26 de abril de 2011

UMA PÁSCOA TRANSMONTANA

Tive uma Páscoa transmontana : andei por Bragança, Miranda do Douro, Izeda e pelas regiões imediatamente adjacentes. O que vi não consente a equivalência com a gloriosa ressurreição de Jesus. O que me foi dado observar foi uma região em agonia. Nas aldeias existem velhos encostados à ombreira das portas e prédios antigos em avançado estado de ruína. Nas vilas lobriga-se um ou outro miúdo: em regra, a filharada de ciganos taciturnos. O resto é fácil de narrar: automóveis modestos que arribaram na quinta-feira, com gente já habituada à cidade. Os motores aqueceram quase todos no fim do domingo, para o regresso à urbe onde se trabalha, por bem ou por mal. Houve velhos que choraram à chegada e à partida e que sorriram no intervalo. E por lá ficaram, entregues à monotonia, à saudade, ao desencanto, ao ermo da terra por lavrar e do dinheiro por ganhar. Os autóctones são admiráveis de doçura e de benfazejo acolhimento. E queixam-se pouco, o que é ainda mais trágico.

Bragança tem metade do núcleo histórico completamente rebentado: todo o casario com mais de sessenta ou setenta anos oferece ao turista o estendal da porta entaipada, da vidraça partida, do telhado vacilante, da caliça que vai caindo para o vão dos passeios, em suma, da promessa próxima do colapso. Assim na “costa grande” e na “costa pequena”, assim em muitos dos lugares mais nobres. Salva-se o castelo, com a sua graciosa Torre de Menagem e a reminiscência dos “homens-bons” da sua “Domus Municipalis” ? Salva, sim, mas para logo se descaracterizar numa arrulhada de espanhóis irrequietos, mais ciosos dos comeres e dos beberes luso-godos do que da pitança artística.

Falemos, então, em Arte Sacra. O rumo foi definido pelo espantoso recheio da catedral de Miranda do Douro, que talvez mereça umas linhas em separado. Numa montra, “Os Lusíadas” e “O Principezinho”, em mirandês. Miranda oferece-nos um espaço urbano de mão-cheia: autêntico, equilibrado, pouco sujeito à fúria vandálica dos patos-bravos. Mas também lá fui encontrar uma portugalidade envelhecida e trôpega, facilmente referenciável por entre o magote da invasão pascal que o Povo vizinho não dispensa.

Portugal afigurou-se-me um galeão pôdre e esburacado, por entre o singrar ligeiro das escunas hispânicas, percorrendo, em evidente alacridade, as ruas cuidadas do lugar. Espanha irá cair, também, neste grande “varrer-de-feira” do neoliberalismo criminoso? É possível. Mas aqueles “gadjos” são de outro tutano. Não desertam de si mesmos com o mesmo fatalismo que o luso animal cultiva. Por isso, salvar-se-ão muito antes de nós.

Em Izeda esperei o “compasso”, na entrada da casa de uns parentes. A casa implanta-se num largo oblongo, ostentando numa das pontas uma “chega de bois” ingénua, saída do trabalho metalúrgico de um presidente de Junta de freguesia, já falecido. E o “compasso” lá chegou, justificado por quatro crianças vestidas de brando, um adulto com a cruz metálica bem areada e pronta a beijocar e um seminarista que fez questão de rezar um “Padre Nosso” pelos que já tinham ido. Depois, foi o “que Nosso Senhor ressuscitado vos guarde” e o tropel a caminho do lar mais próximo.

Reparei que, à direita da Igreja Matriz, existia um poste. E que no cimo do poste se recortava uma cegonha diligentíssima, compondo e recompondo um ninho. Pois … talvez ainda haja Esperança … talvez.

4 comentários:

João de Castro Nunes disse...

Conheço aquelas paragens,
pedra a pedra, préio a prédio:
vive-se ali de miragens
paredes-meias com tédio!

JCN

João de Castro Nunes disse...

Os minhotos foi a gente
que pôs nome a Trás-os-Montes:
para as bandas do nascente
era o fim dos horizontes.

JCN

João de Castro Nunes disse...

Deus queira, Professor, que uma cegonha
algures no país seja um sinal
de que nem tudo é causa de vergonha
no que respeito diz a Portugal!

JCN

Z disse...

Portugal...Perde-se o amor à terra. É triste de mais.

abraço.
z.