
A casa era velha e de risca ao meio, o que significa que existia um longo e sombrio corredor e que os quartos se distribuíam por ambos os lados. Era a casa dos avós. Velha, aldeã, com um último vestígio de pequena nobreza rural e com o cheiro incomparável que se desprendia de todas as infâncias nela vividas. Os nossos pais levavam-nos até lá, a mim e aos demais primos, por alturas das férias do Natal e da Páscoa e no dia em que se celebrava a festa da Nossa Senhora da Esperança. Quando a avó-viúva faleceu, ficou por lá um tio, que naquele tempo não se sentia ultrajado por ser mencionado como professor primário. Fumava muito e percorria o corredor, para cá e para lá, em passadas medidas, cadenciadas, destinadas por decreto inflexível a fazer ranger as mesmas tábuas, nos mesmos lugares, em todas as idas e vindas. Era benquisto das gentes da aldeia porque escrevia as cartas dos analfabetos, os requerimentos dos injustiçados da Administração e acertava as contas de cada um com o merceeiro do lugar, que era finório e renitente aos trocos; quando calhava, esse tio também dava injecções aos enfermiços, curando tosses e protelando mortes. Foi com ele que ganhei o gosto dos romances policiais e das peripécias intermináveis de Rocambole e do Conde de Monte Cristo. A voragem do tempo ficou então marcada, para mim, por essas periódicas passagens pelo velho casarão, com o tal corredor um pouco soturno, risca ao meio entre quartos vazios, onde o tabuado chiava como se também ele estivesse predestinado a bater as aldrabas dos instantes repetidos. Por isso, fui assistindo ao envelhecimento daquele tio preferido, a quem pedia que reproduzisse aquela intriga do Crime no teatro chinês e aquela vingança de Edmundo Dantès, o forçado que tiraria a desforra dos seus sicários abjectos. E quando ele hesitava neste ou naquele momento da narrativa, eu corrigia, aditava, clarificava. Então ele, batendo na cabeça, dizia: «Sim, é isso, é isso. E eu que já soube tão bem esse contar!...». E agitava as mãos, como um náufrago a quem tivesse fugido a bóia. Em certo ano encontrei-o mais esquálido, com a barba por fazer, e sem atinar com a tábua que rangia exactamente à vigésima quinta passada. Quando lhe quis lembrar o motivo que levara Phileas a ganhar a sua aposta na Volta ao mundo em oitenta dias, ele voltou para mim uns olhos implorativos, marejados de húmidas penas, e obtemperou: «Cala-te, cala-te, já quase nada me ocorre». Na visita seguinte, quando eu e a minha irmã o fomos saudar, ele levantou-se de um salto e, muito exaltado, acariciando os cabelos dela, murmurou: «Tu, meu anjo loiro, tu vais ser a salvação do mundo. E é preciso que eu parta para que esse efeito se possa alcançar. Mas sobre isto, nem um pio para ninguém. Há denunciantes por toda a parte. Silêncio! Nem uma palavra, ouviram?».
Foi então que eu aprendi que a velhice não é um sinal de loucura. É antes a porta de entrada num mundo maravilhoso, numa fábula infinita, a caminho da mais espantosa das aventuras.