10 de abril de 2009

VOGAR NA MEDIOCRIDADE

Nota : Este texto, pelo pequeno porte democrático do governante visado, NÃO FAZ PARTE  do "MEMORIAL  REPUBLICANO"

Há momentos, na vida de um Cidadão, em que é necessário vir à ribalta da opinião pública fazer uma pergunta crucial, assim expressa : mas o que é isto? Senhores do Poder, que lá do vosso Império (como diria o poeta Aleixo) tendes o mundo na mão ( o pequeníssimo mundo português, na vossa pequena e valetudinária mão), pedimos o obséquio de nos dizerem, claramente e sem sofismas, esta coisa elementar: para onde nos levais? Peremptoriamente, o que é isto?

Primeiro foi a historieta do vosso moleque que se atreveu a qualificar o professorado secundário como um bando de vadios e de absentistas a quem é necessário deslombar, talvez com o mesmo caceteirismo político com que um outro vosso moleque declara que o necessário é “malhar” nos oponentes políticos. Depois é a invasão de sindicatos por sicários policiais, com o propósito de apurar quem vai ou quem não vai a manifestações sindicais. Na mesma linha, é a história lamentável do funcionário que comete o crime de lesa-majestade de contar no serviço, entre amigos de laracha, uma anedota inócua sobre Sua Alteza o Senhor Primeiro Ministro e que se vê afastado da função, ameaçado de ostracismo, remetido a uma prateleira secundária, como se fosse gafo ou maldito, à boa maneira medieval. Mas que é isto?

E como se tudo isto fosse negligenciável, como se tudo isto fosse um episódio de diversão, como se tudo isto não contasse rigorosamente nada para a caracterização de um País adulto, senhor de si, medularmente democrático e progressivo, chega-nos agora essa história bufa e achatada de uma longínqua Loja do Cidadão (oh, céus!, vede bem, DO CIDADÃO), onde as Senhoras funcionárias, por despacho de Sua Alteza Sócrates ou do Conselheiro Acácio que o representa, não podem usar, em serviço, gangas, decotes, perfumes, minissaias e talvez também, por arrastamento, símbolos da Playboy. Ou seja: os serventuários de Sócrates converteram-se em padrecas frustrados, em polícias farejantes da Decência Pública, em seminaristas sexualmente carenciados, em vigilantes da “gurka” socrática, em comissionistas redutores da coxa ao léu e da ganga proletária. Mas que é isto?

E se eu dissesse a Sua Alteza Ministerial Socrática que me chateiam muitíssimo as suas gâmbias, pouco musculadas e ridículas, quando ele faz a cena hilariante do atleta, em correria esbofada na Meia-Légua da Ponte 25 de Abril, nos quinhentos metros de Pequim, nos duzentos e cinquenta metros de Londres, nos cinquenta metros de Cabo Verde? Se eu lhe dissesse – e comigo muitos concidadãos deste Portugal – que a revelação explícita das seus peludos apêndices inferiores é, para nós, um crime lesivo do bom-senso, do bom-gosto, do atletismo e do decoro católico? Seria que um membro da sua “nomenklatura” – talvez o tal “malhador” do vira minhoto – lhe iria transmitir o ridículo sem remédio dessa encenação de atleta falido e pseudo-modernaço, incapaz do atingir os mínimos da credibilidade atlética e da consistência político-olímpica?

Entendamo-nos: por que razão haverá de ser mais indecorosa a explicitação de um bom palmo de coxa feminina numa Loja do Cidadão do que a implicitação de um mau palmo de coxa primo-ministerial, para além do mais, anémica, a correr como um doido, em nome de Portugal, pelas ruas das principais cidades deste nosso humano Cosmos? Estão também proibidos os perfumes e as gangas. O Legislador prefere, em nome do abrutalhado Zé Povinho bordaliano e do seu representante socrático, o fedor “construtivo” da sudação espontânea, o mau cheiro irreprimível do funcionário público com o banho por tomar, a excitação pituitária do sovaquinho em crise de asseio. E que dizer das gangas? As gangas dos operários, dos estudantes, até mesmo dos burgueses citadinos descontraídos? Horror, horror! O nosso Primeiro – ou quem galhardamente o representa – prefere o calção de látex, preferencialmente de boa marca, com o logótipo (eventualmente) da Universidade onde o nosso Engenheiro-de-obra-feita se formou, deformou ou conformou. Talvez seja uma forma de propagandear a decência, a lusa capacidade do “desenrasca” e sobretudo a submissão a poderes intelectuais de bom quilate.

É isto um governo? É isto um País? É isto uma Colectividade virada ao futuro? É isto um projecto de vida?

Temos problemas de formação, problemas de educação, problemas de saúde, problemas de emprego, problemas de economia, problemas de habitação, problemas de segurança, problemas de burocracia, problemas de justiça. Mas agora, alguém com poderes de decisão entendeu juntar ao sudário das insuficiências deste pobre e miserando Portugal mais uns tantos problemas: o das gangas “ganzadas”,o das coxas as léu (com inclusão das de Mister Sócrates, por sinal inestéticas e derreadas), o dos decotes superlativos (não costuma correr em tronco nu, Senhor Primeiro? ), o dos perfumes inebriantes (será que alguém gosta de cheirar a esterqueira?).

E assim vogamos, vergados ao primado da mediocridade. 

8 comentários:

Anónimo disse...

LISURA E CONTENÇÃO

Ante o poder à margem da decência,
despótico, exercido sem vergonha,
há sempre quem discorde e se lhe oponha,
ainda que com risco da existência.

O menos que se pode requerer
de quem governa um povo, uma cidade,
ou seja, uma qualquer comunidade,
é contenção na sêde de poder.

Mas, além disso, importa de algum modo
que o chefe de governo de um país
esteja limpo de sinais de lodo.

Ninguém deve oprimir um cidadão
unicamente pelo que ele diz
sobre as vilezas da governação!

João de Castro Nunes

disse...

É, além de termos que os aturar, ainda somos sujeitos à visão perturbante das pernocas dos nosso governantes, que até nos podem criar delicados problemas de virilidade se involuntariamente nos vierem à ideia essas imagens, em momentos mais íntimos.
Recordemos aqui outros "tesourinhos deprimentes" do género: O Marocas domador de tartarugas selvagens; O Cavaco trepador de coqueiros e nem mesmo o Jorgito ruivo se safa, pois se não mostrava a tíbia no golfe, os sapatitos às cores seriam, no mínimo, de uma tibieza suspeita...

Anónimo disse...

SANEAMENTO BÁSICO

Moralmente falando, há que limpar
a terra portuguesa de excrementos
provenientes dos departamentos
que tudo fazem menos governar.

Precisa-se, para isso, de uma ETAR
que faça os respectivos tratamentos
e possa dar vazão aos sedimentos
que, a bem dizer, não cessam de aumentar.

Além de estar nas mãos da ladroeira,
o país, pelo caminho que isto leva,
está-se a transfomar numa esterqueira.

Por mais que se proteste e que se escreva,
impera a trampa... até que chegue o dia
de se viver em sã... d e m o c r a c i a!

João de Castro Nunes

Anónimo disse...

"QUE É ISTO?"

Toda a razão lhe assiste, Professor:
estamos a viver numa nação
que está cheirando mal, cujo fedor
nos priva de uma sã respiração!

Ele é a segurança, que pavor!
é o ministério público que não
dá conta do recado, o desprimor
de tudo quanto seja educação.

Justiça não existe nem se faz,
a banca é o que se vê, sem ser capaz
de se auto-regular minimamente.

E, perante isto, os nossos governantes,
com ar lampeiro e rostos confiantes,
vão-se entretendo a caçoar da gente!

João de Castro Nunes

Luís Alves de Fraga disse...

Meu Caro Amigo,
Não pude evitar duas ou três sonoras gargalhadas ao longo da leitura deste seu artigo. O humor é uma arma e, quem o sabe utilizar, pode transformá-la em arma letal. O meu Amigo está já acusado, no tribunal do bom humor, de, pelo menos, duas ou três tentativas de homicídio voluntário. Graças a Deus, permito-me acrescentar!
Mas, usando de dose moderada de humor, consegue, com seriedade, colocar a descoberto os tiques grotescos deste Governo que há muito deveria estar desfeito por declarada incompetência na condução dos negócios do Estado.
Que lhe não doam os dedos das pancadas que vai dando no teclado para escrever linhas tão bem conseguidas, são os meus votos. Zurza-os, zurza-os, pois só se perdem as que caiem no chão!
Um abraço

Anónimo disse...

IMEMORÁVEIS

Não é com gente desta envergadura
à frente do poder que ceramente
vão ter lugar, na respectiva altura,
as comemorações que estão na mente

das várias comissões constituídas
para se elaborar uma visão
dos ideais e das figuras tidas
por corifeus da sua evolução.

Foi gente grande, espíritos selectos,
a contrastar, em todos os aspectos,
com a presente mediocridade.

A sordidez dos tempos actuais
faz avultar, com mais acuidade,
os seus incorruptíveis ideais!

João de Castro Nunes

Anónimo disse...

EIRONEIA

A rir se vão dizendo, gracejando,
verdades como punhos; bem jogada,
a ironia queima em lume brando,
ferindo de maneira disfarçada!

É preferível atacar, brincando,
sem ter de puxar logo pela espada,
somente da bainha a retirando
para vibrar a última estocada.

Ninguém melhor que os gregos a esgrimiram,
podendo-se afirmas que dentrte nós
pertence a palma a Eça de Queiroz.

Consiste a ironia em provocar
naqueles que atingidos se retiram
um lívido sorriso, um verde esgar!

João de Castro Nunes

N. disse...

O que é isto? É a ética republicana, é a República Portuguesa no seu melhor.