4 de março de 2011

PORTUGAL


Certo dia, num início de Primavera, o telefone tocou. Do outro lado estava Artur Portela, pedindo-me para fazer a apresentação, em Coimbra, do seu livro “História Fantástica de António Portugal”. Senti-me honrado com o repto. Desde os meus tempos de universitário que eu admirava Artur Portela e o seu pendor satírico. Para mim, ele era “A Funda”, esse título memorável, com base no qual foi feita a demolição de muitos dos aparatos senis do Estado Novo. Aceitei. Li o livro num sopro e fiz a apresentação que me era pedida na Casa da Cultura, em Coimbra, no já remoto passado de um 25 de Março de 2004. Creio ter tomado umas notas e improvisado a intervenção. Digo “creio”, porque nas gavetas domésticas nunca encontrei, em letra de forma, essas minhas palavras. A Prezada Amiga e Poeta Isabel Mendes Ferreira foi desenterrá-las à Internet, sem que eu suspeitasse que elas aí poderiam estar. Tais palavras, agora convertidas em texto, aqui ficam. Para ilustrarem duas leituras: a leitura de Portugal, feita por Artur Portela, e a releitura dialógica que a sua obra me permitiu realizar sobre os destinos da Pátria comum.

« Esta “História Fantástica de António Portugal” não é assim tão... fantástica. É apenas fantástica a metodologia adoptada, sendo mais uma história simbólica do que fantástica, na medida em que o simbolismo de uma figura que tem olhos verdes com reflexos rubros, anexado que está ao próprio país, vai, de algum modo, acompanhar todos os textos, desde o assassinato de Miguel Bombarda até aos momentos posteriores à nossa adesão ao espaço europeu. Se me é consentido, a primeira reflexão que eu queria fazer seria sobre o modo como certos autores, para ficarem mais próximos do povo que somos, acabam por se socorrer desta metodologia. Isto nos remete para uma questão: o que é um símbolo e de que modo funcionam os símbolos, sobretudo quando pretendem traduzir a verdade profunda de um povo e de um país. Eu penso que o simbolismo está acompanhado de uma certa perspectiva onírica. Abordamos a verdade de um país com os olhos do sonho e diz-nos Freud que a interpretação dos sonhos é uma interpretação que se faz através de processos típicos, como o processo de condensação. Isto é, um ir buscar, em momentos precisos, exactamente aquilo que nos foi definindo enquanto seres colectivos, enquanto colectividades. Os processos de condensar em momentos particularmente visíveis e em momentos dramáticos a verdade do nosso sentir e da nossa espontaneidade dão forma à metodologia seguida por Artur Portela nesta longa digressão que começa com o assassínio de Bombarda e que vai praticamente até aos dias de ontem. E não é por acaso que nesta peregrinação nos vão surgir os momentos mais densificados da História de Portugal, como por exemplo o regicídio ou a fuga da família real. Também aqui cabe aquele episódio, que é picaresco, um pouco humorístico, mas que define tão bem o espírito de um tempo, todo ele percorrido por tensões diversas, ou seja, aquela circunstância de, pelo facto de se ter soltado um disjuntor num eléctrico, Afonso Costa se ter atirado pela janela e ter partido uma perna. Como simbólico é o sofrimento português nas trincheiras da Flandres. Assim também o caso da "Noite Sangrenta" e do assassínio do António Granjo. Como é a reconstrução da figura de Sidónio Pais. Como é o advento de António Oliveira Salazar. Como é a Exposição do Mundo Português. Como é o modo como aborda os torcionários da DITA, que é a PIDE. Como são os massacres africanos. Como é o início da revolução de Abril. Como é o enfoque dado ao problema da nossa adesão ao espaço europeu. E o que se contém de extraordinário e de contraditório - porque o espelho da alma portuguesa é o de uma viva contradição – no que respeita às missões humanitárias portuguesas no exterior, as quais, não raro, muito pouco de humanitário contêm, servindo muito mais a causa da guerra do que a causa do humanitarismo e da paz. Finalmente, não podia deixar de me referir ao modo como esta abordagem se encerra: através de um julgamento feito a António Portugal, que é um “alter ego” do Autor.Não sei se estou a interpretar bem ; mas penso que este António Portugal não mantém com o autor o mesmo tipo de relação que podemos encontrar entre a figura do Zé Povinho e Rafael Bordalo Pinheiro. Bordalo Pinheiro constrói a figura do Zé Povinho como um “outro” , como algo que está para além dele, que é diferente, como uma entidade que densifica tudo aquilo que Bordalo Pinheiro não queria que Portugal fosse. Mas este António Portugal, o de Artur Portela, é uma figura que, ao contrário da figura do Zé Povinho, o aproxima do próprio criador. É como que um prolongamento, em certos casos com reticências, do seu próprio processo de criação. Mas estava eu a falar do julgamento a que é sujeito António Portugal que, como figura simbólica que é, e como alma portuguesa que traz, responde “sim” a todas as perguntas. O nosso “Portugalinho” responde que sim a todas as perguntas, sobretudo quando elas são feitas pela Autoridade. António Portugal é julgado pelos historiadores literários, homens de " história toda curta ".É uma abordagem extremamente irónica, extremamente humorística, sorridente, sem deixar, no entanto, de ser, nuns casos lírica, noutros casos intensamente dramática. Por exemplo, no momento em que Artur Portela pergunta " A que sabem os beijos de Genciana?" ( que é o mesmo que perguntar a que sabem os beijos de uma certa portugalidade afectiva, a que sabe Portugal, a que sabe o abraço que o povo português pode dar à sua terra, à sua gente) a pergunta encerra alguma amargura e dramatismo. Não posso deixar de ler uma passagem que é uma das leituras mais pertinentes, mais verdadeiras da nossa essência de portugalidade que alguma vez li: "Tanta súbita culpa, tão densa, tão ferozes estes brandos costumes, tão sempre o mesmo e tão de longe, tão antigo, tão familiar, tão hereditário, tão simultaneamente fantástico e real, tão matador, tão desinfiel, tão escarnecedor, tão maldizente, tão alongado amigo, tão amante, tão demandante, tão salgado, tão negreiro, tão roceiro, tão mineiro, tão mesticeiro, tão troca-voltas, tão apiratado, tão exilado, tão queimador, tão mirone de cadafalsos e de chãos salgados, tão enforcador e forcado, tão iluminado, tão importador, tão revolucionário, tão aventalado, tão mata-frades, tão rubro, tão verde, tão camionista de mortes, tão bombista de urinóis, tão amochado, tão clandestino, tão estátua de dor, tão polícia, tão cravista, tão polícia de polícias, tão ateador de fogos, tão defenestrador, tão entrado nos eixos, tão sacador de perdidos fundos, tão deseuropeu, tão linguista, tão papagaio, tão bom aluno, tão instalado, tão untador de mãos, tão jonglador de contabilidades, tão imprescritível, e assim imprescrita toda esta culpa. E depois quem, Portugal? Sim, mas e os beijos, que sabor? E depois que Portugal?" (pág.as 249-250) Acho que esta página deve ter sido escrita num valioso momento de raríssima, preciosa inspiração. Aliás, todo o livro está cheio desses momentos. Mas esta página é, para mim, antológica, porque simultaneamente nos dá a simbiose do que nós fomos e somos e continuamos a ser enquanto povo: uma combinatória de grandeza e da falta dela. Portugal e os portugueses nunca deixaram de ser isto, um povo que se lança para todos os desafios para depois, subitamente, de um modo um tanto espantado, verificar que perdeu tudo ou quase tudo. E que foi, por um instante, magnífico, brilhante, realizado no momento em que se sente na crista das coisas; só que depois, lentamente, há como que o refluxo das coisas, o refluxo dos entusiasmos, das esperanças, dos próprios símbolos. E Portugal fica confrontado consigo mesmo, fica com um nó na garganta. Este excelente romance é um pouco feito neste registo. Vê-se que Artur Portela é um português em Portugal, um português lúcido num tempo que exige cada vez mais lucidez, e que a relação que mantém com os diversos momentos da História Contemporânea de Portugal e a relação que mantém com o seu António Portugal é uma relação dupla, como se estivesse num permanente exercício de sonho acordado. É como se Portugal lhe chegasse cheio de perfume, de garra mas simultaneamente cheio de uma simbólica de finitude ou de quase finitude em que, apesar de tudo, se acredita. E é neste novelo de ser e não ser, neste magma de contradição, que eu vejo que a “História Fantástica de António Portugal” é a história de António Portugal vista na fantasia dos nossos sonhos e das nossas esperanças »

(Texto agora revisto e pouco corrigido)

2 comentários:

João de Castro Nunes disse...

O símbolo, segundo o meu pensar,
consiste na expressão material
de um conceito sem forma ou visual,
que passa a ter um corpo em seu lugar.

JCN

Nuno Felício disse...

Recordo-me bem da apresentação desse livro, em Coimbra. Tenho mesmo, numa das primeiras páginas dessa "História de Portugal", uma curta dedicatória, a custo arrancada ao autor, entre atenções a muitos e demorados amigos e conhecidos. Memorável foi também a intervenção do Prof. Amadeu Carvalho Homem!