessa), cofiou com a pontas do dedo mindinho um bigode "à mosca", muito semelhante aos tempos em que a Alemanha se fazia respeitar em todas as praias da Europa e considerou, gravemente: " É preciso prestar "Achtung" a esses provocadores pelintras; irei providenciar". E, com um bater de tacões, abandonou o gabinete, prometendo regressar rapidamente com o assunto devidamente regulado. Merkel suspirou fundo, muito fundo e pensou com os seus botões : "Estes gregos andam mesmo a pedi-las desde os tempos da guerra de Tróia. Também, não admira. Uns pobres de espírito que fizeram guerra por causa da beleza de uma mulher ... Bahhh ". E mergulhou num relatório financeiro onde se asseverava que a banca germânica estava mais próspera do que nunca. Sorriu levemente, num semi-gáudio de filoxera estuprada e retirou de uma gaveta discreta um retrato em moldura de marroquim, que beijou com unção religiosa e para o qual falou assim : "Adolfo, meu querido, vou ter o que tu ambicionaste sem disparar um tiro". Nessa altura, ouviu-se um marcial bater de nós de dedos em porta oficiosa e irrompeu no gabinete o Krupp (ou Karl? ou Konrad ? ou Kroller? ... não interessa), que se fazia acompanhar por quatro homens gordos, vermelhuscos, movendo-se a passo de ganso, os quais reverenciaram a Chanceler com uma vénia até ao chão. O K. (ou K ? ou K? ou K?, não interessa) pigarreou, tirou do bolso um largo lenço com as cores da bandeira alemão, assoou-se a ele e declarou, batendo as sílabas: " Chaceler, estes Senhores representam os quatro maiores bancos da "Über Alles" e já foram informados da insolência grega. Negociei com eles uma exemplar punição para os miserandos prevaricadores”. A Merkel coçou o sovaco, que possuía à ilharga de um seio deploravelmente descaído, e indagou : “Que punição vai ser essa?”. O Koiso ( … não interessa) encolheu a barriga, susteve o ar no peito para o fazer mais majestoso e clarificou: “Vamos aumentar-lhe os juros !”. A Koisa (… não interessa) sentiu-se tão contentinha que abandonou a secretária e saltaricou pelo gabinete todo, como se sentisse ganas do voo de pássara, e obtemperou : “Está bem. Mas ficamos-lhe também com o Partenon !”

6 de novembro de 2012

OS MEUS GATOS

Cá por casa há quatro gatos. A chefe é uma gata gorda, com uma barriga enorme que quase arrasta no chão. Muito velha, mas sempre bem cuidada, tem uma pelagem às manchas pretas, brancas e castanhas, muito farta, mas pedindo escovadelas enérgicas, devido à diminuta energia da proprietária. Tem o nome de Filósofa, pois quando está acordada mantém um olhar cismático, que se derrama sobre as coisas com suprema indulgência. É ela quem tenta manter a harmonia do grupo, tarefa bastante acima das suas possibilidades, como se verá. Há também o Fugitivo, magro e ágil, gato de meia-idade , completamente negro, que ninguém consegue ver senão na hora em que se alimenta, pois dorme incessantemente nos esconderijos mais inverosímeis. Muito nervoso, sempre desconfiado, bate precipitadamente em retirada , sempre que vislumbra a mais pequena ameaça, real ou suposta. É doido por camarões, única forma de o fazer aparecer através da excitação olfactiva. O mais novo é o Vecingetorix, que possui a particularidade de possuir polainas brancas nas quatro patas e um espaço abaixo do pescoço da mesma natureza. O Vercingetorix descobriu que a sua função na vida é molestar o Fugitivo. Faz-lhe esperas, e sempre que ele sai dos buracos onde se aloja, criva-o de patadas, não raramente degenerando em coças monumentais. É nessa altura que a matriarca Filósofa abandona as suas cogitações e tenta apaziguar as hostes. Sempre à margem fica a Imperatriz. Esta é uma gata glutona e com uma expressão sobranceira. Com uns olhos parecidos com dois faróis e uma pelagem fartíssima e cinzenta, perece ter a certeza íntima de que o primado do grupo está garantido a prazo. Não dá treta a nenhum dos outros. Nem mesmo à chefe. Cultiva um isolamento altaneiro e quase pedante. Só perde esta especificidade na hora de distribuição da pitança. Nessa altura, mia desesperadamente e aceita mal a hierarquia da matriarca. Devora tudo o que se lhe põe á frente. Depois de saciada, retira-se com um ar digno e desdenhoso. Enquanto isso, o Vercingetorix aguarda o Fugitivo atrás da porta, para lhe aplicar mais um correctivo. Mas fica surpreendidíssimo quando este calcula um salto certeiro e lhe passa por cima. Estes meus gatos não deram origem a nenhuma história detalhada. A menos que se sustente que uma comunidade felina composta pela Filósofa, pelo Fugitivo, pelo Vercingetorix e pela Imperatriz contém em potência uma infinidade de peripécias a narrar. E – podem crer … – isso é muito verdadeiro !

2 de novembro de 2012

ANJOS E HOMENS

Anjos negros e alvos corriam // Por bosques ignorados. // Gládios da cintura pendiam // Prontos a decapitar pecados. // Do céu caíam só silêncios // Da terra subiam só lamentos // E os anjos entre arvoredos // Padeciam todas as dores // De falharem pecadores // Sem culpas mas com medos. // Anjos alvos e negros rumavam // À glória de se saberem inocentes // E dentro do peito bem calavam // O desgosto de almas impacientes. // Ouviu-se então a voz potente // Do maior dos anjos divinais // “Anjos caídos, que nunca mais // Seja vosso pecado assim flagrante; // Cuidais do mal como vosso amante // Não como alteridade a corrigir.// No vosso decair ireis penar // Essa perversidade no punir ! // Em homens vos irei transformar”. // Homens negros e alvos vagavam // Por bosques ignorados // Perseguidos por sombras de si // E por nuvens lentas que traçavam // Em céus espessos e carregados // O mistério do desconhecer // O enigma do não saber // Por que estamos aqui.

29 de outubro de 2012

JUSTIFICAÇÃO DIVINA DO FACEBOOK

Primeiro, Deus criou os seres humanos. Depois, deu-lhes companhias. Deixou-os ficar assim por algum tempo, para ver se eles se habituavam. A seguir, deu conta que o acto de viver era para os seres que havia criado uma realidade complicada. Verificou que a maior parte da complicação resultava do facto de não saberem viver conjuntamente, apesar de necessitarem todos vitalmente de não se sentirem sozinhos. Ou seja: os seres humanos precisavam muito daquilo que não sabiam administrar presencialmente. Deus resolveu o embróglio criando o Facebook.

22 de outubro de 2012

OS "JOTINHAS"

O exercício mais ridículo e mais infantil é o do jogo-de-empurra entre pêésses e pêéssedês sobre o primado das culpas referentes à presente situação. “Foi Cavaco”, dizem aqueles ; “Foi Sócrates”, replicam estes. E fica por julgar o verdadeiro responsável, que é, em minha opinião, o actual sistema da Democracia partidocrática, onde estamos mergulhados. A ditadura do Estado Novo reorga nizara as finanças públicas dentro do pressuposto de que os direitos individuais não existiam e de que o “tudo pela Nação, nada contra a Nação” seria o mote justificativo do totalitarismo personalista, do qual avultava, como realidade suprema e intocável, a figura do Ditador. O 25 de Abril quebrou este quadro e possibilitou a emergência da representatividade democrática. Mas esta mergulhou as suas raízes no terreno da ficção. E a ficção consistiu em fazer gravitar a política não em torno de pessoas responsáveis e responsabilizáveis, mas em torno de Entidades vaporosas e metafísicas, chamadas partidos. Os novos partidos eram a cara de um regime que não se deixava fotografar. Deixou de poder dizer-se, como nos tempos de Salazar, que a política levada a cabo era a política de um ser humano individualizado, responsabilizado, agora em Democracia, pelos votos maioritários que os Concidadãos lhe outorgavam. Nada disso: passou a referir-se a “política socialista”, a “política social-democrata” a “política democrata cristã”, como se todas estas políticas surgissem por golpes de mágica, à maneira de Polichinelos, do escuro da História. Ou seja, estas políticas eram filhas de pai incógnito e, por isso, insusceptíveis de apresentarem bilhetes de identidade. Os partidos criaram então os seus serralhos, as suas coutadas de formação “cívica” e assim vieram a surgir as “jotinhas”. Os “jotinhas” foram aprendendo com “os grandes” toda a traquitana de golpes sujos com que a partidocracia se foi adornando. Estes meninos, nem estudavam, nem sonhavam com a obtenção de um emprego honesto. Queriam , isso sim, as conezias e prebendas que “os grandes” iam angariando no exercício das actividades vagamente “cívicas” às quais se davam. E foram aprendendo, uns e outros, que podiam dar-se a toda a sorte de golpaças, de explícitas vigarices, de açambarcamentos de “competências” em proveito pessoal, pois daí nunca iriam resultar punições exemplares. O regime foi resistindo, mas já a ranger, enquanto a ribalta do protagonismo político foi ocupada por gente que ainda possuía um laivo de vergonha e que pretendia, apesar de tudo, demarcar o espaço desta nova representatividade do anterior espaço de individualização ditatorial. Foi o tempo de Francisco Sá Carneiro, Mário Soares, Adelino Amaro da Costa, Álvaro Cunhal, Lucas Pires, Mota Pinto. Gente minimamente decente, apesar de tudo. Mas esta geração passou. E os “jotinhas” tornaram-se “grandes”. Esta “grandeza” não se escorava no humanismo de Sá Carneiro, nem na cultura de Soares, nem no requinte lógico de Amaro da Costa, nem na sólida intransigência ideológica de Cunhal, nem na capacidade de diálogo de Lucas Pires, nem no talento negocial de Mota Pinto. Suportava-se apenas no apetite boçal de mando. E revia-se em sinais exteriores de riqueza fácil: o automóvel de grande cilindrada, o fato talhado por “Rosa e Teixeira”, o sapatinho italiano, a gravata de seda. Por detrás de tudo isto, a nulidade, o primitivismo cultural, a inépcia profissional, o pontapé na gramática e no “concorrente do outro bando partidocrata”. O resultado de tudo isto aí está. Se este regime não for declarado acéfalo e morto, quem nos irá enterrar a todos serão os “jotinhas”. Para coveiros ainda servem. No intervalo, aconselhamos os pêésses e os pêéssedês a continuarem a jogar o seu ridículo joguinho do “culpa tua, culpa minha”.

14 de outubro de 2012

HYERONIMUS BOSCH

Pelo céu azul, sem sombra de quimera, // Navegava um casal no dorso de uma carpa. // Do peixe-carpa ninguém contou a história // Mas houve quem tivesse narrado a maravilha // De habitarem, nocturnos, no país dos prodígios // Certos flamingos roxos com bicos de cegonha. // Tudo isto acontecia nas margens da pintura // Pois a meio ficava talvez uma Fonte da Vida. // Ninguém soube se Bosch era o Deus excedente // Manejando pincéis de todas as cores planetárias // Ou se aquela tela celebrava um Demo sulfuroso. // Também ninguém foi capaz de dizer se Bosch // Era a Vida em forma de loucura ou apenas a Morte // Tão sensata com um flamingo roxo de pata no ar. // Mas sabe-se que aquele homem continua a singrar // Pelas pradarias do céu incontido e muito azul // Na companhia de uma fêmea, ambos montados // Numa carpa escamosa, escabrosa e feiticeira.

10 de outubro de 2012

AS SOPAS

Acho que as personalidades dos seres humanos podem perfeitamente ser deduzidas a partir das sopas que preferem. Por exemplo, um camionista de longo curso ou um jogador de râguebi só pode preferir uma sopa de feijão ou de grão-de-bico, com muito entulho de couve galega. Uma menina casadoira e com arrepios equívocos pela espinha acima optará, necessariamente, por canja de galinha. Um jurista pouco escrupuloso não esconderá que a sua opção será, infalivelmente, a sopa de pedra, sendo esta fornecida por si e os restantes ingredientes pela clientela. Uma Senhora muito pernóstica e muito “queque” proclamará a sua paixão por um “consommé”, de preferência cozinhado em tacho francês. Um adepto do Futebol Clube do Porto oscilará entre a sopa de carago e a sopa de “fruta”, ambas ainda por inventar. O Relvas não tem dúvidas nenhumas em afirmar a superioridade das sopas de cavalo cansado. Um major de artilharia ou um Senhor General como Almeida Bruno dirá que a melhor sopa do mundo é a de cozido á portuguesa, seguida de salvas de bazucas. E assim por diante. A Psicologia, nobre Ciência, não deixa de nos surpreender !

7 de outubro de 2012

MESTIÇA DE MISSANGA E GATO

Era uma linda mestiça // Que tinha um gato no colo // E missangas no pescoço // Cantava com bandolim // Canções deveras dolentes // E punha os homens doentes // Com vontade de sonhar // O seu amor impossível // Mas só o gato miava // No côncavo do seu colo // E só missangas corriam // Muito junto de seu seio // O que ficava no meio // Entre o gato e o seu colo // Era uma assombração // Ou uma consumição // Para homens que filavam // Só o miado do gato // E a mestiça cantava // Cantava com bandolim // Desejos machos sem fim // Com missangas misturadas // Escorriam nas escadas // Confissões de muito amor // Cerzidas com muita dor // Mas essa linda mestiça // Só afagava a pelagem // Do seu gato sem linhagem // Ficava assim o desejo // Pendurado nas missangas // Ou nos miados do gato // - Adeus mestiça de sonho // Abafo em mim certas zangas // - Adeus branco do capim // Deixa de pensar em mim // E se te vais para o mato // Recorda só o meu gato.

30 de setembro de 2012

ALQUIMIA

Guardemos o Infinito num dedal // E bebamo-lo bem devagarinho. // Façamos o que digo de mansinho … // A finitude do viver humanal // Ampliada na soma dos dedais // Dará à fragilidade do carnal // A mutação de tal menos nesse mais.

21 de setembro de 2012

O SENHOR GENERAL ALMEIDA BRUNO E A DEFESA DA VIRGINDADE PATRIÓTICA

O Senhor General Almeida Bruno é um guapo militar. E valentaço cumócaraças ! Usa uns óculos “Ray Ban” que lhe vão a matar, tem aspecto de pegador de toiros em tardes de glória do Campo Pequeno e é sobremaneira moderado e democrata. Reparem no que disse o ilustre filho de Marte: “Os militares só virão para a rua se os cabrões da Esq uerda aparecerem com bazucas”. O jornal “O Diabo” titulava isto a letras gordas. Quero dizer que eu compreendo muito bem o “casus belli” do ilustre filho das casernas. Que se pode depreender da afirmação deste grande Patriota, se fizermos um esforço para entendermos a sua ejaculação ideológica “a contrario” ? Entenderemos que os militares nunca virão para a rua se os cabrões da Esquerda não aparecerem com bazucas. Ora, isto enternece. Isto descontrai. Isto desoprime. Estava a gente aqui a pensar que uma bazucazita até fazia jeito numa dessas “manifs” desopilantes e vem esta glória fardada garantir que não, que não há bazucas para ninguém, porque os militares não querem chatear-se e não virão para as ruas , caso estas permaneçam virgens de bazucadas. Tudo nos quartéis, guardando as G3, os submarinos e as enternecedoras bazucas. Aqui, assalta-me uma dúvida, uma daquelas perplexidades aporéticas, uma angústia que sobe das partes baixas até ao toutiço. E a dúvida é esta. E se “O Diabo” se enganou ? E se nesta arrojadíssima campanha dialéctica se suscitou uma gralha ? E se aquilo que o General dos “Ray Ban” declarou foi outra coisa ? Mas que coisa, que coisa? Imaginemos que este filho da guerra declarou para o jornalista : “Os militares só virão para a rua se os cabrões da Esquerda aparecerem com brazucas” ? Ora aí está ! Atento à pureza dos lençóis e às poluções nocturnas, o que o General Almeida Bruno teria dito é que a virgindade é um bem precioso a defender e que os cabrões das Esquerdas poderão “ tirar o cavalinho da chuva” , pois não haverá brazucas para ninguém. Ele não deixa ! Abençoado General ! Viva a Comunidade Luso-Brasileira ! Amen !

19 de setembro de 2012

QUAL "NOSSA `DÍVIDA" ? NOSSA; O TANAS !

A esmagadora maioria dos cidadãos portugueses nada fez, ao longo da sua vida pessoal e profissional, para produzir a crise em que nos atolamos. Essa esmagadora maioria está em completo estado de inocência, pois não foi ela, no caso dos funcionários públicos não-políticos, a determinar o seu nível remuneratório ; não foi ela a furtar-se ao pagamento dos impost os legalmente previstos na lei ; no caso da normal iniciativa privada, não foram estes comerciantes ou industriais – na esmagadora maioria dos casos – a sofismar e contornar a legislação que lhes comandou os negócios; uns e outros não assaltaram bancos, não frequentaram off-shores, não desviaram dinheiros para contas na Suíça, não receberam dinheiros públicos por baixo da mesa, não traficaram influências e não se tornaram réus de evasão fiscal. Se assim foi, a sua responsabilidade no descalabro actualmente existente, é nula. Quando alguns políticos de carreira nos ensurdecem com frases do género de “temos de pagar o que devemos”, há seguramente milhões e milhões de portugueses que podem replicar, com toda a legitimidade : - “mas eu não devo nada a ninguém”. Ou seja, há um discurso político que, pela sua insistência, se ocupa e preocupa em enganar os concidadãos e em gerar neles um calculado e calculista sentimento de culpa. Não foram eles que se encheram de mordomias; não são eles que compram e utilizam automóveis topo-de-gama para as suas deslocações ; não foram eles que criaram e subsidiaram Fundações ridículas e completamente inúteis ; não foram eles que enxamearam a Administração central e local com filhos, sobrinhos, afilhados e apaniguados; não foram eles que criaram um Parlamento com o dobro ou o triplo de Deputados necessários ao correcto funcionamento da Democracia ; não foram eles que decidiram que cada ex-Presidente da República deveria ter ao seu serviço uma incontável legião de funcionários e polícias ; não foram eles que criaram Conselhos de Administração em organismos públicos onde se ganha, por Administrador, num dia, o que um português normal não ganha em seis meses ; não são eles que ocupam os lugares de mando de Empresas públicas e privadas que funcionam completamente à margem da decência e da moral ; não foram eles a estabelecerem ordenados de nababo para os Malatos, os Rodrigues dos Santos e a demais bicharia masculina e feminina da RTP ; não foram eles a decretar reformas muito antes do tempo normal para a politicagem; não foram eles a privilegiar os estômagos que digerem no Restaurante da Assembleia da República com preços irrisórios para cardápios de “gourmet”. Eles não fizeram nenhuma destas coisas. E é a esta gente que se grita “temos de pagar a NOSSA dívida” ? A NOSSA ? Qual NOSSA ? Paguem-na VOCÊS, que são os verdadeiros beneficiários do sistema.

17 de setembro de 2012

CARTA A ANTO

Este poema é dedicado a António Nobre, o poeta do "Só". Foi inspirado pela sua "Carta a Manuel", incluída no mesmo livro. Anto, para onde teria desertado // Teu país de marinheiros e ceifeiras ? // Portugal é Cristo de chaga ao lado // Com danosas ervas crescendo nas leiras. // Anto, não padeças do mal de conhecer ; // E se fores a Tentúgal, trata de ver primeiro // Se ainda sobra verde nalgum reverdecer // Ou se tudo foi tragado por neves de Janeiro.// Sabes, Anto, Portugal é um enfermo como tu, // A tossicar prenúncios de alguma hemoptise // E a procurar no débil e rendido corpo nu // O assomo de força que o salve da crise. // Vive, pois, no torreão dourado que foi teu // Cultiva por aí um silêncio sem esperança // Pois se teu Povo não souber que perdeu // Só te resta morrer … sem mais tardança.

3 de setembro de 2012

PORTUGAL É LINDO POR SER POBRE !

O Dó-Tôr Pedro Passo de Coelho tem de ser ajudado. Há que dar-lhe boas ideias, para que ele cumpra o desígnio de salvar Portugal. Por mim, avanço com uma ideia que me parece praticável. Portugal tem de ser um país apelativo para turistas. A este nível, deve impor-se este pátrio torrão, através de fortes ideias promocionais. O Dó-Tôr PP de Coelho deveria lançar, com u rgência, o slogan “Venha ver o país mais pobrezinho da Europa”. Eu bem sei que ele já se está a esforçar muito neste sentido. Mas há bastante mais a fazer. Os pobres como atracção turística, eis a chave do sucesso. Imaginem turistas a sair do avião em Lisboa e no Porto. Na gare, só pedintes, limpos mas esfarrapados. As cafetarias só poderiam vender água quente – nada de cagalhufices como chazinhos ou bebidas adocicadas. Tudo autêntico, tudo local. Depois, o transporte para os centros citadinos deveria fazer-se em carroças. Mas nada de falta de asseio. Todas as carroças deveriam apresentar aquelas fraldas de cavalo para receber os cagalhões dos mesmos. Hotéis só de uma estrela. Mas sem baratas e pulgas. Nada de night-clubs. Só Grupos excursionistas e recreativos, com visitas à Porcalhota ou a Xabregas, incluindo um lanche constituído por um pão ressequido – mas ainda não bolorento – e um bolo de bacalhau (sem bacalhau, claro). Seguir-se-ia a visita a uma Escola. Trezentos e cinquenta alunos para dois professores, uma vigilante e um polícia. Este último, por razões de contenção orçamental, era o responsável pelas aulas de Língua Portuguesa, Filosofia e Música. Nesta última disciplina, o Docente, faltando instrumentos musicais, assobiava o Hino do PSD. Depois, a turistada seria encaminhada para o interior da Nação. Aqui aparecia outro slogan : “Vá ver o barrocal mais solitário da Europa”. Os visitantes seguiam em passo de corrida e bicha de pirilau para a Cova da Beira. Por razões de contenção orçamental, tinha-se tapado a cova e eles só ficavam na beira. E viam coelhos, muitos, famélicos e com ar aparvalhado, a retouçar umas relvas anémicas, amareladas e pífias. À volta, nem vivalma. E se algum turista mais abelhudo perguntasse para onde tinham ido os residentes, receberia a resposta de que no país mais teso da Europa não há residentes. A população, por razões de contenção orçamental, é toda nómada. O regresso aos hotéis far-se-ia por meios próprios, ou seja, a locomoção de pé-posto. Mas haveria a distribuição de uma garrafinha de água da torneira por turista, com a hipótese de dose dupla para os que tivessem “angina pectoris”. A recepção oficial teria de ser feita, neste país mais pobrezinho da Europa, no Paço das Necessidades. Aí, cada um faria as suas. Mas numa só casa de banho, por razões de contenção orçamental. Seguia-se o arraial. Ia buscar-se o polícia do assobio à escola sem professores e punha-se o gajo a assobiar o Hino do PSD. Nessa altura, estando presente o Dó-Tôr PP de Coelho, seria previsível que o turistame lhe quisesse oferecer um outro arraial. De porrada, sem apelo nem agravo. Portugal é lindo!

27 de agosto de 2012

A EUROPA VENDEU A ALMA AO DIABO

As agregações sociais não são -ou não devem ser - uns tantos milhões de estômagos que digerem em comum rações leoninamente distribuídas. São também -ou devem sê-lo - inteligências que perscrutam e sensibilidades que salvam. Deixemos que a cigarra cante, no seu ócio criativo e superador. Façamos o que estiver ao nosso alcance para que, pelo eco do Belo, do Bom e do Justo, o mundo realize a única grande revolução perene que o haverá de salvar e que se identifica com a permanente e atenta radicação de valores actualizados e actualizáveis. Em meu entender, o essencial do programa dos próximos cem anos está aqui e em tal consiste. A divisa das "litterae humaniores" continua a ser aquela que se transferiu de um obscuro comediógrafo do século II antes de Cristo à elegância retórica dos Humanistas, destes ao utopismo de Fourier e de Claude-Henri de Saint Simon e que se difundiu mesmo aos desafios iconoclastas do humor surrealista: “sou homem; de nada do que é humano me posso alhear”. Sendo esta a divisa, não poderemos aguardar facilidades. Não as iremos ter. Isto é assim porque a Europa, outrora matricial, se desfigurou sem remédio, vendendo a alma pelas lentilhas do consumo totalitário e alarve. Esta Europa deu-se a negócios de viela suja, converteu-se em formigão negro e feio e passou a desferir imprecações de desprezo contra tudo o que poderia encantá-la. Por isso, desdenhou dos requintes da interioridade racional e afectiva, passando a formular a pergunta crassa, "para que é que isso serve?" , que outrora lhe teria sido imputada como sacrílega pelos filósofos da Grécia e pelos tratadistas do Direito romano. É que estes, a poderem ser ouvidos, lhe diriam que é a Beleza o elemento dulcificador das aparências, a Bondade o factor mitigante da reacção animal e a Justiça o fiel da balança da controvérsia dos interesses. O fosso é simples, pois separa sem remédio, como diria Pascal, os restos das asas dos anjos dos reptilianos assomos das bestas.

21 de agosto de 2012

SINGULARIDADE E NECESSIDADE DA CULTURA

É de supor que a exterioridade fale sempre mais alto do que a interioridade. A exterioridade da Civilização comanda imperial e imperativamente a realização da Cultura. Isto é assim porque o bem-estar material prevalecerá sempre, em termos de médias demográficas, sobre os tentames de realização espiritual. Mas, pese embora a certos pregoeiros do economicism o e da eficácia técnica, esta, a realização espiritual, não deriva necessariamente do bem estar material. A singularidade da Cultura está em que a validação última da bondade material depende estritamente de juízos valorativos, sendo estes o resultado necessário do trabalho teórico. O mero utilitarismo pode falar-nos dos benefícios que a construção de certa ponte trouxe às populações das duas margens. Mas só o juízo de gosto nos poderá assegurar da sua Beleza. A estrita consideração pragmática encarará o mundo como o território da mutualidade de serviços. Mas só a avaliação ética nos dirá das posições relativas que comandam a justiça ou a injustiça das formações sociais. O reino das aparências julgará complacentemente a esmola dada a um pobre. Mas só o inquérito em profundidade sobre a natureza das motivações estabelecerá a distinção entre o que foi a dádiva do temor ou a oferta da solidariedade. A tríade do Belo, do Bom e do Justo atravessou, sem solução de continuidade, o arco do tempo que riscou o viver agónico da Humanidade desde esse redivivo século de Péricles até este miserando século das troikas. E é por isso, impulsionados pelo eco de vozes resgatadoras e combativas, que hoje podemos e devemos dizer que as Instituições de cultura só podem ser apresentadas como redutos de resistência.

17 de agosto de 2012

UNAMUNO E O HUMANISMO

Os restantes saberes e técnicas comprazem-se amiudadas vezes com esta pergunta, dirigida ao saber humanístico: mas para que servem essas coisas? Ora, a tão bruta questão, os cultores do saber humanístico terão de replicar que as matérias que cultivam não terão um préstimo tão manifesto quanto o de um pente ou o de uma abóbora. Mas logo replicarão qu e o pente e a abóbora foram criados pelo homem para cumprirem as suas funcionalidades fora do homem. E que a Literatura, a História, a Filosofia, as Artes ou a Música, até mesmo a Geografia, foram inventadas pelos mesmos homens para produzirem os seus efeitos dentro deles. Há um texto formosíssimo de Miguel de Unamuno, intitulado Adentro ! que nos explica tudo isto em palavras quase divinas. Citarei então, correndo a tradução por minha conta: “ Dizes-me na tua carta que se até agora foi tua divisa adiante, doravante será acima ! Deixa isso do adiante e do atrás, do acima e do abaixo para progressistas e retrógrados, para ascendentes e descendentes, que só se movem no espaço exterior, e busca o outro, o teu âmbito interior, o ideal, o que é da tua alma. Forceja por meter nela o Universo inteiro, que é a melhor maneira de derramar-te nele. Considera que não há dentro de Deus mais do que tu e o mundo e que se formas parte deste, porque te mantém, forma também ele parte de ti, porque em ti o conheces. Em vez de dizeres pois adiante! ou acima! diz para dentro! (adentro!). Reconcentra-te para irradiar, deixa encher-te para que logo te escoes, conservando o manancial. Recolhe-te em ti mesmo para melhor dar-te aos demais todo inteiro e indiviso. Dou quanto tenho – diz o generoso; dou quanto valho – diz o abnegado; dou quanto sou – diz o herói; dou-me a mim mesmo – diz o santo; e diz tu com ele, ao dar-te: dou comigo o Universo inteiro. Para isso, tens que fazer-te Universo, buscando-o dentro de ti. Para dentro (adentro!)”. A verdade é que o diálogo do homem consigo mesmo não é, em termos de economia pura, uma tarefa de elevada rentabilidade. Somos pobres de meios e sempre o iremos ser. Mas como tudo se passa no mais íntimo, no mais profundo, no mais radical de nós mesmos, o nosso Ócio criativo não necessita de muito para viver. O actual universo da tecnocracia compraz-se em derrancar-nos com a temerosa acusação de as Humanidades ensinam “cursos de papel e lápis”. Pondo de fora os computadores que vamos tendo, isto não deixa de ser verdade. Mas é com papel e lápis – agora também com o teclado de um modesto computador, obrigatoriamente dotado do programa Word – que nós partimos para a aventura de vislumbrar primeiro a interioridade do ser humano, tentando-a aperfeiçoar depois. Não necessitamos, portanto, de complexas e dispendiosas engenhocas para o cumprimento da nossa função. E esta, que para muitos constitui a nossa debilidade, é para nós a maior das fortalezas. Podem as economias ruir com fragor, os impérios esfacelarem-se sem remédio, as engenharias técnicas cederem nos seus alicerces e as convenções do bem-estar sofrerem colapsos graves que sempre se descobrirá um qualquer terreiro onde se possam reunir mestres e discípulos , Humanistas , munidos de lápis e papéis , com o móbil de praticar o "adentro!" de que falava Unamuno.

13 de agosto de 2012

RECORDAÇÕES

Recordo uma das minhas primeiras aulas de Filosofia Antiga, onde menos de dez alunos escutavam, reverentes, o incendiado discurso de um dos meus perenes tutores do pensamento, o Doutor Vítor de Matos, de saudosíssima memória. E que proclamava ele, nesse tão distante momento, guardado durante decénios na minha memória? Dizia assim: “há duas formas de estar na vida – ou se negoceia, ou s e trafica com o Ócio. O "nec otium" é a alienação do tempo, o estar ocupado com valores crematísticos, a resposta imperativa a necessidades primárias. Negociado o tempo, nada mais sobra senão a moeda. Mas o "otium" tem como moeda de troca a Criação”. E, fitando-nos com aquele luminoso e um pouco irónico sorriso, rematava: “os Senhores estão aqui para um exercício de Ócio criativo. Traficar positivamente com o Ócio é criar ideias ou reter as que já existem”. E nas aulas seguintes traficámos ociosamente com Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Demócrito, Sócrates, Platão, Aristóteles e a demais galeria dos augustos pensadores da Hélade. Nunca mais pude esquecer esta lição. Voltei a recordá-la, já depois de 25 de Abril de 1974, quando a ouvi repetida, mas numa versão ligeiramente distinta, pela voz persuasiva mas convincente de uma das sacerdotisas da literatura portuguesa: Natália Correia. Nessa altura, era ela deputada já não sei de que partido, nem isso interessa muito. O que sei é que se discutiam no Parlamento umas tais distribuições de verbas pelas rubricas orçamentais do "nec otium" . O Ministério da Cultura iria ficar, como de resto é costume, com o exíguo remanescente da matéria negociada. Foi então que se ergueu, colérica mas contida, a voz de Natália Correia, para exprobar essa outra “parca ração”. Concluiu a sua intervenção tribunícia com esta tirada: “Por favor, deixem cantar a cigarra”. E a verdade é que as formigas dos negócios mitigaram um pouco mais a avareza da espórtula. Bons tempos ...

8 de agosto de 2012

SOBRE A XENOFOBIA

A xenofobia assenta no temor e rejeição do diferente. Isto significa, sem a menor dúvida, que o xenófobo não consegue alargar os seus limites de apreciação para além do que lhe é imediato, ou seja, para além daquilo que ele-próprio é e do que são ou parecem ser aqueles ou aquelas coisas que se lhe apresentam. A xenofobia promana, portanto, de um encurtamento de enfoque e de uma especialização exacerbada de juízo. É bom que se diga que a rejeição da xenofobia não implica uma aceitação acrítica das diferenças. Não somos xenófobos quando rejeitamos PARA NÓS condutas, práticas e modos de pensar de terceiros. Mas certamente que o seremos se, espontânea e imediatamente, sem análise cuidada e consistente fundamentação lógica, rejeitamos o outro, só porque ele é diferente. A xenofobia anda invariavelmente associada ao ufanismo nacionalista e à proclamação de ilusórias superioridades, as piores das quais são de base rácica ou racista. A teoria nazi combinava todos estes ingredientes de maneira verdadeiramente explosiva. O anti-semitismo que Hitler cultivou bebia, sobretudo, os seus nutrientes teóricos numa burla histórica monumental: o “Protocolo dos Sábios do Sião”. Este documento foi especialmente forjado para imputar aos judeus uma conspiração financeira internacional, com base na qual estaria em marcha um gigantesco e tenebroso plano de “conquista e escravização da Humanidade”, por via da manipulação financista. É importante que isto seja dito aqui e agora, quando se difundem tantas teorias da conspiração. Não é que elas não possam existir. Mas há que exigir sempre a indispensável comprovação. Todos sabemos que as actuais técnicas de controlo da opinião pública são sofisticadíssimas. Há que evitar, por isso, a pior e mais perigosa de todas as xenofobias : as que podem ser inculcadas jogando com a nossa própria ingenuidade ou com o nosso desconhecimento da realidade.

24 de julho de 2012

HISTÓRIA DE UMA VINGANÇA

Eram da mesma vilória, mas no mútuo conhecimento reinava alguma frieza. Lúcio nascera no interior de uma família abastada e com alguma influência no lugar. O pai era Inspector do Ensino Secundário e produzia apreciados néctares vínicos, com uvas colhidas em propriedades provenientes de heranças de família. Julião era filho do chefe da estação de comboios e sabia-se que a incontestável dignidade do núcleo familiar dependia muito da sensatez com que a sua mãe administrava o magro ordenado do marido. Lúcio e Julião tinham frequentado a mesma escola, nela aprendendo ambos as primeiras letras. Mas o primeiro sempre fora tratado pelo velho professor Arménio com manifesta benevolência, sendo impensável que alguma distracção ou lapso de memória dessem lugar à mais temida das punições : as vergastadas desferidas com uma cana maleável, que o Mestre-Escola Arménio manejava com um zelo entusiástico e indicativo de uma alma torcionária. Julião, pelo contrário, conheceu em duas ou três situações o silvo desse “Vime Vingador” - ou apenas “VV” - , designações que Mestre Arménio popularizara junto da mão-cheia de rapazes sobre os quais ia exercendo, selectivamente, a sua férula eivada de sadismo. Chegado o tempo, anos volvidos, Lúcio partiu para a Universidade de Coimbra, com o fito de cursar Medicina. Julião, pelo contrário, encaminhou-se para uma Escola Comercial, com pretensões a que pudesse fazer-se um contabilista rigoroso. Era, em ambos, o fim da adolescência e da sua psicologia complicada, por vezes até contraditória. Foi no tempo em que ambos se interessaram pela Alzira, a qual morava na casa de umas tias, a meia distância dos domicílios destes pretendentes. Os pais de Alzira haviam partido há alguns anos para Luanda, deixando essa filha única aos cuidados das irmãs da mãe, as quais geriam com extraordinária competência uma casa de comércio de retrosaria e bijuteria fina. Sabia-se, no lugar, que essas tias não sofriam o menor constrangimento financeiro em relação aos gastos de Alzira, uma vez que as quantias enviadas mensalmente de Luanda eram incontestavelmente generosas. Quando Alzira pressentiu o interesse afectivo que desencadeara nos dois rivais, o seu forte sentido das conveniências e das realidades levaram-na a manter uma postura de equidistância em relação a ambos. Achava que ainda era muito nova para assumir compromissos e, valha a verdade, nenhum dos pretendentes exerceu sobre ela uma impressão avassaladora. Caprichava em manter a correcção quer perante as ousadias de Lúcio, quer perante os tímidos vagidos de alma de Julião. Esta atitude foi interpretada por um e outro como um estado de indecisão, quando verdadeiramente não era mais do que uma manobra de evasão. Foi então que a guerra rebentou nas colónias. Toda a gente do lugar comentou detidamente os nefastos efeitos do conflito na economia privada dos pais de Alzira. Fosse ou não por isso, a verdade é que tanto Lúcio como Julião decidiram interromper as suas formações académicas e profissionalizantes, oferecendo-se voluntariamente para o antecipado cumprimento do serviço militar. Os caprichos da sorte ditaram que um e outro fossem destacados para Angola no mesmo pelotão, mas em posições hierárquicas distintas, uma vez que o alferes Lúcio preponderava necessariamente sobre o cabo Julião. As coisas complicaram-se mais, nas relações entre ambos, quando o pelotão do então tenente miliciano Lúcio foi destacado para uma zona de intensa actividade bélica. É que todos estranharam que fossem sistematicamente distribuídas ao cabo Julião as missões mais ingratas e, dentro da coluna, as posições de maior risco. Ninguém viu nunca o arejo de um sorriso ou de uma familiaridade entre dois combatentes que, afinal, provinham da mesma terra. O Tenente Lúcio convocava o cabo Julião, dava-lhe conta do que dele se esperava e despedia-o com secura. Por sua vez, o cabo Julião salvaguardava a mais correcta das atitudes , fazia todas as continências e girava sobre os calcanhares sem a menor sombra de solidariedade. Mas eram tamanhas as exigências e os riscos e que Julião era reiteradamente exposto que os colegas acabaram por lhe atribuir a designação de Cabo Morte. Ao que este replicava: “ Descansem, rapazes, que se eu morrer levo alguém comigo”. Certa manhã, o pelotão foi todo chamado á presença do Tenente Lúcio, o qual, com vincos faciais de grande preocupação, a todos disse: - “Pelotão, na madrugada de amanhã vamos levar a cabo uma missão de enorme perigo. A zona para que fomos convocados é um vespeiro de inimigos. Há toda a probabilidade de que sejamos emboscados. Não é demais repetir o que já sabem. A nossa linguagem é o gesto. A nossa eficácia e talvez a nossa vida dependem da sincronização de movimentos. Acima de tudo, ninguém, repito, mesmo ninguém tratará um companheiro de armas pelo seu posto. Vocês já estão fartos de saber que se o combate for travado a curta distância, as armas inimigas tudo farão para poderem identificar e eliminar os mais graduados. Por isso, nesta operação, tal como nas outras, ninguém tem posto. O Cabo Julião irá na cabeça da coluna”. Uma voz indiferenciada rouquejou um “mais uma vez”, que se perdeu por entre outras vozearias. Na madrugada seguinte, a meio de uma picada densa e de progressão difícil, o pelotão viu-se atacado. Todos se colaram ao chão, como se a todos apetecesse abrir uma cova com o corpo e desaparecer daquele inferno de balas zunindo por sobre as cabeças. Um dos primeiros a cair foi o Cabo Julião, com uma bala perdida que lhe furou a barriga e o fez esvair em sangue. Mas todos confessaram, mais tarde, que o comportamento militar do Tenente Lúcio quase roçara o heroísmo, tão célere foi a deslocação para junto do Cabo moribundo. Viram-nos falar brevemente um com o outro, mas ninguém pôde escutar distintamente o conteúdo da conversa. As únicas expressões que se ouviram do Cabo Julião foram estas, gritadas com uma sonoridade insuspeitada para quem está a despedir-se da vida : - Meu Tenente, como custa morrer; meu Tenente como custa morrer; meu Tenente, como custa morrer. Tudo isto dito três vezes e em crescendo sonoro. Tudo isto antes de se escutar uma crepitação de metralhadora, disparada de muito perto, que esburacou completamente a face de Lúcio. E tudo isto aconteceu depois do que ninguém pôde escutar. É que as últimas palavras ditas por Lúcio a Julião, quando correu para ele como se o quisesse proteger, foram estas: - “Olha rapaz, no meu regresso, a Alzira vai ser minha para sempre”. Os pais de Lúcio receberam a condecoração do filho, a título póstumo, num dia de Portugal. Julião, esse, não foi condecorado. Limitou-se a morrer. Mas cumpriu a promessa: levou alguém com ele.

20 de julho de 2012

JOSÉ HERMANO SARAIVA

Aos 92 anos, finou-se o Historiador José Hermano Saraiva. Que pode dizer dele, neste solene momento do passamento, um Oficiante do mesmo Ofício? Sobretudo, que poderá dizer um estudioso da História, nascido para ela no pós-25 de Abril – eu – de um estudioso da História do pré-25 de Abril – ele ? Começarei por dizer que José Hermano Saraiva foi a “bête-noire” da Academia coimbrã, à qual eu ainda pertencia, na crise académica de 1969. Estava nessa altura na tropa, mas tal não me impediu de cumprir a greve, não me apresentando a exames. Mas tanta foi a minha militância. Nada mais fiz ( e poderia, nessas condições, fazer mais alguma coisa?). A vida política de José Hermano Saraiva aconteceu antes do 25 de Abril. Mas a sua vida intelectual aconteceu sobretudo depois do 25 de Abril. Da primeira parte, terá de se execrar a solidariedade com essa ditadura estranha e tão típica, ditadura “à portuguesa”, que alguns insistem em qualificar de “fascismo” , sem lhe adicionarem, como seria curial, a expressão “à portuguesa”. Retirado do galarim da política activa, depois da revolução de Abril, José Hermano Saraiva colocou ao serviço dos seus objectivos pessoais (e do seu pecúlio privado e familiar) a sua extraordinária capacidade mediática, o seu majestoso talento de comunicação com as massas. Tornou-se divulgador da História e das Gentes do seu País. E daí nasceram os programas televisivos “”Horizontes da Memória”, “”Gente de Paz”, “O Tempo e a Alma” e “A Alma da Gente”. Que História –ou que “estória” – era essa, aquela que divulgava José Hermano Saraiva nas suas apreciadas intervenções televisivas ? Era uma História (ou uma estória?) emocional, cheia de incursões teatralizantes, eriçada de sentimentalidade fácil, que ele ia sublinhando com as suas mãos em concha, com a firmeza do seu olhar para as câmaras, como se estivesse definitivamente seguro da honradez e probidade da sua mensagem. Ainda hoje me pergunto se José Hermano acreditava em tudo o que proferia. Junto da Torre de Belém, declarava : “Foram estas pedras, estas mesmas que aqui estão, e foi este horizonte que viram partir as naus dos Descobrimentos”. E os ouvintes olhavam as pedras, contemplavam, embasbacados, a inenarrável beleza dessa parte de Lisboa, e concluíam: “Foram aquelas pedras, tal e qual, foi aquela envolvência de luz, foi aquela magia de lugar que viu partir os mareantes, nos primórdios da aventura portuguesa”. É isto um bem? É isto um mal? É este apelo anacrónico ao que foi, assim tornado presente pelas palavras convictas mas inegavelmente demagógicas de José Hermano, um sudário de misérias ou uma intenção de mobilização da Grei? Quem se atreverá a qualificar? Relembro um depoimento da minha Irmã, já falecida, a poeta madeirense (por adopção) Maria Aurora (Aurora Carvalho Homem), sobre José Hermano Saraiva. Ele, José Hermano, tinha ido à Madeira e fizera questão de conhecer Machico. Ora, em Machico subsiste a lenda romântica de Machin, um navegante estrangeiro que se perdeu de amores trágicos por uma “indígena”. A certo momento, depois de explicar em Machico a lenda de Machin, José Hermano disse , alto e bom som, para quem o quis ouvir: “Vocês são mesmo ingénuos, nesta coisa da promoção turística !! Quando é que arranjam uma moçoila bonitona e um varão desempenado para desempenharem por aqui uma peça de teatro, interpretada em inglês e com tradução simultânea, para “inglês ver e pagar” ? Uma teatralização a “puxar à lágrima”, cheia de vivacidade e de golpes inesperados?”. Assim falava o pragmático Historiador (ou estoriador?), travestido de agente turístico. A verdade é que a lenda de Machin, nestes tempos mercantis, ainda está por “rentabilizar” (como agora deve ser dito, em linguagem troikiana …). Não se espere de mim – que sinto ter dado um contributo, mínimo que tivesse sido, para a viragem da concepção da História no pós-25 de Abril – uma diatribe a chispar ódio e baba sanguinolenta contra José Hermano Saraiva. Foram, seguramente, outras as rotas que trilhàmos. Mas, pelo menos enquanto Historiadores, por ondas diferentes, por mares tão distantes, por Adamastores de antípodas, “on cherchait le même port” ( Jacques Brel). Que a terra não seja demasiado pesada a José Hermano Saraiva. AMADEU CARVALHO HOMEM (Historiador; antigo Estudante da Academia de Coimbra, na crise académica de 1969).

15 de julho de 2012

MAR NAUFRAGADO

Perto do mar // Joga-se a nostalgia álgida // Do ficar ou partir.// Líquidos olhos de peixes // Fabulosos // Remexem-nos a alma // E curiosos // Vamos por essa margem // Impotentes de remo // Na voragem //Das âncoras internas.// E por mais ternas // Que sejam as marés,// Crescem-nos pelas pernas // As paralisias do ficar.// Somos aventureiros // Sem aventura que preste // E hoje o mar // Já não produz Cabrais. //Portugal sem mudança // É hoje apenas // A tardança // Da peste : // Povo de mareantes virtuais.

10 de julho de 2012

HUMMMM ...

Perante a pergunta daquele jornalista o Ministro tossicou, vocalizou algo parecido com um “hummm” e seguiu intrepidamente em frente. Os jornais do dia seguinte dividiram-se na interpretação dos factos. “O Clarim”, periódico claramente alinhado com os sectores mais críticos da oposição, escreveu: “Reina o desnorte completo nos arraiais da governação. Perante uma pergunta tão simples como aquela que lhe foi submetida, o incompetente Ministro verbalizou algo de incompreensível, furtando-se ao cabal esclarecimento da situação. Assim se afere da irremediável incompetência que assola os actuais detentores do mando. Pobre Portugal!”. Por seu turno, o jornal “ A Voz do Povo”, muito próximo do elenco governamental, reagiu assim ao crocitar ministerial: “ O Ministro andou bem. Há assuntos da pública administração que só ganham em ficar sob reserva. Os altos interesses da Pátria não se compaginam com excessos de curiosidade ou de impertinência provenientes de escrevinhadores de pacotilha ou de publicistas de meia-tigela. Feliz o Povo que possui responsáveis deste quilate, cautos, contidos e inteligentes”. Era este último órgão de imprensa que estava a ser lido em casa do Senhor Januário Sardinha, o qual quis verificar se a versão dos factos expostos correspondia à média do entendimento público. Chamou então o seu filho mais velho, o Gustavo, rapazote de doze anos, e interpelou-o da seguinte forma: “Olha lá, rapaz, se me for feita uma pergunta qualquer e se eu responder ‘hummm’, o que é que tu concluis?”. Ao que o filhote replicou: “ Bem, Senhor Pai, tudo vai de saber em que lugar da casa vossemecê está. Se estiver a falar no quarto com a Senhora Mãe, é sinal que nem sequer ouviu o que ela esteve a dizer. Mas se estiver no quarto de banho, aí de certeza que está de prisão de ventre”. Se o Januário Sardinha soubesse um naco de filosofia, decerto concluiria que o seu rebento havia feito uma exegese perfeita.

6 de julho de 2012

A PROVA DA CAMPAÍNHA

Dirijo-me a ti, leitor fiel, para te recordar uma breve e exemplar novela de Eça de Queirós. Intitula-se “O Mandarim” e fala-nos de um muito velho e riquíssimo chinês, que viveria nos confins dessa remota China. O desafio que o texto coloca é o seguinte. Quem tocasse uma certa campainha, no seu lugar de origem, fosse ele o mais distante que se pode conceber, colheria a culpa de consciência de provocar a morte imediata ao dito mandarim, mas também auferiria do proveito de lhe herdar a colossal fortuna. Vem isto a propósito das constantes ( e justas ) diatribes que se fazem escutar entre nós, reiteradamente, acerca da corrupção, do enriquecimento ilícito, da venalidade e de todas as misérias morais em que Portugal se atasca. Muito antes de serem lançados os impropérios nos jornais, nas revistas, nos grupos virtuais e em toda a parte, seria um óptimo exercício que cada um se perguntasse, no silêncio augusto e rigorosamente privado de cada mente, se eu, tu, meu irmão, ele, que eu vagamente conheço mas goza de boa fama, se nós todos, se vós, gente aparentemente impoluta, se eles, que desconhecemos por nunca termos visto, se todos, alguns ou muito poucos, como que por acidente, passando junto da fatal campainha, não a accionariam, não a faríamos tocar, para que pudessem ou pudéssemos herdar – se possível com absoluta impunidade – a fabulosa riqueza desse alquebrado, sumido, velhíssimo mandarim, ao qual faltariam , talvez, poucos mais dias de vida. E se eu, tu, ele, nós, vós, eles, se todos tivermos a certeza, a absoluta e definitiva certeza, de que não mataríamos implacavelmente esse decrépito mandarim, perdido no seu jardim chinês, talvez a beberricar um dos seus últimos chás, então – MAS SÓ ENTÃO – trate cada um, tratemos todos de empunhar a nossa pena e de bater a nossa tecla, para crucificar justiceiramente a corja ladra que por aí campeia.

3 de julho de 2012

REVISITA AO RELVAS

(Este é o Relvas quando está zangado com jornalistas indóceis) Estes gajos não estão a ver bem a coisa. Fartam-se de protestar só porque se fez aí uma concursata para enfermeiros ( e enfermeiras) da qual resultará o pingue pagamento de 4 euros por hora. Ora, bem vistas as coisas, 4 euros são o equivalente a 800 paus antigos e com esse dinheiro os putos daquela época fartavam-se de fazer flores. Por exemplo, aí pelos meus 14 ou 15 anos, os meus Pais entregavam-me 5 escudos por dia e ainda recomendavam que “visse como os gastava”. E depois, vejam que não é por dia – é por hora, gaita, é por hora! Se o Senhor Enfermeiro maila Senhora Enfermeira forem aplicados, trabalhando oito horas por dia, o estipêndio passa a ser de 32 euros em cada jornada, o que tem de ser qualificado como uma pequena fortuna. Bem sei que o Relvas ganha mais. Está bem, mas o Relvas é um génio, que fez um curso inteiro num ano, devido ao currículo acumulado. Por isso, não queiram comparar o Relvas ao Senhor Enfermeiro e ainda menos à Senhora Enfermeira. O Relvas não tem feito outra coisa na vida senão acumular experiência, enquanto que o Senhor Enfermeiro e a Senhora Enfermeira a única coisa que acumulam são doenças. Claro que há quem diga que o Relvas é também uma doença. Mas , está bem, é uma doença que não acumula, uma doença em exclusivo. Eu até acho que para que o Relvas se não sinta minimizado no confronto, deveria ser ele a receber 4 euros por hora. Agora, façam-lhe as contas : 32 euros por dia, se o Relvas nos fizer o favor de não congeminar ameaças a jornalistas-fêmeas para além do horário de trabalho. E, vejam bem, 960 euros por mês, já que o Relvas é aproveitado e não perde pitada nem aos domingos, nem aos feriados. 960 euros, minha gente! Ná ! O Relvas não vale tamanha fortuna ! É por estas e por outras que Portugal está como está.

25 de junho de 2012

O MEDO

O maior dos medos que podemos experimentar é o medo pelo desconhecido. Somos animais programados e o nosso maior arrimo é o da regularidade das coisas conhecidas. Tudo o que fica para lá (ou para cá ?) do desconhecido nos inibe e atemoriza. Pelo contrário, o Mundo não conhece o medo. Assiste, imperturbável, a todas as hecatombes sem pestanejar. Quando digo isto, eu estou a cometer uma espécie de antropomorfismo. É que o Mundo não assiste, não pestaneja, nem sequer regista. O Mundo “é”, limita-se a “ser” , na sua passividade imensa. Quando digo que o maior dos medos humanos é o do desconhecido, eu poderia dizer, com maior propriedade, que do que temos mais medo é de nós-mesmos. Melhor dizendo, do que ignoramos de nós mesmos. É bom reparar que tudo o que podemos conceber de mais temeroso é tudo o que imaginariamente nós sabemos que poderíamos cometer. Assim sendo, o nosso medo consiste apenas na dúvida que nos assalta acerca do que temos como impossível de por nós ser cometido. Seremos nós capazes de cegar voluntariamente um semelhante? Seremos nós capazes de matar a sangue frio um desconhecido? Seremos nós capazes de possuir sexualmente uma criança? Seremos nós capazes de matar um semelhante saudável para lhe vender os órgãos? Não dou a resposta por caridade para comigo e não por caridade para com a Humanidade. O que nos causa medo são as virtualidades do que somos ou do que imaginamos poder ser. O medo é, desta maneira, o limite que nos protege de nós próprios. O mundo, como não estudou Ética, nem a pratica, limita-se a “ser”, impávido, perante o espectáculo de nós-mesmos. Por isso é que não há a menor razão para temer a morte. É o acto pelo qual nós deixamos de julgar, para nos convertermos num imperceptível grão de mundo.

20 de junho de 2012

FORMOSELHA - SANTO VARÃO

O meu Amigo e antigo Aluno Correia Góis publicou, muito meritoriamente,a obra "Os Coutos de Formoselha e Santo Varão". Na minha narrativa, o título em causa deverá mudar para "Os Coitos de Formoselha e Santo Varão". Basta trocar um u por um i. Passemos então ao que interessa. Localizada entre a Figueira da Foz e Coimbra, existe uma localidade de nome duplo, pois se chama FORMOSELHA – SANTO VARÃO. A designação acicatou a minha curiosidade. Ela é lógica, uma vez que jamais um Varão permaneceria em cheiro de santidade se, em vez de ter próxima uma Formoselha, morasse paredes- meias com uma Formosa. Por isso, o Varão, tornado Santo, “aguentou os cavalos” e Santo permaneceu (dizem as más línguas, mas a minha narrativa infirma-o) até ao momento. Não é líquido que uma Formoselha não seja atiradiça. Mas é mais concebível que a forte determinação do casto Varão assim permanecesse ante os assomos lúbricos de uma Formoselha. Também os Santos do Deserto, os eremitas da areia, acordavam da lôbrega noite que os acolhia com tremuras na carne. Pudera! Consta que o Demo mobilizava não uma qualquer Formoselha para os inquietar, mas uma legião de Formosas – e ainda por cima desnudadas ou , pelo menos, generosamente expostas. É de imaginar que o Santo Varão dormisse pouco. É que, dando de barato que a Formoselha fosse a versão humana de uma gata com cio, a mobilização dos seus encantos poderia contar com a cumplicidade dos lençóis da noite. E aí, poderia acontecer ao Santo Varão o mesmo que acontece a todo e qualquer Varão saudável e não-Santo: sucumbir, abjecto, perante as fervuras dos instintos. Nos meus tempos da Universidade, dei-me com um Colega que fazia gala em só namorar Formoselhas. E fazia-o sempre pela calada da noite. Perante as minhas perplexidades, ele sempre me respondia que acontecia ao sexo o mesmo que ocorria com a fome. E obtemperava : “Se tripa não tem olho, o baixo ventre também não”. Era um Sábio acabado, esse meu estimável Colega, o qual, de resto, na hora da Verdade, acabou por se consorciar com uma mulher bem abaixo, no “ranking” da Beleza, da mais delambida Formoselha. Mas voltemos ao Santo Varão e contemos-lhe o resto da história. Nenhuma Formoselha consente em permanecer Formoselha e virgem pelo resto da vida – a menos que possa ser promovida à condição de Santa Fêmea, mas aí a concorrência é considerável, uma vez que já existe uma Santa Eufémia. Pelo que a Formoselha apanhou o Santo Varão distraído e , num dos raros momentos em que ele se dava aos imperativos de Morfeu, rolou-lhe pelos lençóis abaixo. Quando ele acordou, sentindo ânsias comichosas em zonas erógenas conotadas com o Pecado, o Santo Varão perguntou: “Que se passa, que se passa aqui de tão delicioso e pérfido?”. Ao que a matreira respondeu: “ É a Formoselha, Santo Varão”. E para sempre assim ficaram, a Formoselha cada vez mais Formoselha e o Santo Varão cada vez menos Santo …

16 de junho de 2012

DESTINO E ACASO

Quando se fala em Destino, é como se estivéssemos a falar na antecipação do que já sabemos. Afinal, só dizemos que este ou aquele conheceram um Destino negro ou róseo depois de termos dado conta da infelicidade ou felicidade que a vida lhes trouxe. Por mim, confio mais no Acaso e menos no Destino. Claro que para que ele, o Acaso, possa actuar, teremos de ir ao seu encontro. Um bom Acaso vale sempre mais do que um bom Destino. É que este, a existir, é algo que se torna independente da minha vontade e que me subjuga sem remédio. Prefiro o Acaso, sim. Desde que o demande, desde que o convoque, desde que o chame para mim. Até porque, então, poderei declarar : “A procura do meu Acaso é o meu Destino”.

10 de junho de 2012

INVOCAR PROMETEU

Podemos aqui ver a belíssima estátua de Prometeu, que se encontra na entrada da Universidade do Minho. Prometeu foi o Titã que se atreveu a roubar o Fogo a Zeus, entregando-o aos homens. O castigo infligido por Zeus foi condená-lo a ficar por toda a Eternidade amarrado a um rochedo, impotente, e à mercê de uma águia que viria todos os dias comer-lhe o fígado, que também todos os dias iria crescer para um novo festim da ave. A alegoria desta estátua é agora transparente. Prometeu apresenta na sua mão direita o Fogo que roubou ao monopólio dos deuses. A sua mão esquerda mostra-se com uma corrente partida, simbolizando a sua rebelião libertadora. E, como se pode apreciar , a zona do seu fígado está revolvida pelo bico e pelas garras da águia. Uma extraordinária alegoria sobre o desejo permanente do Homem, apostado a libertar-se das suas limitações e a aspirar ao Ilimitado. Prometeu é para mim o comovente e inspirador símbolo da inconformação. Paralisar no Tempo o instante crucial // Aquele que repousa entre o sono e a vida; // Guardar no peito a reza desta ermida // Que supera e vai além da coisa trivial.// Aqui, no nosso vago mundo sublunar // Combinamos sem notar as cinzas e o fogo, // E no peregrinar entre o agora e o logo // Indiscerníveis ficam a indiferença e o amar.// Avança o tempo e as suas servidões. // No gasto palmilhar das multidões // Falta a luminosa chispa do resgate.// Há que negar a morte, invocar Prometeu,// Há que inventar no coração que bate // Um novo ressurgir, a dádiva de um Céu.

4 de junho de 2012

UMA AFIRMAÇÃO INDECIFRÁVEL

Cruzei-me com um sujeito, homem aí para os seus trinta e tais anos, que envergava uma camiseta com as cores nacionais e com uma inscrição onde se podia ler : “Campeonato Europeu de Futebol”. A meio da peça de roupa, escrito a negro garrafal, estava escrito “Até os comemos !” . Aquilo perturbou-me muito. Decidi puxar pela imaginação, tentando decifrar o hieróglifo. Eu bem sei que a crise é grande e que a fome é uma realidade objectiva no Portugal hodierno. O que me assustou, de início, foi aquele cafreal apelo a formas primitivas de canibalismo. É que ainda existe o Banco Alimentar Contra a Fome, talvez até a Sopa dos Pobres e uma imensidade de baldes do lixo, os quais, quando colocados junto a grandes superfícies ou a restaurantes caros, permitem à indigência uma actividade recolectora de restos de batatas fritas e da parte rilhosa do bife que me parece não despicienda. “Até os comemos !” ? Não, aquilo deveria ter um sentido oculto, cabalístico, que urgia averiguar. Talvez pudesse ser um apelo bovino, melhor dizendo, herbívoro. O que aquele homem pretendia dizer era que se aprontava para deglutir todos os relvados onde jogaria a selecção portuguesa,ou seja, com pitança garantida, pelo menos, durante a primeira fase do evento desportivo. Seria isso? Mas depois lembrei-me que, sendo aquele Concidadão um viril exemplar, de estatura mais do que mediana, e além disso bem parecido, a inscrição poderia ter uma qualquer implicação sexual. Espinhosa dedução, convenhamos, pois o exemplar não vestia trajes cor-de-rosa e , assim sendo, o que deveria constar na camiseta era a frase “Até as comemos!”. Há tipos que para garantirem a sobrevivência do membro viril já se habituaram às técnicas de “marketing”. Mas achei que não deveria ir por aí. A informação encontrava-se omissa, quer quanto ao comprimento (em centímetros) da mercadoria, quer quanto à especificidade das destinatárias. Afinal, a preferência encaminhar-se-ia para as morenas, loiras ou ruivas ? E comia-as uma por uma ou por atacado? Ponderei, por isso, a eventualidade do dístico se dirigir a alguns membros da comunidade “gay” – e digo “alguns” e não “algum”, devido ao plural. Mas também não batia certo. A comunidade em causa é comedida, contida, reservada, numa palavra, morigerada, e nunca se prestaria a uma tão alarve manifestação de apetites. Foi então que , penosamente, acabou por se fazer luz na estreiteza do meu espírito. O assertivo Concidadão decerto se dirigia à Alemanha, pois será com essa selecção que Portugal jogará o seu primeiro jogo. Se o dístico dissesse “Até a comemos!”, ficaria desde logo transparente que a iguaria que aquele português pretenderia comer era a Chanceler Ângela. Como quem isto escreve ainda preza o bom-gosto masculino da portugalidade, logo se excluiu, a eventualidade deste melro querer comer a Merkl na horizontal. A fome, em Portugal, é efectivamente muita. Mas, c’os diabos, há limites de bom gosto que nem a Gestapo ( a existir) nos poderia obrigar a engolir … Portanto, o sentido era figurado e , além do mais, vingativo. Expliquemos: como a Alemanha nos come os juros da dívida em sentido próprio, nós, gente de brandos costumes, estávamos a dizer, através daquele painel ambulante, que nos iríamos vingar, digerindo em sentido próprio a Merkl, com sucos gástricos e entéricos. Houve desde logo uma interpretação que eu liminarmente afastei: a da camiseta poder interpelar os jogadores da selecção alemã. Podem-se lá comer machos de chuteiras e pêlos nas pernas, transpirando por todos os poros, cheirando fetidamente a sovaco por limpar e correndo como doidos atrás de uma bola de couro ! Permaneço , em face do exposto, mergulhado na mais triste e desprimorosa confusão mental. Pode ser que se faça luz no meu empedernido cérebro, lá mais junto da hora de jantar.

1 de junho de 2012

UMA ELEGANTE REFEIÇÃO

Era uma vez um país chamado Portugal, onde se encontraram, numa tarde sem fastio, um estivador, um trolha e um reformado de pensão mínima. Decidiram, depois de muito cogitarem, que tinham de almoçar num sítio de boa reputação. Mas também convencionaram que, no interior desse venturoso estabelecimento, o estivador seria tratado por “Senhor Arquitecto”, o trolha por “Senhor Engenheiro” e o reformado com a pensão mínima por “ Senhor Professor Doutor” , por extenso e “cum magno gaudio”. Claro que envergaram o “fatinho-de-ver-a-Deus” , escolheram o melhor restaurante da cidade e irromperam nele como Napoleão irrompeu no leito de Josefina, depois de um suadoiro bélico de "alto-lá-com-o-charuto" (o charuto conheceu-o a Josefina, mas isso são outros contares). Aboletaram numa mesa centralíssima, não sem que antes tivessem simulado a rábula sobre quem pagaria a conta. Dizia o estivador para o trolha: “ Tenha paciência, Senhor Engenheiro, hoje a conta é minha. O Senhor Engenheiro já pagou aquele jantar de lagosta no casino. Nem tente dizer que não”. Ao que o trolha replicava : “ Oh, Senhor Arquitecto, não vai lembrar essa insignificância. Ora, ora, meia dúzia de tostões …”. E o reformado com pensão mínima obtemperava: “ Parece impossível, meu Estimado Engenheiro ! Oh, Senhor Arquitecto, nem discutam mais. Hoje a conta pertence-me e está tudo resolvido”. Ao que o trolha redarguia: “ O Senhor Professor Doutor vai-me perdoar, mas nós os dois não iremos consentir que uma glória da Universidade portuguesa vá agora pagar uma tão desprezível quantidade de euros”. O empregado do restaurante, muito atilado e correcto, estava absolutamente siderado. E quanto mais lhe caíam nos ombros as designações de “Senhor Professor Doutor”, “Senhor Arquitecto” e “Senhor Engenheiro” mais ele se perfilava, com o meio-sorriso de idiotia entranhada e a verticalidade da obediência ancestral. Comeram e beberam do bom e do melhor: ostras, lavagante suado, camarão- tigre dos mares da Malásia, sericaia de Elvas, tudo regado a verde branco Alvarinho e a “Don Perignon”, este último acolitando a sobremesa. Quem esteve perto, garantiu que foram audíveis arrotos triunfais. Esta desagradável ocorrência foi prontamente infirmada pela Dona Balbina, que ouvira toda a conversa e que garantiu depois que nunca um Arquitecto, um Engenheiro e um Professor Doutor se poderiam comportar dessa forma dispéptica e obsoleta. O admirável grupo, depois de bem atulhado, levantou-se em dois tempos e desapareceu porta-fora. O empregado, em estado de cretinização avançada, correu para o escritório da gerência e, muito vermelho e engasgado, cuspiu para o patrão : “Senhor Pires, senhor Pires, aquela mesa do Professor Doutor, do Engenheiro e do Arquitecto pirou-se pela porta fora, sem pagar; que é que eu faço ? que é que eu faço ? Ligo à Polícia, Senhor Pires? Ligo ? Ligo?”. O Senhor Pires, homem longilíneo e de barbicha judaica, que se julgava mais batido nas asperezas da vida do que as meretrizes do Bairro Alto, suspirou muito fundo, encolheu os ombros magros e decretou : “Passa a conta à gerência. Engenheiro, Arquitecto e Professor Doutor, à molhada, só pode ser um grupo de “vígaros” do Governo. Com essa canalha não me posso meter. Olha, rapaz, aprende, que eu não vou durar sempre”. A Dona Balbina, muito gesticulante, continuava a garantir na mesa dela que aqueles Senhores distintos nunca teriam sido capazes de arrotos superlativos em público.

24 de maio de 2012

A MEMÓRIA

Lembras-te como caía a tarde junto ao rio // E como corria a água remansosa // Pela goteira aberta na memória ? // Era tempo de Verão, inflexível ardência // No vogar dos peixes, no verde velho da relva, // No peso incandescente da memória.// Quando o sol amarelo navegava pelo corpo // Das margens rumorosas // E quando tuas veias eram canais azuis // Perdidos nos finais da minha impaciência // A própria tarde declinava em tempo // E fervilhava a noite antes de acontecer.// E tudo me era dado e negado // No fundão profundo e imperfeito // Da memória.// PS - O "Blogger" não gosta de Poesia, não permitindo que os versos sejam apresentados separados. Assim, tive de me socorrer deste expediente de "sinalização" ...

21 de maio de 2012

MARCHA NA MARGINAL

O médico aconselhara-lhe a combater a hipertensão com a prática de actividade desportiva. Porém, era já muito evidente que lhe seria impossível esparramar-se numa bicicleta e pedalá-la energicamente; a natação também não lhe quadrava, pois apresentava danos micóticos nas unhas e isso envergonhava-o. Lembrou-se então de caminhar, de fazer marcha esforçada, enérgica. E como a cidade fosse marítima e possuísse uma longuíssima marginal, ele imaginou que acabava de descobrir a solução mais adequada. Aguardava os fins de tarde para tal efeito. Parava o automóvel onde calhava e cumpria escrupulosamente uma hora de marcha, dividida em dois blocos de trinta minutos, em sentidos inversos. Foi-lhe então possível reconhecer que os numerosos frequentadores dessa marginal resumiam a cidade com uma precisão quase fotográfica. Havia senhoras gordas a bambolear nas pernas curtas, anafadas, bufando como locomotivas; jovens longilíneas, loiras umas, outras nem tanto, de fatos de treino, garantindo ao corpo que nem um vestígio de adiposidade nele se instalaria; grupos de funcionários públicos a dizerem mal das chefias e a confundirem o ritmo das passadas; um casal recente, empurrando uma criança a dormir numa cadeira improvisada; frequentadores da ciclovia, alguns dos quais munidos com todos os adereços dos campeoníssimos; namorados desavindos, ele a forçar a passada e ela um pouco mais atrás, dizendo “vai mais devagar, meu pedaço de asno”; pescadores isolados, encarrapitados em rochedos costeiros, alheados de tudo o que não fosse o bulício provocado na linha pelo abocanhar do anzol; magotes de reformados, sentados no muro, todos a rirem muito, ou por causa do resfolegar da madame-locomotiva ou devido à face vermelhusca de um careca, que corria como se fosse um gamo; havia também um provocador profissional, que rosnava palavras feias, mais ou menos deste benévolo quilate “Comam mas é menos, seus cabrões”. O que o fidelizava era o cheiro salgado do vento marítimo, o jogo ambíguo de um sol-mostra-sol-esconde, nos dias de indomável nebulosidade e, finalmente, o espectáculo variável dos que acorriam à praia, rente às ondas, mesmo em fins de tarde, namoriscando o frio. Na quarta sessão aquilo começou a ficar menos sedutor. As senhoras gordas, as misses escorridas, os agentes administrativos certamente sindicalizados, os pares com nascituros enfiados em cadeiras com rodas, os ciclistas em exibição circense, os casais de namorados a vociferar misérias, os pescadores alheados de tudo, os reformados em compensações de anedotário, os calvos com o redondo do rosto tingido de vermelho, até mesmo o provocador em estado de fastio eram sempre os mesmos. E ele recordou uma frase que tinha decorado nos seus tempos de Universidade e que, salvo erro, fora proferida por um Humanista da Renascença italiana, que não necessitara de praticar a marcha energética para a declarar: “O Homem é uma besta cupidíssima por coisas novas”. Assim mesmo, mais ou menos, ou coisa que o valha.

17 de maio de 2012

AUTÓPSIA DE UMA GOVERNAÇÃO

Uma calamidade completa: o desemprego real ultrapassa em Portugal o milhão de pessoas! Isto acontece devido, fundamentalmente, ao ideário de ultra-liberalização dos que nos governam. Não há pior aconselhamento do que aquele que resulta de esquemas rígidos, pré-concebidos e moldados sobre realidades sociais e históricas diferentes da nossa. O governo português está entregue a estrangeirados, que imaginam que podem ser introduzidas entre nós, de supetão, as mesmas receitas que contribuíram, em certos momentos, para conferir prosperidade a países de capitalismo desenvolvido, com particular relevância para os Estados Unidos da América. Estes visionários da desgraça colocam o assunto nas baias da seguinte moldura lógica: abolido até à raiz o chamado “Estado Social”, colocados os cidadãos pelintras perante o mercado, eles teriam forçosamente de “criar a sua oportunidade”. Não mais função pública, não mais garantia de empregabilidade oficial, não mais sentimento de segurança. Assim sendo, cada um teria de se fazer empreendedor ou empresário, cada um seria dono e patrão de si mesmo, colhendo cada um o retorno do seu engenho e da sua capacidade de investimento. Foi isto, pensa Coelho e os seus apaniguados, que fomentou a riqueza das regiões de além-Atlântico. O primeiro-ministro sonha com um Hill Street em Lisboa e com um imenso florescimento da iniciativa privada um pouco por todo o lado. Ora, a rotura que este governo pretende fazer não é apenas o resultado de um mecanicismo mental completamente à margem da realidade e das tradições portuguesas. É uma perigosa miragem e um embuste, seja este deliberado ou não. Portugal não é um país prenhe de recursos, nem sequer apresenta um espaço geográfico imenso e pronto a ser desbravado por garimpeiros ou vendedores de ferraduras para cavalos. Portugal é (já o disse uma vez) um país adornado no sentido do litoral e completamente exausto e abandonado nas suas regiões de interior. E estas são de uma pobreza e de uma escassez de recursos que apertam o coração de todos os que ainda o sintam bater. Ora, não havendo recursos, não poderão existir oportunidades de iniciativa ou horizontes de investimento. Foi por ter sido assim, que as passadas governações, mesmo as da Primeira República, fizeram do nosso país um território de funcionários públicos. Não foi isto determinado pelo facto de se reconhecer que não existiam nos portugueses os genes da “capacidade industrial e industriosa”. Nada disto! Foi assim porque esta Pátria pouco tinha para oferecer, além dos frutos do mar, laboriosamente colhidos por pescadores, e dos frutos da terra, semeados e guardados pelo suor dos lavradores. E Portugal pôde ser o que foi com base em três esteios proverbiais: funcionários públicos, pescadores e agricultores. Veio a Europa e roubou-nos a pesca e a agricultura. Ficaram os funcionários públicos. Depois, veio o Coelho e decidiu, do alto do seu dogmatismo neo-liberal, que o País deveria ser, custasse o que custasse, uma desfocada imagem dos Estados Unidos da América ou talvez do Canadá. E começou a grande montaria ao funcionário público e depois ao trabalhador que tivesse alguma garantia de estabilidade profissional. O Coelho tinha de criar um espécime português novo, que mastigasse pastilha elástica, vagueasse no desencantado território, de um lado para o outro, encarasse com nojo a função pública e estivesse convicto de que a riqueza estava já ali, à mão de semear da sua voluntária iniciativa. Mas Portugal permaneceu. Permaneceu não igual, mas pior. Pior no seu abatimento, pior na sua desertificação, pior no seu desencanto, pior na avareza dos recursos inexistentes. O Coelho é que não desistiu, não desiste, não desistirá. O Coelho persiste em fazer coincidir este pobre Portugal exausto com o delírio da sua imaginação exaltada e doente. O Coelho já atirou para a valeta da vida com milhares de famílias. Deixem-no ficar e ele poderá ser o governante da pastilha elástica, cercado de andrajosos por todos os lados menos por um: o da gente que o bajula, simulando com ele concordar.