Quando um dia se fizer, com imparcialidade, o levantamento da literatura portuguesa do Século XX – dando de barato que os portugueses ainda saibam ler … - dir-se-á que os literatos portugueses não souberam ou quiseram amar um vulto de gigante. Refiro-me a Fernando Namora.
Era natural de Condeixa – aqui mesmo às portas de Coimbra. E isto constituiu um primeiro óbice para quem pensa que as aves canoras do triunfo e da popularidade só cantam nas árvores ( se árvores houver …) da Avenida da Liberdade, em Lisboa. Lisboa é o reino da “pategada” ilustrada, ou melhor, ilustrável. Como Portugal é macrocéfalo, e Lisboa se considera “grande cidade” (quando, verdadeiramente, é apenas um bairro simpático quando comparada com Londres ou Nova-Iorque) , a crítica lisbonense – um putedo inconcebível e insuportável reunido à volta do Grémio Literário dos caducos e da “folha de couve” do “Jornal de Letras” ( que hoje ninguém que se preze lê) – essa crítica da Capital e do Capital decretou, desde sempre, que só quem nasce por lá é “colunável”. Ora, Fernando Namora começou a escrever em Coimbra. E foi médico, profissão que o obrigou a percorrer as veredas do Portugal interior e interiorizável. Começou aí a sua desdita. A outra parte da impopularidade surgiu, quando se pôde pressentir, em função dos seus textos, que Namora não subscrevia tudo do dogmatismo neo-realista, ou seja, comunista. Namora nunca foi um escritor de Direita. Mas foi sempre um Homem Livre. E isso não lho perdoaram os sicários da cartilha marxista-leninista-engelsiana. Crês ou morres ? E, tranquilamente, Fernando Namora, do alto da sua impressionante densidade humana, respondeu : -Morro, se me puderem matar. Não puderam. Quem escreveu o “Fogo na Noite Escura”, sobre a vivência de uma certa Coimbra praxista e de um universitarismo decepcionante; quem redigiu esse espantoso testemunho sobre a saúde e doença dos humildes e miseráveis, dos ganhões e dos campónios, tendo por título “Retalhos da Vida de um Médico”; quem foi capaz de percepcionar o drama cruciante da vida por um fio e do amor interrompido que foi rotulado com o nome de “Domingo à Tarde” ; quem se debruçou sobre a peculiaridade do julgamento que os beócios da estranja lançam a um certo Portugal solitário e intrépido – e é este o tema dos “Adoradores do Sol”; quem foi capaz de trazer à tona tudo o que há de mais densamente e quase psicanaliticamente existencial nesse críptico texto que deu pelo nome de “O Homem Disfarçado”, não precisa de meia dúzia de Elviras abonatórias, empoleiradas no Castelo de S. Jorge, a decretarem à posteridade, como o pretendeu fazer António Feliciano de Castilho, meia dúzia de “celebridades “amigadas”, todas aos gritinhos, praticando novamente a “escola do elogio mútuo”.
Fernando Namora está connosco. Em Condeixa. Aqui mesmo, perto de Coimbra. Onde lhe devotaram um museu. E onde, definitivamente, a sua memória se eterniza.
14 de abril de 2013
FERNANDO NAMORA, O GIGANTE MAL AMADO
Quando um dia se fizer, com imparcialidade, o levantamento da literatura portuguesa do Século XX – dando de barato que os portugueses ainda saibam ler … - dir-se-á que os literatos portugueses não souberam ou quiseram amar um vulto de gigante. Refiro-me a Fernando Namora.
Era natural de Condeixa – aqui mesmo às portas de Coimbra. E isto constituiu um primeiro óbice para quem pensa que as aves canoras do triunfo e da popularidade só cantam nas árvores ( se árvores houver …) da Avenida da Liberdade, em Lisboa. Lisboa é o reino da “pategada” ilustrada, ou melhor, ilustrável. Como Portugal é macrocéfalo, e Lisboa se considera “grande cidade” (quando, verdadeiramente, é apenas um bairro simpático quando comparada com Londres ou Nova-Iorque) , a crítica lisbonense – um putedo inconcebível e insuportável reunido à volta do Grémio Literário dos caducos e da “folha de couve” do “Jornal de Letras” ( que hoje ninguém que se preze lê) – essa crítica da Capital e do Capital decretou, desde sempre, que só quem nasce por lá é “colunável”. Ora, Fernando Namora começou a escrever em Coimbra. E foi médico, profissão que o obrigou a percorrer as veredas do Portugal interior e interiorizável. Começou aí a sua desdita. A outra parte da impopularidade surgiu, quando se pôde pressentir, em função dos seus textos, que Namora não subscrevia tudo do dogmatismo neo-realista, ou seja, comunista. Namora nunca foi um escritor de Direita. Mas foi sempre um Homem Livre. E isso não lho perdoaram os sicários da cartilha marxista-leninista-engelsiana. Crês ou morres ? E, tranquilamente, Fernando Namora, do alto da sua impressionante densidade humana, respondeu : -Morro, se me puderem matar. Não puderam. Quem escreveu o “Fogo na Noite Escura”, sobre a vivência de uma certa Coimbra praxista e de um universitarismo decepcionante; quem redigiu esse espantoso testemunho sobre a saúde e doença dos humildes e miseráveis, dos ganhões e dos campónios, tendo por título “Retalhos da Vida de um Médico”; quem foi capaz de percepcionar o drama cruciante da vida por um fio e do amor interrompido que foi rotulado com o nome de “Domingo à Tarde” ; quem se debruçou sobre a peculiaridade do julgamento que os beócios da estranja lançam a um certo Portugal solitário e intrépido – e é este o tema dos “Adoradores do Sol”; quem foi capaz de trazer à tona tudo o que há de mais densamente e quase psicanaliticamente existencial nesse críptico texto que deu pelo nome de “O Homem Disfarçado”, não precisa de meia dúzia de Elviras abonatórias, empoleiradas no Castelo de S. Jorge, a decretarem à posteridade, como o pretendeu fazer António Feliciano de Castilho, meia dúzia de “celebridades “amigadas”, todas aos gritinhos, praticando novamente a “escola do elogio mútuo”.
Fernando Namora está connosco. Em Condeixa. Aqui mesmo, perto de Coimbra. Onde lhe devotaram um museu. E onde, definitivamente, a sua memória se eterniza.
28 de março de 2013
UMA PITADA DE HUMOR NEGRO
No combóio Alfa de ontem, o assento atrás de mim era ocupado por um homem, dos seus quarenta anos ou menos, que entre a estação de partida e a de chegada realizou bem para cima de vinte chamadas do seu telemóvel. Como eu ocupava a cadeira da frente, não tive outro remédio senão saber que se deslocava para o funeral da esposa de um amigo ; e que o dito amigo continuava a ser sovina ; que este e a defunta nunca se tinham dado bem ; que ele ia tentar que o viúvo lhe pagasse um calote antigo ; que ele imaginava que esse dito viúvo "iria ficar muito bem, porque afinal quem era rica era ela , que a terra lhe seja leve" ; que por acaso até constava que a defunta, imediatamente antes de se revelarem os sintomas da última doença, desconfiava que o marido andava metido com uma certa amiga, por acaso viúva recente ; que a eventual cobrança da dívida até lhe daria muito jeito, porque a danada da crise era madrasta para todos. Isto foi calmamente partilhado com cerca de duas dezenas de outros amigos, alguns dos quais, ao que parece, também iriam ao funeral.
Atenção que isto é uma ficção. Eu ontem até nem andei de combóio.
2 de março de 2013
HITCH
Tirei do bolso o meu Hitchcock //
P’ra ver se me iria sentir viver //
Duas vezes como a tal mulher. //
Ou então p’ra me julgar a ver //
A vida dos outros duma janela //
Muito indiscreta e igual àquela. //
Só não queria estar com uma perna //
Partida, embora não me importasse //
Mesmo nada da Grace ante-nupcial. //
Pois é: o Mal, o Mal, o Mal, o Mal //
E um famigerado duplo com cara //
De Perkins, a fingir de bom rapaz //
E aquele chuveiro com música de zás- //
Zás-zás como se houvesse um bicharoco //
Gordo e feio matando pouco a pouco. //
Havia também uma casa velha, rangente //
Com uivos de vento bem dolente e trinta //
E nove degraus. Por mais que faça ou minta //
Há pássaros no ar e nunca saberemos //
Se eles nos atacarão em fúria e à bicada. //
Num porto de mar onde já não há nada … //
Seja assim ou assado, seja assim ou diverso //
Com Hitch, evola o celulóide um aroma perverso.
12 de fevereiro de 2013
VIAGEM EM TORNO DOS CAPITALISMOS
Creio que hoje torna cada vez mais clara a evidência de uma profunda mutação na lógica interna do capitalismo, aliás em plena concordância com a previsão de Karl Marx : o velho capitalismo de teor individualista e liberal vai desaparecendo, cada vez mais tragado pelo gigantesco e anónimo capitalismo das corporações financeiras multinacionais. Hoje, quase dá vontade de rir quando se transfere o qualificativo de “capitalista” para o Senhor Mendes, que possui uma fabriqueta onde dá emprego a duas dúzias de trabalhadores. Conhece-se tudo deste Senhor Mendes: a marca do automóvel, os restaurantes que frequenta, o partido em que se revê, as amizades que cultiva, o clube desportivo da sua preferência, etc. Este Senhor Mendes julgou-se protegido por um sistema económico que lhe exaltava o espírito de iniciativa e as capacidades de gestão. Imaginou que tal sistema permaneceria imóvel, amigável e sempre atento às suas necessidades de expansão do negócio. Quando chegou a crise, provocada pela concentração capitalista em grandes potentados financistas internacionais, o Senhor Silva confiou nas virtudes do sistema e não ficou intranquilo. Mas cedo concluiu que o financiamento lhe era negado, que ninguém se preocupava com a diminuição dos seus lucros e que nem sequer sabia a quem recorrer para alterar a caminhada para o abismo da falência. Hoje, o capitalismo é sumamente tentacular e anónimo. As suas linhas de força são cerzidas em círculos económicos longínquos, onde apenas meia dúzia de eleitos se reconhecem nos hábitos alimentares, nas preferências desportivas, nos gostos circunstanciais e em tudo o que anteriormente tornava familiar o Senhor Silva na sua comunidade de implantação. Damo-nos conta que este Grande Pai silencioso e distante vai subvertendo tudo a seu gosto e em concordância com os seus objectivos de domínio mundial: já subverteu a normal relação de negócio entre os homens, está a subverter a Democracia e amanhã acabará por subverter a própria esperança na mera possibilidade de um futuro melhor. Os milhares ou milhões de Senhores Silvas irão concluir que ESTE capitalismo lhes matou, sem remédio e sem escapatória, O OUTRO distante capitalismo, em que ingenuamente acreditaram.
8 de fevereiro de 2013
AVENTURAS E DESVENTURAS DO COMENTARISMO LUSITANO
(A imagem apresenta um "portuga", depois de ouvir os comentaristas cá do burgo)
O Senhor Doutor Rebelho de Souza bota figura e discursata aos fins de semana. Aproveita também para ser comentador de livros, que apresenta às toneladas, como se os tivesse lido todos. O Doutor Rebelho é inquestionavelmente uma figura nacional e merece-o. Para tanto, já mergulhou intrepidamente nas águas do Tejo, ali no “mar da palha”, para que tal constasse do currículo. Refiro-me ao mar e não à palha. Durante muitos anos, este nadador, da estirpe de um Batista Pereira – que , coitado dele, não apresentava livros à tonelada – deteve o monopólio do comentarismo português. Perguntar-me-ão o que é o comentarismo português. É um jogo, ao que suponho bem remunerado, onde um “chico-esperto” decide passar um atestado de imbecilidade ao resto da população. E como o Doutor Rebelho é bem falante, usa fato completo e tem resposta para tudo – desde a alta política à baixa intriga e desde o futebol ao futesal – esta restante população fica convencida que o homem é mais sábio do que a antiga biblioteca de Alexandria, o que não admira, dada a profusão da livralhada que o Cérebro digere de véspera. Acontece que o comentarismo português foi recentemente adornado com outro cromo. Refiro-me a um tal Mendes de Marques, pequenino e não dançarino. Mas aqui, dá-se um caso singular, que muito deverá irritar o Doutor Rebelho. É que o seu competidor, Mendes de Marques de seu nome, mais pequenino do que um grão de arroz, possui sempre a informação privilegiada sobre o que o governo fez, está a fazer e irá fazer. Se eu estivesse na pele do Doutor Rebelho, o Doutor Mendes de Marques não escaparia a uma sova valente, coisa que não deveria ser difícil de obrar. É bom que se diga que isto de ter informação privilegiada não é crime nenhum. Um tal Senhor Silva também a teve e até ganhou com isso uns tantos carcanhóis. Tal façanha deu-lhe o direito de vir para a televisão dizer que teria de nascer duas vezes qualquer fulano que se apresentasse como mais honesto do que ele. Como eu só nasci uma vez, não estou à altura de contrariar a asserção. Mas voltemos aos nossos heróis. O Doutor Rebelho fala, fala, fala, mas como não tem informação privilegiada acaba por ser sistematicamente impreciso, improfícuo e verboso, além de desonesto, mas isto só pelo facto de , ao que se imagina, só ter nascido uma vez. O Doutor Mendes de Marques, detentor de todos os segredos e conchavos do Executivo, consegue alcançar “rankings” apreciáveis de rigor, exactidão e pertinência. Claro que isto se deve à circunstância de ter – com toda a certeza – nascido duas vezes. Pudera! Se só tivesse nascido uma, não chegava a ser um comentarista. Era um quarto de comentarista, em forma putativa. E é assim que vai o exercício do comentarismo cá pelo burgo. Agora vou jantar, que estou cheio de fome. Vou comer um bom arroz de polvo. Espero que não tenha sido pescado – o polvo, bem entendido – no “mar da palha”. Caso contrário, arrisco-me a comer quem eu não quero, em forma de grão de arroz.
4 de fevereiro de 2013
NO HOJE DUM PASSADO
Bem queria ter das águas //
A subtileza. //
Navegaria em barco de papel //
Num lago de Beleza.//
E depois convidaria //
Um daqueles meninos //
Do meu tempo de infância //
Cheia de caracóis //
Para com ele descobrir //
Se no tal lago //
Peixes haveria. //
E se não os houvesse //
Oh, como eu faria //
O meu papel de mago //
Eu só e o menino //
Junto ao lago //
Sonhando oiros e sóis //
Iguais aos caracóis. //
Adeus meu cândido menino //
Adeus jardins de sonho //
Vá lá, vá lá //
Que não fiques tristonho //
Só por teres crescido… //
É bom sorver //
A luz amarelada desta tarde //
Que tão breve arde //
Pela tarde //
No jardim de mim. //
Vá lá, vá lá //
Faz-te sonho, menino e jardim //
E aquela tarde soalheira //
Entre todas a primeira //
A pulsar //
A vibrar //
No hoje dum passado //
Sem fim.
1 de fevereiro de 2013
FEMININO VS. MASCULINO ou OS IDEAIS DE BELEZA
A Bardot fez a passagem do tipo-ideal feminino da minha geração – seios generosos à Loren, lábios grossos e sensuais à Magnani, olhar firme e profundo à Moreau – para o tipo de beleza que Mary Quant e a sua minissaia passaram a advogar. Ou seja, a ninfeta escorrida, vibrátil, ousada, com “todas as coisas no sítio”, mas sem hiper-abundâncias de nenhuma espécie ou natureza. Não sendo grande autoridade para opinar, parece-me, contudo, que o estereótipo de beleza masculina não obedeceu exactamente aos mesmos critérios visuais que serviram todos os machos para qualificar e saudar entusiasticamente o “belo sexo”. Ou seja: hoje, uma Loren ou uma Magnani não impressionaria grandemente um adolescente. A Bardot dos velhos tempos, talvez. Mas estou em crer que o olhar de menino perdido de um James Dean ou o existencialismo de conduta de um Marlon Brando continuariam a provocar suspiros nostálgicos em certos travesseiros feminis. Se for assim – e eu não tenho a absoluta certeza que o seja – isto comprovará que a figura masculina varia menos, como padrão de beleza ou de tensão pulsional, do que a feminina. Já nada digo quanto à usura do tempo na imagem do macho e da fêmea. Não estou para ser crucificado. Sobretudo pelas Magníficas Senhoras que me frequentam a página e que eu tanto prezo. Cala-te, boca !
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