22 de janeiro de 2007

SOBRE A PERCEPÇÃO

_ Qual é a cor desta praia?
_ Ora, meu bom amigo, as praias não têm cor. Ou por outra, são como entendemos que devem ser. Vermelhas, amarelas, azuis, se estamos contentes; castanhas e cinzentas quando nos encontramos tristes.
_ Mas as coisas, materialmente consideradas, isoladas de nós, devem ter em si próprias um princípio de distinção, não acha? Repare, por exemplo, naquela rapariga além, tão coleante, tão proporcionada, tão vibrátil no menor dos gestos, tão lasciva em cada atitude. Desperta-lhe apetites, não negue ! Poderia dizer dela: é o Desejo. Deste modo, teria quebrado a referência ao seu instinto macho daquelas pernas bem torneadas, daquela cintura de vime, daqueles seios, opulentos mas não flácidos, daquela boca, sensual sem ser grosseira. Aquela jovem, uma vez substantivada, ficava erguida aos píncaros da simbologia. Passava a ser universal. Que me diz?
_ Digo que se as praias, em si mesmas, não têm cor, também as mulheres, em si mesmas, não têm sexo. Não há símbolos uni­versais. Imagine com que indiferença um gay não poderá fitar toda aquela exuberância. E vá então dizer-lhe que ela é o Desejo. Você já comparou a interpretação es­cultórica dos corpos femininos em Rafael e Henry Moore? Num, a harmonia de linhas, a simetria dos volumes, a compatibili­dade das formas. No outro o excesso das anatomias, os tra­seiros larguíssimos, as coxas como rolos de pinheiros, as mamas, por vezes, desiguais. Onde é que você vê a simbologia universal?
_ Mas então, se não há cânones, se não há regras, se não há modelos, onde é que você mete a verdade?
_ Meto-a onde ela sempre esteve. No relativo de quem sente, de quem vê, de quem pensa, de quem é ou vai sendo.
... ... ... ... ... ... ... ... ...

_ Qual é a cor que quero dar a esta praia?
_ Muito bem, assim talvez esteja melhor ...

2 comentários:

Luís Alves de Fraga disse...

Pois é, para cada um sua verdade!
Verdades absolutas?! São absolutamente relativas!
Todavia, desse seu diálogo, tão carregado de simbolismo, ressalta a constante necessidade de o Homem se corrigir, corrigindo as suas certezas, porque, a única que é certa, chama-se incerteza.
Ora aqui está como um texto pode reunir à sua volta discípulos discutindo o verso e o anverso de tudo! Assim haja quem o queira fazer...

Pedro Bingre disse...

...e não correremos o risco de ao relativizar radicalmente o Belo, fazê-lo também com o Bem? Até que ponto a total subjectivização da estética não assolapa a própria ética, na medida em que é pela beleza intrínseca dos actos benévolos que a eles nos entregamos? Baudelaire dizia-nos que não, que não: a Arte não nos ensina o Bem; então, como receberemos os ensinamentos éticos? O Belo ao serviço do Bem, não será característico de todas as iniciações morais?