2 de agosto de 2008

SUSPENSÃO DESTE BLOGUE

ESTE BLOGUE SUSPENDE TEMPORARIAMENTE A SUA ACTIVIDADE, RETOMANDO-A EM SETEMBRO (SE DEUS, O DESTINO OU O ACASO O CONSENTIREM).

31 de julho de 2008

SOLIDÃO NA MULTIDÃO


Os milhares de milhões de seres humanos que hoje habitam o nosso planeta prenunciam um sombrio futuro para o reduto das liberdades civis e políticas. O problema não resulta apenas, segundo pensamos, do inevitável esgotamento de recursos e da intolerável pressão sobre o meio ambiente, sobre a fauna, sobre a flora e sobre os recursos naturais em geral. Soubemos, desde os alvores da hominização, que este bicho inquieto e estranho, este bípede com cérebro complexo, cuja natureza reivindicamos, não era mais do que um predador sem freio, uma “besta cupidíssima por coisas novas”, segundo a caracterização de um humanista italiano cujo nome já se me apagou da memória. E fomos também sabendo que a sua incessante multiplicação se traduz, invariavelmente, por um teor, cada vez mais acrescido, de conflitualidade e de anomia. É certo que a espécie humana necessita de hiatos anómicos, ou seja, de períodos intermitentes no decurso dos quais se procede à abolição das normas, das regras admitidas de conduta, dos travões sociais com que se anestesiam os fermentos da desordem e da licença. O Carnaval, sobretudo o que foi vivido na época medieval, trazia este selo de vertigem e de subversão. Contudo, a transgressão momentânea era o ingrediente equilibrador que logo encaminhava a sociedade para uma vivência “normal”, a partir das Cinzas. Hoje a festa, seja ela carnavalesca ou não, é outra coisa. Ela parece ser uma narcotização dos sentidos, um exorcismo de infelicidades e frustrações acumuladas, um esconjuro de estilos de vida que nos condenam à mais rigorosa solidão, por entre o rumor indistinto de multidões anónimas, com que topamos mesmo aqui, ao lado da nossa infeliz solitude. O homem infeliz é mais temível do que uma fera ferida. É que nele se assume uma anomia sem retorno, ou seja, uma revogação de disciplinas de coexistência que o colocam apenas perante si mesmo e o fazem espectador isolado de um deprimente espectáculo. É como se ele estivesse a representar o drama da vida num palco imenso, rodeado por um incontável público desatento, que não o olha, não o preza e não o quer. Um homem destes pode matar-se ou matar. Mas é-lhe definitivamente vedado o acto de amar, a partir do momento em que já nem sequer acalenta o amor de si, por si e para si. É por isso que os poderes instalados se vêem constrangidos a tutelas de conduta e a modalidades de legislação cada vez mais autoritárias e invasivas. É que, desaparecido o homem do Carnaval transitório, o que agora há a regular é a conduta do homem que faz de si mesmo o actor de um Carnaval trágico, murmurando coisas sem nexo no meio de um palco imenso, perante um inesgotável público, que nem sequer nele repara.

27 de julho de 2008

SIMBOLOGIAS GRATAS


Vogamos na vida e os símbolos cercam-nos. Muitas vezes, esses símbolos nem sequer possuem forma física, figura, corpo concreto. Kant dizia que o espaço e o tempo eram as formas apriori da sensibilidade, sem as quais se tornaria impossível a simples objectividade e a disciplina do mundo que nos cerca. Mas a mera concepção do espaço remete-nos imediatamente para simbolizações. E estas articulam-se, desde logo, com o património dos saberes mais primitivos, com aquelas noções que recebemos, quase no berço, através da voz insinuante dos nossos pais. “Meu filho, Jesus Cristo ressuscitou dos mortos, subiu ao Céu e lá se encontra, à direita de Deus-Pai”. Isto constava também do Credo ; mas o meu maior Credo era a voz dulcíssima da minha Mãe, fazendo-me crer que o Deus ressuscitado jamais poderia ter encontrado o seu “lugar-natural” à esquerda de Deus-Pai. Ele tinha, necessária e infalivelmente que se sentar à direita do Seu portentoso Progenitor. Os meus pais eram ambos conservadores. Para eles, havia uma diferença insuperável, substancialíssima, entre a esquerda, a sinistra famigerada, e a direita, justa, equânime, salvadora, segundo a validação por eles outorgada. Mas um sinistro Destino veio complicar-me este espaço, habitado por divindades-lares incorruptas, sempre perfiladas à direita da face augusta do meu nobilíssimo Pai e do ombro caricioso da minha Mãe, Senhora eterna dos meus afectos, indomitamente católica, apostólica, romana. Esse mofino Destino, que trocou todas as simbologias, coincidiu com a minha vinda para a Universidade. Aí eu fui aprendendo, quando estudei por minha conta e risco a Revolução Francesa, que os montanheses, indómitos deputados do radicalismo popular, se sentavam à esquerda do hemiciclo e que os representantes da Gironda, contemporizadores com o “juste milieu”, que eu já abominava, tomavam assento ao centro e à direita do espaço público parlamentar, simbolizador daquele novo Poder temporal. Ao longo do tempo, à medida que cresci, fui-me dando conta que era outra a minha simbologia do espaço, quando confrontada com aquela que embalou os meus donairosos dias de adolescente. Deus lá está com eles, com os autores deste meu já desgastado ser, acreditando eu que um e outro foram dispostos, conforme pretendiam, à direita do Empíreo que os acolheu. A minha preocupação mais funda, mais dilacerante, mais sinistra, numa palavra, concentra-se toda no temor de ficar longe deles, quando for chegada a minha hora. Bem vistas as coisas, os símbolos não percebem nada de afeições. Foram elas , afinal, desde sempre e para sempre, aquele sal da vida, aquele mel de colmeia que nutriu os dias fulgurantes do vigor moço, exigente e incitante com que procurei o sentido das coisas. E a minha pobre descoberta,afinal, consistiu em reconhecer que eu nunca me encontrei - embora o não tivesse sabido em tempo útil - à direita ou à esquerda dos Senhores meus Pais e que a única simbologia possível desta geometria de afectos passou, do princípio ao fim, pelo simbólico desafio de encontrar o ponto de convergência de todo o profundo Amor que deles venturosamente recebi.

23 de julho de 2008

HERÓIS E POLTRÕES

As sociedades guerreiras louvaram a figura dos heróis míticos, intemeratos, capazes de devastarem exércitos inteiros e de se isentarem dos mínimos vestígios do medo. Eram épocas de preponderância anímico-teológica, nas quais se acreditava em estranhos fluidos e eflúvios que transformavam em infinitude a própria modéstia corruptível da matéria corpórea. “Mirem, sim, o exemplo” daquele valoroso Aquiles, imerso num banho de inviolabilidade, mas suspenso pelo calcanhar que o haveria de vitimar. O pressentimento de que existe uma afinidade muito íntima entre os homens e os animais foi guardada na Idade Média, não apenas através da tábua de exemplos dos fabliaux, mas também através da escolha de simbolismos heráldicos de casas nobres guerreiras. Nos escudos e pedras de armas dessas castas belicosas preponderaram figurações de animais predadores, supostamente corajosos, indómitos, agressivos, como os ursos e os leões, as panteras e os tigres. Criaturas, essas, sem a sombra de um temor, sem a mácula de uma vacilação medrosa, sem um pingo … de humanidade. Afinal, em que consiste o heroísmo? Digam-no os lutadores profissionais de todos os tempos, digam-no os centuriões, os decuriões, os gladiadores, os pobres soldados das trincheiras. E diga-o também o conhecedor desta unidade biológica, psicológica, sociológica chamada criatura humana. O herói não é o dominador do medo. O medo é indomável, incoercível. O medo subjuga-nos a cada instante em que nos sintamos no limite das resistências e das possibilidades de sobrevivência. Heróis? Que bela fábula, que patranha bem cerzida! É o medo que faz o herói. Este teve sempre – e da mesma forma – o mesmo medo sentido pelo poltrão. O herói é o poltrão bem sucedido. Apenas isso, mais nada. O poltrão é o herói frustrado. E a distância que separa um do outro tem a espessura de uma folha de papel na vertical. O pânico do poltrão paralisa-o, inibe-o, aniquila-o sem luta. O pânico do herói rompe em frente e leva-o ao tudo por tudo. E leva-o a isso como lógica do próprio medo, não como lógica da sua superação. O pânico foi o mesmo. O que variou foi a oportunidade e até talvez o sado-masoquismo (o que Freud nos ensinou acerca do heroísmo é uma das páginas mais cintilantes da história da relatividade humana!). A história cultural da humanidade é um cemitério de mitos. O do herói é um dos mais desprezíveis, como vestígio de idades bárbaras e de militarismos idiotas.

PS - A figura representa o triunfo de três heróis (um dos quais acocorado) sobre um poltrão. O poltrão é o que está a ser vergastado. Parece que ele dava pelo nome de Jesus Cristo.


20 de julho de 2008

ELOGIO DO CINISMO


O cinismo, tão mal visto ao longo da história por sucessivas gerações idealistas, converteu-se hoje no último bastião da denúncia ética. O cinismo repousa, fundamentalmente, numa reserva mental e no recurso à falsa aparência: numa reserva mental porque o cínico sabe, no interior de si próprio, que rejeita os valores da sociedade que o rodeia; numa falsa aparência, porque ele também sabe que a simulação de obediência à realidade instalada é o preço a pagar pela sua sobrevivência. Não nos enganemos com as roupagens da chamada “liberdade democrática”. A democracia representativa, tal como foi instalada pelos distantes revolucionários de 1789, nunca quis ser outra coisa senão a contrafacção das opressões anteriores, agora com novos comparsas de classe, a que se somou, apressadamente e de forma nem sempre convicta, a mitologia do sufrágio universal. Foi um negócio de ciganos que, a espaços, convenceu os feirantes de que alguma coisa de novo e de edificante se poderia esperar. Foi o que se passou, por exemplo, nessa “alvorada dos povos” do ano de 1848, rapidamente volvida em crepúsculo de tirania e de imperialismo. Foi também o que aconteceu, por exemplo, no Maio francês de 1968 ou, à nossa pequena escala, no Abril de 1969 e de 1974. O que a ciganagem dos poderes acabou por conseguir está aí, à vista de todos. Assim, as esperanças vencidas, traídas ou trapaceadas acabaram por se acolher ao ninho de corações desiludidos, sim, mas também tangencialmente resistentes. Foram esses que disseram para os botões da farpela usada pela antiga crença: “vou fazer de contas que gosto disto; vou simular que estou adaptado”. São estes os cínicos autênticos, aqueles que ainda podem contar no amanhã. Um protesto surdo, qual sombra vaga em alma dolorida, espalha-se por comportamentos aparentemente conformados. Dirão os mais rigorosos que falta aqui a figura do resistente à outrance. Faltará? Por mim, que sempre gostei do teatro de sombras chinesas, confio mais num bom cínico silencioso do que nos uivos parlamentares de um resistente histérico. Tenho o primeiro por mais fiável … e até por mais honesto. Mas isto sou eu a pensar alto: não liguem !

17 de julho de 2008

A QUEM NOS QUER BEM

Aos Meus Amigos Professores
Luís Alves de Fraga e João de Castro Nunes.

Que viva quem nos quer bem
Na porfia desta vida
E quem nos der por cumprida
A razão deste entretém.

Quem me lê dá-me a certeza
De saber que vivo estou
E de conhecer que vou
No bom rumo da lhaneza.

Que viva quem nos quer bem
E quem nos dá alegrias
No vencer destas porfias
De saber o que se tem.

Cá por mim digo em verdade
Que por cada verso feito
Me sinto tão imperfeito
Quão falho de qualidade.

Cada vento, cada vela
Cada mar, cada saudade
Cada hora de trindade
Aponta uma nova estrela.

Sinto-me vogar no Além
Como se me desfizesse
Num caminho, numa prece,
Que tudo pede a ninguém.

Cada um guarde o que tem
A cada qual obrigado
Por destino destinado.
Que viva quem nos quer bem!

15 de julho de 2008

DE MONSTRIS

Se quiseres converter-te num monstro, não te esqueças de viver de acordo com os seguintes preceitos:

1º - Considera sempre a diferença como uma ameaça, seja ela diferença de etnia, de opinião, de gosto subjectivo ou de estatuto social.

2º - Não acredites na generosidade. Invoca Hobbes e declara, em todas as situações, que “o homem é o lobo do homem”.

3º - A Liberdade será sempre para ti uma utopia generosa mas irrealizável, porque o que o ser humano necessita é de rédea curta e de chicote preparado.

4º - Proclama legítima e pedagógica toda a violência sobre as mulheres e as crianças.

5º - Descobre, nos actos de cada um e de todos, a hipocrisia de um entranhado calculismo, mesmo se, aparentemente, tais actos possam ter a feição de dádivas movidas pelo altruísmo.

6º - Desconfia da ingenuidade e não acredites na inocência. Todos deverão ter uma culpa escondida a expiar.

7º - Declara-te infalível na avaliação do comportamento alheio.

8º - Repudia energicamente a ternura, sempre que a vires assomar ao teu coração.

9º - Nunca aceites que alguém possa ser-te superior, quaisquer que sejam os planos da comparação com as tuas próprias realidades.

10º - Nunca sejas grato a quem te fez bem.