18 de novembro de 2012

HISTÓRIA DE UM NOVELO DE LÃ

Era uma vez um novelo de lã azul. O novelo era de boa lã e servia para muitíssimas coisas. Mas a utilidade mais evidente era a de poder fazer tapeçarias alentejanas. Estava o novelo, muito descansado, na prateleira de uma casa comercial quando entrou uma Senhora, muito afável, que perguntou ao marçano : "Diga-me uma coisa, meu jovem ; tem um novelo de lã azul para fazer tapetes ?". O Zé Luís (assim se chamava o marçano) olhou para a prateleira e replicou: "Temos aqui este produto. Mas não sei se a cor lhe interessa ". A Senhora afável pegou no novelo e afagou a lã com uma e outra mão. E disse : "Acho que está bem". E levou-o consigo. Mal chegou a casa da dita Senhora, o novelo foi misturado com uma infinidade de outros novelos, de cores variegadas : havia-os verdes, amarelos, castanhos e até roxos. E o novelo recém-comprado sofreu o vexame de lhe puxarem pelo rabo e o fazerem enfiar pelo buraco de uma agulha. Nunca fora tão maltratado. Sentiu ganas de se despedir e de voltar à prateleira da casa de comércio, onde tinha tido uma vida tranquila. Mas não o deixaram. A Senhora afável furou com ele uma espécie de serapilheira e colocou-o no penacho de um sultão, o qual, na tapeçaria, se encontava em exercício de ataque a um castelo cristão, dentro do qual existia uma moira cativa. Foi aí que o novelo de lã se sentiu honrado. Afinal, era muito melhor ser um penhacho no turbante de um sultão do que um pobre novelo na prateleira de uma casa comercial. E houve quem testemunhasse que ele segredou no ouvido da Senhora afável: " Fizeste bem em me ires comprar à loja do Zé Luís. Eu ali não passaria da cepa torta". A Senhora afável sorriu e respondeu-lhe : "Já o meu filho dizia a mesma coisa " . E continuou a trabalhar, cheia de fé e de optimismo. A história é verdadeira. A Senhora afável foi minha Mãe.

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