23 de dezembro de 2009

CONTO DE NATAL

Quando saiu de casa, tudo para ele era constante e nítido. Sabia onde arrumava a carteira, no bolso direito, bem fechado, não fossem os malandros surripiá-la num encontrão calculado. E também conhecia o caminho do correio, onde iria depositar a resposta à carta que levava no bolso esquerdo e da qual esperava bons efeitos. Era um trajecto concorrido, aquele que iria trilhar, talvez um pouco poluído, devido à passagem dos transportes colectivos e da torrente infindável dos automóveis particulares. Como o calendário assinalava a antevéspera do Natal, os passeio regurgitavam de gente, mais tolerante e risonha do que era habitual, “com licença, com licença, desculpe, ora essa, não tem de quê”. Havia uma cervejaria do lado direito que acolhia os bebedores do fim da tarde, ventrudos e opinativos, e do outro lado ficava a casa da Alzira, aquela trintona inexplicavelmente encalhada, proprietária de um rabo bem redondinho e de uns seios firmes, opulentos, de se lhe tirar o chapéu. Estugou o passo porque o relógio lhe mostrava que só faltavam vinte minutos para as seis da tarde, hora fatal do encerramento dos correios. Era forçoso que a carta de resposta seguisse sem tardança, de preferência em correio azul. E ainda tinha de a redigir, sobre o balcão do correio. Fitou primeiro a vidraça ampla da cervejaria e mal a reconheceu, tão silenciosa ela se lhe apresentou. Olhou depois para a janela da casa da Alzira, esperando que nela se recortasse o busto desafiador da sua proprietária, que isto de lavar a vista é para todos e não produz dano de monta. Perto do fim da rua alguma coisa rebentou no interior da sua cabeça. Sentiu uma grande paz interior mas também um pavor singular. Num momento, esqueceu tudo. E o mundo apresentou-se-lhe como se poderia figurar a quem acaba de nascer. Cercava-o um torvelinho de sons sem significado, de luzes sem disciplina, de cheiros sem intenção, de geometrias sem lógica. “Calma, sim, calma, isto já passa. Mas que é isto? Onde estou? Mas afinal quem sou eu?”. Era singular que tudo à sua volta permanecesse idêntico, mas esvaziado daquilo que poderia conferir-lhe finalidade. Era estranho que ele próprio navegasse à bolina na margem de si mesmo. Um homem barbeado passou por ele e saudou-o: “Olá, boa tarde ou boa noite, escolhe tu”. E sorriu-lhe sem parar. “Escolhe tu? Escolho o quê?”. Foi andando à toa pelas ruas da cidade. Apalpou num bolso o envelope bem dobrado, a que haveria de responder, mas verificou que lhe eram indiferentes as garatujas do endereço. Palmilhou quilómetros e saiu do perímetro urbanístico, irrompendo por campos de mato e de árvores torcidas, talvez oliveiras, sabe-se lá. Abateu-se sobre ele um negrume impenetrável, gótico. Sentiu-se cansado, mas vislumbrou uma luz bruxuleante no fundo da sua área de visão. Reconheceu que chegara a um território plano e imenso, lixeira gigantesca onde se acumulavam sacos de plástico, frigoríficos manetas, banheiras esburacadas, colchões com as molas à mostra, mobílias destroçadas. A luz vinha do interior de uma ampla estrutura de ferros torcidos, talvez o receptáculo de um camião TIR acidentado ou a cabina de um transporte colectivo abatido à carga. Ouviu gemidos de mulher, primeiro mais baixos e murmurados, depois mais castigados e audíveis. Vinham de um canto escuso desse circo de ferro, iluminado em bamboleio pelo coto de uma vela. Nesse canto, Alzira fazia força para parir. Mas ele não a reconheceu. Ficou parado, como um pássaro cego ou um fantasma sem argumento. “Ajuda-me, merda, ajuda-me. Isto dói tanto!”. E ele ajudou ao nascimento do filho de Alzira, não porque soubesse o que estava a fazer mas porque a palavra de Alzira lhe guiou o gesto e lhe afinou a perícia. Quando a criança soltou os primeiros choros, Alzira disse-lhe: “Agora vai-te embora e esquece tudo o que viste”. Ele respondeu: “Já não tenho nada a esquecer. Sabes, eu esqueci-me de mim mesmo”. E ela retorquiu-lhe: “Ainda mal para ti, ainda bem para mim. Some-te”, “Está bem, mas diz-me ao menos que papel é este que trago dentro do bolso”, “Dá-mo cá. Ah, sim, parece ser uma carta de amor. Diz aqui que uma tal Alzira esperará por ti num campo de lixo e te fará sentir como S. José. Como as mulheres são patetas, benza-as Deus”. E ele ouviu-se responder, como num eco: “Benza-as Deus”.

19 de dezembro de 2009

PAISAGENS CONTINGENTES

O desespero de Van Gogh cortou-lhe uma orelha. A descrença de Herculano fez dele um simples azeiteiro, em Vale de Lobos. O niilismo de Mário de Sá Carneiro pedia que na morte lhe ajaezassem um burro à andaluza e batessem em latas. O não-catolicismo de Fernando Pessoa converteu a pomba do Espírito Santo num bicho irrequieto, metendo o bico impertinente pelos quatro cantos do céu e sujando de excrementos todas as nuvens do Empíreo Sagrado. Significa isto que a vida é uma espécie de despedida, interpretada por cada um a seu jeito. Van Gogh despediu-se de si decepando a própria orelha. Mário de Sá Carneiro despediu-se dos cangalheiros amigos fazendo do seu funeral um carnavalesco cortejo, uma arruada estrepitosa, de burro em riste. Pessoa despediu-se da fé dos seus avós através de uma pomba semi-sagrada e pouco higiénica. Recordo o último quadro de Van Gogh, com passarada negra a rasar o amarelo-cereal do campo cultivado. Dizem que a última frase de Herculano, ao sentir-se morrer foi “tirem-me daí essas mulheres!”. Sá Carneiro viveu a morte em vida, sempre incomodado com a sua rotunda figura física, a chamar-se “Esfinge Gorda”. Pessoa desdobrou-se em heterónimos, que o fizeram ser, não sendo, existir, não existindo, como se a própria dialéctica do Ser-Outro de Hegel nele se exemplificasse reticentemente.

O que assusta é ficarmos sempre à tona das palavras, longe da íntima verdade do que cada um foi ou teria sido em momentos decisivos. O que assusta é sermos contingentes.

14 de dezembro de 2009

XXXIV - MEMORIAL REPUBLICANO

XXXIV - Afonso Costa ou a República de um convicto

Afonso Costa foi talvez o estadista mais amado e odiado da história contemporânea portuguesa. O Ultimatum inglês revelou-o em Coimbra como um combatente desassombrado da causa republicana e determinou-lhe o estilo da militância: um estilo cerebral, cáustico, intransigente, demolidor. Atrasou a sua progressão académica por fidelidade a uma greve estudantil e foi declarado pela Faculdade de Direito, por várias vezes, um dos melhores alunos do seu tempo. Só conhecia a radicalidade como método de análise social. Não se lhe pedissem meias-palavras, penumbras lógicas, matizes indecisos. Tudo isto ele repelia, com aborrecimento e impaciência. Não lhe bastava ser um crente, porque exigia de si próprio ser um convicto. E foi-o, mantendo-se na estacada dos mais agrestes combates até à descrença definitiva, não em si, mas no Portugal que enternecidamente serviu. O trabalho de conclusões magnas que apresentou no remate do seu curso jurídico, A Igreja e a Questão Social, incorria na inaudita audácia de contrariar, ponto por ponto, a encíclica De Rerum Novarum, de Leão XIII, apresentando a sociologia eclesiástica nela contida como uma simples habilidade dialéctica, sem alcance e sem visão de futuro. A Universidade de Coimbra não pôde deixar de o fazer lente substituto.
Não seria, contudo, a pedagogia universitária a consagrá-lo. As eleições legislativas de 26 de Novembro de 1899 fizeram-no deputado, mas a monarquia tentou contrariar o veredicto das urnas, sob a alegação de irregularidades formais. O Partido Republicano insistiu com a sua candidatura e ele viu-se confirmado pela vontade do eleitorado portuense em 18 de Fevereiro de 1900. Pouco depois da sua estreia parlamentar iremos vê-lo, no interior de uma Câmara dos Deputados maciçamente monárquica, a pedir a imediata mudança das instituições e dos poderes instalados. O seu combate transbordou também para o interior do próprio Partido Republicano. Afonso Costa sentia-se capaz de ser o estratega, a verdadeira eminência parda do republicanismo portuense. Nem todos se dispunham a reconhecer-lhe tal condição. Daqui resultaram tensões e desentendimentos com algumas figuras gradas da política e da cultura portuenses. José Pereira de Sampaio (Sampaio Bruno), porta-voz do grupo oponente, haveria de o atacar com rijeza. Afonso Costa, bem ao seu jeito, retaliou com o argumento último do desforço físico. Foi sob o breve e nevrótico consulado de João Franco (1906-inícios de 1908) que o seu génio combativo mais brilhou. Enquanto a Câmara Baixa se manteve aberta, os seus discursos atroaram os ares e as consciências, sustentando que a Casa Real, ao recorrer a “adiantamentos” financeiros, à margem da legalidade, se constituíra como ré e culpada de descaminhos pecuniários. Foi expulso, debaixo de armas, perturbando o rendilhado das boas maneiras legislativas. Quando João Franco recorreu à fórmula ditatorial, com a expressa conivência de D. Carlos, Afonso Costa envolveu-se na revolta de 28 de Janeiro de 1908, que se gorou, mas que também espavoriu as hostes monárquicas. Seguiu-se o regicídio, o timorato reinado de D. Manuel II e a proclamação da República. O governo provisório teve-o como Ministro da Justiça. Revelaram-se então, em simultâneo, as duas facetas mais polémicas do seu republicanismo: por um lado, o pendor filosófico do seu programático anticlericalismo e, por outro, o talento sociológico da sua normatividade jurídica. Do primeiro brotou essa controvertida Lei da Separação da Igreja do Estado; do segundo manaram leis reformadoras verdadeiramente decisivas, como as da imprensa, divórcio, inquilinato, família ou registo civil. A obra reformadora da Primeira República identifica-se, em larguíssima medida, com Afonso Costa. Quando se suscitou em Portugal o debate que dividiu os mentores da opinião entre os que se batiam pela entrada de Portugal na Grande Guerra, ao lado da Inglaterra, os que sustentavam o abstencionismo e os que perfilhavam a fórmula liberticida da germanofilia, Afonso Costa fez-se arauto do “guerrismo” pró-britânico, não porque fosse tal saída, no imediato, a mais cauta, mas porque seria, no médio e no longo prazo, a única digna dos nossos brios e interesses. Foi Afonso Costa, apoiado pelo seu Partido Democrático, quem exigiu da colectividade nacional este sacrifício e este tremendo encargo. É de supor que, sem ele ou à margem dele, Portugal se visse amputado dos seus domínios coloniais nos anos do pós-guerra.

O protagonismo interno de Afonso Costa extingue-se com a ditadura de Sidónio Pais, o “Presidente-Rei” (Jesus Pabón). Vê-lo-emos, bem mais tarde, a bater-se pelos interesses da sua pátria nos grandes conclaves internacionais: na Sociedade das Nações, no Tribunal Permanente de Justiça Internacional, na Comissão da Dívida de Guerra. Quando chegou a ditadura militar de 28 de Maio de 1926 e o Estado Novo do salazarismo, tudo foi feito para infamar e diabolizar a sua personalidade ou, após o seu falecimento, a sua memória. E isto acaba por ser compreensível: os regimes de pigmeus jamais suportaram a grandeza do civismo impoluto.

9 de dezembro de 2009

"SOPLILLO"

Rodrigo de Villandrando pintou um dia, em plena época barroca, um quadro impressionante: Filipe , o futuro Filipe IV, poderoso monarca de Espanha, fez-se representar junto do seu anão “Soplillo”. Digo bem e digo justo: do SEU anão. Ambos se encontram afogados naquelas golas farfalhudas que a moda de época tornava obrigatórias. As vestes, no geral, não divergem muito. Divergem, isso sim, as estaturas. E como não seria assim? “Soplillo” é anão, uma espécie de microcosmos do Céu em que reinará o seu soberano, uma rubrica do Infinito que é e virá a ser o seu soberano. Mas aquele poderoso Filipe, príncipe católico de uma Ibéria inquisitória, sabia que a evangélica lição o obrigava a reconhecer no miniatural anão um igual, não perante si, decerto, mas perante Deus. “Soplillo” manifesta um ar triste, de joguete conformado, fatalista, que não protesta em homenagem à segurança concedida por aquele mundano Todo-Poderoso ao seu brinquedo ocasional. O que impressiona, o que me impressiona não são vestes, expressões, pompas ou cores do quadro, ainda que neste se explicite uma insólita irrupção de tons laranja. O gesto, o gesto, o gesto ( e grito isto como se dissesse horror, horror, horror): olhemos de frente o gesto aristocrata, aquela mão pousada sobre a cabeça do anão, de maneira tão imperial como a mão de um Ulisses afagando um punhal, afogando um inimigo, furando o olho do Ciclope Polifemo adormecido. Se Filipe fosse Carlos V, a sua mão estaria pousada do mesmo modo num globo terrestre, para significar que o mundo lhe pertencia. Se Filipe fosse Luís XIV, a sua mão repousaria talvez na maçaneta do bastão que Hyacinthe Rigaud lhe reservou, numa pintura proverbial, para significar que tudo se lhe deveria sujeitar. Mão protectora? Que ingenuidade! Mão possessiva, mão de garra e de garrote, convertendo em coisa o que perto de coisa já estava, por desgraça do corpo-miniatura. Adeus, “Soplillo”! Agora vai dormir. E, olha, não te esqueças de rezar. O teu dono deverá estar a fazer o mesmo, por entre veludos, brocados e cheiros de círios consumidos. Deus é grande! Um dia, “Soplillo”, um dia talvez deixes de ser a coisa do teu príncipe. Por agora, é cedo.

4 de dezembro de 2009

NA CORRENTE



No rio da minha vida

Nadam peixes orientais

Exóticos e passionais.

No rio da minha vida

Há musgos e arvoredos

E alpondras de segredos.

No rio da minha vida

Vejo cardumes de prata

Numa correnteza exacta.

No rio da minha vida

Há margens de purpurina

E suspiros de menina.

No rio da minha vida

Vai-se o tempo a cada hora.

E quando me for embora

Do rio da minha vida

Manter-se-ão na corrente -

Testemunhos de quem sente -

Certos peixes orientais

Exóticos e passionais

E alpondras de segredos

A recordarem meus dedos

E suspiros de menina

Na alma de purpurina

Que não está porque ficou

Que não foi porque restou

Nesses cardumes de prata

Desta vida pouco exacta.

Quem irá pescar agora

Esses peixes orientais

Exóticos e passionais?

Outro será que não eu?

Ou um eu que outro será?

1 de dezembro de 2009

A INSOLÊNCIA DO ZÉ POVINHO (Final)

Comunicação apresentada no Congresso Internacional "Rafael Bordalo Pinheiro no seu tempo" - Lisboa: Universidade Nova - 18.11.2009 ( Na imagem: um falo, inserido deliberadamente no lajedo de Pompeia, assinalava aos interessados a direcção do lupanar)

É nos termos estritos da espiritualidade judaica e cristã que para nós se realiza a percepção valorativa do corpo humano. O homo erectus atribuirá toda a dignidade à cabeça e irá operando, a partir dela, sucessivas desvalorizações, em sentido descendente. A cabeça acolhe o cérebro, fulcro da nobilíssima actividade pensante e garante da superioridade deste antropóide sobre todas as demais criaturas. Foi sobre o rosto que incidiram as atenções das fisiognomonias, que tanto êxito alcançaram na Idade Média (Alexandre Magno, Miguel Escoto, Pedro de Pádua) e na Renascença (Bartolomeu Coclès, João de Indaguine, mais tardiamente João Batista Della Porta) , irrompendo em pleno período contemporâneo através da obra do monge suíço Johann Kaspar Lavater. Este místico sábio procurou descortinar através da interpretação dos recortes sombreados dos perfis, os sinais indiciadores da maior ou menor aproximação dos caracteres individuais à bondade desejada por Deus. O tronco, dando guarida ao coração, é ainda entendido como parte apreciável da anatomia humana. Uma longa genealogia de médicos do século XVI – como Jerónimo Cardan, Girolamo Fracastoro, Francisco Valleriola ou Laurent Joubert – prolongaram os ensinamentos de Aristóteles e Galeno, concedendo ao coração um papel não inferior ao do cérebro. Através dos seus movimentos, os vapores subtis e voláteis dos espíritos animais, engendrados pelo sangue, eram os portadores das faculdades da alma, ordenando aos nervos e aos músculos as suas acções e reacções específicas. Abaixo do coração situa-se o estômago, órgão da materialidade sem remissão, lugar natural das digestões e das eructações, votado à satisfação de gulas pecaminosas e venais. Segue-se-lhe o ventre, encarado como um saco de tripas por onde transitam matérias fétidas e exalações pestíferas. Finalmente, fazendo a apoteose do rebaixamento, surgia o baixo-ventre, lugar de inserção dos órgãos sexuais, veículos privilegiados do apetite carnal e da luxúria, ou seja, do pecado e do mal. Quer isto dizer que a imagem do homem se espiritualiza progressivamente em sentido ascendente e progressivamente se materializa em sentido descendente. E é no quadro desta simbolização antropomórfica que a hilariedade provocada pelo manguito do Zé Povinho deve ser compreendida. Não se trata apenas de enfatizar o anátema lançado por certa teologia católica sobre o riso, presente em autoridades tão distintas e tão separadas cronologicamente como S. João Crisóstomo, Basílio de Cesareia, S. Jerónimo ou Bossuet, ao abrigo do pressuposto de que Cristo nunca rira. A indagação baudelairiana do riso deixa-se complementar com a franca apologia materialista de Rabelais. É assim provável que todos nós, espectadores do manguito, gente tão séria e tão instruída que até frequenta congressos internacionais, deixemos cair um sorriso indulgente sobre o gesto fálico que nos nega o fiado, retirando-nos a confiança. É mais provável, contudo, que as gargalhadas mais sonoras partam dos cínicos de agora, daqueles cínicos que, à maneira de Rabelais, vivem em alegria as efusões da matéria e não se consideram vexados com isso e por isso. Mas é longa a experiência da espiritualidade crente no trânsito da vida dos Zés Povinhos lusitanos de agora e sempre. E, por muito cínicos que possam ser os exemplares tresmalhados deste estereótipo, até esses se deixaram fundir no molde judeo-cristão da civilização a que pertencem. O manguito é, portanto, a invectiva, a imprecação, a maldição lançada sobre o que incorre na suspeita de querer enganar. E essa fulminação traduz o sentido bem próximo de um “vai para o inferno”, de um “vai para as regiões da inferioridade”, de um “vai para o diabo”. As veredas da perdição para que nos adverte o catecismo católico baseiam-se na trilogia amaldiçoada do “mundo, diabo e carne”. Pois bem: o manguito não é mais do que a carne diabólica no mundo da perdição, mundo sensível, material, tentador. Isto permite-nos retirar uma conclusão paradoxal. O manguito do Zé Povinho de Rafael Bordalo Pinheiro é certamente um gesto obsceno e auto-defensivo. Mas ele não deixa de homologar e ratificar uma doutrina conservadora. Nele, quem triunfa não é Rabelais, é a Santa Madre Igreja. Se o manguito fosse um puro acto de exibição, como os de Gargântua, se o manguito fosse o arroto triunfal no fim de uma copiosa refeição pantagruélica, se ele não incluísse um juízo de condenação para com o outro, bem poderíamos sustentar que através dele se reivindicava a dignidade do estatuto material da vida. Não é assim. O manguito desqualifica o destinatário do gesto a partir da valorização do inteligível, do espiritual e da correlativa desvalorização do corpóreo. Assim sendo, ele declara subliminarmente, por palavras rudes, o que a filosofia espiritualista exprime explicitamente em discursos de requintada elaboração.

Vamos concluir. Quem se deslocar a Pompeia verificará que a direcção do lupanar da cidade está assinalada em lajes de pedra, no chão de veredas próximas, por falos nelas desenhados e criteriosamente orientados. É provável que as meretrizes de Pompeia exigissem o imediato pagamento dos seus serviços, sem margem para fiados. Mas a verdade é que não encontrámos por lá nenhum equivalente do manguito. É de supor, portanto, que tendo Pompeia exibido falos, escancaradamente, sem os condenar através de juízos larvares, adstritos a imprecações dirigidas a terceiros, é de supor, dizíamos, que esse vicioso lugar tenha sido alvo de uma sentença definitiva, proferida por alguma potência transcendente. É deveras provável que tenha sido por isso, portanto, que o Vesúvio a soterrou.



24 de novembro de 2009

A INSOLÊNCIA DO ZÉ POVINHO (2ª Parte)

Comunicação apresentada no Congresso Internacional "Rafael Bordalo Pinheiro no seu tempo" - Lisboa: Universidade Nova - 18.11.2009


Mas será que não poderemos sustentar o inverso destas interpretações? Será que o riso estrepitoso ou simplesmente discreto suscitado pelo manguito do Zé Povinho, longe de representar a reivindicação desalienante de certos hedonismos bordalianos não significará antes um juízo de superioridade formulado por quem vê em relação a quem cria? Expliquemo-nos. Baudelaire, nas suas páginas de estética, ao ajuizar sobre a obra dos grandes caricaturistas franceses e britânicos, propôs uma interpretação do riso a que o tempo deu a força do paradigma. O riso seria, em seu entender, o resultado da consciência da superioridade de quem ri e o anátema condenatório derramado sobre o objecto dessa hilariedade. Por isso, seria cruel, desapiedado e diabólico. Rimo-nos de quem escorrega e se estatela, do alto da nossa convicção de que jamais nós nos deixaríamos deslizar tão desastradamente e achatar no solo sujo. Rimo-nos dos que produzem inconveniências sociais ou mundanas porque estamos cientes de que o nosso respeito pelo bom-tom e pelos códigos protocolares de conduta nunca nos deixariam fazer tão tristes figuras. Rimo-nos duplamente do manguito do Zé e da heterodoxia iconográfica do seu criador por vermos corroborado, no gesto fálico, a imagem proverbial do patego mal-educado, do tosco labrego analfabeto, que nós não somos, e em Bordalo Pinheiro o ceramista popularucho, obsceno e primário que ficou muito aquém, por exemplo, da Arte consumada do seu irmão Columbano, por nós muito apreciada. Seria um riso ambíguo, sentado no varandim da auto-suficiência e, em derradeira análise, do desdém.

Pensamos, contudo, que uma das palavras mais decisivas poderá ser proferida nesta matéria por certa topologia ou topografia física simbólica que é indissociável dos juízos civilizacionais de valor. Chamamos em nosso socorro a célebre pintura de Rafael intitulada A Escola de Atenas. O centro da composição é ocupado pelas figuras de Platão e de Aristóteles. O primeiro, empunhando o Timeu, uma das suas obras mais importantes, ergue a sua mão para o alto, querendo significar a proeminência do mundo inteligível sobre as comezinhas realidades do empirismo sensível. Pelo contrário, a mão de Aristóteles estica-se e mantém-se paralela ao solo, opondo ao seu acompanhante a imediata referência do homem ao mundo da materialidade. Ora, a atribuição de um significado valorativo à imagem humana, seja ela qual for, é feita em concordância com arquétipos filosóficos, com quadros apriorísticos de interpretação que não apenas situam o homem, referindo-o a um alto e a um baixo, como o julgam em função da própria dominância das tradições civilizacionais. Na civilização judeo-cristã a espiritualidade reporta-se ao alto, ao céu da ideia pura e da Divindade monoteísta, do mesmo modo que a materialidade se encontra referida ao baixo, às regiões inferiores, onde imperam as forças obscuras e satânicas da dissolução e da anarquia. Platão ganhou a Aristóteles. A ordem do mundo repousaria numa significativa estratificação de realidades, nos termos da qual o bom Deus reina a partir de cima, impondo a tudo uma soberania evanescente, espiritualizada, e o mau Diabo se revolve nas maléficas regiões inferiores, regendo apenas os sujos instintos da sua materialidade. A imagem humana concentra nela própria o drama destes opostos. A postura erecta do homem permite-lhe dirigir o olhar para o alto das regiões celestiais, mas os seus pés encontram-se irremediavelmente soldados ao baixo das realidades terrenas. A ideia de que o corpo é o habitáculo degradado de uma alma imortal e potencialmente divina, já se surpreendia na terminologia dos pensadores pré-socráticos, que operavam a aproximação lógica e fonética entre as palavras soma (corpo) e sema (túmulo). O corpo era assim apresentado como o túmulo de uma alma agrilhoada, punida por ter pecado. Este veio interpretativo comunicou-se de Pitágoras a Sócrates e Platão, destes a Plotino e de Plotino, por via das exegeses árabes, à patrística medieval. Continua hoje a ser um lugar-comum da espiritualidade crente ocidental. E é ainda nos termos estritos desta espiritualidade que se realiza a percepção valorativa do corpo humano.

20 de novembro de 2009

A INSOLÊNCIA DO ZÉ POVINHO (1ª Parte)

Comunicação apresentada no Congresso Internacional "Rafael Bordalo Pinheiro no seu tempo" - Lisboa : Universidade Nova - 18.11.2009

A mitologia grega, no Hino a Deméter, falsamente atribuído a Homero, fala-nos na desventura da deusa Deméter, peregrinando pela terra calcinada, procurando a sua filha Perséfona. A deusa errante, saudosa de Perséfona, demitira-se voluntariamente da sua missão de tornar fecundo o agro e por isso não mais se vira sobre a rasura dos campos o amarelo dos trigos ou o verde das sementes germinadas. Perséfona fora raptada por Hades, deus dos Infernos, que obtivera de Zeus o consentimento para a tomar como esposa. Triste e desalentada, Deméter acabará por chegar a Eleusis, onde é recebida no albergue de Iambé, inculta e tagarela anciã. Inconformada com o pesar de Deméter, Iambé acabará por fazê-la rir, contando-lhe histórias obscenas, acompanhadas de trejeitos e esgares cómicos. Quando Clemente de Alexandria incluiu esta história de Deméter, no seu Protréptico, fez questão de assinalar que as gargalhadas da deusa teriam sido desencadeadas, sobretudo, pelo facto da sua interlocutora, numa das facécias e pilhérias a que se deu, lhe ter exibido o sexo.

Não nos importa, para o efeito pretendido, o desenlace do Hino a Deméter. Interessa-nos assinalar, isso sim, que a verbalização e a gesticulação obscenas, culminadas com a exibição do sexo, foram susceptíveis de desencadear na deusa reacções de riso.

Também o manguito atribuído ao Zé Povinho por Rafael Bordalo Pinheiro, mais frequente na cerâmica do que no seu humor gráfico, reproduz uma simbologia fálica e é o gesto complementar de uma imprecação: “Queres fiado? Toma!”. O manguito é o equivalente lusitano contemporâneo da facécia grega de Iambé. Também ele nos exorta e impele ao riso. Porém, ao contrário da narrativa do Hino a Deméter, ele não se esgota nos limites de uma comunicação intersubjectiva, sem a interferência de terceiros. O manguito não é apenas uma advertência dirigida por um taberneiro, por um merceeiro ou por um qualquer negociante aos que, não tendo pecúnia, querem levar a mercadoria contra a falível promessa de um pagamento diferido. É também o subtil convite à troça, ao desfrute colectivo, que o criador do Zé Povinho dirige, através do gesto sintético e simbólico plasmado na peça cerâmica, a todos os terceiros que a contemplam. É como se Rafael Bordalo Pinheiro, através do boneco, exprimisse um discurso de sentido duplo, por ser dirigido a dois destinatários diferentes. O primeiro destinatário é o suposto e pindérico comprador da mercadoria a crédito, ao qual Zé Povinho replica: « Eu sou ignaro » - como Iambé - «mas não sou parvo; não te dou a mercadoria contra nada; e desqualifico-te, exibindo-te um falo». O segundo destinatário é o colectivo, a comunidade visual, a quem o Zé Povinho garante, piscando o olho em cumplicidade evidente: « Não pensem todos vós, ignaros ou doutores, que aqui o Zé se deixa manobrar por essa corja de oportunistas de que o mundo está cheio. Exibirei um falo a todos os que tentarem manejar-me».

A figuração do manguito, como todas as figurações satíricas oriundas das condensações simbólicas, é um dito de espírito, um chiste coagulado, materializado em barro ou em faiança, mais raramente em papel. Ora, Sigmund Freud demonstrou, na sagaz análise contida na sua obra O dito de espírito e as suas relações com o Inconsciente, que a elaboração mental responsável pela síntese cómica pressupõe o contributo de três intervenientes: o autor da obra, o destinatário da zombaria e o verdadeiro fruidor do sentido do chiste. No caso do manguito, este beneficiário é incontestavelmente a colectividade dos que lhe atribuem o seu sentido mais genérico. Os portugueses, conhecendo a tipologia caracterial do Zé Povinho, integram a prevenção e ladinice do manguito no modo de ser e na verdade psicológica da criatura, ao mesmo tempo que desvendam a intenção fundamental do criador, ou seja, de Rafael Bordalo Pinheiro. São eles, desta maneira, os mais notórios elementos do triângulo formado pelo Zé, pelo suposto comprador oportunista e pela comunidade dos consumidores visuais.

Mas se é certo que há aqui um tertius gaudet, teremos de perguntar por esse quid que explica o gáudio resultante da explicitação do manguito. Rimo-no perante a intencional exposição de um falo, talvez mesmo de um órgão sexual feminino. Mas rimo-nos disso porquê? Uma explicação poderia talvez sustentar-se através da superação de inibições pudicas que rodeiam a consumação dos actos sexuais. O riso soltar-se-ia, assim, a partir da naturalização – quase poderíamos dizer da inocência – com que identificamos os cumes do prazer físico, inerentes ao exercício sexual. Risonhas teriam sido, por esta razão, as celebrações dionisíacas e os ritos orgiásticos e báquicos dos sátiros dos períodos clássicos, grego e romano. Sondemos, porém, outras pistas. Diógenes, o cínico, assumia claramente contra Sócrates e Platão a sua natureza animal, contestava a existência de uma physis espiritual e, para utilizar as palavras de Diógenes Laércio, seu biógrafo, não trepidava em fazer publicamente, na ágora de Atenas, “tanto o que respeitava a Deméter, como o que respeitava a Afrodite”. Assumia o corpo sem o menor vestígio de vergonha e quando se masturbava aos olhos dos transeuntes lastimava que não bastasse igualmente esfregar a barriga para apaziguar os rigores da fome com a mesma facilidade com que, assim, ficavam apaziguadas as urgências do desejo físico. O riso do manguito poderia representar, desta sorte, à maneira do cinismo, o desafio com que os apologetas dos transitórios prazeres do corpo exortavam os espiritualismos instalados a tomarem consciência da sua arrogância dogmática. Esta interpretação quadra suficientemente ao perfil comportamental de Rafael Bordalo Pinheiro, o qual, não tendo sido propriamente um cínico, preferiu sempre as óperas e teatros às missas e devoções, fiel adepto que foi da pândega lisboeta e da tertúlia bem regada.

13 de novembro de 2009

A QUESTÃO DECISIVA DO ENSINO


A Drª Maria de Lurdes Rodrigues foi substituída, na tutela do ensino secundário, pela Drª Alçada, que é best-seller de livros infanto-juvenis, ou seja, adequados a teen-agers. Haja Deus! Já era tempo! Mas uma simples substituição é insuficiente para purgar a intoxicação pretérita a que foi sujeito o sistema de ensino correspondente. A Drª Lurdes Rodrigues não se livrará do veredicto da História: foi a pior responsável da pasta que sobraçou, desde os tempos da monarquia constitucional. Não lhe cabem apenas estas miserandas responsabilidades. Elas têm de ser partilhadas com um governo, no seu todo, que quis demonstrar à Europa que seria possível, por um golpe de mágica, converter uma população primária, ignara e culturalmente deficiente, numa Grei comparável à que existe em territórios de além-Pirenéus. Que se fez para isto? Montou-se uma máquina estatística de facilitismo e irresponsabilidade cuja essência convertia os imbecis profundos em sábios inesperados. Depois, estabeleceu-se a monumental burla das "Novas Oportunidades". Um beneficiário das "Novas Oportunidades" é um bronco irremediável cuja titulação e credibilidade académica é obtida através de um sistema de inquérito a “capacidades” ilusórias. Um júri, ou um simples serventuário desta desgraça, pergunta ao "Novas Oportunidades": - “Diga-me cá, como é que se manda uma carta pelo Correio?”. E o potencial génio, a gaguejar, responde: - “Eu cá pego num selo, unto com saliva e faço seguir por correio normal ou azul, conforme joguei ou não no Euromilhões”. E o avaliador, siderado por tamanha plasticidade mental, retruca: – “Muito bem, o Senhor está apto para ir para a Universidade !”. E o pobrezinho … vai. A Drª Lurdes – ou alguém por ela – foi responsável por este despautério. A questão que se coloca consiste em saber se a Drª Alçada continuará a homologar esta vigarice legal. Mas o problema de fundo nem é exactamente este. O busílis desta droga está em saber se a orientação governamental perseverará ou não em converter os Professores do ensino secundário em amanuenses de formulários patetas. Hoje, um Professor do ensino secundário não tem espaço psicológico nem tempo mental para reflectir sobre a sua missão, para preparar cuidadosamente a sua aula, para auscultar as suficiências deste aluno brilhante, que urge promover, ou os défices daquele outro aluno deficitário, que importa amparar. Também não lhe é consentida margem de manobra para frequentar colóquios, congressos ou acções de formação, a menos que essas extravasem os tempos “obrigatórios” reservados à Escola, como se nesta se esgotassem todas as oportunidades de valorização, como se ali não proliferasse o tédio, a mediocridade e, em muitos casos, a sabuja intenção de lisonjear quem está "em cima". A tutela, na ânsia de funcionalizar esta bolsa de docentes, ajouja-lhe a missão com o preenchimento de formulários cretinos, de tabelas rombas, de inquéritos imbecis, de levantamentos fantasmáticos. E tudo isto já converteu a nobilíssima missão do ensino numa ópera bufa de Offenbach, onde nem sequer falta um General Boum, ventrudo e crasso, assumindo habitualmente a forma de um Secretário de Estado, que opina, entre flatulências de estômago ou de ventre, que “estes professorzecos precisam de ser metidos na ordem”.

Uma Pátria digna de si, honra os seus Docentes como o mais precioso capital de Futuro. Uma coelheira malcheirosa e desqualificada converte os seus papagueadores de livros únicos numa cáfila de serventuários babosos, de rojo perante os manipansos do Poder. O que o Engenheiro Sócrates tem de informar - e depressa – é se quer ser Primeiro-Ministro de uma Nação ou de uma capoeira.

É que, Senhor Primeiro-Ministro, todos nós sabemos que há quem prefira o bónus do ensino feito à pressa. Há que lhe perguntar para que lado propende a sua opção.

Quer responder?

10 de novembro de 2009

ECCE HOMO


Vieram dizer-me que tinha nascido.

E eu vi-o todo enrolado num xaile branco e rendado

Imaginado (mais do que feito) pelas agulhas pacientes da Mãe

Que tricotava em serões lentos e conversados

À lareira da casa antiga, serrana, perdida entre penedias calvas.


Vieram dizer-me que tinha crescido.

E eu tornei a vê-lo todo envolvido em graças de mulheres novas

Imaginadas (mais do que tocadas) pela incandescência do instinto

Que se espalha pelo corpo todo, em embriaguez de viço e de promessa

Por lugares escusos e rendados do verde de muitos bosques

Passeados, em fins de tardes cálidas, pelos que amam transitoriamente.


Vieram dizer-me que envelhecera.

E eu vi-o todo enrolado num capote alentejano

A enxotar o frio da alma, o reumatismo do corpo

E as memórias ( como punhais de saudade) a encherem

Os lugares mais escusos, mais secretos da alma emurchecida.


Vieram dizer-me que morrera.

E eu voltei a vê-lo todo torcido num caixão castanho,

Decorado com borlas brancas sem graça e sem amor terreno

(“Quando eu morrer batam em latas; etc, etc) …


Irei certamente encontrá-lo qualquer dia, quando eu próprio

Riscar o céu, de Ocidente a Oriente, com a alegria pagã dos renascidos.

Vê-lo-ei então abraçado à Via Láctea, revigorado e firme, montado num raio

De luz e de paixão imortal, procurando a raiz da Mãe, a carícia da Amante

E até, talvez, o conforto dum Deus qualquer, “sempre negado e sonhado”.

6 de novembro de 2009

DE TRANCOSO A S. PEDRO (Final)

Uma parte das Termas de S. Pedro do Sul e do seu encantamento

Direi agora a verdade toda. O torrão que mais contribuiu para a secundarização da nostalgia com que abandonara Trancoso - o tal pequeno, abençoado paraíso, de gelos tempestivos e de pardais adormentados em campos de alva invernia – esse torrão dá pelo nome de Termas de S. Pedro do Sul. Imagine-se um medalhão pintado por mão paciente, sobre uma base oval de metalização preciosa. Peça-se ao artista que o rio seja mais lento, a ramada fluvial mais acolhedora, a memória histórica mais impressiva, o carreirinho de passagem mais mimoso, o fontenário ribeirinho mais ingénuo, o bafo do vapor sulfuroso mais cismático, o barquito de recreio mais álacre, a distribuição das orografias mais equilibrada, a floração mais silvestre, a simbiose da terra com a água mais justificada, o marulhar da corrente mais murmurante, peça-se tudo isto à estesia da divina e artística Natureza, e a obra, uma vez consumada, poderá ir às águas lustrais do baptismo tomando o nome de Termas de S. Pedro do Sul. Lá foram, lá vão muitos, como outrora o fez D. Afonso Henriques, como ontem aí chegou a Rainha D. Amélia, pedir à virtude das águas o lenitivo para as insuficiências das fisiologias. Contudo, as Termas de S. Pedro do Sul cumprem desígnios de alcance insondável. Querem saber como surgiram? Eu vos conto.

Muito antes da imagem padroeira ter chegado ao bom porto do seu amieiro salvador, muito antes disso, já o Demiurgo do Mundo criara a Terra e os outros três elementos da cosmogonia portentosa : a água, o fogo e o ar. Num momento de distracção, o Bom Deus cerzira o local das futuras Termas com linha grossa e pontos desconjuntados. Esse lugar era pavorosamente feio. A terra, cinzenta e podre, exalava pestilências de agonia. A água cachoava em linha recta, lambendo as margens nuas. O fogo vulcânico derramava vómitos de lava na paisagem torturada. O ar pesado expulsava todos os rouxinóis de todos os lenhos calcinados. Eram assim as Termas no prólogo das Idades. Mas o bom do S. Pedro, guardador do céu, sentiu-se grato à enseada que o tinha recolhido. Chegara moído de tanto trambolhão, repisado por tão inclementes encontrões das lajes avulsas por que navegara em desacerto. O íncola que o tinha recolhido, depois de o catar de limos hereges e de musgos idólatras, murmurara entre dentes: “Ainda bem, meu estremecido S. Pedro, ainda bem teres aportado aqui; continuasses tu a flutuar na correnteza e ainda irias arribar à Terra Feia. Pobre de ti ! Ou ficarias para sempre enterrado nesse lugar, dando pasto a vermes fedorentos, ou a força bruta das cachoeiras te partiria de encontro a algum penedo ateu, ou as fauces do vulcão te consumiriam sem compaixão, ou o ar letal te provocaria temerosas complicações respiratórias”.

S. Pedro, sem dar acordo de si, ouviu todo aquele rol de vaticínios infaustos. Deixou que o levassem, entre círios e orações, para a capela do lugar. Mas ficou pensativo. Era injusto que um tão piedoso povo, agora credor da sua ventura e dos seus cómodos, agora seu fervoroso adorador, - fervor tamanho, só o da filha do Faraó por Moisés; e mesmo esse, a crer no marralhar das comadres do Empíreo, não estaria completamente expurgado de planos a longo prazo para futuras concupiscências … - era injustíssimo que tão excelente povo vivesse paredes-meias com aquele deserto inóspito, com aquela Terra Feia de pesadelo. S. Pedro rezou então uma sentida prece ao Criador: “Senhor, se a recordação dos meus bons serviços e da minha submissão e fidelidade To consentem, se os préstimos do meu apostolado e do meu Evangelho Te são ainda agradáveis, se o meu serviço de Porteiro da Tua Divina Mansão merece a Tua indulgência, converte, Senhor meu, a Terra Feia no mais encantador rincão deste ridente Portugal”.

Ficou então provado, se fosse preciso prová-lo uma vez mais, que a fé remove montanhas. A Terra Feia revolveu-se em paroxismos de ventura, alisou-se em água do rio, espreguiçou-se uma última vez, e serenou para sempre, transfigurada, pura, talvez encantada por “ver tão lindo caminho”. O fogo do vulcão recolheu-se ao seu útero de profundeza venal e dele apenas sobrou a nota de um fuminho discreto, domesticado, quase translúcido. E o ar ganhou leveza etérea, expulsando miasmas, repelindo exalações de inferno, destilando dulcíssimos odores, levitando em respirações balsâmicas. Estavam criadas, por graça de Deus e intercessão do Guardador de Infinitos, as Termas de S. Pedra do Sul.

Trancoso foi a imagem alvíssima da meninice feliz. Mas, meu Pai da terra, minha raiz saudosa, foi em S. Pedro do Sul que cresci em alegria encantatória. Por isso, tinhas razão quando disseste: “Vamos para S. Pedro do Sul !”.

Tu bem sabias do que S. Pedro poderia ser capaz …

31 de outubro de 2009

DE TRANCOSO A S. PEDRO (2ª Parte)



Nos inícios da década de 50, S. Pedra do Sul circunscrevia-se em balizas acanhadas. A vila, pelo menos quanto à sua expressão estética, começava no Mirante, de onde se abrangia, em plenitude, o vale sereno e meigo. Pontificava nesse miradoiro a memória do poeta António Correia de Oliveira, celebrada em azulejos azuis e em fragmentos de versos alusivos: “Olha o Vouga entre verduras // Devagar, devagarinho // Parece que vai pasmado // Por ver tão lindo caminho”.

Cogumelo de casario que depois se alastrava em fiada paralela aos cursos de água, o bairro da Ponte, logo ali, salvaguardava uma distância orgulhosa em relação ao pequeno centro da urbe sampedrense. Era como se lhe pretendesse significar que aos direitos territoriais de pertença autóctone se acrescentavam pergaminhos de epidérmica especificidade, profundados no correr das gerações. Os outros limites definiam-se imediatamente a montante da Câmara Municipal, igualmente nas cercanias da estação ferroviária, servida pelo ronceiro comboio do “vouguinha”, findando o espaço habitado para os lados do largo da escola velha, hoje inexistente, à borda da estrada de saída para as Termas.

Tal como agora, S. Pedra do Sul rescendia aos aromas de nobilitações pretéritas. Certificavam-no os palacetes pré-republicanos dos Palme, dos Reriz e dos Paula, memórias vivas de sociabilidades aristocráticas, evocadoras de visitas régias, como as dos monarcas D. Carlos e D. Amélia, nesse já então distante fim do século oitocentista. Contudo, a pulsação vulgar sampedrense reproduzia o ritmo plebeu do seu pequeno comércio, dos seus serviços administrativos e dos raros operários fabris arregimentados pela indústria de madeiras dos Vieira da Cruz. Os únicos centros de convívio identificaram-se, durante anos a fio, com o Café Edgard, onde se mostrava aos domingos o “fato de ver a Deus”, e com o Clube, mais elitista no seu associativismo restrito. A cadência sonolenta dos afazeres quotidianos só era interrompida pela invasão dos feirantes, uma ou duas vezes por mês. No largo da Câmara estrepitava, então, a vozearia das vendedeiras de potes de barro, dos negociantes de gado, dos mercadores itinerantes de tecidos baratos, de sementes, de hortícolas, de cutelaria, de aprestos agrícolas, numa farândola desregrada de cores e cheiros, de exclamações e invectivas.

Trancoso ia ficando cada vez mais longe. Era um gelo a derreter, sem se deixar olvidar, ao calor de um sol estival que escorria lá de cima, da largueza do céu redondo e lento, glorificado em ocultações crepusculares, em revérberos de azul e em promessas de ouro carminado, quando as últimas radiações esmaeciam, tingindo os contrafortes da serra de S. Macário. Nesse tempo ainda eu não tinha aprendido que tais penedias serranas poderiam ter dado guarida, outrora, a sábios anacoretas, a penitentes frugais, a ascetas aflitos com os pecados e desvarios do mundo. Nesse tempo, o que garantiam os meus condiscípulos do berlinde e da gramática era que, chegado ao cocuruto montanhoso, poderia lobrigar-se, com visão firme e horizonte desimpedido, o topo da portuense Torre dos Clérigos.

26 de outubro de 2009

DE TRANCOSO A S. PEDRO (1ª Parte)



Lembro-me, ainda miúdo, de ter saído de Trancoso como o pássaro de Bernardim: morto de saudades. Um dia, o Pai chegou a casa e disse: “Vamos para uma terra chamada S. Pedro do Sul”. Talvez me tenha metido na cama, invocando o império fingido dum sono invencível para não me verem chorar. Eu podia lá abandonar Trancoso! Esse Trancoso, medieval e muralhado, frigidíssimo e mágico, com estalactites de gelo a escorrer por ramadas tingidas de neve, defendido por portas imponentes e por guaritas de pedra secular, ornado com um pelourinho de recorte gentil, habitado por gentes rudes mas amoráveis e por ciganos vagueantes, montados em cavalos brancos, alados… Esse Trancoso de feirantes e romarias de arredor, fora, para mim, o berço da consciência em formação. Mas era o Pai que dizia “vamos para S. Pedro do Sul” e a voz do bondoso progenitor ecoava sempre, para toda a família, como o decreto do Destino. Fomos.

Era tudo diferente: um clima muito mais ameno, um vale de verduras exuberantes, sem o arrimo de penedias escalavradas, um sol mais petulante, um céu menos cinzento, uma sociabilidade menos perplexa e – a falta que isso me fez! – uma inexplicável ausência de ciganos, vestidos a preceito, montados em cavalos brancos, alados … No princípio, a troca não me pareceu compensatória. Em Trancoso imaginava historietas que me tinham como herói, fábulas consentidas pela proximidade do castelo, mesmo nas traseiras da nossa casa, em protagonismos burilados pelos olhos brilhantes de ciganas novas, de saias compridas e corpetes exóticos, prontas a rezar uma “buena dicha” por dois tostões. Assim, ora me figurava como general guardador de uma utópica torre de menagem, armado com um espadalhão temeroso, feito de toro de couve, ora me considerava um Galaaz de opereta, amado por uma ciganinha de porcelana, contra os desígnios execráveis de um pai-cigano barbudo, mas no fim, contemporizador e complacente, finalmente rendido à minha valentia de soldado de fronteira. Se Trancoso foi o ninho do meu romantismo infantil, S. Pedro do Sul viria a ser o bastião do meu despertar para o mundo das realidades banais. A Mãe nunca mais pôde cobrir de maravilha o meu despertar, porque ficou impedida de me acordar com a cariciosa notícia que tantas vezes lhe ouvi: “Filho, está tudo branco”. Fugira-me a neve. Mas ela transformara-se num rio coleante, bordado de arvoredos em fuste, orlado de sebes tão graciosas como os colos de ciganinhas sonhadas. E a Mãe passou a perguntar: “Então hoje, filho, queres que te arranje os calções de banho para ires ao Lenteiro do Rio?” Também me recordo que uma das minhas primeiras curiosidades, acabado de chegar à escola primária do Professor Abílio Valente Negrão, consistiu em perguntar aos novos condiscípulos o porquê do nome de tal terra. S. Pedro? Está bem, lembra um patriarca de barbas brancas, nevadas, destituído de cortezanias ciganas, é certo, mas de porte respeitável e cenho justiceiro, figura venerável quanto bastava para empurrar, triunfal, a pesada chave da eterna Bem-Aventurança. Mas … do Sul? Um sul no centro-norte? É certo que a dúvida acabrunhante poderia ter sido posta à consideração do sabedor e competentíssimo Professor Valente. Mas isso iria custar-me um preço arrasador – o preço da verdade. E eu já aprendera que a verdade, ainda que necessária à gravidade dos homens ponderados, é sempre prosaica e chã, logo desinteressante e destemperada. Preferi, portanto, a fantasia dos companheiros de classe. E foi assim que pude apurar que uma tal imagem de S. Pedro fora roubada num lugar chamado Sul e posta a vogar no leito remansoso do rio Vouga. À deriva, como a cesta de Moisés-menino, viera depois encalhar na raiz de um amieiro, aí permanecendo até ser descoberta por um piedoso indígena. Desta sorte, era curial que este S. Pedro, que poderia chamar-se do Vouga, tivesse sido baptizado pelo rio, seu padrinho, como S. Pedro do Sul. Não era esta a verdade histórica, documentada, narrada em alfarrábios macilentos e em forais vetustos? Que importava isso? Pois se o Gaidão, o Tomé, o Baptista e o Rocha, “ceboleiros” dos quatro costados, nados e criados nos pegões do Vouga, expertos na pesca à mão ou na caça aos grilos, asseguravam tão espantoso sucesso, quem era eu, recém-chegado e tímido, para deles duvidar? Assim, o Vouga transformou-se, a meus olhos, numa tranquila estrada líquida por onde deslizavam santidades à procura do seu lugar natural. Passou a ser um pequeno Ganges doméstico, ofertando à pequenada, como lugar certo de culto e de lavagem purificadora, a rasura amena do Lenteiro.

21 de outubro de 2009

UM NOVO MOISÉS

Amostra avulsa do novo Monte Sinai

Era uma vez um escritor velho de um país ainda mais velho. E era um bom escritor num país de sol e mar bastante. O dito escritor era comunista dogmático. O país não era tal. Um dia, deram ao escritor um prémio Nobel. E o escritor imaginou-se maior do que o país, porque nele não havia outros prémios Nobel, na sua particular habilidade, além do seu. O escritor quis então submeter o país à sua particular visão do mundo. Como este tivesse resistido, o escritor ameaçou com a abdicação da nacionalidade, apregoando que melhor seria que o país fosse anexado pela nacionalidade vizinha. E como esse país fosse ainda católico, o escritor desatou a invectivar o Deus da crença dominante a torto e a direito. O escritor estava cansado do país; mas – valha a verdade – o país começava a ficar ainda mais cansado do escritor. Daí que, quando ele decidiu ir viver com a mulher estrangeira para uma ilhota qualquer, onde podia à vontade submeter os calhaus à sua soberana vontade e à sua filosofia privada, o país deixou-o ir, sem pestanejar, com um vago sentimento de alívio a vibrar dentro de si. Ninguém lhe implorou para que ficasse, como ele esperava. As velhotas não rasgaram os vestidos e os jovens não representaram aos Poderes Públicos para que o escritor velho ficasse nesse país de sol bastante e mar q.b. … O escritor não disse nada, mas guardou no fundo da sua alma uma cólera muito semelhante à do Deus Iavé, divindade que dizia aborrecer mais do que tudo. Foi então que o escritor tomou a irrevogável decisão de irritar o país todo, sempre que a ele regressasse. E como o iria conseguir? Através do método bíblico: ou seja, mediante a afirmação ribombante, o raio discursivo atroador, as trovoadas do Sinai lógico, por alturas da subida deste novo Moisés ao seu cocuruto. Ora ( “em verdade, em verdade vos digo”) o que o escritor velho mais desejava era trepar ao cimo desse velho país de sol e mar bastante, depois, receber das mãos ossudas e necrófilas da Santíssima Trindade (Marx, Lenine e Estaline) as tábuas da Nova Lei e trazê-las, por entre avés e hossanas, aos gentios relapsos e mansos que mansamente o deviam aguardar. Porém, a História, impassível, iria repetir-se. Descendo das culminâncias do Nobel-Sinai, o escritor velho encontrou toda a matulagem – novos, velhos, burgueses, operários, desempregados e meninas casadoiras – a adorar o Bezerro de Oiro, num verdadeiro chinfrim anti-dialéctico. E o escritor velho regressou, melancólico, aos calhaus rolados da sua inóspita ilhota, onde o aguardava a mulher estrangeira, que lhe sorvia cada palavra como se viesse da boca de Deus-Padre, convertendo em dogma eterno cada uma das suas afirmações. Era lá que o velho escritor melhor se sentia. A vida, assim, valia bem a pena! Mas nem isso o aplacou definitivamente. De si para si, prometeu solenemente: - Eu volto, país maldito! E, para a próxima, levas mais!

16 de outubro de 2009

OLÍMPIA ( OU A VERDADE )


Mais do que a Vénus de Urbino de Ticiano, muito mais do que a Maja Desnuda de Goya, a Olímpia de Manet é o radical e violento desafio que o espírito laico e carnal lançou ao pudor católico e tradicionalista. A tela foi executada entre 1863 e 1865 e nela o pintor rompe estrondosamente com um passado de pequenas vergonhas e de pudorzinhos castamente postiços. A mulher está ali, reclinada como uma odalisca do serralho ocidental, e diz, diz claramente e sem equívocos, que é meretriz. O seu olhar fita-nos, inquire-nos num desafio de provocação desencantada. É como se nos estivesse a interpelar: - “Eu sei quem sou, mas sei muito melhor quem são vocês, homens de respeitabilidade suspensiva. Eu sei que o meu corpo vos incita cobiças inconfessáveis. E conheço – oh, se conheço! – as interdições insuperáveis, as surdas dogmáticas inibitórias, os protestos imaginários a que estais sujeitos, desde os do padre-mestre aos da envergonhada esposa, desde os da Bíblia que nunca foi por vós meditada aos do negócio, que vos exige as aparências da reputação imaculada. Reparai, no entanto, que a vossa verdade virtual está comigo, deita-se aqui, nesta chaise-longue onde desaguam os suspiros que omitis e as impotências que esconjurais”.

Lá fora, no mundo da conveniente mundanidade, estava um Segundo-Império francês ao qual se aplicava, sem remissão, a advertência de Karl Marx. E, também aqui, era como se o teórico do socialismo alemão soprasse ao ouvido de Napoleão III : - “Ouve, trambolho sofredor da próstata, ouve, sobrinho espúrio, dessorado, do Grande Napoleão de Iena e Austerlitz, ouve, cangalho físico do clister, putativo esposo de uma putativa e bela esposa: a História repete-se duas vezes, mas em versões diferentes. A primeira vez em tragédia e a segunda em farsa. Ainda não entendeste que és a farsa?”.

Para além de tudo isto, Olímpia, a meretriz, fita-nos desassombradamente, com a castidade da desilusão. Nos cabelos uma flor, no pulso a jóia de um mais generoso amante, no pescoço um laço de gato ao qual falta chocalho, só porque Olímpia já não necessita de atrair atenções e de dizer: - “Estou aqui!”. Sobra ainda a serviçal negra – mas vestida de branco – com um açafate de flores do último e açodado pretendente. Olímpia nem o olha, nem faz menção de esticar a sua mão cansada, que repousa sobre o triângulo púbico. Olímpia limita-se a estar ali, recostada no farto e alvo travesseiro, que talvez lhe venha sussurrar, nos raros momentos de solidão: - “Esta é a natureza humana. Humana e livre, livre e humana. A única liberdade possível é a do instinto. Entendeis? Tudo o mais é quebradiça convenção”.

12 de outubro de 2009

MASACCIO OU A MINHA REVOLTA

Passei hoje pela pintura de Masaccio, Adão e Eva expulsos do Paraíso, um fresco do século XV (1426-1428), existente na capela Brancacci, de Florença. Um anjo avermelhado e vingador plana sobre as cabeças dos condenados pais da Humanidade. A espada que ostenta na mão direita é o símbolo do implacável veredicto divino, reforçado pelo gesto da mão esquerda, que lhes aponta o caminho sem retorno para o mundo agreste e bem diferente do Jardim paradisíaco das Delícias. Nu e atormentado caminha o Homem, de cabeça apoiada nas mãos e sexo pendente, encolhido (antes do restauro deste fresco o pudor eclesiástico tapara com uma pudica folha o membro viril deste ser danado); nua e vexada segue a Mulher, com a face voltada para os céus indiferentes, a boca escancarada e as mãos protegendo seios e vergonhas de entre pernas.

Confesso nunca ter entendido a noção de pecado original. Nunca! Nem sequer nos momentos mágicos, mais queridos do que quaisquer outros, coincidentes com a voz de veludo da Senhora minha Mãe – a única Madona da minha pintura de alma – explicando-me incansavelmente que Adão e Eva tinham desobedecido ao Senhor das Trombetas, do Infinito e das Tempestades e que, por tal facto, seriam doravante obrigados a gerar na dor a descendência e a regar a terra avara com o suor do rosto. Era um Senhor tirânico, este Deus. “Mas o que é que eles fizeram?”, perguntava a minha inocência aflita. E a Mãe – não a do Céu, mas a minha … - incansavelmente, explicava: “ Foram tentados pela serpente e, contra as ordens do Senhor, comeram a maçã da Árvore Proibida”. E eu repontava: “Mas diz-me, diz-me Mãe, não foi o Senhor que criou a serpente? Não foi Ele que plantou ou mandou plantar no Paraíso a Árvore Proibida? E não foi Ele a oferecer a Adão a sua tentadora companheira?”. Lembro-me que a única Senhora dos meus dias mortais suspirava, ou sorria timidamente, como se estivesse a pedir desculpa ao Altíssimo por ter parido esta dúvida em embrião. E, acariciando-me os cabelos, declarava com doçura tranquila: “Meu filho, ainda és muito pequenino. Há coisas que não podes entender. Verás que quando cresceres, tudo será mais simples, mais explicável”. E então eu sossegava, não porque tivesse varrido a fuligem do entendimento mas porque os dedos lentos da minha Mãe, movendo-se nos meus cabelos crespos, me diziam que o Paraíso estava ali, à beira dela, e que tudo se explicava pelo sentimento mútuo da carinhosa dádiva.

Hoje encontro novamente este Deus potente e o seu Anjo vermelho. E, recordando a suavíssima palavra da minha Mãe, digo muito baixo, para que ninguém me ouça: “Que Deus é este, que justiceira Potestade é esta, que nada explica, tudo esconde e leva para longe aqueles que amamos sobre todas as coisas?”

8 de outubro de 2009

DÚVIDAS DE CRONOLOGIA


O Diário do Minho, na sua edição de 8 de Outubro de 2009, divulga um livro do Senhor Cónego João Seabra, intitulado “O Estado e a Igreja em Portugal no início do Século XX. A Lei de Separação de 1911”, que reproduz, talvez mais condensadamente, a tese de doutoramento defendida pelo seu Autor em Janeiro de 2008, na Pontifícia Universidade Urbaniana de Roma. O Senhor Cónego não é um qualquer vulto ignaro, bisonho e anónimo. É licenciado em Direito, pároco da Encarnação (no Chiado de Lisboa), Promotor de Justiça e Promotor do Vínculo do Tribunal Patriarcal de Lisboa, além de Assistente Diocesano do movimento religioso “Comunhão e Libertação”. A propósito do seu livro, o Diário do Minho titula que “Bispos e Clero foram precursores da separação Igreja-Estado”. E porquê ? – pergunta a nossa espessa ignorância. O jornal explica: “Na tese recorda que foi o próprio Arcebispo de Évora da altura, D. Augusto Eduardo Nunes, quem manifestou a Teófilo Braga e a Afonso Costa, seus colegas estudantes em Coimbra, abertura da Igreja para rever o estatuto de que gozava na Monarquia e “que não se podia manter”. Confesso que desconhecia completamente que o estudante Augusto Eduardo Nunes, mais tarde Arcebispo de Évora, tivesse sido colega de Teófilo Braga e de Afonso Costa.

Teófilo Braga iniciou o seu curso na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, vindo da sua ilha açoriana de S. Miguel, no ano lectivo de 1862-1863. Concluiu o 5º ano em 1867 e, tendo sido estudante aplicado, foi convidado a doutorar-se, pelo que se matriculou no 6º ano em Outubro de 1867, defendendo com êxito a sua tese em Julho de 1868. Como entretanto se casara, nesse mesmo ano de 1868 foi para o Porto, aí tendo vivido, na casa dos sogros, com a sua Mulher. Em 1872 concorreu com êxito à cadeira de Línguas e Literaturas Modernas do Curso Superior de Letras e transferiu o seu domicílio para Lisboa.

Por outro lado, houve um Costa a formar-se em Direito em Coimbra em 1868. Mas não era o Afonso Costa da famosa “Lei da Separação” (1). Era antes o seu progenitor, Sebastião Fernandes da Costa. O Afonso Costa colega do mui distinto Arcebispo de Évora abria os olhos ao mundo pouco antes da mudança de Teófilo Braga para a capital. É que nasceu em Março de 1871. E, apesar de muito dotado, o futuro legislador republicano só se inscreveu no 1º ano da Faculdade de Direito no ano lectivo de 1887-1888, tendo concluído a sua licenciatura em 17 de Janeiro de 1895. Ou seja: é uma completa impossibilidade cronológica que Teófilo Braga tenha sido colega de Afonso Costa nos estudos jurídicos da cidade do Mondego.

Porém, já é absolutamente crível que o aluno Augusto Eduardo Nunes tenha sido colega dos dois. Mas, neste caso, tê-lo-ia sido em momentos diferentes. E isso poderia ter acontecido se o futuro Arcebispo tivesse frequentado as aulas entre os princípios dos anos 60 e os meados dos anos 90 do século XIX. E aqui, de duas uma: ou o aluno em causa era muito enfermiço, tendo interrompido constantemente os estudos para tratar das suas doenças, ou era cábula e “renitente de cabeça”. Inclinamo-nos para a primeira hipótese, pela muita consideração intelectual que nos merece a Igreja Católica Portuguesa.

Claro que o Senhor Cónego João Seabra nos irá explicar detalhadamente tudo isto. Ficamos a aguardar , com ansiedade, o imperioso e imperativo esclarecimento.

(1) - Fiz correcção desta passagem do texto no dia 10 de Outubro, após ter recebido do meu fraterno Amigo Doutor Bigotte Chorão a indicação do nome próprio do pai de Afonso Costa, o qual não dava pelo mesmo nome do seu filho, mas sim pelo de Sebastião.

6 de outubro de 2009

COIMBRA E A REPÚBLICA

A capa da revista Alma Nacional, dirigida por António José de Almeida, foi desenhada por António Augusto Gonçalves, nome memorável do republicanismo conimbricense. O texto que se segue foi propositadamente redigido para ser dito, como realmente foi, no Sarau Comemorativo dos 99 anos da implantação da República, o qual decorreu ontem, 5 de Outubro, no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra.


Coimbra já foi Cidade. Sim, Cidade com maiúscula. No tempo das invasões francesas constituíram-se batalhões académicos para derrotar os invasores. E Coimbra deu à sorte das armas o que havia de melhor na sua Academia. Coimbra, aí, foi Cidade, Cidade grande, não acham? Julgavam-na a dormir, encostada à colina sagrada, toda espreguiçada nas vertentes coroadas pela torre do antigo Paço Real, aquele Paço que depois foi Universidade? Julgavam-na distraída, toda a cismar, olhando o Mondego como uma sonâmbula? Pois enganaram-se! Coimbra deu o melhor da sua juventude para combater os franceses. A Coimbra foi então Cidade com maiúscula, sim! Mais tarde, quando foi preciso travar o absolutismo de D. Miguel e proteger o liberalismo de D. Pedro, Coimbra voltou a vestir farda e a dizer que queria ser livre, para poder continuar a ser bela. Depois, esse mesmo liberalismo envelheceu. Tornou-se assenhorado, todo salamaleques, a beberricar chá e a comer bolinhos em salões da aristocracia, a ouvir versos sem sal e a fazer vénias palacianas. Era no tempo em que Garrett dizia: “Foge cão, que te fazem barão. Mas para onde, se me fazem visconde?”. Que gente aquela, que mundo aquele! Eu cá, meus Senhores e minhas Senhoras, que tenho costela futrica, eu que ainda fui de uma cidade onde existia uma ponte de pedra tão estreitinha que lhe foi preciso fazer um Ó numa ponta para se cruzarem duas carroças, eu cá, digo-vos em segredo, não gostava daquilo. E comecei por apreciar o Senhor D. António Alves Martins, o bispo de Viseu, que garantia que a religião se queria como o sal na comida, nem muita, nem pouca. Tempos depois, começou a falar-se em República em Coimbra. Era quase proibido, vejam bem. Como se fosse maleita grave gostarmos das coisas públicas – escolas, hospitais, creches, meios de transporte, monumentos, ruas, tudo isto bem nosso, porque tinha sido pago com o nosso dinheirinho. Ali entre 1878 e 1880 já em noites silenciosas se ouvia gritar, fora de horas, para que os polícias não viessem chatear: “Viva a República!”. Essas vozes tanto podiam partir do Penedo da Saudade como do ermo do Calhabé ou do Terreiro da Erva. “Viva a República!”. Umas vezes havia resposta igual, outras um silêncio. Mas era como se estivessem a escrever-se mensagens de fogo no ar. E Coimbra, fosse ela estudante ou fosse futrica, sabia que pela República respondiam pessoas de bem. Lembram-se de António Augusto Gonçalves, de Manuel Augusto Rodrigues da Silva, de Abílio Roque de Sá Barreto? Gente honrada, gente de qualidade, gente republicana. Quem sabe se numa dessas noites de silêncio e de prata no céu, não teria sido um deles a responder à voz de “Viva a República” com outro “Viva a República”? E lembram-se do professor universitário Manuel Emídio Garcia? Esse quase que meteu o ensino republicano dentro das aulas de Direito da Universidade. Um escândalo? Talvez! Mas um escândalo feito em boa hora. E recordam-se do grande José Falcão? Esse viu o seu lugar de lente por um fio, quando escreveu um folheto a favor dos revolucionários da Comuna de Paris. E também o quiseram expulsar quando desconfiaram que era dele a Cartilha do Povo, onde se ensinava que a vida dos homens, fossem pobres ou ricos, era para ser vivida de pé, sem ter que se rastejar perante esta ou aquela autoridade. É que a Pátria somos nós todos, não é assim? Pode lá ser de outra maneira… E quando os republicanos do Norte fizeram no Porto a revolta de 31 de Janeiro de 1891? Apanharam Coimbra a dormir? Mais uma vez, não. Dois jovens estudantes, que já tinham protestado por ocasião do Ultimato, prepararam as coisas com José Falcão para que este tomasse conta do poder civil de Coimbra, se o Porto fizesse a República. Querem saber como se chamavam? O estudantinho de Medicina dava pelo nome de António José de Almeida; o de Direito era o Afonso Costa. Havia um grupo de gente decidida a atacar o Quartel da rua da Sofia, se as coisas corressem bem no Porto. Correram mal? Pois correram. Mas julgam que Coimbra ficou a dormir? Era o que faltava! Coimbra fez a greve académica de 1907 contra o ditador João Franco. Nem valerá a pena contar tudo por trocados. E as resistências contra o Estado Novo? E a campanha do General Humberto Delgado? E as greves de 1962 e de 1969? Coimbra já foi e continua hoje a ser Cidade. Cidade com letra maiúscula. Cidade com gente limpa, honrada e republicana a fervilhar nas suas praças e ruas, a admirar os seus monumentos, a andar nos seus transportes, a estudar nas suas escolas, a defender as suas coisas públicas – que o mesmo é dizer : a preservar a sua República. E quando hoje, de Celas ou do Choupal, de Santo António dos Olivais ou dos Arcos do Jardim, por uma noite de silêncio prateado, alguém gritar “Viva a República”, tenham a certeza, Senhoras e Senhores, que uma Cidade, quase em peso, responderá: “Viva! Para sempre, Viva a República!”

2 de outubro de 2009

VARIAÇÕES SOBRE O ROSTO

- “Não vou com a tua cara”, disse-lhe ela. Esta frase continha, sem que ela o soubesse, toda uma tradição cultural, multissecular e perturbadora. É certo que nos é permitido invocar a advertência dirigida por Jesus Cristo a S. João, intimando-o a não julgar segundo o rosto. A verdade, porém, é que muito antes do nascimento do rabi da Galileia se organizavam tábuas empíricas de interpretação do rosto. Era como se este fosse o espelho mágico e enigmático de profecias temperamentais e de pendores de carácter. A cara, que os primitivos sabiam nunca poder ver directamente, que só se divisava pelo reflexo em águas paradas de regatos ou em lâminas líquidas de poças de chuva, esse rosto era, verdadeiramente, a revelação da pessoa. Por isso, ele encontrava-se de tal forma identificado com o mais fundo e radical de cada um, que todos o tratavam com reverência sacral. Ainda hoje, em certas comunidades primitivas, é forte injúria tentar retratar a face de alguém. É como se o fotógrafo estivesse a cometer uma profanação, um roubo à falsa fé, uma espoliação imperdoável. O período da Renascença foi especialmente permeável a certas “gnoses” interpretativas baseadas em indícios, em sinais, em augúrios. Apesar do seu pendor experimental e científico, o próprio Leonardo da Vinci foi ao ponto de proferir afirmações como estas: “Os que têm linhas muito acentuadas entre as sobrancelhas são irascíveis”; “Os que têm muito marcadas as linhas transversais da fronte são homens que não param de se lamentar, em público ou em privado”. Esta tradição, que remonta a textos aristotélicos autênticos e a outros que lhes são falsamente atribuídos, irá combinar os signos astrológicos, com a quiromancia e com análises exaustivas feitas à forma do nariz, à implantação das orelhas, ao volume das bochechas, à carnação dos lábios, à vastidão ou exiguidade da testa, ao volume e textura dos cabelos, etc. Na transição do século XVI para o século XVII, iremos encontrar a obra perturbante de Giambattista Porta, que no seu livro Da Humana Fisiognomonia, tentará abordagens de comparação sistemática entre as semelhanças dos traços humanos e dos focinhos animais, procurando descortinar nuns e noutros afinidades de carácter. Isto chegou até nós, em juízos zoológicos insistentemente invocados: “Ele é forte como um touro, manhoso como uma raposa, valente como um leão”. No século XVIII aparecerá a obra do monge suíço Johann Kaspar Lavater, com um estudo exaustivo da diversidade de perfis humanos, indagação que vinha animada de propósitos de diagnóstico científico. Ir do traço fisionómico à verdade mais funda do carácter, do sinal à intimidade do eu, nisto consistiu a questão que tanto entusiasmou certos círculos culturais europeus. Depois viria Gall e a sua frenologia ou craneoscopia, procurando retirar ilações do estudo das bossas cranianas. E, em pleno século XIX, os estudos de Lombroso levantavam a dúvida sobre se haveria um rosto típico dos criminosos natos.

“Não vou com a tua cara”. Uma simples frase pode conter um mundo de implicações; sem que, na maior parte dos casos, o autor do juízo se dê conta do mundo simbólico que lhe subjaz.

28 de setembro de 2009

DERROTAS ELEITORAIS

Agora é a vez dos analistas. Serão muitos e de colorações variadas. E todos dirão, em concordância com o seu interesse ou a sua inclinação partidária, que o partido deles ganhou as eleições. Mesmo quem agora perdeu vai juntar a vitória antecedente ao previsível triunfo futuro, dizendo, com prosápia e entono: “Nós ganhámos, claro! Podíamos lá perder! ”.

Serão poucos os comentadores, analistas, autores de artigos de fundo, escribas de ocasião, articulistas e quejandos que se atreverão a fazer incidir a opinião dos leitores numa pequena particularidade que, só por ela, condena sem remédio e desqualifica sem retorno o actual regime. Refiro-me à taxa da abstenção eleitoral, que saltou dos 34,9% de 2005 para os 39,4% do ano em curso. É ela que torna pirrónico o triunfo dos que dizem ter ganho e faz insignificante a derrota dos que alegam não a ter sofrido. É ela que severamente repudia os farisaicos beneficiários do descalabro cívico a que assistimos.

Bem sabemos que o tempo estava bom e convidava a sair. Este argumento chegou a ser aduzido por alguns. Se tivesse chovido, seriam os mesmos preciosos opinantes a declarar que os eleitores, temerosos do frio, haviam decidido ficar em casa. A opinião pública vai julgando e condenando cada vez mais esta fórmula que alguns designam por “democracia representativa”. A questão toda está nisto: ou o regime não é digno do nome que ostenta, por não haver “democracia” que resista ao desprezo dos cidadãos, ou os representantes são indignos da “democracia” que dizem servir, humilhando-a sistematicamente, por sua culpa e responsabilidade.

Há razões, poderosas, inegáveis, conhecidas de todos, que esclarecem e justificam este voluntário afastamento das assembleias eleitorais por parte de quase meio “país legal”. Os responsáveis estão identificados e sobre eles já impendeu o infamante veredicto colectivo. Sabe-se, até, que a maleita não é apenas nossa, não se confina exclusivamente ao pátrio torrão, não é escalracho que apenas medre em agro lusitano. A Europa denuncia, no seu todo, este mesmo estado comatoso. O que mais espanta é que todos façam “vista grossa” à mortal doença, jogando com artifícios de simulação que já não são bastantes para esconder o desastre. Que se espera afinal? Que daqui a uns anos a abstenção suba a 75% ? E, depois disso, os estados-maiores da partidocracia instalada irão continuar a cultivar o autismo imbecil e o narcísico isolamento, reiterando incansavelmente, para a família, para a vizinhança, para o compadre, para o correligionário: “Afinal, bem vistas as coisas, lá ganhámos !”?

Por mim, prefiro declarar, sem alegria, mas cada vez com menor paciência: “39,4% de abstenção numas eleições legislativas? 39,4% num dia soalheiro e cálido? Não há dúvidas possíveis: perdemos todos!”.

25 de setembro de 2009

HOMENAGEM A UM AMIGO

O Autor deste blogue e o Dr. Alberto Vilaça

A sala de leitura da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra enferma, contra a sua própria função, de uma deficiente iluminação natural. Apenas as fiadas de mesas de leitura do fundo, mais próximas de uma uniforme superfície envidraçada, recebem com maior generosidade a luz do astro-rei. Uma boa parte dos leitores que aí acorre vê-se na necessidade de recorrer a candeeiros eléctricos laterais para poder ler com menor mobilização de esforço.

Recordo-me que numa certa manhã nevoenta, em que tive de a frequentar, deparei com uma silhueta de homem em pose singular, que me impediu, nos primeiros instantes, o reconhecimento inevitável, caso o rosto desse leitor se apresentasse em atitude normal. Não era, porém, assim. Estava ali alguém que demonstrava a concentração de um esforço tenso, tenaz, sacrificado, no livro que o absorvia completamente. Mal se lhe lobrigava a face, tão próxima era a distância entre ela e as folhas do volume aberto sobre o tampo da mesa, artificialmente iluminada. A imagem que até mim chegava era a da mais completa unidade entre o livro e o leitor. E ela denunciava que quem assim lia se encontrava com enormes dificuldades de visão, embora também testemunhasse que nem por um momento teria perpassado pela vontade daquele leitor a hipótese de capitulação ou de desistência. Era como se ele nos dissesse, numa mensagem sem palavras, envolta na impressão das atitudes unívocas: “Enquanto eu puder, enquanto eu puder e até ao limite dos limites, aqui estarei para te decifrar”. Para quem gosta de livros, estava ali vertida a forte simbologia que acompanha as dádivas incondicionais da existência. E também as servidões da vida, nascidas do défice associado ao correr implacável do Tempo. Essa imagem percepcionada tocava-me do modo mais pessoal, uma vez que eu próprio sofria e sofro das consequências de um grave acidente de visão, que me deixou sequelas irreversíveis. O respeito que senti por aquele leitor (até então anónimo) foi tamanho, que nem me atrevi a caminhar normalmente. Como tinha de lhe passar ao lado, desloquei-me mais lentamente, quase suspendendo a respiração, para não o incomodar, e pedindo ao soalho e aos sapatos que não rangessem. Não fui bem sucedido. Ao rasar a carteira de leitura daquele homem amoravelmente dobrado sobre as páginas, ele – talvez por fadiga, talvez por curiosidade – levantou a cabeça e deu-se a conhecer. Era o Dr. Alberto Vilaça, aquele Amigo que tanto admirei e venerei, como Intelectual, como Escritor, como Político e como Cidadão.

- Então, Senhor Doutor, por aqui? – interpelei-o eu, omitindo quaisquer referências ao facto estranho de não o ver ocupar uma mesa mais próxima das vidraças do fundo da sala.

- É verdade. É verdade. Foi preciso vir até cá, para verificar uns dados necessários ao meu próximo livro. E como os dicionários bibliográficos e as enciclopédias ficam além, naquela estante, pedi que me fosse distribuído este lugar. Estou mais perto do que preciso.

Trocaram-se mais umas palavras de circunstância e despedimo-nos com a costumada cordialidade. Ao afastar-me, olhei para trás. A figura voltara à forma inicial: arqueada sobre o volume, como se o quisesse abraçar ou o estivesse a beijar. E não sei que estranho génio, que singular vibração, que oculto testemunho me trouxe, a partir daquela mesa, palavras ciciadas que diziam, em oração laica: “Enquanto eu puder, enquanto eu puder e até ao limite dos limites, aqui estarei para te decifrar”.