5 de fevereiro de 2007

CALDERÓN E O SONHO

O grande dramaturgo espanhol Calderón de la Barca escreveu no século XVII uma obra-prima perturbante: La vida es sueño. Deu assim expressão a uma das grandes aporias do acto de viver. Com efeito, chamamos vida a este comércio de sentidos que mantemos com o exterior: vemos, palpamos, cheiramos, saboreamos, ouvimos e integramos numa Consciência activa a síntese de tudo isto. Dizemos então que vivemos. E se nos atrevessemos a pensar ao contrário? Quem nos garante que a Vida mais autêntica, mais cobiçável, mais viva, não esteja justamente para lá da fronteira do nosso estado vigil? Quem nos assevera que a nossa verdadeira Vida não se inicia no exacto momento em que tombamos no torpor do sono, inaugurando-se a partir daí uma experiência totalmente diferente, com outros estádios experienciais e sem grandes possibilidades de contacto com o domínio do sensível? Quem nos assegura que todas estas fadigas do quotidiano não se limitem a ser puras sombras esmaecidas de um longo “sonho acordado”? Neste caso, Freud teria de rever toda a sua teoria. O sonho, aquele sonho que nos assola quando repousamos nos braços de Morfeu, deixaria de ser a realização de um desejo insatisfeito, expresso em forma simbólica na maior parte dos casos. Freud declara que na raiz do sonho se encontram as frustrações da vida habitual, provocadas por uma censura atenta e punitiva. O sonho realizaria, por vezes de forma alegórica, meramente indiciária, o desejo insatisfeito que a censura ético-social teria reprimido. Mas se Calderón tiver razão, se a vida for mesmo sonho, então os nossos sonhos seriam janelas transitórias para a vida concreta, para a Vida-outra, que fluiria na ausência dos nossos mecanismos habituais de sensibilidade e de memorização. O adormecimento não representaria a entrada no Reino do Nada, sendo antes o prólogo de uma Vida desconhecida que efectivamente viveríamos sem que disso nos fosse dado conhecimento lógico e actual. Se a vida dita real fosse sonho e se fosse verdadeira Vida a nesga que entreabrimos no acto de sonhar, isso significaria, segundo Freud, que estaríamos a realizar neste Mundo, através destes dispositivos sensoriais, os desejos insatisfeitos, bestiais e obscuros, que a Vida Real, vivida quando dormimos, nos não consentia realizar. Ora, sendo tão imperfeita a vida que julgamos ter (tão repleta de traições e de crimes, tão preenchida por crueldades e abjecções), radicaria nessa outra Vida o penhor de uma Humanidade finalmente resgatada, perfeita, verdadeiramente humana. Essa outra Vida ignorada ou apenas pressentida no acto de sonhar defenderia a sua integridade, a sua regulação e a sua normatividade, expelindo para a vida-sonho, para a vida falsamente concreta o lastro do maléfico, do perigoso, do inaceitável, do perverso. E isto permitiria supor que assistia aos Homens a Dignidade, a Superioridade, a Altura Moral, numa palavra, o Valor que manifestamente lhes escasseia no sonho-concreto desta vida mortal. Sim, Calderón, La vida es sueño __ ou, pelo menos, seria bom que o fosse …

1 comentário:

Fulvio Faria disse...

muito bom o texto...
estou aguardando uma sobra de tempo para deleitar-me na leitura de A vida é um sonho